sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Mercado do Contra arranca este sábado!




Amanhã decorre, na cidade do Porto - no Jardim de João Chagas, Cordoari - a 5ª edição do Mercado do Contra, um evento com enfoque na edição independente de banda desenhada!

Embora o evento ocorra apenas durante um dia, o programa é bastante completo e interessante, pelo que os adeptos de banda desenhada da região norte do país têm aqui uma bela oportunidade para conhecer novas edições, novos autores e novos projetos.

Mais abaixo, deixo-vos com a apresentação da iniciativa e respetivo programa:







5.ª Edição do Mercado do Contra

29 de novembro | 10h00 – 19h00 | Porto

No próximo dia 29 de novembro, entre as 10h e as 19h, realiza-se a 5.ª edição do Mercado do Contra, um evento dedicado à edição independente e à auto publicação, com especial enfoque na Banda Desenhada. 

Nesta edição, reforçamos a aposta em transformar o mercado num pequeno encontro de celebração, reflexão e partilha em torno da BD contemporânea, dando espaço a autoras, autores, editoras e projetos de todo o país.

Ao longo do dia, o público poderá contar com um programa completo de apresentações, conversas e inaugurações, bem como com um mercado repleto de criadores e editoras independentes.



Programa Completo



11:00
Apresentação de Circus Minimus, de Daniela Duarte (desenho) e Ricardo Henriques (argumento), pela Isabel Carvalho. 
Publicação da coleção BEDETECA
(Gorila Sentado / Turbina Associação Cultural).

14:30
Apresentação de Canalha Borrado
(A Seita / Mundo Fantasma), com o autor Zé Lázaro Lourenço.

15:00
Apresentação do fanzine Serigaitos #1, acompanhada de mini-exposição e presença de Marco Mendes e das autoras Juliana Meira, Mariana Santos Matos e Sara Filipe.

15:30
Apresentação da revista Umbra #5, pelo editor Filipe Abranches.

16:00
Inauguração da exposição de BD de Diniz Conefrey – Pashmina 
e apresentação do seu livro Estância do Sino Coberto (Quarto de Jade).

16:30
Apresentação do livro Zé Povinho nos dias de hoje (Tentáculo),
 com Filipe Duarte e Ana Saúde.

17:00
Apresentação da exposição Os muitos mundos da Gorila Sentado
e dos novos lançamentos da editora:
King of Bones #1 (Gorila Sentado) — Sérgio Hortelão
Last Call #3 (Gorila Sentado) — Gonçalo Fernandes
A Requiem on Stage #1 (Gorila Sentado) — Pedro Nascimento e Miriam Franco

18:00
Apresentação de Terrea (A Seita),
com Ricardo Cabral e o editor José Hartvig de Freitas.


Programação Extra:
15:00 – 18:00 – Mostra de portfólios com José Hartvig de Freitas (A Seita).

Mercado | 10h00 – 19h00 | Autores, editoras e coletivos presentes:
Gonçalo Fernandes
Gonçalo Sobral
UMBRA (com Filipe Abranches)
Associação Tentáculo (com Filipe Duarte e Ana Saúde)
Pedro Branco Mendes
Atelier Not Found
Ricardo Cabral
Gorila Sentado (com Daniel da Silva Lopes)
Serigaitos
Rita Fernandes
Bedeteca
Paraíso do Livro (alfarrabista)
Vítor Hugo Rocha
Marta Espírito Santo
Quarto de Jade

Sessões de autógrafos com os autores presentes

Análise: Como Pedra

Como Pedra, de Luckas Iohanathan - Polvo

Como Pedra, de Luckas Iohanathan - Polvo
Como Pedra, de Luckas Iohanathan

Uma das mais recentes bandas desenhadas editadas pela Polvo, dá pelo nome de Como Pedra e marca a estreia do autor brasileiro Luckas Iohanathan na feitura de banda desenhada. Foi uma estreia em grande, na verdade, já que esta foi a obra que venceu o relevante Prémio Jabuti, no Brasil, em 2023.

Como Pedra é daqueles livros que nos chegam de mansinho, quase sem que ninguém repare neles, mas aqueles que lhe dão uma oportunidade encontram nesta banda desenhada solitária, companhia para o espírito e matéria para reflexão. A obra promete-nos uma travessia pelo Sertão profundo, mas aquilo que o autor nos oferece é, acima de tudo, uma descida lenta, mas profunda, às camadas mais áridas da condição humana, onde a seca não é apenas climática, mas também espiritual, social, emocional; e onde a fome não é apenas por alimento para o corpo, mas também por alimento para a alma.

Como Pedra, de Luckas Iohanathan - Polvo
A história começa com um casal que luta, dia após dia, para garantir a sobrevivência de Rosa, a filha que depende inteiramente de uma cadeira de rodas e de medicamentos que o Estado brasileiro só oferece pela metade. A outra metade da medicação necessária ao tratamento de Rosa, têm que ser os pais a assegurar por falta de meios do Sistema de Saúde Brasileiro. Dias depois de ter lido o Dormindo Entre Cadáveres, de Luís Moreira Gonçalves e Felice Parucci, não deixa de ser curioso que, novamente, embora de forma muito diferente, o frágil e insuficiente sistema de saúde do Brasil seja exposto a nu. 

A narrativa, aqui, não tem pressa. A presença de Rosa é central, mesmo que ela própria esteja ausente do movimento e da palavra, mas é interessante como Luckas Iohanathan transforma essa ausência em presença simbólica: Rosa existe nos silêncios, nas pausas, nos olhares suspensos entre uma página e outra. Há um certo lirismo austero neste livro, quase seco, que amplifica a impotência e, ao mesmo tempo, o cuidado que afeta a vida de Rosa. E é talvez nessa vertente que este livro mais me fascinou.

