quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Novo volume de Nevada já está em todas as livrarias do país!



O segundo volume de Nevada, intitulado Estrada 99, dos autores, Fred Duval, Jean-Pierre Pécau e Colin Wilson, foi originalmente lançado pela editora A Seita durante o Amadora BD. Por agora, já se encontra à venda em todas as livrarias do país.

Este é o segundo volume de uma série que está pensada para ter quatro tomos. Para melhor conhecimento da mesma, convido-vos a (re)lerem a análise que fiz ao primeiro volume, A Estrela Solitária.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora e com algumas imagens promocionais.

Nevada #2 - A Estrada 99, de Fred Duval, Jean-Pierre Pécau e Colin Wilson

Nevada Marquez oscila entre dois mundos: o das recordações das conquistas do Oeste, e um outro, mais impiedoso, de Hollywood e da indústria cinematográfica acabada de nascer. Encarregado das missões difíceis e dos negócios sujos dos Estúdios, Nevada está em São Francisco para recolher uma encomenda que deverá ser entregue em Los Angeles a uma personagem importante de Hollywood. Infelizmente o conteúdo do pacote atraiu a atenção das tríades de Chinatown, e a viagem para Sul na estrada 99 vai ser mais longa - e perigosa - do que ele esperava...

O regresso da nova série que já se tornou um clássico da BD franco-belga, um título que nos transporta para um mundo de aventuras pulp no Oeste americano nos primórdios da indústria do cinema, nos anos anteriores aos da Grande Depressão.

Nevada é uma série que joga com duas atmosferas e dois géneros distintos: aventuras policiais ou com um toque de thriller, ao estilo dos pulps antigos, mas ambientadas num cenário distintamente western, que nos leva aos vastos espaços do Oeste americano. Depois de um primeiro volume cuja acção se desenrolava no México, esta segunda aventura tem características mais urbanas, com a acção a iniciar-se na cidade de São Francisco e a prosseguir ao longo da Estrada 99, a recém-inaugurada estrada que liga São Francisco a Los Angeles.

Um policial e thriller dos Anos Loucos disfarçado de western moderno! Uma série que se articula à volta de histórias auto-conclusivas, que podem ser lidas separadamente umas das outras, embora tenham alguns eixos centrais que passam de álbum para álbum.
“Aventura, sim, e na grande tradição da banda desenhada de acção, mas aventura temperada com verdades históricas palpáveis, com uma atmosfera real, que dá vida à intriga em que os autores se divertem a misturar os géneros, e com o desenho excelente de Colin Wilson, como sempre.”Jacques Schraûwen - ActuaBD

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Ficha técnica
Nevada #2 - A Estrada 99
Autores: Fred Duval, Jean-Pierre Pécau e Colin Wilson
Editora: A Seita
Páginas: 56, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 23 x 32 cm
PVP: 17,95€

Análise: Lucky Luke - A Arca de Rantanplan

Lucky Luke - A Arca de Rantanplan, de Achdé e Jul - ASA

Lucky Luke - A Arca de Rantanplan, de Achdé e Jul - ASA
Lucky Luke - A Arca de Rantanplan, de Achdé e Jul

Tinha muitas expetativas para este novo álbum de Lucky Luke, lançado em Outubro pela ASA, especialmente por dois motivos: primeiro, porque gostei bastante do último álbum da dupla Achdé e Jul que foi Um Cowboy no Negócio do Algodão. Achei que, com esse livro, o famoso cowboy da banda desenhada voltou à boa forma com um volume bastante bem conseguido a todos os níveis. Por outro lado – e já aqui o escrevi diversas vezes – sou um grande fã da personagem de Rantanplan. Há várias personagens que se tornaram emblemáticas na série de Lucky Luke, mas, para mim, Rantanplan, “o cão mais estúpido do faroeste” é, sem grande concorrência, a personagem mais divertida da série. Adoro-a! E sabendo que iria figurar na história - tendo até o destaque de ter o seu nome no título do álbum - deixou-me muito entusiasmado.

Lucky Luke - A Arca de Rantanplan, de Achdé e Jul - ASA
Depois de feita a leitura, as minhas expetativas para este A Arca de Rantanplan foram correspondidas a metade. Não é um álbum tão bom como eu desejava – e fica vários furos abaixo de Um Cowboy no Negócio do Algodão – mas é, mesmo assim, uma boa leitura e um livro que vai agradar aos muitos fãs que Lucky Luke tem pelo mundo e, concretamente, em Portugal.

