quinta-feira, 2 de julho de 2020

À Conversa Com: A Seita



Hoje no À Conversa Com: volto a dar a palavra a José Hartvig de Freitas. Mas, desta vez, para falar da Editora A Seita, da qual é um dos responsáveis.

Desta feita, em mais uma interessante conversa, o Editor convida os leitores a conhecerem um pouco melhor o processo de funcionamento d'A Seita, enquanto admite que alguns dos planos para 2020, no que ao lançamento de obras diz respeito, tiveram que ser alterados.

Mas há boas notícias, também! Em 2020, a editora ainda deverá lançar Lucky Luke Muda de Sela, do autor alemão Mawil. A edição de livros da Bonelli deverá continuar e certamente será lançado um livro de um autor português.

Mas a grande revelação é esta: A Seita tem planeado o lançamento, por alturas da época do Halloween, de Dracula de Bram Stoker, feita por Georges Bess! 

Abaixo, encontram a entrevista:

1. Como tem A Seita superado os constrangimentos sofridos com a pandemia de Covid-19? Quais têm sido as maiores dificuldades e que estratégia tem a Editora adotado?
A Seita tem uma estrutura de funcionamento diferente da de muitas outras editoras, em que cada membro ou cooperante (ou grupo de cooperantes) se responsabiliza pelos seus projectos. Ou seja, cada grupo ou membro tomou decisões sobre como continuaria ou não a funcionar. No geral, podemos dizer que tivemos algum mau timing, com o lançamento de dois volumes de Dylan Dog [Dylan Dog: O Imenso AdeusDylan Dog: Após um Longo Silêncio] e do livro do Lucky Luke [O Homem que matou Lucky Luke] em pleno período da pandemia. Os resultados foram obviamente menos bons do que pensávamos, mas no geral, e dada a estrutura fixa muito leve que temos, não houve constrangimentos específicos durante este período.

2. Apesar das dificuldades, a Editora lançou já em pleno surto de Covid-19 bastante banda desenhada, como O Homem que matou Lucky Luke; Dylan Dog: O Imenso Adeus; ou Dylan Dog: Após um Longo Silêncio. Podemos por isto concluir que A Seita conseguiu manter o seu plano de lançamentos de banda desenhada para o primeiro semestre de 2020? Ou alguns títulos/séries tiveram que ser descartados ou adiados?
Obviamente estes títulos já estavam planeados antes da pandemia, e inclusive foram apresentados ao público no Coimbra BD antes da pandemia ter tido os seus principais efeitos. No Coimbra BD, por exemplo, tínhamos agendada a presença de um autor italiano, que à última da hora desistiu de vir, e ainda bem, se tivesse vindo não teria conseguido regressar a Milão, já que poucos dias depois do Coimbra BD os voos foram suspensos entre Portugal e a Itália.

Os livros mencionados na pergunta estavam impressos, e portanto foi mais uma questão de decidir se e quando os distribuir. De notar que houve decisões tomadas de inserção em catálogos e promoções (da FNAC) que tiveram de ser assumidas, e que foram depois adiadas pela própria FNAC para Junho e Julho, pelo que de certa maneira, se manteve um programa de lançamento sólido.

Mas é verdade que quanto a outros lançamentos, foi tomada a decisão de adiar lançamentos para 2021, nomeadamente em livros de autores portugueses. Mais que isso, a pandemia também influiu no planeamento dos lançamentos devido às incógnitas que planam sobre o festival da Amadora BD, por exemplo haver ou não festival, e em que moldes ele terá lugar, é algo que poderá ter um impacto nos nossos planos. Um livro lançado com uma exposição no FIBDA e a presença do autor tem um impacto muito maior, e caso isso não seja possível, talvez tenhamos de repensar algumas datas e empurrar alguns títulos para o início de 2021 (isto é ainda mais verdade no caso de livros de autores portugueses).

[Nota do Vinheta 2020: à data em que esta entrevista foi feita, ainda não havia confirmação oficial do cancelamento do Festival de Banda Desenhada da Amadora]

3. Quais são os novos lançamentos que os leitores de banda desenhada poderão esperar no segundo semestre de 2020? Alguma novidade em termos de banda desenhada nacional?
Como já anteriormente tínhamos anunciado, teremos um segundo volume de Lucky Luke, do alemão Mawil, uma homenagem num espírito humorístico e divertido, e extremamente original (Lucky Luke Muda de Sela), que é um livro inédito até em França, que terá a sua primeira edição física noutra língua no nosso país. Estamos em negociações com o autor e com a Dargaud para a implementação de uma versão exclusiva do livro, inclusão de extras, e vinda do artista a Portugal, esperamos mais notícias em breve. Iremos certamente editar pelo menos um, senão dois, livros de autores portugueses, mas ainda estamos a decidir timings e ordem de lançamentos. E claro, queremos prosseguir na nossa edição de livros da Bonelli.

