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quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Análise: 1984 - Novela Gráfica

1984 - Novela Gráfica, de Matyás Namai - Minotauro - Almedina

1984 - Novela Gráfica, de Matyás Namai - Minotauro - Almedina
1984 - Novela Gráfica, de Matyás Namai

Desde que passaram os 70 anos da morte de George Orwell - o que implica que a sua obra passa a ser do domínio público e, portanto, livre de ser adaptada por qualquer pessoa que o pretenda - o seu mais célebre romance, 1984, recebeu, nada mais nada menos, do que seis(!) adaptações para banda desenhada! A de Fido Nesti (2020), considerada a "oficial", a que se seguiram as adaptações de Frédéric Pontarolo (2021), de Xavier Coste (2021), de Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane (2021), de Jean-Christophe Derrien e Rémi Torregrossa (2021) e, mais recentemente, a do autor checo Matyás Namai, que a editora Minotauro publicou há poucos dias por cá.

Das seis versões, e contando com esta versão que vos trago hoje, já quatro livros foram publicados em Portugal. A esse propósito - e achando que dificilmente se lançaria uma quarta versão, até fiz um artigo sobre os três livros editados por cá, tentando apresentar os prós e os contras de cada um dos livros.

Mas, caramba, quatro adaptações para banda desenhada da mesma obra lançadas em Portugal com tão pouco espaçamento temporal entre si? 

Vamos lá por partes. 

1984 - Novela Gráfica, de Matyás Namai - Minotauro - Almedina
Sou um confesso adepto de 1984 e considero-o um dos melhores livros alguma vez escritos até hoje. Toda a distopia imaginada por George Orwell há tantas décadas parece-me verdadeiramente visionária e prova disso é que a obra continua a ser considerada - não apenas por mim - como uma das mais influentes e sombrias distopias da literatura moderna. É daqueles livros que considero que toda a gente os deve conhecer/ler. Portanto, enalteço adaptações para qualquer suporte. Para banda desenhada, ainda mais. Mas, convenhamos, seis adaptações da mesma obra para banda desenhada, das quais quatro delas são lançadas em Portugal? Não será demasiado, tendo especialmente em conta que o mercado nacional é pequeno e que há, em termos de banda desenhada, tanta coisa por editar ainda? Deixo a questão a bailar no ar...

Avançando para a versão que aqui vos trago hoje, de Matyás Namai, penso que é um trabalho bem conseguido e que recupera bastante bem a essência do livro de Orwell. 

Há sempre muito para dizer sobre um livro tão especial e complexo como este, mas vou-me centrar no mais relevante. Acompanhamos a história do protagonista Winston Smith, que se passa num futuro totalitário, numa sociedade em que o Estado exerce um controlo absoluto sobre todos os aspetos da vida dos cidadãos, incluindo os seus pensamentos. A figura que encabeça todo este regime totalitário, liderado pelo Partido, é o líder quase divino chamado Big Brother - O Grande Irmão. O Partido controla todas as esferas da vida social, política e económica, usando a vigilância constante e a repressão de qualquer forma de dissidência. A sociedade é dividida entre os Proletários (classe trabalhadora) e os membros do Partido, sendo estes últimos privilegiados, mas, ainda assim, controlados e vigiados.

1984 - Novela Gráfica, de Matyás Namai - Minotauro - Almedina
Winston Smith é um funcionário do Ministério da Verdade, que tem como principal tarefa alterar documentos históricos para que se ajustem à versão oficial do Partido. O Partido mantém, portanto, o poder por meio da manipulação da informação, criando uma realidade paralela e continuamente alterando o passado. 

Embora Winston seja um membro do Partido, começa a questionar o regime. Passa a ter um diário secreto onde escreve os seus pensamentos proibidos e, quando conhece Julia, o seu mundo torna-se em algo muito mais pleno de felicidade. Se é que a felicidade num mundo como estes é permitida. Não só Júlia é uma amante despudorada, como também tem pensamentos contra o regime, o que ajuda a que Winston não se sinta tão sozinho. Mesmo assim, o casal acaba descoberto tendo, depois, de se submeter às punições e torturas do Partido, que culminam numa profunda e irremediável lavagem cerebral.