Como tem sido feito pela dupla de autores Achdé e Jul, há também neste A Arca de Rantanplan uma tentativa de pegar num tema da atualidade e transpô-lo para o universo de Lucky Luke. Isso traz sempre uma certa pertinência e valor histórico aos álbuns do célebre cowboy, já que, acabam sempre por nos fazer aprender algo mais sobre determinado tema. No caso deste livro, o tema é a proteção dos direitos dos animais e a sugestão de, para garantia dos mesmos, uma adoção do vegetarianismo. O tema é, portanto, mais do que atual.

Ora, no universo dos cowboys, se há coisas onde os humanos não perdiam tempo era com os direitos dos animais. Cavalos, vacas, ovelhas, bisontes… eram vistos como matéria-prima para o enriquecimento dos seus proprietários. Aliás, basta pensarmos no próprio nome “cowboy” (ou “vaqueiro”, em português) para percebermos que os animais eram a fonte de rendimento de uma grande parcela da população. Ainda o é, de um modo mais industrializado e capitalista. Disso não tenhamos quaisquer dúvidas.

No entanto, e no longínquo ano de 1866, Henry Bergh criou a USPCA, a “Sociedade Americana para a Prevenção da Crueldade contra os Animais”.

Lucky Luke - A Arca de Rantanplan, de Achdé e Jul - ASA
E, com base nisso, o argumentista Jul traz-nos a personagem de Ovide Byrde que, em pleno faroeste, cria a Sociedade Protetora dos Animais do Condado de Cattle Gulch, cujo próprio nome, “Ravina do Gado”, já nos faz antever os problemas que surgirão desta iniciativa. E assim é. Devido às suas atividades de tentativa de salvar todo e qualquer animal, Ovide Byrde passa a ser perseguido pela população local, estando à beira de um linchamento público quando Lucky Luke esbarra com a situação e resolve intervir, em auxílio do desamparado Byrde.

Byrde é um homem à frente do seu tempo e, como tal, age de um modo incompreensível para os demais: acolhe na sua quinta todos os animais feridos ou abandonados. Mas é quando Ovide Byrde descobre, devido a Rantanplan, uma grande quantidade de ouro, que os eventos começam a ser alterados. A novidade sobre a riqueza do protetor dos animais espalha-se e, em pouco tempo, surge em cena Tacos, um presidiário que é posto em liberdade e que logo encabeça um plano para extorquir a fortuna a Ovide Byrde. Em nome do bem-estar animal, e com a ajuda de Tacos, Ovide Byrde passa a levar ao extremo as suas metodologias em defesa dos animais.

Se até aqui me parecia que o enredo, sendo simples, estava bem pensado por Jul, depois disto o autor introduz os índios nesta história, o que dá uma clara sensação de filler ou, em bom português, dá uma clara sensação de “enchimento de chouriços”. É certo que o pequeno índio Rabanete Ágil procura ser o estereótipo de um jovem que, de um momento para o outro, começa a perceber a importância da vida dos animais e tenta operar, em si e no mundo à sua volta, uma mudança drástica, recusando tudo o que é carne e defendendo uma alimentação vegetariana. Mas mesmo permitindo alargar um pouco o espetro da temática do livro, parece-me que o autor o faz de forma um pouco atabalhoada. E é, pois, a partir deste ponto que a história perde fulgor. Não fica estragada, mas perde o bom ritmo que levava, parecendo algo desinspirada e até algo forçada daqui em diante.

Lucky Luke - A Arca de Rantanplan, de Achdé e Jul - ASA
Convém relembrar ainda que entre os animais acolhidos na sua quinta por Byrde está Rantanplan que, naturalmente, tem uma visão deturpada e completamente alheada da realidade que o envolve. Percebo que Rantanplan sempre teve um papel secundário, de comic relief, nas histórias de Lucky Luke (excetuando, claro, quando recebeu uma série própria, à margem da série principal). Não obstante, e até pelo título do livro – que acaba por ser enganador neste ponto - gostaria de ter visto Rantanplan a ter mais destaque nesta história. Continua a ter pensamentos completamente absurdos que me fizeram rir várias vezes, mas acaba por desempenhar um papel mais secundário na trama principal. O seu aparecimento é bom, mas subaproveitado, quanto a mim.

