terça-feira, 19 de maio de 2026

Análise: Corto Maltese – O Dia Anterior

Corto Maltese - O Dia Anterior, de Martin Quenehen e Bastien Vivès - Arte de Autor

Corto Maltese - O Dia Anterior, de Martin Quenehen e Bastien Vivès - Arte de Autor
Corto Maltese - O Dia Anterior, de Martin Quenehen e Bastien Vivès

A editora Arte de Autor fez-nos chegar há algumas semanas o mais recente Corto Maltese, da autoria de Martin Quenehen e Bastien Vivès. Este já é o terceiro álbum que a dupla executa, o que me leva a crer que, apesar de algumas reservas dos leitores mais conservadores, a série até está a ser bem aceite no seu mercado original.

Nesta nova aventura, a história desenrola-se em 2022, na cidade de Sydney, Austrália, onde Corto tenta ajudar Marcus, um velho amigo pirata que se encontra preso num ciclo de dependência de drogas. A solução encontrada para salvar o seu amigo é fiel ao espírito aventureiro da personagem: partir numa nova missão. Esta surge através de uma advogada que representa um grupo de ativistas ambientais e que solicita a ajuda do nosso protagonista para resgatar com urgência uma jovem ativista detida nas ilhas Tuvalu, no Pacífico. 

Corto Maltese - O Dia Anterior, de Martin Quenehen e Bastien Vivès - Arte de Autor
De origem chinesa, esta mulher corre o risco de ser extraditada para o seu país, o que transforma a demanda numa verdadeira missão de resgate e numa autêntica corrida contra o tempo. É aliás essa corrida contra o tempo que imprime um sentido de urgência à narrativa que muito apreciei, pois mantive-se sempre agarrado ao livro até que terminasse a sua leitura. Assim, com Marcus aos comandos de um hidroavião envelhecido, os protagonistas lançam-se numa aventura que atravessa um dos territórios mais vulneráveis às alterações climáticas. 

A sensação que dá é que estamos perante um filme de ação/aventura a fazer lembrar vários clássicos do cinema. Quenehen constrói um argumento mais escorreito e amadurecido do que os anteriores, onde a ação e o contexto contemporâneo se equilibram de forma muito eficaz. O tema das alterações climáticas surge como pano de fundo, é certo mas fá-lo integrando-se naturalmente na narrativa, sem nunca se assumir como uma agenda explícita.

Nesse sentido, gostei da forma como o argumentista consegue abordar uma questão atual sem, no entanto, cair no panfletarismo ou no moralismo. O tema das alterações climáticas está presente, sim, tendo até relevância para a forma como o enredo se desenvolve, mas nunca é algo que pareça estar a ser imposto ao leitor como lição forçada. Pelo contrário, este tema é absorvido organicamente pelo universo da narrativa, o que resulta numa abordagem muito mais interessante e eficaz.

Corto Maltese - O Dia Anterior, de Martin Quenehen e Bastien Vivès - Arte de Autor
Ao nível do ritmo, a obra destaca-se, conforme já referido, por uma tensão narrativa constante. Isso já tinha acontecido nos anteriores álbuns desta dupla, Oceano Negro e A Rainha da Babilónia, mas neste O Dia Anterior até está mais presente. Mesmo nos momentos mais contemplativos, que, convém não esquecer, também são sempre bem-vindos num livro de Corto Maltese, existe sempre uma sensação de inquietação que impulsiona a leitura e que prende o leitor. 

É talvez por tudo isso junto que considero que, entre os três "Corto Maltese de Autor" da dupla, este terceiro título é o mais bem conseguido até agora. Nota-se claramente uma maior confiança da dupla de autores, especialmente do argumentista, tanto na construção da história como na forma como se lida com a herança da personagem. Tudo parece mais fluido, mais coeso e mais seguro.