A história, já se sabe, toca nos temas do totalitarismo, da opressão, da manipulação da linguagem e da verdade, da vigilância ininterrupta dos cidadãos, do controlo psicológico e da anulação de todas as liberdades que, na sociedade que vivemos, achamos garantidas.

1984 - Novela Gráfica, de Matyás Namai - Minotauro - Almedina
Mas isto tudo, já nós sabíamos com a leitura do livro original de George Orwell. Ficámo-lo a saber ainda melhor com a leitura das outras novelas gráficas, supramencionadas, que adaptaram a obra e, no caso deste livro de Matyuas Namai, vimos reiterada toda a mensagem do texto original de Orwell.

Texto esse que está, diga-se, bem captado por Namai nesta adaptação. O livro do autor checo prima por nos remeter de forma credível para o universo de Orwell. Capta muito bem a história e até me atrevo a dizer que, mesmo que um leitor não tenha lido o livro original, fica com uma ideia muito concisa e pertinente da obra se apenas tiver lido esta banda desenhada. A história, as personagens, os seus principais momentos, as peripécias que acontecem aos protagonistas e até a própria ideologia do livro - que é bastante complexa, relembre-se - aparece-nos bem explanada. E tanto assim é, que até peca por excesso, tendo informação a mais do que o necessário.

E isto leva-me a um tema que considero verdadeiramente lastimoso para este livro... há demasiado texto! Não me refiro ao texto dos balões, mas ao texto que nos é dado em prosa. Quando Winston começa a ler o livro que lhe é oferecido por Goldstein, o leitor desta banda desenhada tem acesso a longas e enfastiantes 19(!) páginas de texto corrido, super abstrato e super complexo. Se, na minha análise à adaptação de Fido Nesti, defendi que, dada a complexidade deste livro, algumas páginas com texto eram admissíveis e até bem-vindas, no caso deste livro de Matyás Namai, penso que 19 páginas, e ainda por cima a meio da trama, quase "matam" a pretensão da obra. Se o autor queria dar ao leitor todas estas informações, poderia tê-lo feito no final do livro, enquanto caderno de extras. Ou se quisesse colocar páginas de texto corrido no meio da história, poderíamos aceitar umas quatro ou cinco. Agora, 19 páginas de informação e assim, no meio da história, parece-me um erro capital. E custa-me a crer que ninguém da proximidade do autor lhe tenha dado este sábio conselho.

1984 - Novela Gráfica, de Matyás Namai - Minotauro - Almedina
Mas avancemos para o melhor: o desenho da obra. Gostei bastante da abordagem gráfica que Namai faz a 1984. No seu traço fino realista e, por vezes, estilizado, o autor oferece-nos um belíssimo trabalho a preto e branco onde, em muitos momentos, a cor vermelha também entra para emprestar algum dramatismo à trama. Por vezes, o traço do autor é tão fino que até faz os desenhos parecerem gastos e, consequentemente, vintage. A expressividade das personagens, a planificação com alguma dinâmica e a utilização de planos de câmara diversificados dão, por outro lado, um aspeto atual, cinematográfico e moderno ao todo.
No final, parece-me que há um equilíbrio gráfico bem conseguido.

Olhando para o trabalho de edição da Minotauro, editora não muito habituada à publicação de banda desenhada (tendo, no entanto, publicado "recentemente" as biografias em BD de Johnny Cash e de Nick Cave, de Reinhard Kleist), neste 1984 - Novela Gráfica somos presenteados com uma edição em capa mole, com badanas, e um papel decente no miolo. No final, há um muito generoso dossier de extras, onde podemos tomar contacto com os esboços de capas e personagens, dos Ministérios, dos uniformes, do processo de construção de uma página, entre outras informações úteis e interessantes. Se este extra acrescenta valor à edição, há dois problemas de edição que o livro apresenta e que devem ser referidos: por um lado, a legendagem apresenta algumas debilidades, especialmente na font escolhida; por outro lado, a mancha de impressão é demasiadamente grande para o formato e encadernação escolhidos para este livro, o que faz com que se percam muitos detalhes nas ilustrações - e até nas legendas - que aparecem situados na margem interior do livro. Coisas relativamente simples mas que, infelizmente, não foram asseguradas nesta edição.

