A Organização do Amadora BD anunciou ontem os nomeados para os Prémios de Banda Desenhada da Amadora (PBDA).
Apresento-vos esses nomeados, aproveitando para congratular, desde já, todos os envolvidos: autores e editores.
Mais abaixo, deixem-me tecer algumas merecidas críticas.
MELHOR OBRA ESTRANGEIRA DE BD EDITADA EM PORTUGAL
- Pele de Homem, de Hubert e Zanzim, Edição: A Seita
- Churubusco, de Andrea Ferraris, Edição: Escorpião Azul
- O Relatório de Brodeck, de Manu Larcenet, Edição: Ala dos Livros
- Eu, Mentiroso, de A. Altarriba e Keko, Edição: Ala dos Livros
- A Fera: Uma História Verdadeira do Marsupilami, de Zidrou e Frank Pé, Edição: A Seita
PRÉMIO REVELAÇÃO
- Os Besteiros de Serpa, de Luís Guerreiro, Edição: Município de Serpa
- O Crocodilo, ou o Extraordinário Acontecimento Irrelevante, de Francisco Valle e Rui Neto, Edição: LoboMau Produções
- O Reino de Alvarinho, de Márcio da Rocha, Edição: Zero a Oito - Edição e Conteúdos, Lda
MELHOR FANZINE OU PUBLICAÇÃO INDEPENDENTE
- A Little Girl, de André Caetano
- Le Scorpion et la Grenouille" / "O Escorpião e o Sapo, de Francisco Daniel Teixeira Dias
- Ditirambos: Fauna, de Joana Afonso, Ricardo Baptista, André Caetano, Nuno Filipe Cancelinha, Diogo Carvalho, Raquel Costa, Francisco Ferreira, Sofia Neto, Sónia Mota e Carla Rodrigues
- Histórias à Sombra do Montado, de Ana Margarida de Carvalho, Ana Bárbara Pedrosa, Afonso Cruz, Luís Afonso, Joana Afonso, João Maio Pinto, Marta Teives e Nuno Saraiva
- Daqui à Escola são 2.000 Passos, de Ana Conceição
MELHOR OBRA DE BANDA DESENHADA DE AUTOR PORTUGUÊS
- Pardalita, de Joana Estrela, Edição: Planeta Tangerina
-Estes Dias, de Bernardo Majer, Edição: Polvo
- CoBrA - Operação Goa, de Marco Calhorda e Daniel Maia, Edição: Ala dos Livros
- O Caderno da Tangerina (edição integral), de Rita Alfaiate, Edição: Escorpião Azul
- UMBRA Nº3, de, Filipe Abranches, David Soares, Simon Roy, Pedro Moura, Ricardo Baptista e Bárbara Lopes, Edição: Umbra
MELHOR EDIÇÃO PORTUGUESA DE BD
- Umbigo do Mundo vol. 1: Alma Mãe, de Penim Loureiro e Carlos Silva, Edição: A Seita e Comic Heart
- Tu És a Mulher da Minha Vida, Ela a Mulher dos Meus Sonhos, de Pedro Brito e João Fazenda,, Edição: A Seita e Comic Heart
- Mercenário #3 - As Provas, de V. Segrelles, Edição: da Ala dos Livros
- Blacksad #1 - Algures entre as sombras, de Diaz Canales e Guarnido, Edição Ala dos Livros
- Juventude, de Marco Mendes, Edição: A Seita e Turbina Associação Cultural
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Olhando para esta lista, há algumas considerações a retirar.
Se, por agora, já há duas coisas que enalteço - para além da existência da própria iniciativa com um belo prémio pecuniário - que são o anúncio com alguma antecedência dos nomeados e a passagem da "cerimónia" de entrega dos prémios dos Recreios da Amadora para o Ski Skate Park, há, no entanto, algo, menos abonatório, que merece ser dito e comentado. Não me importo de ser o único a fazê-lo, se tiver que ser.
Sabem que não tenho por norma denegrir o que os outros fazem - ou tentam fazer. Seja ao nível das obras, seja ao nível dos eventos, seja ao nível dos prémios. E, regra geral, até acredito na boa fé das pessoas. Como tal, e não obstante, é-me difícil, mais uma vez, compreender os nomeados para algumas das categorias dos PBDA.
E permitam-me que deixe uma coisa bem clara: eu não sou partidário. Não sou "amiguinho" deste ou daqueloutro. Tenho um bom relacionamento com todos os editores e com todos os autores portugueses. Todos eles são, de certa forma, meus heróis e bons para comigo. Mas não coloco relacionamentos pessoais à frente das minhas análises e escolhas de banda desenhada. Oxalá todos fossem assim. Portanto, que fique bem claro que as palavras que se seguem não resultam de uma posição partidária. Resultam de uma posição de bom senso.