A chegada do filho mais velho do casal, ausente durante anos, funciona como ponto de viragem na narrativa. Ele não vem sozinho, traz consigo uma seita religiosa, composta por amigos convertidos a um fanatismo que se propaga como uma praga silenciosa. A partir daqui, o livro mergulha numa espiral religiosa em que as personagens, especialmente os pais de Rosa, começam a acreditar que a fé pode resolver tudo… desde que haja um sacrifício, claro, pois nada é grátis, nem mesmo a misericórdia de Deus. E, claro, o alvo desse sacrifício não tarda a tornar-se evidente.

Como Pedra, de Luckas Iohanathan - Polvo
O ritmo, conforme já mostrado, é lento, o que pode ser uma forma de afastar alguns leitores nas primeiras páginas. Mesmo assim, garanto-vos que a viagem que fazemos enquanto leitores, vale bem a pena. A história demora a arrancar, sim, mas esse atraso prepara a explosão emocional que virá mais tarde. Quando a trama finalmente acelera, ou melhor, se afirma, o impacto da narrativa faz-se soar. 

A forma como Iohanathan explora o fanatismo é subtil mas incisiva. O autor não caricatura nem demoniza abertamente a religião, limitando-se a mostrar o modo gradual como a crença se infiltra e como a esperança distorcida pode ser mais devastadora do que a própria miséria. 

Mas talvez o que mais me tocou tenha sido o modo poético com que o autor trabalha os silêncios. Há vinhetas inteiras em que nada se diz, mas muito se sente. É nesses vazios que a narrativa respira e, paradoxalmente, onde nos afogamos. 

Como Pedra, de Luckas Iohanathan - Polvo
Outro aspecto particularmente forte, mesmo que subentendido, é a dimensão ecológica da obra. O livro expõe as consequências da destruição ambiental. No Nordeste brasileiro, onde a seca se agrava ano após ano, as alterações climáticas são uma violência diária que tem como principal causa a sobreexploração agrícola governamental - e privada -, que é empurrada por interesses económicos distantes, que leva a que natureza e as comunidades próximas que dependem dela pereçam. 

E é sempre o pobre quem mais paga. A família de Rosa, já vulnerável, fica ainda mais exposta quando o ambiente se torna hostil, quando o solo deixa de dar sustento, quando a fome se estabelece e quando o Estado falha. A precariedade climática e a precariedade social caminham, pois, de mãos dadas.

Visualmente, Como Pedra impressionou-me bastante. O estilo de desenho remete, de certa forma, e com as devidas distâncias, para o traço de Bastien Vivès, mostrando-se minimalista, elegante, de linhas limpas e expressivas e dando espaço a que as sombras possam desempenhar um papel essencial. As cores, em tons amarelados, incrementam a sensação de aridez, de calor, de seca, de desolação. É verdade que, por vezes, os desenhos podem ser um pouco despidos demais, mas creio que isso é opção autoral com um propósito claro de se atingir uma certa poesia.

A edição da Polvo apresenta capa mole baça, com badanas. No interior, o papel é baço e de boa qualidade. A impressão e encadernação também são boas. No início, há um texto introdutório de Marcelino Freire que nos enquadra perante a história. Há duas capas diferentes disponíveis.

Concluindo, Como Pedra é uma Bd demarcadamente poética. Não é apenas uma leitura, mas uma experiência emocionalmente desgastante e, quer queiramos, quer não, necessária. Luckas Iohanathan constrói um retrato brutal e poético do Sertão, onde a fé, a fome, a esperança e a loucura se entrelaçam. É uma obra que dói, que pesa e que exige bastante de nós, leitores. 


NOTA FINAL (1/10):
8.4


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Como Pedra, de Luckas Iohanathan - Polvo

Ficha técnica
Como Pedra
Autor: Luckas Iohanathan
Editora: Polvo
Páginas: 200, a cores
Encadernação: Capa mole, com badanas
Lançamento: Novembro de 2025

Arranca hoje a 2ª edição do Marvila Comics!


É já hoje, sexta-feira, que arranca a segunda edição do Marvila Comics!, em Lisboa, para um evento que se estende por todo o fim de semana e que conta um elenco de luxo em termos de presenças de autores nacionais de banda desenhada.

Este evento é organizado pela Kingpin Books, em parceria com a Dois Corvos, e procura unir a banda desenhada à cerveja. Ou vice-versa. Serão apresentados livros, exposições e haverá um belo conjunto de conversas entre autores e um mercado do livro.

Com muita pena minha, não poderei participar, pois estarei fora durante o fim de semana, mas digo-vos que fico com bastante pena de não poder marcar presença, já que a "ementa" proposta me parece muito interessante.

Se estás por Lisboa neste fim de semana, diria que não podes perder o Marvila Comics 2025.

Mais abaixo, deixo-te com a programação oficial do certame.




MARVILA COMICS! (2ª Edição)

Quando? 
28-30 NOVEMBRO

Onde?
DOIS CORVOS MARVILA
Rua Capitão Leitão, 94, em Lisboa


Um ano depois da edição inaugural, o Marvila Comics regressa à Dois Corvos, num evento intimista e provocador que ousa misturar cerveja e livros de Banda Desenhada.

A Kingpin Books volta a unir-se à Dois Corvos, num fim de semana pleno de animação e repleto de autores, conversas, exposições, mercado do livro e lançamentos exclusivos de cerveja e BD! O Marvila Comics associa-se também à Black Friday na Dois Corvos e continua serão adentro, com uma DJ fantástica na 6ª feira, e um novíssimo Quiz sobre BD e uma arrojada banda ao vivo no sábado!

