Se há casos em que uma opção editorial pode condenar uma obra, este Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim, inserido na recente coleção Âmbar, da editora A Seita, dedicada a obras de autores polacos, é um perfeito exemplo.
Há muito para falar da obra, da sua história, das suas ilustrações, mas não consigo começar este texto sem referir isso mesmo: que uma pequena opção editorial arruinou por completo a minha experiência de leitura.
O que aconteceu em concreto?
Muito sumariamente, este Heksa - A Bruxa utiliza muitas expressões em silésio. Para quem não sabe, o silésio é uma língua variante do polaco, que é tradicional da região da Silésia, no sul da Polónia. É um idioma muito próximo do polaco, mas com vocabulário, pronúncia e características próprias, sendo por alguns considerado um dialeto e por outros uma língua distinta.
Face a isto, A Seita optou por preservar em silésio as expressões que também estavam em silésio na obra original, dotando o livro de uma página de glossário no final e de um marcador de página com o mesmo glossário. Assinalo o esforço do gesto, mas não foi suficiente para tornar menos penosa a leitura desta obra. Conhecendo o cuidado editorial dos vários membros d' A Seita, bem sei que esta não foi uma opção leviana ou despreocupada - caso contrário nem sequer teria sido feito o marcador de página - e até acredito que a ideia inicial da editora tenha sido a de ser fiel à obra original e à identidade cultural que a autora pretende transmitir. Imagino que a ideia foi "se a obra original tem expressões em silésio, então que as mantenhamos deste modo na edição portuguesa".
Mas foi uma má opção. Isto porque aquilo que funciona de forma natural para um leitor polaco, não permite o mesmo efeito junto de um leitor português. A maioria dos polacos, mesmo aqueles que não conhecem verdadeiramente bem o silésio, têm capacidade de o compreender. Nem que seja "por alto". Agora, o português comum não sabe nada de silésio. Nem de polaco, quanto mais de silésio.
E isso faz com que o problema da obra resida precisamente na experiência de leitura. Embora a inclusão de um glossário permita, em teoria, compreender o significado das expressões utilizadas, a necessidade constante de interromper a leitura para consultar as notas acaba por quebrar o ritmo da narrativa. E em vez de o leitor permanecer imerso na história, vê-se obrigado a alternar repetidamente entre o texto principal e as páginas finais do livro ou o marcador de página. Se fosse algo que acontece esporadicamente, eu não faria alusão alguma a esta situação. Mas é algo constante e recorrentye. Dou-vos um exemplo: na página 105 do livro, encontramos os seguintes diálogos: "O que é que estás a fanzolic? É o que te dodom. Não acredito... Oh, Ciul! Vão-nos wyciepnac? E a nós também? E é quase Santa Bárbara! Greve? Estou mesmo a widza isso..." Acham que uma leitura assim é possível e agradável? Pois, eu também não.
E, por essa razão, considero que uma tradução integral das expressões em silésio para português, teria sido a opção mais adequada para a edição portuguesa. Enquanto um leitor polaco consegue geralmente inferir ou compreender o sentido das palavras em silésio devido à proximidade linguística e cultural, o leitor português parte de uma posição completamente diferente. Para se ser fiel à obra original, talvez se pudesse colocar o texto em silésio numa outra língua... mas tudo devia ter sido traduzido para português. Lamentavelmente, isso não aconteceu.
Até porque, e agora sim, focando-me mais na obra, este Heksa - A Bruxa até é uma leitura interessante. Tendo até recebido um importante prémio de BD em Lódz, a obra conta-nos a história de uma mulher que chega a uma comunidade operária na Silésia, nos anos 1920, e que, de um modo quase automático, causa verdadeiro tumulto nas gentes da terra. Não será um tema novo ou uma história completamente original - lembro-me de ter sido especialmente remetido para o filme Chocolate, com Juliette Binoche e Johnny Depp, que era baseado no livro homónimo de Joanne Harris. De facto, várias obras já exploraram esta ideia de uma mulher - ou um homem, como em Armazém Central, por exemplo - chegarem a uma localidade fechada e, por serem pessoas mais abertas ao mundo, terem chocado a pequena população dessa terra recôndita.
