Mostrar mensagens com a etiqueta Borris. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Borris. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Análise: Albert Londres tem de Desaparecer

Albert Londres tem de Desaparecer - Frédéric Kinder e Borris - Levoir - Público

Albert Londres tem de Desaparecer - Frédéric Kinder e Borris - Levoir - Público
Albert Londres tem de Desaparecer, de Frédéric Kinder e Borris

Este ano, a Coleção de Novelas Gráficas tem vindo a apresentar uma qualidade média bastante interessante. Já li praticamente todos os livros que saíram até ao momento e, pelo menos para já, posso dizer-vos que estou bastante satisfeito com a seleção de obras deste ano. É óbvio que haverá sempre livros para todos os gostos e que uns serão melhores do que outros, mas olhando para o todo, tenho que conceder que a seleção é boa e equilibrada.

Este Albert Londres tem de Desaparecer que hoje vos trago é mais uma das boas obras que fazem parte desta iniciativa editorial levada a cabo pela editora Levoir e pelo jornal Público.

Albert Londres tem de Desaparecer - Frédéric Kinder e Borris - Levoir - Público
Para quem não sabe, Albert Londres foi um célebre jornalista e escritor francês, sendo considerado um dos pioneiros do jornalismo de investigação. Era uma daquelas pessoas que não tinha medo de "pôr o dedo na ferida" e que ficou conhecido pelas suas reportagens corajosas, nas quais denunciava injustiças sociais, condições desumanas em prisões, abusos do colonialismo e outros problemas ignorados pela sociedade da época. Mais do que isso, as suas viagens por vários países deram origem a reportagens marcantes que influenciaram a opinião pública e contribuíram para mudanças sociais. Existe mesmo um prémio de jornalismo, o Prémio Albert Londres, que foi criado em sua homenagem, sendo um dos mais prestigiados galardões do jornalismo francófono. Estamos perante, pois está claro, uma das individualidades mais importantes do jornalismo. Se bem que a sua morte sempre levantou alguma suspeita.

E este Albert Londres tem de Desaparecer, dos autores Frédéric Kinder e Borris, é um livro que se situa algures entre a biografia, o relato histórico e a ficção especulativa. A obra parte dos acontecimentos devidamente comprovados que marcaram os últimos meses da vida do jornalista para construir uma narrativa envolvente em torno do mistério da sua morte. O resultado é uma obra simultaneamente informativa e fascinante, que é capaz de despertar a curiosidade dos leitores tanto pela figura histórica retratada, como pela hipótese apresentada para explicar o seu desaparecimento.

Albert Londres tem de Desaparecer - Frédéric Kinder e Borris - Levoir - Público
Sente-se que os autores procuram prestar homenagem a um homem cuja influência no jornalismo de investigação continua a ser sentida nos dias de hoje. Sendo alguém que procurava expor injustiças, denunciar abusos e revelar realidades, fez, com certeza, bastantes inimigos, já que que muita preferia manter escondidas as verdades incómodas que Albert procurava revelar. E essa dimensão ética da sua atividade profissional revela-se muito bem representada ao longo da narrativa.

A escolha do período final da vida do jornalista revela-se particularmente acertada. A viagem à China, realizada em 1931, permanece envolta em inúmeras dúvidas e interrogações. Ao que parece, não se tratou de uma deslocação encomendada por qualquer jornal e os verdadeiros objetivos de Albert Londres com esta viagem nunca ficaram totalmente esclarecidos. E foi especificamente essa incerteza histórica que os autores agarraram, utilizando esse terreno fértil para a construção de uma narrativa que combina factos documentados com elementos ficcionais de forma bastante convincente.

Albert Londres tem de Desaparecer - Frédéric Kinder e Borris - Levoir - Público
E um dos aspetos mais interessantes da obra reside precisamente nessa mistura entre verdade histórica e ficção. Frédéric Kinder, o argumentista, evita transformar o livro numa simples biografia ilustrada e opta antes por explorar as zonas cinzentas que rodeiam os acontecimentos que motivaram a morte do célebre jornalista. O resultado é uma narrativa dinâmica, a fazer lembrar uma história policial, que nos mantém constantemente envolvidos e a questionar aquilo que realmente poderá ter acontecido.