28, 29 e 30 de Novembro, na Dois Corvos Tap Room de Marvila, Rua Capitão Leitão, 94, em Lisboa.


PROGRAMA


6ª feira, 28 de Novembro

16h 
Abertura do mercado do livro

22h
DJ Set com Jenny Tall



Sábado, 29 de Novembro

16h
LANÇAMENTO - Atrahasis: o apocalipse e a dissolução civilizacional
David Soares e Sónia Oliveira
Cerveja: The Big Issue

16h30
O humor, os porcos e os Velhos do Restelo
Mário Freitas e Dário Duarte
Cerveja: Loko Mad

17h
LANÇAMENTO - O Progresso da Humanidade: que caminho para as adaptações literárias?
João Sequeira e Rui Cardoso Martins
Cerveja: Go Man Go!

17h30
Living Will: o desafio dos formatos e das pequenas tiragens
André Oliveira, Joana Afonso e Pedro Serpa
Cerveja: Weekend

18h
BD policial, caso raro em Portugal
Osvaldo Medina e Fernando Dordio
Cerveja: Villainare

18h30
Visões narrativas fora da caixa
Beatriz Brajal e Joana Mosi
Cerveja: Hello Nasty

19h
A Arte para além da BD: um menu de sabores requintados
Filipe Andrade e Mário Freitas
Cerveja: Magnetic Poles

20h
QUIZ de BD

22h
Concerto dos MOLOCH



Domingo, 30 de Novembro

16h
Umbra: visões editoriais sobre antologias
Filipe Abranches e Rita Alfaiate
Cerveja: Friendos

16h30
Desafios da BD para outsiders
Susana Carvalhinhos e Cláudia Passarinho
Cerveja: Easy Breezy

17h
Terrea: construções narrativas alternativas
Pedro Moura e Ricardo Cabral
Cerveja: Creature

17h30
O último prédio à beira do fim do mundo
Nuno Duarte e Rita Alfaiate
Cerveja: Nince Inch Snails

18h00
Dimensões editoriais: os grandes grupos vs. as pequenas editoras
Diana Garrido e Mário Freitas
Cerveja: Count To Ten

18h30
O impacto política da BD e do cartoon editorial
André Carrilho e Nuno Saraiva
Cerveja: Dark Mode

19h
Que ambições depois do salto para o mercado americano?
Daniel Henriques
Jorge Coelho

19h30
Conversa de Encerramento
Mário Freitas e Pedro Moura
Cerveja Finisterra

20h
Confraternização final

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Análise: Sou Um Anjo Perdido

Sou Um Anjo Perdido, de Jordi Lafebre - Arte de Autor

Sou Um Anjo Perdido, de Jordi Lafebre - Arte de Autor
Sou Um Anjo Perdido, de Jordi Lafebre

Depois do excelente e, quanto a mim, algo subvalorizado Sou o Seu Silêncio, Jordi Lafebre, autor de outras obras relevantes como Apesar de Tudo ou Verões Felizes - este último, com argumento de Zidrou - está de volta para mais um livro que se intitula Sou Um Anjo Perdido.

Voltamos à personagem de Eva Rojas por quem eu admiti estar apaixonado na análise que fiz ao anterior livro daquilo a que, julgo, já se pode considerar a série "Eva Rojas".

Neste Sou Um Anjo Perdido a história começa pelo fim de algo e pelo princípio de tudo o que queremos descobrir. Um homem aparece morto numa zona de obras, enterrado em cimento, de cabeça para baixo e tendo apenas as pernas de fora. A inspetora Merkel e o agente Garcia são chamados ao local da ocorrência para investigar o caso e eis que surge Eva Rojas, a psicóloga endiabrada com um jeito especial para brincar aos detetives que, rapidamente começa a desenrolar uma história complexa que é, acima de tudo, mais um daqueles episódios dignos da sua vida caótica. 

Sou Um Anjo Perdido, de Jordi Lafebre - Arte de Autor
Daí a que Eva passe a ser constituída suspeita do crime ocorrido é um passo curto e a protagonista acaba mesmo por ser interrogada pelos dois agentes. Há um crime, há uma vítima, ou talvez haja apenas um conjunto de azares e coincidências. E depois há Eva Rojas, esta personagem carismática e inesquecível que nunca bate certo com nada, mas bate sempre de frente com a vida. E quando nos damos conta, já estamos presos à sua voz, àquele fio narrativo que se enrola e desenrola como se estivéssemos sentados num café a ouvir alguém que sabe contar histórias demasiado bem. Assim é esta personagem de Jordi Lafebre, um autor que além de exímio ilustrador, é um excelente contador de histórias. 

E é mesmo pela história, divertida e dinâmica, com um travo agridoce, que este Sou Um Anjo Perdido nos conquista: pela forma como Eva nos toma pela mão e nos fala. Como se estivéssemos ali, ao lado dela, a ouvir uma crónica de amor, tragédia e riso. Lafebre não escreve apenas uma história policial; escreve sobre a pequena turbulência humana que é sermos alguém no mundo. E Eva - que se julga perdida, mas nunca está totalmente perdida - é um mapa imperfeito onde temos prazer em deixarmo-nos perder. 

A estrutura em interrogatório utilizada pelo autor para nos contar os acontecimentos que levaram àquele homem morto, funciona como um mecanismo delicioso. O diálogo de Eva Rojas com os inspetores cria ritmo, humor, hesitações, pausas, desvios... enfim, tudo aquilo que acontece quando alguém tenta relatar um episódio e se lembra de tantas coisas, aparentemente sem importância, pelo meio. É verosímil e cómico, e tão real como a própria vida. Eva interrompe-se a si mesma, suspira, ri de si própria, perde o fio à meada, recupera-o. Esta textura narrativa dá alma ao livro e transforma a leitura numa conversa viva.