4. Há alguma série ou livro que possa ter ficado para o próximo ano, devido ao estado pandémico que atingiu Portugal?
Como podem intuir pelas respostas acima, há uma série de títulos que tínhamos pensado para este ano e que serão provavelmente adiados para inícios de 2021.

5. Por último, há alguma série surpresa que ponderem lançar ainda este ano e que queiram dar a conhecer, em primeira mão, aos leitores do Vinheta 2020, através desta entrevista?
Podemos anunciar em exclusivo que iremos editar, provavelmente com data de lançamento próxima do Halloween, uma adaptação espectacular do Drácula de Bram Stoker pelo grande artista francês Georges Bess, um livro maravilhoso a preto e branco e em grande formato, que será certamente um dos grandes lançamentos do ano no nosso país.





Cancelamento do Festival Amadora BD 2020



Não é uma notícia que surpreenda assim tanto, tendo em conta que os eventos culturais em Portugal praticamente são inexistentes desde que a pandemia de covid-19 atingiu o país.. mas cá está a confirmação por parte da Câmara Municipal da Amadora.

É um mau ano para todos nós e a Banda Desenhada não é exceção.


Fiquem com o comunicado:

"O Amadora BD é um dos maiores acontecimentos no panorama cultural e artístico nacional, no âmbito da banda desenhada. Anualmente, o evento acolhe mais de 30.000 visitantes, aos quais oferece a oportunidade de usufruir de um núcleo de exposições variado, de uma programação paralela diversificada, de uma área comercial consolidada e de sessões de autógrafos e apresentações com autores e agentes especializados nacionais e internacionais.

Nos últimos 30 anos, o Amadora BD assumiu-se como uma plataforma de divulgação e valorização da banda desenhada e foi através desta arte que construiu uma relação de proximidade com os autores, as editoras e o público.

A banda desenhada tem reforçado a sua presença no universo editorial, verificando-se um aumento gradual das edições em Portugal. Também na comunidade escolar, a atenção dedicada a esta arte enquanto instrumento pedagógico tem adquirido especial importância. O Amadora BD tem sido, também, responsável pelo despertar deste interesse, uma vez que, anualmente, conta com a participação de mais de 1000 alunos, provenientes de escolas de todo o país, que aguardam expectantes pela oportunidade de interagir com os seus ídolos.

Enquanto evento que celebra a banda desenhada e cuja missão é permitir o usufruto de uma experiência de entretenimento e de enriquecimento cultural por parte do público, é importante considerar que a realização do evento nos moldes habituais estaria condicionada pela ausência de livre circulação e pelo comprometimento do bem-estar e do conforto de todos os visitantes, que esperam de uma iniciativa desta natureza a oportunidade de conviver com os autores que admiram, adquirir livros e objetos que colecionam, aprender novas competências numa oficina, fruir da produção de banda desenhada numa exposição ou de uma curta-metragem de animação em família.

A Câmara Municipal da Amadora considera a segurança e a proteção da sua população e da comunidade escolar como uma prioridade. Desde logo e perante a confirmação de um cenário pandémico global, o Município procurou assegurar os serviços essenciais e os cuidados de saúde primários, sobretudo, aos mais vulneráveis. Esse desígnio mantém-se, assim como, a preocupação em garantir o bem-estar e a saúde pública de todos os amadorenses.

Pelos motivos apresentados, a Câmara Municipal da Amadora informa que a edição de 2020 do Amadora BD não será realizada nos moldes habituais. Assim, todas as iniciativas que constavam da programação ficarão sem efeito, tendo por base as recomendações da Direção Geral de Saúde e da Delegação de Saúde do Município.

Contudo, face ao impacto da iniciativa na atividade artístico-cultural da cidade, é incontornável assinalar o Amadora BD. Por isso, a Câmara Municipal da Amadora encontra-se em fase de planeamento de uma alternativa adequada e adaptada às circunstâncias atuais, nomeadamente com a comemoração do 90.º aniversário do Mestre José Ruy, com o apoio à edição em português e a produção de banda desenhada durante o período de pandemia.