Em jeito de conclusão, e tendo que assinalar que as editoras portuguesas estão a abusar na publicação de bandas desenhadas que adaptam o 1984 de George Orwell - o que pode ser lastimoso para a evolução positiva da própria BD em Portugal -, concedo que esta nova e quarta(!) adaptação da obra maior de Orwell cumpre bem os seus pressupostos, continuando a alertar-nos sobre os perigos do autoritarismo, da manipulação da verdade, da propaganda e da censura para a liberdade individual. E, não esqueçamos, especialmente nos dias que correm, 1984 mantém-se atual e obrigatório.


NOTA FINAL (1/10):
8.3



Nota: Por indisponibilidade de imagens das pranchas do livro em português, vi-me forçado a utilizar pranchas da versão em inglês do livro.



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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1984 - Novela Gráfica, de Matyás Namai - Minotauro - Almedina

Ficha técnica
1984 - Novela Gráfica
Autor: Matyás Namai
Adaptado a partir da obra original de: George Orwell
Editora: Minotauro
Páginas: 292 a preto e branco (com detalhes a vermelho)
Encadernação: Capa mole
Formato: 17 x 26 cm
Lançamento: Outubro de 2024

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Análise: Johnny Cash: I See a Darkness

Johnny Cash: I See a Darkness, de Reinhard Kleist - Minotauro

Johnny Cash: I See a Darkness, de Reinhard Kleist - Minotauro
Johnny Cash: I See a Darkness, de Reinhard Kleist

A editora Minotauro, do Grupo Editorial Almedina, sem grande experiência no lançamento de banda desenhada, em boa hora apostou no lançamento das duas biografias do autor alemão Reinhard Kleist. Lançou este Johnny Cash: I See a Darkness e, também Nick Cave – Mercy On Me, que já aqui analisei há uns meses.

Qualquer um dos livros é absolutamente fantástico e totalmente recomendável. E havendo algumas diferenças entre ambos, posso dizer que os dois devem ser lidos.

A história da ascensão da música pop norte-americana passa, entre outros vultos de renome e importância, por Johnny Cash. Nascido em 1932 no Sul dos Estados Unidos, Cash cresceu numa família pobre, trabalhando nos campos de algodão. Começou a tocar guitarra durante o serviço militar na Alemanha e, já em casa, tratou de gravar as suas primeiras canções. O seu talento eventualmente foi descoberto e, a partir de 1955, passou a ser um artista de grande sucesso popular e artístico. Agradava às massas, mas também agradava aos seus pares e crítica musical. Mas, mesmo parecendo um homem simples, pelo menos se olharmos para as suas canções, Johnny Cash tinha uma aura pesada, triste e frágil. E a entrada no mundo do álcool e drogas foi apenas um pequeno passo, que foi revelando a sua natureza autodestrutiva e melancólica.

Johnny Cash: I See a Darkness, de Reinhard Kleist - Minotauro
No entanto, parece que há sempre uma luz ao fim do túnel para cada alma atormentada. E June Carter pode muito bem ter sido essa luz na imensa escuridão que circundava Cash. Johnny apaixonou-se por June, que também era cantora, e que acabou mesmo por dizer “sim” ao pedido de Cash. Acabaram por casar. Daí, veio uma certa calmaria que voltou a dar estabilidade à vida de Johnny Cash.

De assinalar também, é o facto de o livro não seguir uma ordem cronológica rígida. Em vez disso, há vários saltos no tempo, onde se destaca os momentos-chave na vida de Cash e onde há espaço para vermos algumas das interações que o músico teve com outros nomes grandes do seu tempo, como Elvis Presley ou Bob Dylan.

Para além da história principal, o autor joga também com uma segunda narrativa, ao colocar o leitor próximo da história de vida de um dos presidiários de Folsom, que encontra redenção na obra de Johnny Cash e que sonha com o momento em que poderá vê-lo a atuar na prisão, diante de si.