A história, novamente ambientada na cidade de Barcelona, envolve muitas coisas que, a bem de não estragar o prazer de leitura a quem vai mergulhar nesta obra, refiro apenas, sem dar mais indicações ou explicações: toca os temas do futebol, da prostituição, do nazismo, do rapto. Confesso que bastante cedo percebi a forma como a história se iria desenrolar, o que pode ser um ponto menos a favor da obra, já que se trata de uma história de mistério que procura, idealmente, não revelar o desenlace até ao final da mesma.

Seja como for, não deixa de ser curioso que, com Sou Um Anjo Perdido, Jordi Lafebre reitere quase um “modo Lafebre” de contar histórias. Aquela mistura de humor, melancolia, erotismo suave e uma certa esperança positiva faz parte da sua fórmula de contar histórias, em especial nestes dois álbuns dedicados a Eva Rojas. Digo até mais: Eva Rojas tem tudo para nos continuar a dar mais livros, mais momentos, mais capítulos. O autor parece ter encontrado a sua receita, urgindo apenas que nos continue a servir mais belos livros como este. 

Sou Um Anjo Perdido, de Jordi Lafebre - Arte de Autor
Mesmo sendo uma série policial, como assim faz crer o subtítulo da obra Um Policial em Barcelona, é Eva Rojas quem rouba a atenção do leitor, pois esta personagem é uma autêntica tempestade em forma humana. É impossível não nos apaixonarmos um pouco por ela. A sua sensualidade natural, o seu humor, a sua honestidade emocional, a sua loucura luminosa... tudo nela é irresistível. A parte policial do livro quase se dissolve perante o magnetismo da própria personagem. O crime é apenas o pretexto; o mundo interior de Eva é o verdadeiro mistério.

E, claro, neste livro a protagonista continua a ser afetada pelas vozes das mulheres do seu passado, que permitem uma dinâmica ainda maior ao relato, e uma forma de tornar os  monólogos de Eva Rojas mais realistas, enquanto se pisca, novamente, o olho à importância da saúde mental.

Por falar em saúde mental, desta vez Jordi Lafebre abre-nos uma porta para o passado de Eva ao introduzir a sua mãe, internada num hospital psiquiátrico. É um encontro algo duro, mas necessário. Todo o brilho de Eva tem sombras a sustentá-lo, e o livro deixa-nos espreitar essas camadas profundas sem nunca cair no melodrama. Este olhar íntimo ajuda-nos a compreender as cicatrizes que moldaram a mulher que vemos: divertida, sensual, mas também vulnerável e ferida.

E é nessa abertura emocional que Sou Um Anjo Perdido cresce. A relação com a mãe não é apenas um elemento narrativo; é uma respiração funda no meio da leveza cómica, uma âncora que impede o livro de se tornar demasiado leve. Lafebre sabe equilibrar o riso e o silêncio como poucos autores de BD contemporânea.

Aceito que talvez este livro não consiga surpreender-nos tanto como o anterior, Sou O Seu Silêncio, em que pudemos conhecer, primeiramente, a dinâmica da personagem, das suas vozes interiores, da psicanálise, da investigação criminal, pois todos esses elementos voltam a ser-nos dados neste Sou Um Anjo Perdido, enquanto "round two", mas mesmo não tendo o fator "novidade", este novo livro não deixa de estar muito bem feito. E, quem sabe, talvez este segundo livro possa fazer com que mais gente leia o primeiro volume. Assim espero.

Sou Um Anjo Perdido, de Jordi Lafebre - Arte de Autor
Quanto ao desenho… que maravilha! O traço de Jordi Lafebre revela-se, mais uma vez, dinâmico, elegante e profundamente humano. Limpo, mas vibrante; simples, mas de uma expressividade arrebatadora. Jordi Lafebre parece desenhar sem esforço aparente e com uma vitalidade que se sente em cada vinheta. As personagens movem-se como se existissem para além da página, e Eva então… Eva transborda vida.

A sua expressividade corporal, a sua teatralidade dos gestos, a forma como cada uma das suas poses revela mais do que mil palavras, tudo isto confirma que Lafebre domina a arte de criar personagens que habitam cada centímetro do papel. Quando o texto exige intensidade, o desenho acompanha, bem como quando exige subtileza.

Também as cores são outro destaque. Há uma harmonia cálida, luminosa, que se mistura com tonalidades mais melancólicas quando a história assim o exige. Enfim, é um livro brilhantemente desenhado, difícil de não apreciar, especialmente para leitores habituados ao melhor que a banda desenhada europeia pode oferecer.

A edição da Arte de Autor está muito bem feita, com o livro a apresentar capa dura, com textura aveludada e detalhes a verniz. No interior, o papel é brilhante e de boa qualidade, tal como a impressão e encadernação. Há ainda um caderno suplementar, com generosas 16 páginas, em que somos brindados com um importante testemunho de Jordi Lafebre sobre esta obra e sobre como se inspirou nos seus tempos de criança a viver na cidade de Barcelona. A acompanhar o texto do autor, estão várias páginas com esboços de personagens e ilustrações promocionais. Estamos, portanto, perante uma bela edição da Arte de Autor!

No fim, Sou Um Anjo Perdido confirma aquilo que já suspeitávamos: Jordi Lafebre é um contador de histórias único, capaz de equilibrar humor, policial, poesia e humanidade com uma facilidade que desconcerta. Este livro não é apenas uma boa leitura, é um espaço emocional onde gostamos de regressar porque Eva Rojas nos dá mais do que uma aventura - dá-nos um pouco de vida. E continuo apaixonado por ela!