A Câmara Municipal da Amadora agradece o envolvimento, o empenho e a dedicação de todos os colaboradores, editores, autores, agentes culturais e artísticos, comissários, cenógrafos, e demais parceiros, que contribuem para o sucesso e a longevidade deste evento e que partilham do afeto, da união e do companheirismo que se instituiu, ao longo das últimas décadas, entre todos os amigos do Amadora BD.

A Câmara Municipal da Amadora demonstra a sua disponibilidade para continuar a apoiar a produção de banda desenhada, através da divulgação e promoção dos seus autores. Juntos, contribuímos para a melhoria, a sustentabilidade e o crescimento do Amadora BD. Para 2021, só poderemos esperar um regresso renovado e repleto de entusiasmo pelo melhor da banda desenhada nacional e internacional."

Análise: Astérix - A Filha de Vercingétorix



Astérix - A Filha de Vercingétorix, de Jean-Yves Ferri e Didier Conrad

Por vezes, os preconceitos (ou "pré-conceitos", como gosto de dividir a palavra, para retirar o estigma associado à mesma) são altos em relação a algo que já não é como o original. Ou, melhor dizendo, que já não é feito pelos autores originais.

Este mais recente volume de Astérix, entitulado A Filha de Vercingétorix, é o quarto álbum elaborado pela dupla Jean-Yves Ferri e Didier Conrad. E, diga-se em abono da verdade, depois de feita a leitura atenta a esta obra, parece-me que mesmo não sendo um livro elaborado pelos autores originais René Goscinny e Albert Uderzo, a influência destes últimos e as características que tornaram Astérix como uma das mais bem sucedidas franquias da banda desenhada franco-belga de sempre, estão aqui bem presentes. E de forma muito consistente.

A Filha de Vercingétorix, conta-nos a história de Adrenalina, uma adolescente que acaba de chegar à aldeia dos nossos heróis. Ela é procurada pelos romanos pelo facto de ser filha de Vercingétorix, o grande chefe gaulês outrora derrotado em Alésia. César quer romanizar Adrenalina e retirar-lhe o torque – um colar honorífico – que herdou do seu pai e que, segundo o Imperador, pode simbolizar a resistência dos povos em relação ao poderio dos Romanos. Por esse motivo, é escoltada por dois chefes da região de Averne, que pedem a Matasétix que acolha Adrenalina e lhe dê guarida. Ora, escusado será dizer, que serão Astérix e Obélix que ficarão com essa árdua tarefa de tomar conta de uma adolescente rebelde.

A história é quase sempre passada na Aldeia dos Irredutíveis, portanto este não é um daqueles típicos álbuns em que a dupla de heróis viaja para algum sítio. E, a meu ver, acaba por ser uma escolha bem conseguida, pois permite que toda a história se concentre mais nas personagens e nos seus dilemas, do que propriamente nas piadas associadas às diferentes regiões para onde Astérix e Obélix costumam viajar noutros álbuns. 

Assim, a história assenta muito na exploração dos estereótipos das personagens adolescentes e como as mesmas querem traçar o seu próprio caminho, em detrimento daquilo que os seus pais – ou o seu povo – congeminaram para si. Um exemplo disso, é a postura que, quer o filho do Peixeiro, quer o filho do Ferreiro, assumem nesta história. E claro, isso traz-nos várias situações divertidas.

Devo dizer que os textos de Jean-Yves Ferri estão carregados de divertidos trocadilhos e de alusões à sociedade atual, tal como os textos de Goscinny sempre estiveram. Neste A Filha de Vercingétorix, isso fica bem patente na forma como as situações e comportamentos típicos da adolescência são explorados. A história nunca se torna chata, também. Há um bom doseamento de gags humorísticos e do seguimento da própria trama montada pelos autores.

E se Ferri não desilude nos textos, o que dizer dos desenhos de Conrad? Sinceramente, acho que o próprio Uderzo não conseguiria dizer se estes desenhos seriam feitos por si ou por Conrad, tamanha é a fidelidade que as ilustrações dos gauleses e cenários apresentam. E também na própria planificação das pranchas ou na linguagem corporal das personagens, há um total respeito e influência pelo trabalho de Uderzo. Isto não é uma homenagem à obra como o é, por exemplo, Uma Aventura de Blake e Mortimer - O Último Faraó. Não, isto é um Astérix a sério. Creio que mesmo o leitor mais purista em relação a Astérix, terá que admitir que a arte ilustrativa deste álbum está perfeita. 

