Desde há dois anos para cá, sensivelmente, a editora A Seita tem reforçado a sua aposta no lançamento de mangás. Para tal efeito, a cooperativa editorial até criou o selo editorial Ikigai, apostado no lançamento de séries de mangá, das quais poderemos mencionar os três principais títulos do género da editora: Butterbly Beast, Gannibal e Made In Abyss. Todas elas séries em continuação. A par disso, a editora lançou, num só volume, a bela obra O Preço da Desonra e, mais no final do ano passado, também apostou neste título autocontido intitulado O Meu Marido Dorme no Congelador. A autoria de tal obra, com um nome tão sugestivo, pertence às autoras Misaki Yazuki e Hyaku Takara. Ou melhor, Hyaku Takara adapta para banda desenhada o romance original de Misaki Yazuki.
A história centra-se na personagem de Nana, uma jovem mulher que sofre de violência doméstica. Até que chega o dia em que decide matar o marido. Esse ato traz-lhe uma sensação de liberdade e de leveza. Para evitar problemas com as autoridades, Nana esconde o cadáver do seu marido no congelador da sua arrecadação. Mas no dia seguinte, quando vê o seu marido vivo e a agir como se nada tivesse passado, Nana começa a duvidar se terá mesmo assassinado o seu marido ou não.
O livro apresenta uma premissa intrigante e pouco convencional, diferenciando-se das obras mais comuns no universo dos mangás. Com um tom mais adulto e uma narrativa que explora temas de desejo, obsessão e mistério, a obra almeja atrair leitores que procuram uma história que vá além dos enredos típicos do mangá por cá editado, mais voltados para um público juvenil. O título, por si só, já sugere um enredo provocador e envolto em suspense, despertando curiosidade imediata.
E desde as primeiras páginas, até se nota que a obra não hesita em abordar temas mais densos e complexos. A relação entre os protagonistas é marcada por uma intensa carga emocional e uma dinâmica de poder que se desenrola ao longo da narrativa. Também o erotismo se apresenta de forma clara, diferenciando-se de muitos mangás que apenas sugerem tais temas sem mergulhar neles de maneira concreta. No entanto, esta abordagem erótica, que até poderia ser um dos grandes atrativos de O Meu Marido Dorme no Congelador, acaba por não ser tão bem trabalhada, nem tão bem aproveitada, para tornar a experiência de leitura mais impactante. Há momentos em que a tensão sexual entre as personagens é bem construída, mas noutros casos, a narrativa parece hesitar (temer?) em aprofundar essas interações. Considero que se tivesse havido mais despudor em algumas cenas eróticas, essa valência poderia ter beneficiado o cariz adulto da obra. Assim, tal como foi, pode ter um cariz adulto, mas que mais parece um cariz juvenil a querer tentar ser mais adulto. E são coisas (bem) diferentes, claro.
A construção dos personagens é um dos pontos fortes da obra. A protagonista é multifacetada, oscilando entre momentos de fragilidade e de uma força inesperada. O marido, por outro lado, apresenta um mistério constante que mantém o leitor intrigado. A química entre os dois é evidente e, embora em alguns momentos a relação pareça desequilibrada, isso reforça a intensidade emocional da trama.
No entanto, lá para o meio do livro, a história parece perder-se a si mesma, optando por viravoltas rocambolescas e rebuscadas que, sinceramente, me fizeram revirar os olhos por duas ou três vezes. Lá se foi o cariz mais adulto da trama. E é pena, porque a premissa inicial até é forte e cativante, sublinho.
Esta dispersão no enredo faz com que não se explore com profundidade algumas das questões levantadas no início, levando a que o discurso, dúvidas e pensamentos da protagonista se tornem redundantes. É um daqueles livros que não precisava de tantas páginas para contar a mesma história.
Além disso, a obra pisca o olho ao suspense e ao mistério, mas não os desenvolve completamente. O mistério do marido "a dormir" no congelador poderia ter sido um elemento central de uma trama mais elaborada, explorando aspetos psicológicos e emocionais de maneira mais profunda. Acabou por ser demasiado leve e... juvenil.
As ilustrações de Hyaku Takara, são bastante agradáveis. Não sendo especialmente fantásticas, são extremamente eficientes a ilustrar os vários momentos da narrativa com a dose certa de intensidade e drama. O traço é expressivo e contribui para a atmosfera sombria e sedutora da história, bem como para a transmissão das emoções das personagens de maneira envolvente.
A edição d' A Seita é em capa mole, sem badanas, e com papel decente no miolo do livro, o que se enquadra com o tipo de edição que estamos acostumados a ver em obras de estilo mangá, não só pelas mãos d' A Seita, como nos lançamentos congéneres de outras editoras portuguesas.
No geral, O Meu Marido Dorme no Congelador é um mangá que se destaca pela sua premissa original e pela sua abordagem de thriller mais adulto e erótico. Essa abordagem mais madura atrai um público que procura histórias mais provocantes e psicológicas. No entanto, para que esse impacto fosse maior, seria necessário um pouco mais de desenvolvimento na trama e um melhor aproveitamento do erotismo e do mistério. Dessa forma, poderíamos estar perante uma obra memorável dentro do género.
NOTA FINAL (1/10):
7.0
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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O Meu Marido Dorme no Congelador
Autoras: Misaki Yazuki e Hyaku Takara
Editora: A Seita
Páginas: 384, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 127 x 180 mm
Lançamento: Setembro de 2024