NOTA FINAL (1/10):
9.6


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020

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Sou Um Anjo Perdido, de Jordi Lafebre - Arte de Autor

Ficha técnica
Sou Um Anjo Perdido
Autor: Jordi Lafebre
Editora: Arte de Autor
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 225 x 298 mm
Lançamento: Outubro de 2025 

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Análise: Livro do Desassossego

Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP

Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP
Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer

A editora Levoir surpreendeu os leitores portugueses quando, por alturas do mais recente Amadora BD, anunciou o lançamento duplo da adaptação para banda desenhada de O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa. Especialmente, se tivermos em conta que a coleção dos Clássicos da Literatura Portuguesa em BD já havia chegado ao fim, após a publicação do anunciado 15º volume.

Mas a Levoir decidiu continuar a coleção que convoca os grandes clássicos da literatura portuguesa para uma adaptação em banda desenhada e fê-lo com mais uma adaptação da obra de Fernando Pessoa, desta feita com argumento de Pedro Vieira de Moura e desenhos, no primeiro volume, de Susa Monteiro e, no segundo, de Bernardo Majer.

Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP
O Livro do Desassossego
é uma obra literária única, caracterizada pela sua estrutura fragmentária e introspectiva. Não se trata, portanto, de um romance tradicional com enredo linear, mas de uma coleção de pensamentos, reflexões e observações. A obra explora a vida interior do narrador, a sua percepção da cidade, do tempo, da existência e da arte, revelando sentimentos de melancolia, tédio, solidão e um constante questionamento sobre a realidade e a identidade. A escrita é muitas vezes poética, filosófica e profundamente subjetiva, refletindo a complexidade da mente humana e a inquietação existencial de Fernando Pessoa.

A obra não segue uma ordem cronológica e reúne fragmentos que foram escritos ao longo de muitos anos, publicados postumamente. Como tal, é uma das obras mais enigmáticas de Fernando Pessoa, e esta adaptação em banda desenhada propõe um mergulho visual que respeita essa complexidade. Não estamos perante uma narrativa convencional, mas sim diante de uma experiência sensorial que acompanha a pulsação introspectiva do texto. Pedro Vieira de Moura conseguiu transformar a fragmentação da escrita pessoana em algo coeso o suficiente para que o leitor possa navegar pelo labirinto de pensamentos sem se sentir perdido.

Mas não vos vou mentir: este é um livro difícil de ler. A fragmentação do original exige concentração, atenção aos detalhes e paciência. É normal que muitas vezes nos percamos ou que nos pareça que a obra navega em demasia na maionese. Não obstante, a beleza desta adaptação é que não tenta simplificar ou adulterar a obra; pelo contrário, oferece-nos ferramentas visuais para acompanhar a introspeção de Pessoa, mantendo a essência desconexa que caracteriza a escrita do autor. 

Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP
O primeiro volume abarca textos escritos sob o heterónimo Vicente Guedes, entre 1913 e 1919. Aqui, o trabalho de Susa Monteiro brilha. O seu estilo contemplativo encaixa-se na perfeição com a natureza abstrata do texto original e a densidade filosófica dos fragmentos iniciais. Cada página transmite um ritmo meditativo, quase hipnótico - bem em linha com aquilo que a autora já nos havia oferecido em Mensagem - que permite ao leitor sentir a Lisboa da época através da lente da subjetividade pessoana. A composição das ilustrações cria um diálogo silencioso entre palavra e imagem que é muito gratificante.

O segundo volume, dedicado a Bernardo Soares e aos fragmentos escritos entre 1929 e 1935, introduz um contraste visual evidente com o primeiro livro. Bernardo Majer imprime cores mais soturnas e uma representação do ambiente lisboeta que é complexa, mas também mais acessível para o leitor contemporâneo. O equilíbrio entre abstração e referência realista é notável, levando o leitor a conseguir perceber a cidade, o movimento das ruas e a solidão do heterónimo sem perder a intensidade poética do texto.

Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP
A divisão da obra entre dois ilustradores foi arriscada por haver o perigo de se perder alguma continuidade visual. No entanto, o próprio caráter desconexo da obra funciona como uma espécie de "cola" entre os dois estilos de ilustração. Susa Monteiro domina a parte mais introspectiva e etérea, enquanto Bernardo Majer traz densidade e textura urbana à fase mais tardia da obra, tornando a transição aceitável e até enriquecedora. A mistura de dois ilustradores acabou por, embora arriscada, funcionar bem.

O trabalho de ilustração de Susa Monteiro cumpre as expectativas que eu já tinha do seu estilo: contemplativo, poético e belo. Já Bernardo Majer surpreendeu-me de forma muito positiva. A forma como usa a cor, as sombras e o próprio desenho, transmite aquela sensação de inquietação e fragmentação interna do narrador. Confesso que, em termos de desenho, este pode ser o meu livro preferido do autor até agora. Gostei mesmo muito.

Em termos de edição, o trabalho da Levoir está em linha com os outros livros desta coleção. Cada livro tem capa dura baça, bom papel brilhante no miolo, e boa encadernação e impressão. No final de cada livro há um dossier de extras - maior no segundo volume - sobre a obra, o autor e o contexto social de ambos.

Em suma, estes dois livros constituem um acréscimo importante à coleção de Clássicos da Literatura Portuguesa em BD da Levoir. Mantêm a integridade da obra original, oferecem novas vias de interpretação e leitura, e combinam de modo eficiente o talento de dois belos estilos de ilustração diferentes. Quem se aventurar neste Livro do Desassossego encontrará não apenas uma obra literária, mas também uma experiência visual e sensorial única, tão complexa, abstrata e fascinante quanto a própria obra original de Fernando Pessoa.