A hipótese central do livro assenta na possibilidade de Albert Londres ter descoberto uma rede de tráfico de armas e de ópio envolvendo interesses poderosos. Sendo que essas informações recolhidas pelo jornalista durante a sua estadia na Ásia seriam suficientemente comprometedoras para ameaçar figuras influentes. A partir desta premissa desenvolve-se um enredo marcado pela tensão e pelo suspense.

É evidente que esta interpretação poderá ser vista por alguns leitores como excessivamente conspirativa. Afinal, a verdade é que ninguém sabe ao certo o que Albert Londres estava a investigar na China durante os últimos meses da sua vida. A escassez de provas definitivas impede qualquer conclusão categórica, é certo. Contudo, a proposta dos autores nunca deixa de parecer plausível, sobretudo quando recordamos o histórico profissional de Londres e a natureza das investigações que já realizara anteriormente, incidindo em temas como a prisão de Cayenne, o tráfico de mulheres ou as condições desumanas dos hospitais psiquiátricos. E é por isso que o livro funciona bem.

Albert Londres tem de Desaparecer - Frédéric Kinder e Borris - Levoir - Público
Além disso, a obra tem ainda o mérito de levar o leitor a refletir sobre uma realidade que permanece atual. Quando alguém revela verdades incómodas sobre práticas ilegítimas ou criminosas, os interesses afetados tendem frequentemente a reagir. Ao longo da História, não têm sido poucos os jornalistas, denunciantes e investigadores que enfrentaram pressões, ameaças ou tentativas de silenciamento. Nesse sentido, a narrativa transcende a figura de Albert Londres e assume uma dimensão mais universal, o que volta a ser bem-vindo.

Em termos de ilustração, gostei particularmente da abordagem visual de Borris. Os seus desenhos são bastante originais e conferem à obra uma identidade muito própria, por vezes a roçar o expressionismo. O estilo gráfico afasta-se, pois, de soluções mais convencionais e, com os traços do esboço a notarem-se propositadamente na composição final, o desenhador consegue cria uma atmosfera que combina perfeitamente com o tom de mistério e investigação da narrativa. A expressividade das personagens - onde reside, por vezes, um certo nível caricatural - consegue funcionar muito bem, também, e as cores também são bem conseguidas.

Albert Londres tem de Desaparecer - Frédéric Kinder e Borris - Levoir - Público
Por vezes, senti que algumas páginas careciam de alguma legibilidade, como se aparentassem estar pixelizadas, o que tornou a experiência menos positiva. Ainda investiguei a edição original da obra, para comparar, mas confesso não ter percebido se este problema da legibilidade que aparece amiúde se devia à propria ilustração original ou se se devia a um defeito de impressão. Mas deixo essa nota.

De resto, a edição da Levoir é em capa dura baça, com bom papel baço no interior e um bom trabalho a nível de encadernação. No final, há ainda um generoso caderno documental, com 12 páginas, que nos oferece textos com mais informações sobre o desaparecimento de Albert Londres, sobre o contexto geopolítico de Xangai em 1932 e que inclui notas biográficas das principais personagens. Há ainda várias ilustrações e esboços, bem como fotografias e estudos de página, que acompanham estes textos.

Devo fazer uma menção negativa ao facto da edição portuguesa trazer o (enorme!) subtítulo "O Segredo da Última Reportagem de um Jornalista Excepcional". Mais do que ser um subtítulo que não era necessário, nunca poderia ter sido colocado daquela forma, com aquela dimensão, naquele local da página. Acho que foi um ato falhado que até acaba por estragar a bela ilustração da capa. Ou a bem que não se colocava esse grande subtítulo ou, colocando, teria que ser no canto inferior da capa, em rodapé. Ou, sendo neste sítio em que acabou por ficar, teria que ser com um círculo/quarado à volta, simulando um autocolante. São noção básicas de design e produção gráfica.

