quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Análise: Mar de Rosas

Mar de Rosas, de Tomás Sousa - Penguin

Mar de Rosas, de Tomás Sousa - Penguin
Mar de Rosas, de Tomás Sousa

Enquanto amante de arte nas suas mais diversas formas, há algo que aprecio especialmente numa criação artística: que se sinta claramente a dedicação e o aprimoramento que determinado autor colocou na sua obra. Podemos falar de música, nos casos em que conseguimos escutar as diferentes camadas que um músico coloca na sua música de estúdio; podemos falar de cinema, nos casos em que percebemos que o cineasta colocou muitos pozinhos além dos estritamente necessários a fazer com que o filme funcionasse. Podemos falar de pintura, podemos falar de escultura, podemos falar de literatura. E também podemos falar de banda desenhada, claro.

Mar de Rosas, de Tomás Sousa, recentemente editado pela editora Penguin, é uma dessas obras em que se sente que o autor deu tudo de sim, construiu camadas, desenvolveu personagens marcantes, pensou na narração, escreveu bem o texto e, no final, ainda lhe fez uns acrescentos e melhoramentos. É, pois por isso, uma dessas obras de dedicação e de aprimoramento constante até a obra seguir para a gráfica. O ano ainda não acabou, mas é possível que estejamos perante o melhor livro do ano no que à banda desenhada nacional diz respeito.

Mar de Rosas, de Tomás Sousa - Penguin
Em boa verdade, Tomás Sousa já tinha "avisado" os mais atentos ao que vinha. Com participações em alguns fanzines lançados recentemente e, especialmente, com a sua história curta A Paragem, que até ficou entre os nomeados para o VINHETA D'OURO 2025 para Melhor Curta de Autor Nacional, a abordagem visual do autor, com um traço muito elegante, embora rápido, por vezes cru, mas sempre confiante, já se revelava diferenciada. Parecia haver ali potencial para algo especial.

E foi então que saiu este Mar de Rosas, a primeira obra de grande fôlego do autor, editada pela Penguin - editora que muito provavelmente faz aqui a sua melhor aposta em termos de edição de BD nacional.

Com uma história que nos remete para o tempo das fotonovelas, em que a trama era dramática e intrincada, com as personagens a deambularem em torno dos seus próprios objetivos, quase sempre em oposição aos das outras personagens, Tomás Sousa constrói uma história a que é difícil ficar indiferente.

Mar de Rosas, de Tomás Sousa - Penguin
A história de Mar de Rosas coloca-nos dentro da casa de uma poderosa família. O filho do patriarca é Sebastião, por quem a empregada da casa, Celeste, nutre uma grande paixão. Se a mesma é correspondida ou não, só saberemos mais à frente. Embora os seus sentimentos sejam intensos, Celeste tem consciência de que há toda uma condição social que separa Sebastião de si. E ainda mais o é pela entrada em cena de Rosalinda, uma mulher impactante, cheia de si mesma, capaz de irritar qualquer leitor, e cuja ambição de se apoderar da fortuna da família é enorme. O seu plano passa por casar-se com Sebastião. 

Entretanto, a morte do patriarca agrava as tensões já existentes e desencadeia uma sucessão de conflitos, revelando interesses ocultos, rivalidades entre irmãos e uma luta feroz pelo controlo da herança. As duas irmãs de Sebastião também entram em cena, para que a trama cresça ainda mais. A intriga é digna de uma autêntica novela mexicana e aprecio especialmente que Tomás Sousa não o esconda, pois o próprio subtítulo do livro é "uma fotonovela de Tomás Sousa".

Mar de Rosas, de Tomás Sousa - Penguin
Mas o que importa aqui referir é que é uma fotonovela no melhor sentido da palavra, com uma trama cativante, por vezes provocadora, com muito drama à mistura e personagens impactantes. Algo que tão depressa bebe das saudosas Tieta do Agreste ou de Pedra Sobre Pedra, como das mais memoráveis obras de Eça de Queirós ou de Guy de Maupassant. É verdade que as personagens são algo unidimensionais, isto é, ou são muito boas ou muito más, e que podem representar clichets já por nós vistos noutras paragens, mas acho que, mais uma vez, isso não é bem uma fraqueza, mas antes uma escolha assumida.

