quarta-feira, 15 de julho de 2020

Análise: A Época das Rosas




A Época das Rosas, de Chloé Wary

A Época das Rosas, de Chloé Wary, foi um dos grandes vencedores do Festival de Banda Desenhada de Angoulême de 2020, tendo recebido 3 prémios, incluindo o Prémio do Público. Foi lançado há apenas duas semanas pela editora Planeta Tangerina, que já nos havia dado o fantástico Finalmente o Verão, entre outros títulos. A aposta desta editora em banda desenhada é bastante personalizada, tendo um pequeno catálogo de livros, mais destinados a um público juvenil feminino(?) e que, diria, vale bem a pena conhecer.

Quanto A Época das Rosas, sendo um trabalho vencedor de vários prémios, a minha expetativa era grande. A julgar pela capa e pelas pranchas partilhadas pela editora, confesso que não fiquei muito entusiasmado, pois a arte da autora Chloé Wary não me apela(va) muito. No entanto, admito que, olhando para o todo, esta é uma leitura bastante interessante, que vale a pena fazer.

Mas comecemos pelo menos bom. A arte. E dizer que a arte é o menos bom, talvez possa ser uma injustiça da minha parte. Até porque, verdade seja dita, o trabalho gráfico de Chloé Wary é consistente da primeira à última página. Este é um livro bastante colorido, com cores bem garridas, que parecem pintadas a caneta de feltro. Também é certo que a autora consegue ter aquilo que sempre considero muito importante num autor: o seu signature style, como dizem os ingleses. Um estilo que possa ser considerado – e identificado - como seu. E isso, Wary consegue ter, é verdade. Os desenhos têm um aspeto que parecem ter sido feitos por uma criança ou por um adolescente que está a aprender a desenhar.

Não sendo o meu estilo predileto, mas considerando-me um leitor com bastante abertura a novos géneros de arte na banda desenhada, diria, pois, que este tipo de ilustração tem uma personalidade tão vincada que poderá conquistar muitos leitores que procuram algo diferente mas também poderá afastar muitos outros leitores de bd, não tão abertos a ilustrações tão simplistas.

Com efeito, não deverá ser pelo estilo de desenho – que é apenas uma parte no conjunto de uma banda desenhada – que um livro deva ser considerado como "bom" ou "mau", a priori. No entanto, lá por ser positivo e legítimo que admitamos que o estilo de ilustração é uma questão de gosto pessoal, não quer dizer que não se encontrem algumas inconsistências ou imperfeições nas ilustrações de um autor, sejam elas do espectro do nosso gosto pessoal ou não.

E em A Época das Rosas, existem algumas coisas que me pareceram menos conseguidas. A linguagem corporal e mesmo a própria anatomia das personagens, parece-me algo descuidada. Mas é nas expressões faciais que, a meu ver, Wary mais dificuldades encontra. Com uma utilização da alteração do posicionamento das sobrancelhas das personagens para imprimir emoções de tristeza, raiva, medo, alegria, desafio, etc… fica a parecer que a restante cara das personagens não sofre qualquer alteração. Ou seja, se a autora quer alterar a emoção na face de uma personagem, limita-se a mudar a posição das sobrancelhas da mesma. E isso, parece-me manifestamente pouco e que faz com que a arte apresente algumas debilidades que tiram alguma da qualidade que seria esperada.

Mas também há coisas interessantes na arte gráfica de Wary. A utilização dos planos de câmara e planificação da própria bd apresentam uma dinâmica agradável. E gostei particularmente da forma como a autora dá cor aos céus. Ainda que considere que isso não foi bem conseguido na capa do livro, são várias as vinhetas ao longo do mesmo, onde me detive a observar a maneira interessante como os céus são coloridos.

Sublinhando agora o melhor desta obra, a verdade é que mesmo sendo um livro que tem uma personalidade gráfica tão vincada – que para alguns será linda e para outros nem tanto – é na história que nos oferece, que Chloé Wary mais brilha.

A Época das Rosas conta-nos a história das “Rosas de Rosigny” que são uma equipa de futebol feminino de um bairro dos subúrbios. E tendo conquistado bons resultados devido a serem um coletivo muito unido, as Rosas de Rosigny preparam a sua qualificação para o campeonato nacional de futebol feminino. Mas um corte nos subsídios no clube, faz com que a Diretora do mesmo, decida retirar a equipa feminina da competição, de modo a apostar todas as verbas de que dispõe na equipa masculina. Ora, isto faz com que a protagonista da história, Barbara, que também é capitã de equipa, se revolte com aquilo que considera uma injustiça e tudo faça para contrariar esta decisão unilateral.

Uma coisa que é muito bem feita neste livro, é a gestão do tempo e da trama por parte da autora. A narrativa vai avançando lentamente mas sem que seja de forma entediante, pois Wary sabe manter-nos interessados na trama, levando-nos a ler o livro num fôlego, de forma quase seguida. Por esse motivo, não há aqui o erro de avançar bruscamente a ação porque, mais do que os eventos que sucedem à protagonista e às suas colegas de equipa, aquilo que é melhor explorado nesta história é a soma de todos os elementos que circulam à volta de Barbara.

Se por vezes os adultos têm dificuldade em perceber – ou talvez relembrar? - porque é que os anos de adolescência são difíceis para os jovens, esta obra revela-o duma forma muito simples. É pela soma de “pequenos problemas” que as mentes jovens, menos experientes, criam um “grande problema”, levando a situações de ansiedade e depressão. A vida familiar, a vida amorosa, a vida escolar são coisas complexas para a vida dos jovens e que, somadas, se tornam mais difíceis de ultrapassar.

Mas o livro vai ainda mais fundo, aprofundando um daqueles problemas que considero dos mais profundos na condição humana: a desilusão perante o mundo e as injustiças que o mesmo promove. E, claro, a atitude (adulta) de saber viver com isso. Quando se é jovem, há uma sensação comum de se achar que, dando os passos necessários, se consegue alterar o mundo e as injustiças que nele habitam. Contudo, e com o passar do tempo, ser-se jovem também é descobrir como o mundo adulto funciona e como - senão sempre, muitas vezes pelo menos - é impossível mudar a ordem natural das coisas, mesmo quando ações concretas são feitas em prole da mudança. Acho que é a mensagem mais forte deste livro que o torna em muito mais do que um livro sobre uma rapariga injustiçada num mundo machista.

Por outras palavras, mais do que ser uma obra sobre ser-se jovem rapariga numa sociedade machista que (ainda) existe A Época das Rosas é sobre a passagem da vida de adolescente para a vida adulta e que revelações amargas isso acarreta. Neste caso concreto, a sensação de se ser jovem e de, repentinamente, sentir na pele uma injustiça sem razão que a sustente. E é por este motivo, que considero este livro como sendo triste e que nos deixa um certo sabor amargo. Também por esta razão, é uma obra que, embora a editora sugira que é “recomendada para leitores maiores de 15 anos” dando, de certa forma, a ideia de que é um livro juvenil, parece-me que as mensagens que o mesmo encerra são mais adultas do que juvenis. 

No final, temos um livro interessante - embora não perfeito - que sabe levantar boas questões para reflexão. 



NOTA FINAL (1/10):
7.7


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Ficha técnica
A Época das Rosas
Autora: Chloé Wary
Editora: Planeta Tangerina
Páginas: 240, a cores
Encadernação: Capa mole
Lançamento: Junho de 2020

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