Voltando à história, caberá a Lucky Luke tentar restabelecer a justiça e tentar reconciliar todas as partes porque dizem que “a virtude está no meio”. E mesmo sem ter um argumento com a coesão desejada, gostei da mensagem do álbum de que os direitos dos animais deverão ser protegidos e tidos em conta pela humanidade, mas também não é forçando essa mensagem, de forma artificial, e da noite para o dia, que se consegue mudar de forma positiva para todos. A mudança é um processo gradual e é com isso em mente que conseguimos operá-la da melhor forma. Ora, se pensarmos que Lucky Luke (também) é uma série infanto-juvenil, que bela e madura mensagem este álbum consegue proporcionar.

Lucky Luke - A Arca de Rantanplan, de Achdé e Jul - ASA
Olhando para os desenhos de Achdé, não tenho muito a acrescentar face àquilo que já escrevi na análise ao anterior álbum da série, portanto, parece-me ajustado repescar o que escrevi nessa altura: “quanto ao trabalho de Achdé, só posso dizer que é impecável. Sem uma única falha que lhe possa apontar. Mesmo que os mais puristas considerem que Achdé se limita a emular o autor original da série, Morris, a verdade é que o faz de forma perfeita e permite a milhões de leitores em todo o mundo, a oportunidade de continuar a ler novas histórias de Lucky Luke. Portanto, todos aqueles que são fãs da arte de Lucky Luke, dos desenhos tão característicos desta série, certamente ficarão muito satisfeitos com esta obra. Há até espaço para algumas pranchas algo diferentes, em termos de planificação e dimensão das vinhetas, mas, lá está, sempre respeitando o legado do mestre Morris. O álbum não é desenhado por Morris, mas poderia sê-lo perfeitamente.

A capa volta a ser bastante apelativa, o que é um bónus. E a edição da ASA vai ao encontro daquilo que estaríamos à espera para a série: capa dura e papel baço. Nota positiva para o facto de, mais uma vez, o lançamento da obra em Portugal ter ocorrido em simultâneo com o lançamento mundial. Os leitores portugueses de banda desenhada merecem que isto seja prática comum!

Concluindo, A Arca de Rantanplan poderia ser melhor em termos de argumento – ou na gestão do mesmo, vá. No entanto, os muitos fãs portugueses da série podem ficar descansados porque estamos perante um álbum bastante agradável e que se lê muito bem.


NOTA FINAL (1/10):
7.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Lucky Luke - A Arca de Rantanplan, de Achdé e Jul - ASA

Ficha técnica
Lucky Luke - A Arca de Rantanplan
Autores: Achdé e Jul
Editora: ASA
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Outubro de 2022

Levoir lança Regresso ao Éden, de Paco Roca!


E aí está ela! No próximo dia 9 de Dezembro, sexta-feira, é lançada pela Levoir, em conjunto com o jornal Público, a obra Regresso ao Éden, de Paco Roca, como aliás já aqui tinha sido anunciado no Vinheta 2020!

É uma fantástica notícia pois trata-se de um livro verdadeiramente espetacular! 

aqui o analisei, na sua versão espanhola, e asseguro-vos que é um livro obrigatório.

Abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora.

Regresso ao Éden, de Paco Roca

A Levoir e o Público estão de volta às Novelas Gráficas com Regresso ao Éden a última obra do escritor valenciano Paco Roca, que recebeu recentemente o Grande Prémio do Comic de Roma 2022.

A data de saída, 9 de dezembro coincidirá com a presença do autor na Comic Con, onde vai estar em sessão de autógrafos.
É com base numa foto de família datada de 1946 na antiga praia de Nazaret situada na capital valenciana, que o autor desenvolve Regresso ao Éden dando-nos a conhecer os que nela estão presentes e também os que estão ausentes. 

A foto, a única que a sua mãe conservava da avó do autor, que este não conheceu, serve de narrador que vai contando a vida da sua família, centrada sobretudo nas mulheres. Uma família humilde, como a maioria, que tenta viver de modo digno no meio da miséria gerada pelo Golpe de Estado fascista.

São elas que têm de lidar com a falta de alimentos no dia a dia, que ficam horas e horas em filas, recorrendo por vezes a um mercado negro que serve para enriquecer as elites franquistas.

Nesta obra Paco Roca homenageia, não só a sua mãe, mas também todas as mulheres que no período franquista do pós-guerra levaram uma vida difícil, sofreram a repressão e a miséria, lutaram contra a fome e uma sociedade machista que as converteu em cidadãs de segunda.