Johnny Cash: I See a Darkness, de Reinhard Kleist - Minotauro
Reinhard Kleist leva-nos por alguns dos momentos mais badalados na vida do músico, entre os quais se destaca a sua emblemática atuação na Prisão de Folsom, que viria a ser comentada um pouco por todo o mundo. Mas se Kleist nos oferece os momentos mais marcantes na vida de Johnny Cash, vai além disso e chega mesmo a dar-nos representações visuais de algumas das letras das músicas mais relevantes do cantautor. E, é especificamente nesse ponto, em que Kleist se permite interpretar certas músicas através do seu cunho pessoal, que este livro se torna fértil em momentos são belos, únicos e poéticos. Até porque, mesmo em termos de traço, o autor utiliza por diversas vezes, um estilo diferente quando está a interpretar as letras. O que atribui dinâmica e diversidade a toda a obra.

Aparentemente, Kleist sentiu-se tão bem nesta vertente que, mais tarde, quando fez a biografia dedicada a Nick Cave, até levou estas suas interpretações pessoais das letras das músicas a um extremo maior. Quanto a mim, ultrapassou alguns dos limites nessas interpretações, que me levaram a achá-las um pouco over the top, como dizem os ingleses. Neste I See a Darkness, ou porque Kleist não se sentia tão à vontade para o fazer, ou porque as próprias letras de Johnny Cash, sendo mais literais e simples que as de Nick Cave, assim o pediam, o autor da biografia parece ter, pelo menos quanto a mim, achado a dose certa para essa interpretação das músicas e respetivas letras. Portanto, na minha opinião, em termos de história, e embora também goste muito de Mercy On Me, este I See a Darkness consegue funcionar ainda melhor.

Johnny Cash: I See a Darkness, de Reinhard Kleist - Minotauro
Já quanto às ilustrações, a minha opinião é diferente. Parece-me que, compreensivelmente, há uma evolução positiva e natural do livro dedicado a Cash para o livro sobre Cave. Até porque o livro de Cash foi feito anteriormente em relação ao outro. Mesmo assim, os desenhos do autor, num traço a preto e branco que, com as devidas distâncias, me lembra por vezes o desenho clássico de Will Eisner, são muito bem executados e encaixam muito bem na própria história que nos é dada sobre Cash.

Em termos de edição, o livro apresenta capa mole baça e um papel baço decente. No final do livro, ainda há uma generosa galeria de 12 páginas que nos oferece belas ilustrações e estudos de Reinhard Kleist. Infelizmente, em termos de tradução apercebi-me que certas expressões estavam mal-adaptadas para o português de Portugal. Um pequeno comentário: tendo em conta que o título do livro é em inglês, julgo que teria sido boa ideia que a editora portuguesa tivesse decidido incluir a informação “edição portuguesa” algures na capa. Deste modo, há o risco de muitos potenciais interessados no livro não lhe prestarem atenção por confundirem a edição portuguesa com a edição americana da obra.

Em suma, este é um livro altamente recomendado, não só para admiradores da lenda que foi (e é) Johnny Cash, como também para os que apreciam uma bela história salpicada por altos e baixos. De facto, Kleist revela-se um exímio contador das histórias de vida de grandes astros da música contemporânea. Sem "navegar tanto na maionese" como faz na biografia de Nick Cave, Kleist consegue contar grande parte da vida de Johnny Cash, enquanto interpreta com poesia visual as famosas letras das canções deste músico incontornável. Um livro espetacular e emocionante!


NOTA FINAL (1/10):
9.5



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Johnny Cash: I See a Darkness, de Reinhard Kleist - Minotauro

Ficha técnica
Johnny Cash: I See a Darkness
Autor: Reinhard Kleist
Editora: Minotauro
Páginas: 224, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 17 x 24 cm
Lançamento: Setembro de 2022

segunda-feira, 3 de abril de 2023

Análise: Nick Cave: Mercy on Me

Nick Cave: Mercy on Me, de Reinhard Kleist - Minotauro (Almedina)

Nick Cave: Mercy on Me, de Reinhard Kleist - Minotauro (Almedina)
Nick Cave: Mercy on Me, de Reinhard Kleist

Foi com uma dose dupla de surpresa e de satisfação que, sensivelmente a meio do ano passado, tomei conhecimento de que a Minotauro – uma chancela do Grupo Almedina – iria lançar banda desenhada. E, digamos, fê-lo logo com duas obras de qualidade inegável: Johnny Cash: I See a Darkness e Nick Cave – Mercy On Me. Ambas as obras são biografias de músicos e ambas são da autoria do autor alemão Reinhard Kleist de quem, por cá, já foi publicada, pela editora Polvo, a sua obra O Pugilista.