Destaque para o facto da ASA ter lançado este livro na mesma altura do lançamento mundial. Este cuidado da editora é sempre assinalável e digno de uma nota positiva. Também positiva é a tradução, bastante adaptada à realidade portuguesa – com a introdução do tema Fala-me de Amor, da banda portuguesa Santos e Pecadores, entre vários exemplos. Talvez alguns considerem que, por vezes, a tradução foi demasiado livre. Mas creio que isso – e tendo em conta que é um livro juvenil de tom cómico, funcionou bem. 

Confesso que a única coisa que não considerei tão bem conseguida são os diálogos dos dois chefes da região de Averne que confiam Adrenalina a Matasétix. Nestes diálogos, tentando simular uma prenúncia bem profunda, neste caso, do norte interior de Portugal, as palavras são alteradas e escritas de forma demasiado abrupta. Por exemplo, num diálogo escolhido aleatoriamente é dito: "Vamoje até à Cochta, juntar-noje aoje nochoje. Em breve echtaremoje de regrecho com um navio… oje portoje echtão infechatadoje de romanoje. Entretanto, aqui ela echtará em chegurancha". Se lermos com algum cuidado, percebemos tudo o que é dito, claro. Mas parece-me que a piada do sotaque saloio poderia ter sido garantida sem um exagero tão grande na alteração gráfica do texto. Bem sei que isso foi ao encontro da edição original - que também o faz - mas creio que, às tantas, torna-se um diálogo mais difícil de acompanhar e em que a piada inicial dá lugar a algum tédio e cansaço no leitor. Ainda para mais, se tivermos em conta que este é um livro juvenil, estou certo que as crianças terão mais dificuldade em acompanharem estes diálogos do que os adultos. Não é algo que estrague o livro e, relembro, até é uma coisa a que Astérix, feito pela dupla original de criadores, nos habituou. Mas, simplesmente, poderia ter sido feito de forma mais ligeira.

No final, este é um livro totalmente aconselhável para fãs da série e para qualquer criança ou jovem que se está a iniciar nas leituras de banda desenhada. Sei que (ainda) há muitos leitores puristas que dizem que Astérix feito por Ferri e Conrad não é bem a mesma coisa que feito por Goscinny e Uderzo. Provavelmente não será. Mas mesmo que não o seja, a verdade é que não anda longe disso. Com um desenho irrepreensível e uma história que é interessante e divertida como sempre, este é mais um bom livro de Astérix e companhia.


NOTA FINAL: (1/10):
8.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ficha técnica
Astérix: A filha de Vercingétorix
Autores: Jean-Yves Ferri e Didier Conrad
Editora: ASA
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Lançamento: Stranger Things - Seis



Desde ontem que já se encontra disponível nas livrarias portuguesas o novo volume de Stranger Things, da Editora ASA, tal como já tinha sido anunciado pelo Vinheta 2020, na entrevista realizada com a ASA. Este novo tomo dá pelo nome de Seis e desenvolve os acontecimentos iniciais, em forma de prequela, da famosa série televisiva da Netflix.

Fiquem com a nota da editora e com as imagens promocionais.

Stranger Things - Seis, de Jody Houser e Edgar Salazar

Está a chegar Stranger Things - Seis, de Jody Houser (argumento) e Edgar Salazar (desenho) entre outros.

Estamos em 1978. A América está no auge da guerra fria e explora fonteiras científicas perigosas.

Até onde irá o Doutor Brenner, diretor do projeto secreto MK ULTRA, para obter o poder que ambiciona? Descubra tudo nesta prequela da série de sucesso da Netflix, Stranger Things.

Se não fosse pelos seus poderes psíquicos, Francine seria uma típica adolescente dos anos 70. Mas, em vez de andar a curtir música com os amigos, ela está fechada no Laboratório de Hawkins. Sob o olhar atento do Doutor Brenner e da sua equipa, Francine sente-se explorada, como se estivesse a ser transformada numa arma. O stresse dos testes a que a submeteram levam-na a ter uma visão de um futuro sombrio, do qual ela não quer fazer parte; um futuro que espera conseguir alterar.

Uma leitura obrigatória para os fãs da série Stranger Things.

Ficha Técnica
Stranger Things - Seis
Autores: Jody Houser, Edgar Salazar, Keith Champagne e Marissa Louise
Editora: ASA
Páginas: 96, a cores
Encadernação: Capa dura
PVP: 14,90€