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Ficha técnica
Regresso ao Éden
Autor: Paco Roca
Páginas: 176, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 170 mm
PVP: 15,90€

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Análise: Companheiros da Penumbra

Companheiros da Penumbra, de Nunsky - Chili com Carne

Companheiros da Penumbra, de Nunsky - Chili com Carne
Companheiros da Penumbra, de Nunsky

Quem pôde visitar o Amadora BD deste ano, certamente não ficou indiferente a uma das exposições do evento, que era dedicada a Companheiros da Penumbra, o mais recente trabalho do autor português Nunsky. Por um lado, pela qualidade da exposição, que nos remetia para um ambiente urbano, negro, sujo e punk, que acabava por ser bastante impactante. Por outro lado, porque não eram precisos muitos segundos para que nos saltasse à vista a qualidade das pranchas ali expostas.

Foi uma obra parcamente anunciada pela editora, Chili com Carne, e, talvez também por isso, apanhou muita gente desprevenida até ao dia do seu lançamento, no Amadora BD. Mas agora, depois de lido este grande livro, com mais de 300 páginas, posso dizer-vos que este é um dos livros do ano, em termos do lançamento de banda desenhada nacional.

O que Nunsky, autor de Erzsébet, nos traz neste Companheiros da Penumbra é simples em termos de história, mas verdadeiramente complexo e admirável em termos da dimensão e detalhe visual com que essa mesma história simples nos é dada. 

Companheiros da Penumbra, de Nunsky - Chili com Carne
A síntese é linear: esta obra procura ser um quase livro de memórias, em que o autor nos convida a (re)viver os anos 90 portuenses, com especial destaque para o aparecimento da cena gótica. Lembram-se da malta do secundário que se vestia de preto, com enormes botas Doc Martens, crucifixos e pentagramas pendurados ao pescoço? É sobre esta tribo urbana e toda a cultura que lhe é tida como adjacente que se baseia este livro. Ler Companheiros da Penumbra é uma viagem a um passado relativamente recente em que a música, o cinema, as festas e os convívios entre góticos ganhavam expressão nos centros urbanos. Particularmente em Lisboa e no Porto. Mas o livro centra-se no Porto, e em toda a cena gótica da cidade, em particular.

Em termos de história, acompanhamos as aventuras de várias personagens, mas o principal enfoque é em Alex Nogueira e no próprio Nunsky (Paulo) que, tendo interesses comuns, começam por formar uma banda que procura tocar rock gótico. Não é de admirar que bandas como Siouxsie and the Banshees, Joy Division, The Cure ou, especialmente Bauhaus, sejam referências óbvias para a música que a banda de Paulo e Alex, a quem se juntam Igor e Marco, quer fazer. 

Companheiros da Penumbra, de Nunsky - Chili com Carne
A partir daqui, acompanhamos o início da caminhada da banda que dá pelo nome de "The Ids". Desde a procura pelo nome, aos primeiros ensaios, às entradas e saídas de membros do coletivo, até aos primeiros concertos. Mas este não é apenas um livro sobre a formação de uma banda de rock gótico. Diria que a questão da banda será apenas parte da caminhada destes amigos, já que, ao volante de um Fiat Uno – esse automóvel tão característico dos anos 90 -, vamos conhecendo aquilo que será mais uma história nostálgica de uma amizade entre jovens que nutrem gostos e preferências semelhantes do que, apenas e só, a história de uma banda de garagem. A banda aparece porque é parte dessa amizade e dessa caminhada. Os relacionamentos amorosos com as raparigas, que começam a seguir a banda, também marcam presença, bem como as festas no mítico Heaven’s, a rodagem de filmes ou os grandes feitos ou fracassos nos variados projetos artísticos destes jovens.

Para o bem e para o mal, fica-se com a ideia que nos é oferecido por Nunsky um conjunto de episódios datados nos anos 90. E todo o livro é como se fosse uma manta de retalhos de memórias. Se, por um lado, é verdade que não há um fio condutor claro que possa ligar com mais detalhe alguns episódios que parecem ser avulsos, por outro lado, também não se pode dizer que a história não vá tendo uma ligação, mesmo que ténue, entre si. Porque vai. Simplesmente, senti falta de uma narrativa mais coesa nesse ponto.

Companheiros da Penumbra, de Nunsky - Chili com Carne
Estando a história carregada de referências reais, também parece haver um grande conjunto de elementos ficcionais o que, quanto a mim, até ajuda a criar uma certa aura de misticismo e de interesse aumentado nestas figuras. Se pesquisarmos por várias das coisas que acontecem neste Companheiros da Penumbra, veremos que algumas delas aconteceram mesmo. Já quanto a outras, como o nome da própria banda The Ids, por exemplo, não encontramos qualquer referência na internet. Aprecio essa ficção bem inserida numa história carregada de elementos reais.