NOTA FINAL (1/10):
8.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens dos álbuns. www.instagram.com/vinheta_2020


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Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP

Fichas técnicas
Livro do Desassossego I
Autores: Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro
Baseado na obra original de: Fernando Pessoa
Editora: Levoir
Páginas: 58, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Outubro de 2025

Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP

Livro do Desassossego II
Autores: Pedro Vieira de Moura e Bernardo Majer
Baseado na obra original de: Fernando Pessoa
Editora: Levoir
Páginas: 58, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Outubro de 2025

Comparativo: "Living Will" pela Polvo e pela Ave Rara



Nem sabem a felicidade que tive quando soube que a editora Polvo iria editar, e de forma integral, a obra Living Will, de André Oliveira, Joana Afonso e Pedro Serpa!

Esta é, quanto a mim, uma das melhoras obras da banda desenhada nacional! A esse propósito, até vos convido a mergulhar na análise que fiz a este livro, aqui.

Originalmente lançado em formato comic, pela Ave Rara, uma chancela independente do próprio André Oliveira, Living Will foi-nos sendo dado aos poucos, de forma intermitente, entre os anos 2013 e 2018. No total, foram 7 mini-comics de 16 páginas que nos ofereceram uma história linda sobre a vida, sobre os remorsos, sobre o amor, sobre o passado, sobre a redenção.

É a obra onde, a meu ver, André Oliveira se demonstrou mais inspirado, com um texto completamente quotable e uma história profunda, ora amarga, ora doce. Por seu turno, Joana Afonso afirmou-se de vez como uma das mais importantes figuras da ilustração de banda desenhada em Portugal. Infelizmente, possivelmente por indisponibilidade de tempo, Joana Afonso foi substituída em dois dos sete volumes da série por Pedro Serpa. Não querendo, de forma alguma, descurar o comprometimento e talento do autor, é inegável que a continuidade visual da obra se (res)sentiu nesses números assinados por Pedro Serpa, o que foi uma pena.




A edição original da obra foi feita na língua inglesa para chegar a um mercado mais internacional. Percebo perfeitamente a razão, como é óbvio, mas era lamentável que esta obra, feita por portugueses, não estivesse disponível na sua língua materna, o português.

E é, também por isso, que fiquei muito feliz com esta edição da Polvo. Porque mais que fazer chegar esta bela obra aos leitores portugueses, fazia sentido que isso fosse feito em formato integral e, claro, na língua portuguesa. 

E só com essa cajadada, a Polvo mataria logo dois coelhos. E a editora não se ficou por aí! Mas já lá iremos.

Esta nova edição tem duas capas novas, à escolha. No meu caso, o meu livro tem a capa amarela, onde nos aparece o protagonista da história, Will, o seu cão e fotografias das várias personagens que aparecem na obra. Uma capa bonita que me remete para a igualmente bela capa de Rugas, de Paco Roca. Existe ainda outra capa, na cor roxa, que também funciona muito bem.




Esta nova edição tem generosas 180 páginas e é-nos dada em capa mole, com badanas. É uma edição bonita e respeitosa, mas tendo em conta a qualidade e a relevância da obra em questão, bem como não esquecendo que esta edição procura ser uma edição definitiva da obra, julgo que teria sido melhor se a edição fosse em capa dura. Não me chateiam as capas moles, mas acho que as capas duras granjeiam mais prestígio, requinte e durabilidade aos livros. E Living Will merecia-o.

Falando ainda em coisas menos positivas, talvez o formato da edição da Polvo pudesse ter sido um pouco maior. É quase igual ao formato original, sim, mas mesmo assim é um pouco menor.

Mas, apontadas as coisas que considero como menos positivas nesta edição, há que referir que são muitas as coisas positivas.

Desde logo, porque o "formato livro" supera, a todos os níveis, o "formato revista" em que a obra foi originalmente lançada. Respira melhor, nãose dispersa e permite que o leitor possa degustar a obra com mais afinco.



Uma coisa que apreciei nesta edição da Polvo, em que parece ter havido um carinho e cuidado especial para com a obra, foi que as belas capas dos sete capítulos originais não se perdessem. 

Todas elas servem como separador entre histórias. Talvez pudesse ter sido colocada a versão completa das ilustrações, uma vez que, originalmente, eram de dupla página, servindo a capa e a contracapa de cada livro, mas também não sei como isso poderia ter sido feito, sem aumentar o número de páginas do livro e sem distorcer a ordem das páginas.




Além disso, também gostei que até mesmo aquele breve sumário da história com que terminava cada um dos sete números, fosse resgatado nesta nova edição sempre que um capítulo termina. Teria sido uma pena tirar essa componente de séria televisiva a Living Will que é mais uma das (muitas) coisas que tanto aprecio nesta edição. 

Foi, portanto, uma escolha acertada nesta nova edição.




Embora esta nova reedição seja bastante fiel à edição original da Ave Rara, tendo a mesma font para a balonagem, inclusive, nota-se, especialmente logo no primeiro capítulo da história, que houve um reajuste da cor, passando agora a ser muito mais suave e agradável.

Nota positiva para essa alteração.




Além disso, e já olhando para os inúmeros extras que, generosamente, esta nova edição da Polvo nos traz, o livro abre com uma nota introdutória em que André Oliveira disserta sobre a feitura da obra e sobre o atual momento da mesma.




Além disso, a nova edição da obra inclui uma entrevista/conversa ente Gabriel Martins e os três autores, bem conduzida, que responde a algumas questões que, certamente, muitos dos leitores poderiam formar na sua cabeça. 

E são essas as entrevistas que, quanto a mim, são bem feitas. Portanto, trata-se de mais um bom acrescento à nova edição da obra.




Além disso, há também espaço para que muitos autores consagrados da banda desenhada nacional homenageiem esta obra através das suas próprias ilustrações. 