O livro dedicado a Johnny Cash já eu bem conhecia por ter a edição inglesa do mesmo. De qualquer maneira, num futuro próximo, publicarei também a minha análise a esse livro. Por agora, analisarei Nick Cave – Mercy On Me que ainda não tinha lido até há alguns meses.

Antes de qualquer coisa mais, permitam-me desde já dissipar algumas críticas incautas que li, por esse mundo da internet, que se queixavam de que o título da obra não tinha sido traduzido para português. Meus caros, os títulos das músicas não se traduzem. E Mercy On Me é uma das músicas mais célebres de Nick Cave. Bem, tecnicamente, a música chama-se apenas “Mercy”, mas o seu verso mais marcante é exatamente “Mercy on Me”. Traduzir o nome da música – ou mesmo o verso – seria um erro, quanto a mim. E, já agora, I See a Darkness, é o título de uma música cuja versão de Johnny Cash se tornou célebre.

Nick Cave: Mercy on Me, de Reinhard Kleist - Minotauro (Almedina)
Não obstante, concedo que talvez a Minotauro pudesse ter colocado uma nota a dizer "edição portuguesa" na capa. Isto para que o público perceba, de forma inequívoca, que se trata de uma obra em português.

Mas, avancemos.

Muitas vezes, quer no cinema, quer na literatura, quer, até, na banda desenhada, as biografias de pessoas que se tornaram célebres pelos seus feitos são apenas um pretexto e/ou um engodo para lançar uma obra de qualidade medíocre e tentar recolher os dividendos da mesma. Ora, não é nada disso que se passa com este Nick Cave: Mercy on Me

Pelo contrário, estamos perante uma obra de qualidade superior. E se é justo dizer que os apreciadores da obra musical e poética de Nick Cave poderão mergulhar com mais fulgor nesta narrativa corajosamente arquitetada por Reinhard Kleist, a verdade é que o livro também vale muito por si. Mesmo que uma pessoa não goste das músicas de Nick Cave ou que, se tal for possível, não conheça nada sobre o músico australiano, é bem provável que, sendo um adepto de boa banda desenhada, muito aprecie esta bela obra.

Nesta biografia, que traça o percurso de Nick Cave desde os seus tempos de criança na Austrália, passando pelos seus primeiros anos de artista, primeiro nos The Birthday Party e depois nos The Bad Seeds, Kleist não nos oferece apenas um conjunto de momentos chave na vida do artista. Ao invés, mergulha com forte ímpeto na vida e na psique do autor. Este é, afinal de contas, um livro pesado, sério e adulto, que nos mostra que lutas Nick Cave teve que travar ao longo do seu percurso. E não só com a sua envolvente mas, de forma interior, consigo mesmo. E essas são sempre as batalhas mais difíceis de travar.

Nick Cave: Mercy on Me, de Reinhard Kleist - Minotauro (Almedina)
Nick Cave não foi apenas um músico. Foi um poeta, um romancista e até chegou a ser ator. A sua criação nunca foi "mais do mesmo". O autor tinha muita consciência de que queria ser um artista e marcar as pessoas de alguma forma. E, através de uma busca incessante, por vezes polémica, foi acabando por conseguir ser impactante e original na arte contemporânea. Ainda hoje é considerado um dos nomes maiores no seu género.

