A Assembleia das Mulheres, do estreante autor português Zé Nuno Fraga é mais um lançamento da Editora A Seita que prima pela sua originalidade. Sendo uma adaptação da famosa peça de teatro grega, Ecclesiazusae, de Aristófanes, demarca-se de tudo o que já vi em termos de lançamentos de banda desenhada portuguesa. E junta-se a Andrómeda, de Zé Burnay - que já aqui foi analisado - como mais um bom livro de banda desenhada em português, da Editora A Seita.
Ao pegar num texto clássico da comédia grega, transcrevendo-o literalmente, de forma a manter o texto original, A Assembleia das Mulheres acaba por ser uma comédia que se leva a sério, pois auto-garante o respeito e o comprometimento para com o texto original. E isso é de louvar, claro. Não obstante, herda também alguns problemas com essa decisão, uma vez que, como apontarei à frente, aqui e ali, o texto pode parecer um pouco extenso demais e sem o ritmo que uma comédia dos dias de hoje poderia exigir.

O resultado não poderia ser outra coisa do que uma caricata situação, por vezes roçando o non sense, que nos leva a situações divertidas. E é aqui que a adaptação da peça grega à banda desenhada, por parte de Zé Nuno Fraga, encaixa que nem uma luva. As ilustrações do autor português são muito caricaturais, com expressões exageradas e divertidas, que facilmente nos colocam um sorriso na cara. Diria que é um casamento perfeito entre o texto e a arte. Zé Nuno Fraga é exímio na caracterização facial das personagens, conseguindo apresentar uma mão cheia de diferentes expressões para cada personagem, que dão profundidade e clareza às suas emoções.

A juntar a isto, o seu trabalho de cor é muito agradável à vista. De facto, A Assembleia das Mulheres é um livro bem bonito com as cores a serem aplicadas de forma muito graciosa. O próprio uso da luz e dos sombreados é saboroso de observar. Destaque ainda para a balonagem que é feita de forma muito dinâmica. Em termos de balonagem considero-me um bocado da “velha guarda” e acho que certas “modernices” que se impregam em algumas obras de banda desenhada, para dar mais dinâmica e originalidade, nem sempre funcionam bem e, às vezes, o leitor dá por si a ler e a reler balões para captar o sentido do discurso. Mas em A Assembleia das Mulheres, tenho que dar a mão à palmatória e admitir que a balonagem, sendo dinâmica e moderna, está perfeita de ler e acompanhar. Excelente trabalho neste cômputo.
Com uma arte tão bem conseguida e com um texto que tem sobrevivido ao passar dos séculos e que, portanto, só pode ser bom, penso que só há aqui uma coisa que não funciona tão bem, que já mencionei levemente. E isso resulta diretamente da tal opção do autor em ter usado o texto original. É que, sendo uma peça de teatro, e especialmente clássica, é algo que em termos cénicos é bastande limitada. Ou seja, apenas temos 4 cenários verdadeiramente diferentes: o cenário noturno inicial em que as mulheres conversam entre si e partilham o seu plano; o cenário do dia seguinte que nos mostra não só as mulheres na assembleia, como a conversa entre dois homens e, posteriormente entre marido e mulher; o cenário entre os dois vizinhos que discutem sobre o tema do bem comum; e a cena noturna final em que as mulheres disputam o amante. Ou seja, os cenários que habitam esta história são poucos e semelhantes entre si, tal e qual os cenários que teríamos num palco de teatro, se estivéssemos a assitir à peça de teatro. Além disso, o livro também tem alguns diálogos que são extensos e demoram muitas páginas, o que, na minha opinião, acaba por tirar alguma dinâmica à ação. Na verdade, acontecem poucas coisas embora se fale bastante. Claro que sendo uma adaptação de uma peça de teatro, e ainda por cima clássica, é natural que isto aconteça e, mais uma vez, faço vénias à forma como Zé Nuno Fraga consegue atenuar este senão com o seu recurso a caracterizações faciais e de pose soberbas. Quase como se estivesse a resolver um "problema" que adveio da escolha em usar o texto original sem adaptações. E no final, devo admitir que Zé Nuno Fraga quase resolveu esta questão.

Futuramente, passarei a estar muito atento ao trabalho mais que promissor de Zé Nuno Fraga. Uma nota final para a Editora A Seita que, em tão pouco tempo, já tem um trabalho tão respeitável no lançamento de banda desenhada em Portugal, à custa de trazer para o nosso país excelente banda desenhada estrangeira e também no impulso que está a dar a autores portugueses com muito potencial. Esta é mais uma edição de qualidade, com bom papel e capa rija, que é lançada a bom preço.
Este é pois um livro com uma premissa original que merece ser lido.
NOTA FINAL (1/10):
8.1
-/-
Ficha Técnica
A Assembleia das Mulheres
Autor: Zé Nuno Fraga
Editora: A Seita
Páginas: 56, a cores
Encadernação: capa dura
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