quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Análise: Nestor Burma #3 - O Afrontoso Cadáver da Plaine Monceau

Nestor Burma #3 - O Afrontoso Cadáver da Plaine Monceau, de Emmanuel Moynot - Gradiva

Nestor Burma #3 - O Afrontoso Cadáver da Plaine Monceau, de Emmanuel Moynot - Gradiva
Nestor Burma #3 - O Afrontoso Cadáver da Plaine Monceau, de Emmanuel Moynot

Depois do lançamento, de uma só vez, de dois álbuns da série Nestor Burma, a Gradiva regressou recentemente a esta série, com o lançamento de mais um volume. Continuamos com Nestor Burma a cores e pelas mãos de Emmanuel Moynot. Curiosamente, das três propostas possíveis de autores que têm contribuído para esta série de banda desenhada – como Jacques Tardi e, até Nicolas Barral, autor de Ao Som do Fado – o contributo de Emmanuel Moynot será, por ventura, aquele que me parece menos aliciante.

Já tomei conhecimento que a razão da aposta ter começado pelos álbuns de Moynot - e não pelos de Tardi - se prendeu com o pressentimento do editor português de que, sendo a cores, a série chegasse a um maior público. De qualquer maneira, e isto são boas notícias, a Gradiva planeia editar toda a série, incluindo os primeiros quatro álbuns de Tardi. Portanto, será uma questão de tempo a que tenhamos todos os livros disponíveis, espero.

Nestor Burma #3 - O Afrontoso Cadáver da Plaine Monceau, de Emmanuel Moynot - Gradiva
Bem, mas centrando-me neste O Afrontoso Cadáver da Plaine Monceau, acho que posso dizer que continuamos em consonância com aquilo que Emmanuel Moynot já nos deu nos dois álbuns anteriores, A Noite de Saint-Germain-des-Prés e O Sol Nasce Atrás do Louvre.

Originalmente lançado em 2009, este O Afrontoso Cadáver da Plaine Monceau coloca o famoso detetive francês perante um novo caso de mistério e vários assassinatos. 

Estamos em Março de 1959 e Nestor Burma tem um encontro marcado num dos mais belos bairros de Paris. Porém, ao chegar à morada do seu encontro descobre que a sua potencial cliente, Jeanne Désiris, que o havia procurado recentemente, já se encontra sem vida quando é encontrada pelo detetive carismático. E não é só Jeanne que foi assassinada. O mesmo ocorreu com o seu marido. Consequentemente, os indícios parecem apontar para um duplo suicídio, mas cedo Nestor Burma começa a perceber que o caso pode ser mais complexo do que aquilo que aparenta ser à partida. E mergulha, então, numa investigação intrincada, que nos traz muitas outras personagens para este caso.

Nestor Burma #3 - O Afrontoso Cadáver da Plaine Monceau, de Emmanuel Moynot - Gradiva
Olhando para estes três primeiros álbuns publicados, parece-me claro que os enredos são bastante complexos e, por vezes, parecem-me mal geridos pelo autor em termos daquilo que é informação relevante para a compreensão da história, por parte do leitor, e daquilo que é informação supérflua. Dou um exemplo concreto que acontece neste livro: por vezes, um diálogo ou uma cena não acrescentam nada de muito relevante à história e, no entanto, ocupam várias páginas. No entanto, e por oposição, outros casos há em que um diálogo se reveste de importância para a compreensão da trama e acaba por ser retratado por Moynot quase na diagonal. Aqui, neste ponto, tenho que confessar que não conheço a obra original de Leo Malet. No entanto, quase que, sem ter lido os romances, posso garantir que não haverá esta má gestão dos acontecimentos nos textos originais. Pois é apoiando-se nesta dosagem dos momentos marcantes que a experiência de um bom policial sai reforçada. O que me leva a considerar que, de facto, a adaptação da história e do universo seja algo leviana, por vezes, por parte de Moynot.

Mas isto também não quer dizer que não estejamos perante uma leitura que nos deixa razoavelmente satisfeitos e com sede para chegarmos à resolução do caso. Pena é que, em alguns casos, entre a construção do enredo e a resolução do caso que nos é dada, existam outras distrações, nem sempre coerentes entre si, que nos retiram algum do prazer que seria desejável num livro deste tipo.

Nestor Burma #3 - O Afrontoso Cadáver da Plaine Monceau, de Emmanuel Moynot - Gradiva
Sendo verdade que, neste terceiro volume, o autor pareça sentir-se mais à vontade no desenho, podemos dizer que, por um lado, as ilustrações correspondem bem ao universo criado por Tardi, com base na célebre personagem, de Leo Malet, mas, por outro lado, por vezes os desenhos parecem pouco fluídos e com uma certa rigidez nos movimentos das personagens. Não obstante, também é verdade que, e contrariamente ao primeiro álbum de Moynot, onde as parecenças entre o seu estilo e o estilo de Tardi pareciam mais forçadas, desde o segundo volume que o traço do autor parece ter mais harmonia e naturalidade embora, claro, sendo fiel aos desenhos de Tardi. Portanto, estou certo que os admiradores do autor original destes desenhos não deverão sentir-se desagradados com as ilustrações que Moynot nos oferece. Cumprem bem, vá.

Se bem que, quando a mim, e como já disse na análise que fiz aos dois álbuns anteriores, parece-me que os desenhos de Moynot ficam algo “a meio caminho entre o estilo próprio de desenho e a emulação. E, nestas coisas, considero que se deve apostar ser “tudo ou nada”, isto é, ou a emulação dos desenhos é (quase) perfeita, tal como sucede, por exemplo, nos Astérix de Conrad ou nos Lucky Luke de Achdé, ou então mais vale adaptar com total liberdade a obra a que se presta homenagem, tal como Bonhomme faz com Lucky Luke ou, mais recentemente, Bastien Vivès com Corto Maltese. Moynot não é peixe nem carne e fica a meio caminho. O seu estilo próprio é deixado de lado, mas a emulação também está longe de ser (quase) perfeita.”

A edição da Gradiva está em linha com os restantes livros da coleção, sendo estes dotados de capa dura brilhante, bom papel e boa encadernação. Relativamente à impressão, parece-me que houve alguns problemas com esta edição, pois várias cenas apresentam cores demasiado escuras. Não pude comparar com a edição original, mas muito me surpreende se tal também tiver ocorrido nessa edição. Algumas cenas noturnas desta edição da Gradiva tornam-se praticamente ilegíveis. Na página 62, por exemplo, a escuridão é tal que algumas vinhetas parecem ser todas pintadas a preto. Mas o problema é que não o são. Algo que poderia ter sido feito de forma mais cuidada, portanto.

Em suma, este Nestor Burma está em linha com os anteriores volumes lançados pela Gradiva. Lêem-se bem, mas não deslumbram. Não é que Moynot estrague a série, mas também não a eleva a um patamar de qualidade que seria desejável. E, no fim, é só isso: um conjunto de álbuns que se lêem bem… mas que não deslumbram.


NOTA FINAL (1/10):
6.9



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Nestor Burma #3 - O Afrontoso Cadáver da Plaine Monceau, de Emmanuel Moynot - Gradiva

Ficha técnica
Nestor Burma #3 - O Afrontoso Cadáver da Plaine Monceau
Autor: Emmanuel Moynot
A partir dos romances originais de: Léo Malet
E Baseado na adaptação para bd de: Jacques Tardi
Editora: Gradiva
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 29,70 x 22,50 cm
Lançamento: Julho de 2022

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