Neste caso, em Heksa - A Bruxa, no centro da narrativa está Pelagia, uma mulher independente, bela, sofisticada e carismática que desperta a atenção e o desejo de muitos habitantes, incluindo do jovem Alojz. Até as mulheres, pelo menos as mais jovens e mais abertas, querem ser como Pelagia. Mas, lá está, é precisamente por não corresponder ao comportamento esperado para uma mulher da época, que Pelagia acaba por se tornar alvo de rumores, suspeitas e acusações, sendo gradualmente associada à figura da bruxa (a tradução de "heksa") pela própria comunidade. Mais do que uma história sobrenatural, esta é uma reflexão sobre o medo da diferença, a intolerância e os mecanismos de exclusão social.
Gostei da história, mesmo achando que era clichet em alguns pontos e que alguns elementos da narrativa poderiam ter sido melhor explorados.
Em termos visuais, a obra agradou-me especialmente. Utilizando apenas o preto, o branco e o cor de rosa, a autora Katarzyna Witerscheim (que conta com o contributo de Xulm para o trabalho de colorização) oferece-nos um traço elegante, sensível e muito belo em termos estéticos. Destaco também a sensualidade que emana das ilustrações dos momentos mais íntimos de Pelagia e Alojz.
O resultado é uma obra visualmente marcante, não diria deslumbrante, mas diria muito elegante e bela, em que a componente gráfica não se limita a ilustrar a história, mas participa ativamente na construção do seu ambiente e da sua carga emocional. Por ventura, até pode ser o que mais ressalta desta obra. Se bem que, volto a frisar, a história e, principalmente, o tema da história, também são interessantes.
Falando ainda da edição da obra, para além do pecado capital - já amplamente explicado por mim - da opção por se manter as muitas expressões da obra em silésio, o livro apresenta capa dura baça, com detalhes a verniz, e bom papel baço no seu interior. A encadernação e a impressão também são de boa qualidade. No final, há ainda duas belíssimas ilustrações adicionais, uma nota da autora e um storyboard de algumas páginas.
Em suma, Heksa - A Bruxa é uma obra que merece ser lida pelas qualidades da sua história, pela pertinência dos temas que aborda e, sobretudo, pela beleza do seu trabalho gráfico. Katarzyna Witerscheim constrói uma narrativa interessante sobre preconceito, exclusão e medo da diferença, apoiada por um universo visual elegante e muito expressivo. É por isso ainda mais frustrante que uma opção editorial bem-intencionada, mas inadequada ao contexto português, acabe por prejudicar de forma tão significativa a experiência de leitura.
NOTA FINAL (1/10):
6.7
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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Heksa - A Bruxa
Autora: Katarzyna Witerscheim
Editora: A Seita
Páginas: 120, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Maio de 2026
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Boas Hugo
ResponderEliminarTb achei o mesmo, perdemos o ritmo de leitura e tornou-se penoso chegar ao fim do livro. Tirando esse aspecto da edição, está um belo livro.
Sim, era traduzir tudo, que se lixe a mensagem e o objetivo do autor. A Laranja Mecânica também tem lá umas palavras esquisitas no meio, acho que o tradutor se enganou, a próxima edição já deve vir bem. Agora tenho de me esforçar quando estou a ler? Bom bom era as revistas da Abril que até mudavam as cores e ordem das vinhetas para eu perceber bem a história! Se ao menos os autores visitassem Portugal para explicar a razão do silénio...
ResponderEliminarEnfim, são textos destes que a elite intelectual do país, o suprassumo da crítica literária, produz. Ignorância deste calibre que redunda em traduzir-se Yellow Cab numa obra em francês sem se perceber o que se está a fazer... em ter que se inventar subtítulos de 20 palavras porque "como eu sou burro e não percebo o título, então o público também não deve perceber"... Deixem o Ronaldo dos prefácios jogar! E haja crítica e edição brasileira para não estarmos limitados a ler em inglês!