A narrativa deste livro não é muito linear - por vezes até é algo caótica - avançando e recuando no tempo. Com efeito, aqui e ali, a leitura torna-se um pouco confusa, reconheço. E soma-se ainda uma outra coisa à narrativa, que o autor já havia feito no livro que dedicou à biografia de Johnny Cash, que são as interpretações visuais, em jeito de "mini-história", que o autor faz das canções do músico. Daquelas que são mais icónicas. Isso é algo que, por vezes, consegue ser maravilhoso e carregado de uma enorme poesia visual e nos faz sorrir perante a capacidade de “contador de histórias” que Nick Cave tem e a capacidade de "intérprete de histórias" que Reinhard Kleist tem.

Ora, se isto pode ser considerado como algo positivo para o livro, também há o reverso da medalha. É que, por vezes, pareceu-me que Kleist se deixa levar em demasia nas suas próprias conjeturas sobre as músicas e o lirismo de Nick Cave. Como se “navegasse em demasia na maionese”, vá. 

É claro que, se Nick Cave tivesse oficializado estas interpretações de Kleist faz como sendo certas, este meu comentário estaria redondamente equivocado. Mas como não foi isso que aconteceu, os leitores que conheçam bem a obra de Nick Cave poderão sempre franzir as sobrancelhas e dizer: “Humm… não foi assim que interpreto essa música”. E será legítimo que o façam. Como, lá está, também é legítimo que Kleist tenha interpretado as músicas à sua maneira. Até porque esta é a sua visão sobre o artista. Mas, claro, será sempre um “pau de dois bicos”. Quanto a mim, adoro algumas das interpretações que Kleist faz – até porque as mesmas são sempre acompanhadas por uma alteração ao nível visual – mas, noutros casos, considero que Kleist divaga um pouco em demasia.

Nick Cave: Mercy on Me, de Reinhard Kleist - Minotauro (Almedina)
Em termos gráficos, o livro é sublime. Com um excelente domínio do preto e branco – e do bom aproveitamento do espaço negativo que isso implica – Kleist oferece-nos uma obra que é um mimo para o olhar. A representação física e facial de Nick Cave capta-o de forma exímia e, claro, mesmo as outras personagens que vão aparecendo na história estão todas muito bem representadas.

A planificação é dinâmica e cinematográfica, com cada a página a ter a disposição certa para aquilo que importa passar ao leitor. O livro dedicado a Johnny Cash já é muito bonito, mas não tenho dúvidas de que, visualmente falando, este Mercy on Me ainda o consegue superar, pois temos um Reinhard Kleist mais confiante, inspirado e consciente das suas capacidades de desenho.

Em termos de ilustração, há ainda espaço para algumas variações no estilo de desenho, onde passamos de um registo a preto e branco puro para um estilo onde os cinzentos também marcam presença. Estas variações ocorrem nas partes em que o autor interpreta as músicas. As tais "mini-histórias". Isto vem sublinhar, ainda mais, o forte arsenal de soluções gráficas - e sempre inspiradas – do autor. Um verdadeiro mimo para os olhos!

Quanto à edição da Minotauro, o livro apresenta capa mole baça, com detalhes a verniz e com badanas. O papel é baço e de uma qualidade bastante aceitável, embora me pareça que poderia ser um pouco mais espesso. Tirando esse pormenor, o livro apresenta bom grafismo, boa encadernação e boa impressão. Que estes dois livros de Kleist que a editora portuguesa publicou por cá, sejam apenas o início de uma aposta continuada em banda desenhada de qualidade!

Em suma, Nick Cave: Mercy on Me é uma obra espetacular em diversos níveis e que já merecia estar editada em Portugal há muito tempo! Felizmente apareceu a Minotauro para colmatar essa falha no nosso mercado. Quer na história, intensa e profunda, que nos é dada, quer nas belíssimas ilustrações, este livro é obrigatório!


NOTA FINAL (1/10):
9.4


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Nick Cave: Mercy on Me, de Reinhard Kleist - Minotauro (Almedina)

Ficha técnica
Nick Cave: Mercy on Me
Autor: Reinhard Kleist
Editora: Minotauro
Páginas: 328
Encadernação: Capa mole
Lançamento: Outubro de 2022

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Biografia em BD de Nick Cave é lançada em Portugal!