Mais! Acho que nunca critiquei a justiça de um prémio que é dado. Como sempre digo, o verdadeiro prémio é a nomeação... pois é a nomeação que diz: "olha, nesta categoria, estes foram os melhores do ano". E, ao dizer isso, tem que haver algum decoro, profissionalismo e seriedade da parte de quem o diz. Caso contrário, não passamos da cepa torta. Isto é um ciclo: se uma das partes não é profissional, isso fará com que todo o ciclo não o seja. Se queremos prémios de banda desenhada feitos com profissionalismo não podemos cometer, voluntária ou involuntariamente, certo tipo de erros.
Portanto, não tendo, no ano passado, criticado os vencedores dos PBDA, repesco as minhas palavras dessa altura,
quando analisei o evento, para constatar que, este ano, as escolhas dúbias e sem nexo se mantêm:
"Ora, quanto aos vencedores, não farei nenhum tipo de comentário, além de dar os parabéns aos mesmos. Posso dizer que nenhuma destas atribuições me choca particularmente e até concordo com quase todas. Não posso dizer o mesmo, porém, em relação à seleção de nomeados. Houve, desde o momento em que os nomeados foram anunciados, uma estupefacção geral (e que eu partilho) sobre a inclusão d' A Vida de Adulta, de Raquel Sem Interesse, nesta categoria. Ora, mesmo admitindo que o Regulamento não consegue ser claro o suficiente - e isso também é algo que devia ser revisto e melhorado - não consigo compreender, por mais que me esforce, como é que este A Vida de Adulta consegue entrar nesta categoria que procura premiar o bom trabalho de edição. (...) Errar é humano, bem sei. Mas não se compreendem as ausências de certas obras em várias nomeações. Se querem que os prémios sejam levados a sério, têm que mudar algo na próxima edição. Mesmo. Porque não aumentar o número de jurados?"
Isto para dizer que, mais uma vez, na edição deste ano não se compreendem as escolhas para nomeados às categorias Melhor Obra Estrangeira de BD editada em Portugal e, principalmente, Melhor Obra de Banda Desenhada de Autor Português.
A sério que os jurados consideraram que Churubusco e Eu, Mentiroso são obras de banda desenhada mais relevantes e melhores do que Monstros, A Vingança do Conde Skarbek, Armazém Central, O Combate Quotidiano ou A Bomba? A sério? Digo isto sem desprimor para Churubusco ou Eu, Mentiroso, que são bons livros... agora se os consideramos como nomeados a melhores, quer dizer que desconsideramos outras obras, certo?
Continuando...
A sério que os jurados consideraram que Pardalita ou Umbra #3 são obras de banda desenhada portuguesa mais relevantes e melhores do que Dante, O Fogo Sagrado ou O Coração na Boca? A sério? Mais uma vez, digo isto sem desprimor para Pardalita ou Umbra #3, que são bons livros... agora se os consideramos como nomeados a melhores, quer dizer que desconsideramos outras obras, certo?
"Ah e tal, os gostos são subjetivos". "Sim" e "não", respondo-vos eu. De facto, há sempre uma subjetividade neste tipo de escolhas mas também há mínimos garantidos.
Gostos são subjetivos mas se consideramos que as melhores marcas de carros do ano são a
Ferrari, a
Bugatti e a
Dacia e, depois desconsideramos a
Porsche ou a
Lamborghini... algo está errado. Nada contra a Dacia mas há que haver bom senso, não? Ou se consideramos que as mulheres mais bonitas portuguesas do ano são a
Sara Sampaio, a
Catarina Furtado e a
Maria Vieira e, depois, desconsideramos a
Diana Chaves ou a
Luísa Beirão... algo está errado. Nada contra a Maria Vieira mas há que haver bom senso.

Se o resultado das escolhas fosse o resultado de uma votação de um
conjunto alargado de jurados - como acontece, por exemplo, com os
VINHETAS D' OURO -, poderíamos até achar que os jurados tinham maus gostos mas, pelo menos, haveria uma democratização das escolhas. Agora, nos PBDA, os jurados são - salvo erro - apenas três e só um desses jurados é que é um especialista em banda desenhada. Quando num conjunto de 3 jurados, só um é que especialista e, portanto, está em minoria, temos o perigo das escolhas serem totalmente enviesadas. Se me pedirem para ser um jurado num concurso de projetos de física quântica ou engenharia aeroespacial... é normal que eu não faça um bom trabalho. Das duas uma: ou se escolhem novos jurados na próxima edição ou se aumenta o número de jurados para termos mais representatividade e democratização nas escolhas. Já o disse o ano passado. Digo-o, mais uma vez, este ano.
Respeito e enalteço a subjetividade das escolhas mas, por favor, não ousem faltar à honestidade intelectual apoiando-se nesta questão da subjetividade porque, e volto a dizê-lo, não é bem a escolha do vencedor que me incomoda - acredito que, no final, os vencedores até sejam "legítimos" - mas sim a escolha dos nomeados. Se todos os nomeados forem muito bons... compreendo que não possam entrar todos. Agora... quando há livros que são "apenas bons" mas que tiram o lugar a livros unanimemente considerados como muito bons... fica difícil compreender a lógica de toda a iniciativa. Não brinquem comigo. Ou não brinquem com os leitores. Porque se o fazem, estão a fazer-lhes um "des-serviço".