domingo, 6 de dezembro de 2020

Análise: Vida de Adulta

Vida de Adulta, de Raquel Sem Interesse - Suma de Letras,  Penguin Random House

Vida de Adulta, de Raquel Sem Interesse - Suma de Letras,  Penguin Random House
Vida de Adulta, de Raquel Sem Interesse 

O subtítulo desta obra, Histórias para rir da triste vida de uma jovem precária, sem paciência e sem dinheiro, dá inequivocamente o mote para as peripécias e desventuras hilariantes que a autora, Raquel Sem Interesse, nos oferece, e que é publicado pela Suma de Letras, chancela da Penguin Random House. 

E num país onde a banda desenhada de humor é uma raridade, posso dizer que me tornei fã desta banda desenhada. E não foi tarefa difícil. Dei por mim a rir-me da doçura e destreza racional desta personagem. 

Vida de Adulta conta-nos em tiras humorísticas o dia-a-dia da personagem Quica, as suas dificuldades em arranjar um trabalho condigno, para o qual tanto estudou, a aventura diária que é andar de transportes públicos, as interações através das redes sociais, enfim, basicamente, a vida atual de um jovem adulto. E o quotidiano da personagem, que é inspirada na própria autora da obra, embora seja normal e apresente “problemas” com que todos nós lidamos, é-nos dado com um humor divertidíssimo e acutilante, que nos coloca um sorriso na cara, à medida que vamos acompanhado as “desgraças” de Quica. Algo como Seinfeld, que era uma série televisiva que abordava assuntos mundanos vida, sabia fazer. 

Vida de Adulta, de Raquel Sem Interesse - Suma de Letras,  Penguin Random House
Porque, embora esta seja uma história pessoal, há em Quica uma universalidade que é transversal a todos os jovens adultos dos dias de hoje: o trabalho precário e a dificuldade em ficar financeiramente independente, mesmo já tendo cerca de 30 anos. E é aí que reside a qualidade da obra. Todos nós temos um pouco de Quica. E mesmo as pessoas mais velhas, certamente já tiveram (ou ainda têm?) um pouco de Quica. E as pessoas mais novas, os teenagers, indubitavelmente terão um pouco de Quica nos anos vindouros. As boas personagens são aquelas que, tendo a sua própria originalidade, conseguem reunir consenso. E Quica é uma dessas personagens. 

Muitas vezes o traço deste tipo de banda desenhada – chamemos-lhe, à falta de melhor nomenclatura, a “bd humorística leve” – apresenta uma arte simples, rápida, eficiente, caricatural, que não arrisca muito, mas que é facilmente aceite. Uns bonecos engraçados, vá. E Vida de Adulta é tudo isso. Mas é algo mais. Raquel Sem Interesse, tem um traço muito rápido, riscado e rabiscado, que muito aprecio e que me faz lembrar - com as devidas distâncias - um autor que adoro, o belga André Franquin, autor do delicioso Gaston La Gaffe. Os traços faciais das personagens, nomeadamente o nariz de Quica, também me remeteram para a série Achille Talon. Em termos de desenho, e mesmo apresentando desenhos simples, acho um trabalho muito bem conseguido que, aliás, foi a primeira coisa que despertou o meu interesse por esta obra. 

A panóplia de reações faciais, muito caricaturais, e que nos fazem rir só de olhar para os desenhos, também é uma cartada forte que a autora sabe usar. Em termos de planificação dos cartoons, há bastante variedade. Temos desde rábulas de uma só ilustração, que ocupam uma página inteira, até tiras de 2 ou 4 vinhetas, ou histórias que ocupam mais do que uma página. Torna a leitura ainda mais fácil e menos repetitiva. 

Vida de Adulta, de Raquel Sem Interesse - Suma de Letras,  Penguin Random House
E se graficamente este trabalho me remete para algumas obras franco-belgas, o estilo de humor remete também para alguns clássicos do cartoon americano em que Calvin & Hobbes será um protótipo do género. A junção destes dois estilos, algo diferentes entre si, em Vida de Adulta é muito interessante. Este livro compila, aliás, as histórias que a autora criou inicialmente como um projeto para o seu mestrado e que começaram a chegar ao público através das redes sociais, feiras de ilustração independentes e de uma colaboração com a plataforma digital do Correio do Porto com a publicação de tiras quinzenais, entre 2016 a 2018. 

Se tenho alguma "queixa" a fazer neste trabalho, muito bem conseguido, é que me parece que, em termos de branding, "Vida de Adulta" pode não ter sido o nome mais bem conseguido para o projeto. Olhando até para a capa do livro, não é óbvio de que se trata de uma banda desenhada. Para quem não conhecer, pode muito bem achar que se trata de um livro destinado a adolescentes, que pode ser um álbum ilustrado ou, até um livro de psicologia, para o qual foi escolhida uma capa com uma ilustração. Portanto, a capa do livro, até é agradável mas acho que falha no objetivo de se apresentar como uma banda desenhada. E o título também não ajuda, repito. Acho que “Quica” teria mais força. Ou até mesmo o nome da autora “Raquel Sem Interesse” seria um ótimo título. Ainda para mais, tendo em conta que Quica é um alter ego da autora, seria um nome muito bom. Mas isto é apenas a minha opinião. 

Vida de Adulta, de Raquel Sem Interesse - Suma de Letras,  Penguin Random House
A encadernação é em capa mole. Eu sou daqueles que em 95% dos casos prefere sempre que o livro tenha capa dura. É, na minha opinião, esteticamente mais bonito; transforma o objeto em algo menos perecível e trata a obra com mais "dignidade". Se é que me entendem. Porém, os livros de banda desenhada de humor são livros que funcionam bem em capa mole. E explico porquê: não é que tenham menos dignidade do que os livros ditos “sérios”, ou que não seja preferível ter um objeto menos perecível e mais bonito. A questão não é essa. A questão é que é um tipo de livro que mais facilmente é levado para todo o lado: de férias, para a praia, para o jardim, para o trabalho, para ser lido na hora de almoço ou durante a viagem, nos transportes públicos. Ou seja, por ser uma leitura mais bem disposta e ligeira, levamo-la mais para fora de casa. E, nesse caso concreto, o livro torna-se mais leve e portátil com a capa mole. Portanto, neste caso, Vida de Adulta foi editado pela Suma de Letras em capa mole e acho que fez todo o sentido. 

Em conclusão, Quica – e a autora Raquel Sem Interesse – apanharam-me de surpresa. Não conhecia as aventuras da personagem no universo das redes sociais e depois de acompanhar as desgraças reais e honestas da sua vida, posso dizer que sou fã da série, que acho que é uma lufada de ar fresco para a bd nacional humorística e que fico a torcer para que esta obra - e a sua autora - tenham muito sucesso e que ainda nos dêem muitos lançamentos futuros. Dêem uma oportunidade a esta obra. É divertidíssima! 


NOTA FINAL (1/10): 
8.6 


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Vida de Adulta, de Raquel Sem Interesse - Suma de Letras,  Penguin Random House
Ficha técnica
 
Vida de Adulta 
Autora: Raquel Sem interesse 
Editora: Suma de Letras ( Penguin Random House) 
Páginas: 104, a cores 
Encadernação: Capa mole 
Lançamento: Setembro de 2020

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