São 13 estas ilustrações adicionais e apresentam um estilo que, naturalmente, é muito belo pelo seu ecletismo e capacidade artística dos autores que participam nesta homenagem conjunta, que são os seguintes: Filipe Andrade, Joana Mosi, Pedro Brito, Catarina Paulo, Francisco Sousa Lobo, Carla Rodrigues, Paulo Monteiro, Kachisou, Carline Almeida, Inês Galo, Filipe Abranches, Miguel Rocha e Jorge Coelho.




Há ainda espaço para seis páginas dedicadas a esboços e estudos de personagem por parte de Joana Afonso, que são um deleite para os olhos.




Por fim, a cereja em cima do bolo e talvez a grande iniciativa desta bela edição, é que este livro reúne um capítulo extra e inédito, feito de propósito para esta edição. 

É uma história de 18 páginas, onde mergulhamos na relação conturbada entre pai e filho e na importância, quer pelo lado positivo, quer pelo lado negativo, do pugilismo nas suas vidas. É uma história pungente e sentimental, em que André Oliveira se mantém inspirado e onde fica claro como a evolução de Joana Afonso tem-se registado de álbum para álbum, de história para história. 

Joana Afonso já era detentora de um talento especial em 2013, quando começou este Living Will, mas, em 2025, o seu talento é ainda mais exponencial. 

Que excelente ideia incluir esta história adicional na edição!



Não sei se têm ou não os 7 fascículos da primeira edição de Living Will. Quer os tenham ou não, parece-me que a compra deste novo livro da Polvo se assume como obrigatória. Qualquer amante de (boa) banda desenhada deve ler Living Will!

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Análise: Peças

Peças, de Víctor L. Pinel - Ala dos Livros

Peças, de Víctor L. Pinel - Ala dos Livros
Peças, de Víctor L. Pinel

Há livros que se abrem como portas de um elétrico: de repente, sem aviso, e basta um segundo para que algo mude. Peças, do espanhol Víctor L. Pinel, começa justamente assim, com um jovem que, numa dessas aberturas súbitas do quotidiano, vê uma rapariga que não voltará a encontrar, mas que o marca de forma irremediável. É um ponto de partida simples, quase frágil, daqueles que cabem num parágrafo curto… mas que escondem a promessa de algo maior. É este o começo do mais recente livro de Víctor L. Pinel, editado pela Ala dos Livros, autor do qual a editora já tinha publicado o muito interessante O Mergulho, dessa feita, com argumento de Séverine Vidal.

Em Peças, Víctor L. Pinel, assume-se como autor completo, oferecendo-nos argumento e ilustrações. E, se nas ilustrações o autor nos volta a dar um belo trabalho, é no argumento que mais me surpreendeu.

Ao início, confesso-vos, a história deste livro pareceu-me leve em demasia e carregada de alguns clichets, com personagens que sentimos já ter encontrado noutro livro, noutro filme, noutro romance... até noutra banda desenhada qualquer. Há reconhecimentos imediatos, quase automáticos, como se Pinel estivesse a jogar com arquétipos já gastos. Mas é precisamente por aí que o autor nos engana: a leveza é apenas o disfarce da peça antes de ser movida e, acreditem, o argumento deste livro acaba por se nos revelar mais inteligente e intrincado do que aquilo que, à partida, poderíamos adivinhar.

Peças, de Víctor L. Pinel - Ala dos Livros
Pouco a pouco, percebemos que há algo muito especial por baixo dessa superfície aparentemente familiar. A narrativa abre pequenas fendas, deixa pistas quase imperceptíveis, e o que parecia um conjunto de histórias independentes, quase uma antologia, ganha profundidade, textura e intenção. O autor escreve com a precisão de alguém que sabe que cada detalhe - mesmo o mais discreto - pode alterar toda a estratégia do jogo. Afinal de contas, é de o xadrez que estamos a falar.

Mas, voltando ao início deste texto, é a partir da referida faísca inaugural, em que um jovem observa outra jovem pelas portas de um elétrico que se abrem - o que me remeteu para o filme Sliding Doors, com Gwyneth Paltrow, já agora - que Víctor L. Pinel lança um conjunto de personagens que carregam nos ombros as suas falhas, as suas desistências e as suas pequenas esperanças. Todas as personagens se movem como peças num tabuleiro de xadrez invisível, avançando, recuando ou estagnando, às vezes sem perceberem que o jogo já começou. Ou que ainda não acabou. Os peões questionam-se sobre o preço do sacrifício, os bispos cruzam caminhos sem verdadeiramente se tocarem, e o cavalo salta com uma liberdade que é, paradoxalmente, a sua maior vulnerabilidade.

Temos aqui vários exemplos de vida: o clássico adolescente bonitão da escola, por quem todas as outras miúdas suspiram, mas que acaba por se apaixonar pela miúda geek de óculos a quem ninguém dá importância; a mulher traída pelo marido, que não consegue prosseguir com a vida; a mulher que sente-se só na vida com o seu namorado, que nunca parece estar disponível para ela; o galã da televisão que, embora desejado por tantas mulheres, sente um enorme vazio e uma vontade de conhecer alguém que goste dele por aquilo que ele é e não pela imagem que a indústria do entretenimento fabricou de si; o casal que está separado pela distância física e onde os projetos de um não parecem coincidir com os projetos do outro; o casal mais idoso que viu a sua relação acomodar-se pelo peso da rotina; a rapariga que não se consegue prender a relacionamentos sérios; a idosa que desistiu de viver enquanto aguarda pela sua morte e o rapaz, já mencionado, que se apaixona por uma estranha à saída do elétrico.