Não obstante, é inegável que estamos perante um Corto Maltese diferente daquele que Hugo Pratt apresentou ao mundo. Há aqui uma contemporaneidade mais evidente, tanto nos temas como no tom geral da narrativa. Ainda assim, a essência da personagem permanece: continuamos a ter um aventureiro livre, com uma bússola moral própria e uma certa melancolia que o distingue de qualquer outra personagem.

Corto Maltese - O Dia Anterior, de Martin Quenehen e Bastien Vivès - Arte de Autor
Mesmo assim, há quem defenda que estas histórias poderiam ser protagonizadas por qualquer outra personagem e que o nome de Corto Maltese é utilizado sobretudo como forma de garantir vendas. Concordo parcialmente com essa afirmação. De facto, é verdade que o peso do nome atrai leitores e consequentes vendas; no entanto, não considero que essa escolha seja feita de forma gratuita ou unicamente oportunista. Pelo contrário, sinto que Quenehen e Vivès estão a construir histórias que, mesmo sendo modernas, dialogam com o espírito original da personagem, prestando homenagem ao enigma e ao charme original de Corto Maltese. E cada vez estou mais convencido disto.

No campo gráfico, Bastien Vivès continua a apresentar um trabalho muito interessante. O seu traço é elegante, solto e expressivo, conseguindo transmitir uma sensualidade muito própria ao conjunto. Há vinhetas verdadeiramente lindas neste álbum. Essa beleza, especialmente das mulheres, nem é feita à custa de um desenho muito detalhado, mas sim através de uma leveza, simplicidade e de uma estética singulares. Também as personagens são desenhadas com economia de linhas, mas com grande capacidade expressiva. Talvez certos cenários pudessem ter um pouco mais de detalhe, reconheço, mas, mais uma vez, não me parece que esse vazio cénico seja fruto do acaso... acho que isso é mesmo explorado pela própria estética de Vivès. 

Corto Maltese - O Dia Anterior, de Martin Quenehen e Bastien Vivès - Arte de Autor
Os desenhos são a preto e branco, com escala de cinzentos, mas não deixo de pensar que uma versão a cores poderia elevar ainda mais o impacto visual da obra, como demonstram, aliás, as belíssimas capas coloridas das edições francesas. Mesmo assim, admito que os desenhos de Bastien Vivès, mesmo numa escala a cinzento, são belíssimos na sua leveza, simplicidade e singularidade.

A edição da Arte de Autor é em capa dura baça, com detalhes a verniz, e bom papel brilhante no miolo. A encadernação, impressão e acabamentos também são bons. No final, há um caderno de extras, com oito páginas, que inclui um texto de Martin Quenehen e um texto de Antonio Politano sobre o tema ambiental que serve como pano de fundo à história. Há ainda um belo conjunto de ilustrações a cores, onde fica patente a capacidade singular de Vivès para as aguarelas, lembrando, com as devidas distâncias, o trabalho original de Pratt.

Em suma, Corto Maltese - O Dia Anterior é uma obra muito sólida e, até agora, a mais bem conseguida desta nova fase da personagem (re)imaginada por Quenehen e Vivès. Mesmo sendo um Corto diferente, revela-se cada vez mais interessante e apelativo. É uma banda desenhada que consegue equilibrar aventura, ação e atualidade, nunca descurando o respeito pelo legado de Hugo Pratt e provando que ainda há muito caminho a explorar - seja em terra, céu ou mar - pelo célebre viajante maltês.


NOTA FINAL (1/10):
8.7



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Corto Maltese - O Dia Anterior, de Martin Quenehen e Bastien Vivès - Arte de Autor

Ficha técnica
Corto Maltese - O Dia Anterior
Autores: Martin Quenehen e Bastien Vivès
Editora: Arte de Autor
Páginas: 176, a preto e branco (mais caderno final a cores)
Encadernação: Capa dura
Formato: 196 x 285 mm
Lançamento: Abril de 2026

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