Tirando este detalhe, e em suma, Albert Londres tem de Desaparecer é um livro bastante bem conseguido, que presta uma justa homenagem a um dos mais importantes jornalistas de sempre, ao mesmo tempo que lança luz sobre uma possível explicação para o seu desaparecimento. Mesmo que a teoria apresentada não possa ser comprovada e permaneça no domínio da especulação, os autores conseguem torná-la credível e estimulante. Boa aposta!


NOTA FINAL (1/10):
8.4


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



-/-

Albert Londres tem de Desaparecer - Frédéric Kinder e Borris - Levoir - Público

Ficha técnica
Albert Londres tem de Desaparecer
Autores: Frédéric Kinder e Borris
Editora: Levoir
Páginas: 104, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 X 270 mm
Lançamento: Julho de 2026

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Chega hoje às bancas a nova Novela Gráfica da Levoir e do Público!



Já está disponível nas bancas portuguesas o novo livro da Coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do jornal Público!

Esta nova obra intitula-se Albert Londres tem de Desaparecer e é da autoria de Frédéric Kinder e Borris, contando-nos a história de um dos jornalistas mais interessantes e influentes de sempre: Albert Londres.

Já tive oportunidade de ler o livro e posso dizer-vos que é uma boa adição a esta coleção. Brevemente falarei sobre o mesmo, num texto de análise, aqui no Vinheta 2020.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora e com algumas imagens promocionais.

Albert Londres tem de Desaparecer, de Frédéric Kinder e Borris

A Levoir e o jornal Público editam a 31 de Julho, Albert Londres tem de desaparecer, uma novela gráfica entre a biografia e a ficção, uma proposta de Frédéric Kinder e Borris sobre o fim trágico daquele que, ainda hoje, é considerado um dos pioneiros do jornalismo de investigação. 

Londres não se limitava a relatar as notícias, mas criava-as e abordava-as de uma perspetiva pessoal. Criticava os abusos do colonialismo, como o trabalho forçado.

Quando, em dezembro de 1931, Albert Londres embarcou para a China, ninguém sabia ao certo o que ele ia lá fazer. 

Nenhum jornal o tinha enviado e os seus concorrentes questionavam-se sobre que tipo de furo jornalístico ele iria conseguir trazer, numa altura em que Xangai se encontrava no centro do conflito sino-japonês. Depois das suas reportagens que causaram grande alvoroço sobre a prisão de Cayenne, sobre o tráfico de mulheres na Argentina ou sobre o tratamento indigno dos internados em hospitais psiquiátricos, é um tráfico de armas e ópio que Albert Londres vai revelar na Ásia. Mas as revelações que o jornalista se prepara para fazer, são «dinamite», segundo as suas próprias palavras, incomodam as altas esferas, a começar pela Marinha francesa, que está envolvida nesse tráfico (que mais tarde ficaria conhecido como French Connection!). Além disso, o seu desaparecimento no naufrágio do Georges Philippar, no regresso da China em maio de 1932, deixa pairar a dúvida sobre o carácter acidental da sua morte.

Frédéric Kinder é diretor artístico e ilustrador nas áreas da edição e da publicidade. Com esta obra recebeu o Prémio de Banda Desenhada da RTL 2022. Assina o seu segundo álbum de banda desenhada sobre o destino do maior dos repórteres franceses.

Borris é um autor e ilustrador francês de BD. Depois de obter um mestrado em artes plásticas, iniciou a sua carreira em 1999, publicando histórias curtas de banda desenhada na fanzine PLG. A par do seu trabalho na área da banda desenhada, Borris realiza ilustrações para o mundo editorial e para a imprensa.

Novelas já editadas: A Aranha de Mashaad; Dostoiévski: O sol negro, Dez Mil Elefantes, Partir, ficando, e Formosa.

-/-

Ficha técnica
Albert Londres tem de Desaparecer
Autores: Frédéric Kinder e Borris
Editora: Levoir
Páginas: 104, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 X 270 mm
PVP: 16,90€