Sem que o leitor se aperceba, este mosaico de trajetórias vai montando uma espécie de coreografia silenciosa: todos avançam, todos colidem, todos procuram sentido neste tabuleiro urbano a que chamamos "vida" e onde nada parece totalmente controlável. A vida, aqui, não é tanto um jogo para ganhar, mas um jogo para tentar resolver.

Peças, de Víctor L. Pinel - Ala dos Livros
A metáfora do xadrez, longe de ser um truque estilístico, transforma-se, pois, num verdadeiro eixo temático. Cada tipo de peça corresponde subtilmente a um tipo de personagem, um tipo de movimento emocional, um modo próprio de existir. Somos todos distintos, sim, mas todos estamos a jogar algum tipo de xadrez. Uns fazem-nos com avanços cautelosos, outros com saltos impulsivos, outros parecem estar presos em diagonais impossíveis. O argumento é simples na forma, mas absolutamente brilhante na execução.

Peças é, acima de tudo, um livro que aquece o coração. Cada página convida à reflexão sobre as nossas escolhas, sobre os laços que criamos e sobre a fragilidade das relações humanas. Pinel lembra-nos, de forma subtil e poética, que tudo precisa de cuidado. Um gesto ignorado, uma palavra não dita, uma atitude não explícita pode fazer um amor desvanecer-se como se este nunca tivesse existido. E, como no xadrez, perceber o momento certo de avançar ou recuar, de arriscar ou proteger, é essencial: jogar bem a vida é, muitas vezes, a única forma de preservar aquilo que nos importa.

Mas se toda esta metáfora entre a vida e o xadrez já dava uma boa profundidade à obra, o autor vai ainda mais longe quando, no final, nos apresenta, através de cirúrgicos flashbacks, várias pequenas escolhas das personagens que desfilaram à nossa frente, e que, sem dêssemos conta - ou sem que isso nos fosse previamente demonstrado - acabaram por impactar as vidas das restantes personagens. Nessa parte final há, pois, um certo momento de epifania narrativa, quase cinematográfica, em que tudo se encaixa. As histórias, que antes pareciam soltas e meramente circunspetas a um tema comum, convergem numa revelação que lembra o filme O Efeito Borboleta, com o ator Ashton Kutcher, não pelo tema, mas pela sensação de que cada pequeno gesto nas nossas vidas pode ter consequências escondidas. É um “ah!” silencioso, daqueles que fazem o leitor recuar duas páginas só para confirmar que as peças sempre estiveram lá, prontas a serem alinhadas.

É impossível não pensar no trabalho estrutural que isto exige. O argumento é intrincado, quase milimétrico, e denuncia um autor que preparou tudo com extremo cuidado para que as interligações nunca ficassem desalinhadas. Há inteligência, mas também há um enorme respeito pelo leitor a quem é feito o convite para participar na montagem do puzzle.

Já falei de vários filmes nesta análise, para os quais fui remetido, e há um em especial que também não posso deixar de referir: a comédia romântica Amor Acontece. Não tanto pelo enredo que, nesta caso, nada tem a ver com o natal, mas no modo como várias histórias se cruzam sem perderem a sua individualidade e, também, por nos passar a ideia de uma certa harmonia, que nos faz sentir bem, mesmo que, por momentos, possamos ficar pensativos. São vidas que se tocam por momentos, criando linhas de força que só percebemos quando olhamos para o conjunto completo.

Peças, de Víctor L. Pinel - Ala dos Livros
Do ponto de vista visual, Peças abraça um desenho moderno, com um toque semi-cartoonesco que lhe assenta bem. Algo a que Pinel já nos habituou em O Mergulho. O traço, solto mas expressivo, faz lembrar o trabalho de Jordi Lafebre na forma como combina leveza estética com peso emocional. Não se trata apenas de ilustrar a história: trata-se de lhe dar ritmo, humores, gestos quase coreográficos. As expressões das personagens são muito bonitas e as cores suaves convergem para a leveza bela do relato.

E essa acessibilidade gráfica contribui para algo que não devamos esquecer: Peças é uma banda desenhada perfeita para introduzir pessoas ao próprio universo da banda desenhada. Não exige bagagem prévia, não pede que o leitor domine códigos ou convenções. É uma obra acolhedora, acessível, fácil de ler, com uma mensagem tão universal como o amor nas nossas vidas. Quando alguém, que não lê BD, me voltar a perguntar: "Com que livro é que devo por começar o meu mergulho na banda desenhada?" - e, acreditem, é uma pergunta que me fazem recorrentemente - é bem provável que eu lhe coloque este Peças nas mãos.

Nota positiva, ainda, para o facto de ser notório que, ao longo do livro, o traço de Vidal ficou mais aprimorado e elegante. Basta comparar a página 6 e umas das páginas do final da obra para constatarmos facilmente isto. 

Quanto à edição da Ala dos Livros, encontramos um livro com capa dura baça, lombada arredondada, com bom papel brilhante no interior.

Em suma, Peças é um livro que se lê com a suavidade de uma história simples, mas que se entranha no leitor com a complexidade de um argumento muito bem montado. E que, como no xadrez, nos lembra que a vida é um avanço contínuo, às vezes lento, às vezes inesperado, quase sempre imprevisível. Uma obra delicada e inteligente, que confirma que, no fim de tudo, somos sempre peças em movimento. É uma das BDs que mais prazer me deu ler no corrente ano e, sem dúvida, uma das grandes surpresas do ano. Antes de a ler, achava que seria boa, mas não tão boa. Adorei.


NOTA FINAL (1/10):
9.7



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Peças, de Víctor L. Pinel - Ala dos Livros

Ficha técnica
Peças
Autor: Víctor L. Pinel
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 176, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 285 x 210 mm
Lançamento: Agosto de 2025