A história é-nos contada por várias vozes: por Celeste, por Rosalinda, por Lúcias e por Victor, o irmão e advogado da infame Rosalinda. E isso dá profundidade à narrativa, pois coloca as personagens em contacto direto com o leitor. É, pois, (mais) uma escolha inteligente de Tomás Sousa. 

O que também é inteligente e rico, é o texto, que se nos revela muito bem escrito, com um certo pendor clássico na forma, mas sem ser pesado, que dá um certo charme à narrativa. O próprio final da obra está bem concebido e é inteligente o suficiente para resolver bem a história, deixando uma brecha para, quem sabe, o autor poder voltar a este universo numa obra vindoura.

Nota ainda, positiva, para a introdução de anúncios entre capítulos, que são um plus muito bem vindo, pois permitem incutir à obra algum humor, fazerem a história parar para respirar e, em última análise, sedimentar ainda mais a não escondida homenagem às fotonovelas do antigamente. Como comecei por dizer neste texto, é mais um exemplo do aprimoramento e da atenção ao detalhe de Tomás Sousa.

Falta-me ainda mencionar os belos desenhos presentes neste Mar de Rosas. Tomás Sousa dá-nos personagens com uma expressividade impressionante com quem se torna difícil não criarmos uma relação de empatia - ou de repulsa, no caso de Rosalinda. O seu estilo é bastante moderno e o traço até se revela rápido e caricatural. Dá a ideia de que o autor desenha com velocidade. Mas a confiança do desenho é tal que essa alegada velocidade no desenho nunca nos deixa com a ideia de estarmos perante desenhos apressados. Isto porque há bastante cuidado com os detalhes, com as cores, com a escolha das poses das personagens e dos próprios "planos de câmara". A primeira página de cada capítulo abre também com uma abordagem visual um pouco mais autoral, que nos permite perceber que, em presumíveis futuros trabalhos, o autor até pode, se quiser, enveredar por outras abordagens gráficas. Estamos, pois, perante um novo talento da BD nacional, cheio de potencial.

Em termos de edição, o livro apresenta capa mole e baça, com badanas. No interior, o papel utilizado é em papel baço de boa qualidade. A encadernação e impressão também são boas. No final, há um bem-vindo dossier de extras, convenientemente denominado de "Bastidores", que nos traz estudos de personagens, desenvolvimentos visuais, desenhos livres e estudos de capa. Por falar em capa, não é que eu não goste desta capa, mas creio que a mesma poderia ter sido melhor. E o que me leva a dizer isto é o talento demonstrado do autor dentro do próprio livro, bem como os outros estudos de capa ou mesmo a galeria de desenhos livres. Não sendo má, parece-me que a capa ainda poderia ser melhor. Mas isso é um detalhe que em nada belisca a qualidade desta primeira obra de grande fôlego de Tomás Sousa.

E, em suma, Mar de Rosas é bem capaz de ser o livro do ano, em termos de banda desenhada nacional, tal como Tomás Sousa pode bem ser o novo "menino de ouro" da BD portuguesa. Bela história, belos desenhos, bela escrita e bela execução, numa obra que todos devem conhecer. Fiquei fã!


NOTA FINAL (1/10):
9.2


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Mar de Rosas, de Tomás Sousa - Penguin

Ficha técnica
Mar de Rosas
Autor: Tomás Sousa
Editora: Penguin
Páginas: 192, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 171 x 239 mm
Lançamento: Setembro de 2026

3 comentários:

  1. Infelizmente mais um livro bastante penalizado por uma legendagem muito má.
    O pessoal devia consumir mais BD também para legendar.

    Cansa o nº de livros que são prejudicados pela legendagem. Para a BD, embora toda a gente a ignore, a legendagem é o SOM. Alguém quer ver um filme com um péssimo som?

    Há tantos recursos online que custa. Mas pronto... ninguém repara.

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    1. Obrigado pelo comentário, Fernando. Concordo que a legendagem apresenta alguns problemas, mas não me pareceu especialmente grave. Há (muitos) outros livros da mesma editora que, infelizmente, estão piores neste âmbito. E sim, concordo que a legendagem é algo importante e que a BD portuguesa também se deve profissionalizar mais nisso. Mas, no meu caso, a legendagem só me chateia em casos mais extremos. Neste "Mar de Rosas", não posso dizer bem da legendagem, mas também não me parece que estrague a experiência de leitura.

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  2. *recursos online - para aprender a fazer, a ver o que se adequa. Mas o que importa é que o desenho é bonito e as cores são xpto.

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