Aqueles que me conhecem, bem como ao meu trabalho em prol da banda desenhada, saberão que não tenho como princípio ou agenda pessoal, criar polémica, intrigas ou denegrir o trabalho dos outros. Por vezes, até me acusam de ser compreensivo e "bomzinho" em demasia, face ao trabalho dos outros. Nem será preciso escrevê-lo aqui. É um facto.
Tomara eu - e digo-o do fundo do coração - que houvesse, por vezes, um maior sentimento de camaradagem entre os agentes do meio da banda desenhada nacional. Não gosto muito de conflitos, de intrigas ou de coisas negativas.
Não obstante, considero que, em tudo o que fazemos, devemos ter um sentido ético, um sentido de justiça e um sentido de transparência. E eu, com o Vinheta 2020, que chega a alguns milhares de leitores que se interessam pela banda desenhada, também sinto que é meu dever - não obrigação, ressalve-se! - falar sobre as coisas negativas do universo da banda desenhada. Ou não vivêssemos nós em Democracia.
Isto para dizer que a
DGLAB (
Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, para quem não sabe), um órgão sob a alçada do Ministro da Cultura, divulgou, no início desta semana, os vencedores das
Bolsas de Criação Literária 2022. Esta iniciativa, cuja génese é de louvar, assinale-se em letras garrafais!, atribui bolsas para a criação literária em variadas áreas da literatura, sendo elas a Dramaturgia, a Ficção Narrativa, a Poesia, a Literatura para Infância e Juventude e a Banda Desenhada. No total, neste ano 2022, foram atribuídas 24 Bolsas: 12 Bolsas Anuais, no valor de 15.000€, e 12 Bolsas Semestrais, no valor de 7.500€. 3 dessas 24 bolsas foram atribuídas para a banda desenhada. Tudo perfeito até aqui.
Mas é quando chego à composição do Júri deste Programa de Atribuição de Bolsas que, relembro, é uma iniciativa pública e que, portanto, opera com dinheiros públicos, que a minha incredulidade se instala. Citando a informação veiculada no site da DGLAB, "o Júri é composto por Paula Morão (professora universitária), que presidiu ao júri, Teresa Sousa Almeida (professora universitária), Fernando Pinto do Amaral (escritor e professor universitário), José Maria Vieira Mendes (dramaturgo e professor universitário), Maria Teresa Maia González (escritora) e Marcos Farrajota (bibliotecário na Bedeteca de Lisboa e especialista em Banda Desenhada)".
Portanto, como representante da banda desenhada, temos Marcos Farrajota. E embora a DGLAB, voluntária ou involuntariamente, omita na sua
página oficial que Marcos Farrajota, para além de "bibilotecário na Bedeteca de Lisboa" e "especialista em Banda Desenhada", também é editor de banda desenhada, acho que qualquer pessoa minimamente informada, saberá que Marcos Farrajota está à frente de uma editora de Banda Desenhada que, neste caso, é a
Chili com Carne.
Ou seja, aqui já temos duas coisas inadmissíveis: primeira, o facto da DGLAB, na apresentação do seu Júri, omitir que Marco Farrajota é um editor de Banda Desenhada parece-me tudo menos algo ético e em consonância com os padrões pretendidos e requeridos para um concurso público. Em segundo lugar, e mesmo que tal informação não fosse omitida, como é possível que se escolha alguém para contribuir para a decisão de quem vai receber dinheiro público, quando a atividade desse jurado passa por editar banda desenhada?
Mas em que país do terceiro mundo vivemos? Isto é semelhante a escolher para um júri de melhor Clube de Futebol em Portugal, um sócio-cativo de um Clube de Futebol a concurso para o prémio. Ou é semelhante a escolher para um júri de melhor destino turístico português, um autarca de um dos destinos a concurso. Ou é semelhante a escolher para um júri de Miss Portugal, alguém que está casado com uma das concorrentes. Podia estar aqui todo o dia com os exemplos mais caricatos porque, afinal de contas, isto é uma situação caricata. Mas estamos a brincar com quem?
Isto está errado e acho que é demasiado polémico para ser verdade.
Mas, preparem-se para o melhor, pois não ficamos por aqui. A coisa piora e não é pouco.
Querem saber a quem serão atribuídas estas Bolsas de Criação Literária 2022?
Façam rufar os tambores!
As Bolsas serão atribuídas a Mariana Pita (autora de Lá fora com os fofinhos, editado pela Chili com Carne); a Gonçalo Duarte (autor de Parícutin, editado pela Chili com Carne); e a Ana Biscaia (autora de Quadradinhos : Looks in Portuguese Comics, editado pela Chili com Carne).
Isto não é uma piada. Hoje não é dia 1 de Abril. E não estou a gozar convosco. Isto aconteceu mesmo.
Portanto, recapitulemos:
uma Bolsa Literária, que resulta de dinheiros públicos, para os quais contribuo eu e todos os que me estão a ler e pagam os seus impostos, foi atribuída a três autores da Chili com Carne por um Júri, cujo representante da banda desenhada, é o editor da Chili com Carne. Isto contado assim parece uma anedota, não é?
Note-se que não está aqui em causa se os três autores e respetivos projetos que apresentaram para estas Bolsas serão ou não merecedores destes dinheiros públicos. Até podem ser os melhores autores portugueses de sempre. Até podem merecer que lhes sejam feitas estátuas nas localidades de onde são naturais. Não é, de todo, isso que está em causa.
O que está em causa é que há aqui um enorme, gritante, inacreditável, polémico e chocante conflito de interesses.
1) Omitir que Marcos Farrajota é um editor de banda desenhada na página oficial do DGLAB é mau;
2) nomear um editor - que, logicamente, não é nem poderá ser uma pessoa idónea, dado o conflito de interesses óbvio - para o júri é ainda pior.
3) Mas, depois disso tudo, ainda se ter o desplante, a coragem, a audácia de atribuir as bolsas a três autores que pertencem à editora do membro do júri é para lá do aceitável. Note-se que, quanto a mim, já seria condenável mesmo que nenhum autor vencedor da bolsa fosse da Chili com Carne. Ou mesmo que só um autor ganhasse a bolsa já era chocante. Agora, ganharem os três?! Nem sei se devo rir ou se devo chorar. É que, mesmo não sendo ético, há que saber fazer as coisas. Que apoteose de amadorismo vem a ser esta?
Vergonhoso e merece ser sublinhado porque, bem sei, estas coisas às vezes passam por entre os pingos da chuva.
Não sei se este conflito de interesses está ou não a acontecer nas demais categorias de atribuição de bolsas. Sobre isso não posso tecer comentários. Só posso falar sobre o que conheço.
A meu ver, deveria ser dada uma justificação cabal sobre este concurso, os resultados do mesmo deveriam ser impugnados e as pessoas responsáveis por esta iniciativa deveriam cessar funções. Não é assim que evoluímos, não é assim que fazemos as coisas bem, não é assim que procedemos com ética.
Haja decoro. Haja profissionalismo.