A ASA editou recentemente o segundo volume da série Os Filhos do Império, de Yudori, dando continuidade à narrativa iniciada no primeiro volume da obra, editado no ano passado. Lembro-me que, quando analisei esse primeiro volume, referi que havia coisas bastante interessantes e outras não tão fantásticas, sendo que seria no segundo volume que teríamos uma noção mais clara do valor da série.
Ora, depois de finda a leitura deste volume 2, devo dizer que, sim, de facto, esta é uma daquelas obras que nos vai prendendo às personagens e ao enredo, mesmo admitindo que continua a apresentar algumas das fraquezas que já apontei ao volume 1.
Regressamos à Coreia de finais da década de 1920, durante a ocupação japonesa, com Gyeongseong ainda a afirmar-se como um espaço de tensão latente entre o Japão e a Coreia, entre o moderno e o clássico, mas agora com um maior enfoque nas personagens de Arisa Jo e Jun Seomoon. É a sua relação que sustenta a obra. E mais do que protagonistas, Arisa e Jun continuam a funcionar como arquétipos do tempo em que vivem. Enquanto a rapariga se reafirma como expressão de modernidade, autonomia e mudança, o rapaz mantém-se - quase exageradamente, diria - enraizado a valores mais rígidos do mundo.
Neste segundo volume, essa dinâmica entre as personagens ganha alguma maturidade. Se no primeiro livro, a surpresa vinha do confronto inicial entre os dois, aqui há um maior aprofundamento emocional da relação de ambos. E embora Jun seja alguém incrivelmente inseguro, Arisa Jo vai-se aproximando dele, com algumas boas ações que o fazem sentir-se cada vez mais envolvido com a sua amiga de um estrato social superior ao seu. É notória a tensão amorosa que existe entre eles, especialmente nos sentimentos do rapaz em relação à rapariga.
Ainda assim, o comportamento de Jun continua a roçar o exagero, o que faz com que a obra pareça, não raras vezes, algo juvenil na abordagem. Por outro lado, há outros assuntos mais adultos e sérios, que também podemos aqui encontrar. É talvez por isso que, tal como no volume anterior, a série continue com uma certa crise de identidade. O lado bom é que pode apelar tanto a um público menos maduro como a um público mais adulto. O lado mau é que pode ser demasiado séria ou aborrecida para um público mais jovem e demasiado infantil para um público mais maduro.
Quanto a Arisa, a personagem parece-me bem mais interessante que Jun. É que sem abdicar da sua personalidade ousada e independente, Arisa volta a afirmar-se como figura disruptiva num contexto profundamente conservador. Se no primeiro volume já desafiava normas, neste segundo livro começa a demonstrar, com maior clareza, as consequências dessa atitude, especialmente em relação ao seu pai, com quem parece ter uma disputa constante.
Este livro desenvolve também os relacionamentos dos jovens com outros colegas de escola, o que leva Jun a ser muito protetor em relação a Arisa e permite ao enredo respirar um pouco, não ficando apenas dependente da relação entre os protagonistas. Essas personagens secundárias que aqui aparecem são, pois, um bom contributo para que a história fique mais interessante e menos repetitiva.
Apesar disso, a obra mantém um ritmo deliberadamente lento. Tal como no volume inicial, não há uma abundância de acontecimentos marcantes. A progressão faz-se mais pela construção dos laços entre personagens e pelo aprofundamento do contexto, do que pela ação propriamente dita.
Consequentemente, este segundo volume, embora avance ligeiramente mais na narrativa, continua a funcionar como peça de um puzzle maior. Há pistas, há desenvolvimentos, mas não há ainda um verdadeiro clímax ou um sentido claro para onde a história pode caminhar. O que, convenhamos, até é um ponto a favor. Mas, se continuar nesta situação algo híbrida durante muitos mais volumes, também pode "secar" o potencial interesse da obra. Para uns pode parecer que se passa pouco nesta série, enquanto outros podem gostar deste desenvolvimento lento, quase de novela juvenil, em que acompanhamos o dia-a-dia das personagens.
Do ponto de vista visual, o trabalho da autora parece até ter melhorado face ao primeiro volume, que já era muito interessante. Especialmente no que diz respeito ao tratamento das personagens, que é verdadeiramente excelente. As suas expressões e gestos, bem como o cuidado com o vestuário, continuam a destacar-se pela sua elegância e detalhe. Há uma sensibilidade no traço que confere vida às personagens, tornando-as credíveis e emocionalmente expressivas. Juntando essa expressividade e belas cores que acompanham a obra - tanto que eu gostaria que todos, sim TODOS, os mangás fossem integralmente coloridos, mas isso é tema para outra conversa - poderemos ser remetidos para vários filmes anime do mestre Miyazaki.
Admito que os cenários poderiam ser mais detalhados, pois são algo simplórios. Mesmo assim, a minha principal irritação com a componente visual da obra são os balões de diálogo com transparência que ficam muito estranhos nas páginas. Sei que é uma questão de gosto - e nada tem a ver com a edição portuguesa, que apenas obedece à edição original da obra -, mas faz-me mesmo alguma "comichão". Já assim o tinha sido no primeiro volume e volta a ser agora.
De resto, em termos de edição o livro apresenta capa dura baça, bom papel baço no interior e boa encadernação e impressão. Cada capítulo vem acompanhado de algumas notas adicionais que continuam a enriquecer a experiência, oferecendo contexto histórico e cultural de forma leve, divertida e acessível. É um complemento particularmente bem conseguido pela autora.
Em suma, Os Filhos do Império #2 confirma as qualidades e fragilidades do volume inaugural, mantendo-se como uma leitura consistente dentro do universo que Yudori tem vindo a construir. Continua a ser uma obra interessante, envolvente na sua atmosfera e nas tensões entre personagens que explora, ainda que não isenta de imperfeições - nomeadamente no ritmo e em certos excessos nas reações das personagens que retiram maturidade à obra.
NOTA FINAL (1/10):
8.2
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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