Mas se a história traz consigo uma viagem bem aprofundada e detalhada à cena gótica portuense dos anos 90, é nas ilustrações que Nunsky mais consegue impressionar.

Em primeiro lugar, comecemos por abordar a dimensão da obra que temos em mãos. Com mais de 300 páginas, não surpreende que este livro tenha demorado mais de 5 anos a ser feito. Isto porque, e convém não esquecer, não estamos a falar de um estilo de ilustração que seja simples e rápido de fazer. Ao invés, o traço fino e virtuoso de Nunsky é realista e pleno de detalhe. 

Companheiros da Penumbra, de Nunsky - Chili com Carne
Sendo completamente a preto e branco, torna-se claro e impressionante o belo domínio do autor nos mais variados níveis da ilustração: as personagens são verossímeis e as suas expressões e linguagem corporal são representadas de forma muito realista pelo autor. Os cenários também recebem belos detalhes que dão profundidade cénica a toda a experiência visual. Uma nota de espanto e admiração tem que ser dada à forma como, por vezes, o autor nos presenteia com uma ilustração mais dramático-poética que torna a experiência muito gratificante para o leitor. É incrível o virtuosismo de Nunsky nas ilustrações. Um verdadeiro talento.

Se há uma única coisa que, em termos de desenho não me agradou tanto, foi que tive dificuldade em distinguir as personagens demasiadas vezes. Todas elas são muito bem desenhadas, mas difíceis de distinguir em vários momentos. Os penteados podem ajudar um pouco, mas como estamos a falar de uma tribo que se vestia de forma idêntica, o que fazia com que tivesse um aspeto semelhante entre si, acaba por ser algo que impacta a fluidez da leitura. Mas, enfim, é apenas uma queixa num trabalho tão grandioso do autor.

Companheiros da Penumbra, de Nunsky - Chili com Carne
Não costumo falar muito de balonagem e legendas, a menos que seja algo muito positivo ou muito negativo para a minha experiência enquanto leitor.

E, em Companheiros da Penumbra, a legendagem é, por si só, uma outra "personagem" que se impregna nas numerosas cenas musicais. Dito por outras palavras, para nos dar a ideia de que há música a tocar, sempre que as personagens estão no Heaven’s, por exemplo, conseguimos percecionar as músicas de fundo através das legendas com letras garrafais que nos dizem que música é. 

A esse propósito, no final do livro há uma lista com todas as músicas que foram apresentadas ao longo do livro. É um bom complemento embora me pareça que talvez tivesse sido preferível que cada música e banda recebessem uma breve nota no final de cada prancha. Assim tornar-se-ia mais automático para o leitor saber que música era aquela, daquela página, e que banda tornou esse tema célebre, sem ter que saltar até à cábula da última página.

Companheiros da Penumbra, de Nunsky - Chili com Carne
Finalmente, também fiquei admirado com a capacidade do autor em conseguir dar-nos – pelo menos, em termos visuais pois, em termos de argumento talvez isso não aconteça tanto – uma enorme diversidade de momentos. Temos, portanto, uma planificação dinâmica, com planos e enquadramentos vários que fazem com que a leitura visual da obra não se torne repetitiva ao longo de tantas páginas. Já em termos de história, senti alguma redundância em alguns momentos (demasiado?) mundanos na vida destas personagens.

A edição da Chili com Carne é em capa mole, com generosas badanas, e um papel que, embora competente, poderia ser mais robusto e menos frágil. No final da obra temos ainda um texto de Alex Nogueira – uma das pessoas que inspirou a história –; a tal lista de músicas que já referi acima; e quatro páginas em que são traduzidas para português algumas falas que ao longo do livro nos foram dadas em inglês ou em castelhano.

Em suma, esta obra é uma autêntica tour de force de Nunsky. Não descurando tudo aquilo que o autor já nos deu em obras passadas, é com este Companheiros da Penumbra que o autor esculpe com letras gordas o seu nome no panteão da banda desenhada nacional. Imprescindível e uma das melhores BD’s portuguesas do ano.


NOTA FINAL (1/10):
9.1



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Ficha técnica
Companheiros da Penumbra
Autor: Nunsky
Editora: Chili com Carne
Páginas: 318, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 19 x 26 cm
Lançamento: Outubro de 2022