Depois do lançamento de Johnny Cash: I See a Darkness, a editora Minotauro, do grupo Almedina, regressa para mais uma banda desenhada da autoria de Reinhard Kleist! O livro será editado no próximo dia 27 de Outubro!

E desta vez, estamos perante a biografia do inconfundível Nick Cave!

O que são grandes notícias para os adeptos do músico e, convenhamos, para os adeptos de uma boa banda desenhada!

Mais abaixo, deixo-vos com algumas imagens promocionais em inglês e com a sinopse da obra.


Nick Cave: Mercy on Me, de Reinhard Kleist

Músico, romancista, poeta, ator: Nick Cave é o verdadeiro homem da Renascença. A sua vasta produção artística, sempre intransigente, hipnótica e intensa, define-se no essencial por um extraordinário dom para a narrativa.

Empregando um elenco de personagens inspirados na música e na escrita de Cave, a novela gráfica de Reinhard Kleist pinta um expressivo e cativante retrato de um artista incomparável. 

Kleist captura a infância de Cave na Austrália; os seus primeiros anos de artista nos "The Birthday Party"; os altos mais sublimes de seu sucesso com os "The Bad Seeds"; e as várias lutas no longo do caminho para a auto-expressão. "Nick Cave: Mercy on Me", como as canções de Cave, é eletrizante, sentimental, mórbido e cómico, mas sempre cativante.
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Ficha técnica
Nick Cave: Mercy on Me
Autor: Reinhard Kleist
Editora: Minotauro
Páginas: 328
Encadernação: Capa mole
PVP: 21,90€

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Pára tudo! A bd biográfica sobre Johnny Cash vai ser publicada em Portugal!


Mas que bela notícia para começar o dia!

A editora Minotauro, do Grupo Editorial Almedina, prepara-se para editar Johnny Cash: I See a Darkness, de Reinhard Kleist, ainda neste mês de Setembro!

O livro já se encontra disponível em pré-venda no site da editora e deverá chegar a todas as livrarias a partir de 29 de Setembro.

Conheço bem a obra e coloco-a como, possivelmente, a melhor biografia de um músico em banda desenhada!!! Obrigatório!

Isto é uma fantástica notícia que merece as minhas vénias! 

Mas querem saber mais ainda? A editora Minotauro também editará, do mesmo autor Reinhard Kleist, a biografia que o mesmo fez sobre Nick Cave, denominada originalmente Mercy On Me! Para esta segunda obra ainda não há data mas deve estar para breve.

Abaixo, deixo-vos com a sinopse de Johnny Cash: I See a Darkness e com algumas imagens promocionais da versão original da obra.


Johnny Cash: I See a Darkness, de Reinhard Kleist

Nascido em 1932 no Sul dos Estados Unidos, o jovem JR, mais conhecido por Johnny Cash, cresce numa família pobre, trabalhando nos campos de algodão. Começa a tocar guitarra durante o serviço militar na Alemanha e, já em casa, grava as primeiras canções. O seu talento é descoberto e, a partir de 1955, goza de grande sucesso popular e artístico. 
É durante a década de 60 que Cash mergulha no mundo do álcool e das drogas, revelando um carácter autodestrutivo e atormentado. O seu casamento com June Carter, cantora country também muito famosa, em 1968, irá trazer um novo equilíbrio à sua vida privada e profissional.

Apelidado de «homem de negro», Johnny Cash navegou, durante toda a sua vida, no fio da navalha, entre excesso, violência, destruição e música, amor, sucesso. Se a sua complexa personalidade muitas vezes o fez cair, certo é que também o levantou sempre.

«Um tour de force.» The Guardian

«O homem de negro tornou-se no homem a preto e branco. Um excelente acréscimo à mitologia em torno de Cash.» Financial Times
«Muito superior aos estereótipos que os leitores costumam ter sobre banda desenhada.» The Independent

«Cash pode já ter morrido há vários anos, mas o homem de negro está bem vivo.» The Washington Post


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Ficha técnica
Johnny Cash: I See a Darkness
Autor: Reinhard Kleist
Editora: Minotauro
Páginas: 224, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 17 x 24 cm
PVP: 21,90€