quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Análise: Um Homem em Declínio

Um Homem em Declínio, de Usamaru Furuya - Distrito Manga - Penguin Random House

Um Homem em Declínio, de Usamaru Furuya - Distrito Manga - Penguin Random House
Um Homem em Declínio, de Usamaru Furuya

Se houve mangás que me surpreenderam pela positiva, este Um Homem em Declínio, de Usamaru Furuya, publicado recentemente pela Distrito Manga, uma chancela do grupo editorial Penguin, é um dos melhores exemplos.

Não sabia muito o que esperar deste livro que a Distrito Manga optou, e bem, por lançar em formato integral, numa edição com mais de 600 páginas. Além disso, confesso que não tinha lido a obra original de Osami Dazai, na qual este mangá se inspira.

Obra essa que é, convém não esquecermos, um romance semiautobiográfico de Osamu Dazai, que acompanha a trajetória de Oba Yozo, um homem incapaz de se sentir verdadeiramente humano ou de se integrar na sociedade. 

Um Homem em Declínio, de Usamaru Furuya - Distrito Manga - Penguin Random House
Desde a infância, Oba Yozo apercebe-se de uma enorme distância intransponível entre si e os outros, e responde a essa alienação desempenhando com falsidade - mas sendo credível aos olhos dos outros - o papel que a sociedade espera de si. A sua vida “normal” é apenas fachada, uma sucessão de gestos ensaiados para esconder o vazio interior. Desde cedo, o protagonista aprende que sobreviver implica representar, e é aí que nasce a figura do palhaço, o rapaz divertido de quem todos gostam, mas que não passa de um escudo frágil contra um mundo que lhe parece hostil e incompreensível. Na adolescência, essa máscara ganha contornos mais claros e mais perigosos, com Yozo a tornar-se em alguém que vive para agradar aos outros, para os fazer rir, enquanto por dentro se afunda numa angústia silenciosa. E se, em jovem, Oba Yozo parece ser adorado por todos os que o rodeiam, com a passagem dos anos o rapaz vai-se finalmente revelando perante os outros.  

A entrada na idade adulta não traz, por isso, redenção, mas apenas novas formas de queda. As relações tornam-se mais destrutivas, o álcool e o sexo surgem como tentativas falhadas de anestesiar a dor, e a ideia do suicídio instala-se como possibilidade concreta. Tudo é narrado sem sentimentalismos, quase com uma certa frieza clínica, o que torna o impacto emocional ainda mais forte.

Um Homem em Declínio, de Usamaru Furuya - Distrito Manga - Penguin Random House
As relações de Oba Yozo são marcadas pela culpa, pela dependência e pela incapacidade de assumir responsabilidades, o que intensifica o seu sentimento de fracasso moral. A cada tentativa de se adaptar, Oba Yozo afasta-se ainda mais daquilo que considera uma vida “normal”, reforçando a ideia de estar em constante declínio. Além disso, é uma personagem que violenta, quer física, quer psicologicamente as várias mulheres com quem se vai cruzando.

O romance é um retrato sombrio da alienação, da depressão e da perda de identidade, refletindo tanto a angústia individual do protagonista quanto um mal-estar mais amplo da sociedade moderna, revelando, consequentemente, a fragilidade humana diante das expectativas sociais e da solidão interior. 

Estamos perante um mangá verdadeiramente adulto, talvez uma das propostas mais bem-vindas para leitores que procuram algo para lá do entretenimento imediato que nos tem sido dado noutras propostas mais juvenis. Não há neste Um Homem em Declínio concessões fáceis nem moralismos reconfortantes. É uma leitura exigente, desconfortável, que pede maturidade emocional e disponibilidade para enfrentar temas que raramente são tratados com esta frontalidade na banda desenhada japonesa. Pelo menos naquela que tem chegado aos leitores portugueses.

Um Homem em Declínio, de Usamaru Furuya - Distrito Manga - Penguin Random House
Ao mesmo tempo, a obra oferece-nos uma história marcante, porque nos obriga a lidar com a ambiguidade moral do protagonista. Sentimos repulsa por Yozo em vários momentos, pelas suas fraquezas e escolhas, mas, ao mesmo tempo, reconhecemos nele estados de espírito e pensamentos que nos são inquietantemente familiares. E essa identificação involuntária é talvez um dos maiores méritos da obra. A maturidade estende-se igualmente à forma como o erotismo é tratado. As cenas de sexo presentes nesta obra são mais explícitas do que o habitual, embora nunca resvalando para o pornográfico, diria. 

E à medida que as ações de Yozo vão escalando, a leitura da obra aproxima-se, em certos momentos, a quase um filme de terror. Não se trata de um horror gráfico e grotesco à boa maneira do mestre do horror em mangá, Junji Ito - que, curiosamente, também adaptou para banda desenhada esta mesma obra de Osamu Dazai -, mas de algo mais subtil e, arrisco dizer, mais verosímil. São situações e emoções que nos deixam tensos precisamente porque parecem possíveis, porque poderiam acontecer no mundo tal como o conhecemos, não havendo aqui nada de sobrenatural, embora seja questionável e moralmente errado, a todos os níveis, o relato que nos é dado. O melhor de tudo, diria, é pois a forma como a obra expõe o horror do quotidiano, da vida real, esse horror discreto que não precisa de monstros nem de sangue para ser devastador. 

Um Homem em Declínio, de Usamaru Furuya - Distrito Manga - Penguin Random House
As ilustrações desempenham um papel fundamental nesse impacto. Furuya consegue captar o desespero e o isolamento de Yozo com uma expressividade notável. Nos momentos mais negros, o autor altera subtilmente o seu registo gráfico: os desenhos tornam-se menos “limpos”, mais carregados de detalhes e sombras. Essa mudança funciona de forma exemplar, intensificando a sensação de sufoco e tornando essas passagens particularmente memoráveis. 

A edição da Distrito Manga é em capa mole, com badanas, e com um bom trabalho a nível da impressão e da encadernação. No interior, o papel é de boa qualidade, embora eu desejasse que esta edição pudesse ser em maior formato.

Em suma, Um Homem em Declínio destaca-se como uma obra que, apesar da sua aparente simplicidade narrativa, atinge uma profundidade emocional surpreendente, revelando com uma sensibilidade quase literária a lenta erosão interior de um protagonista que tenta encontrar sentido num quotidiano que o ultrapassa. A combinação entre a subtileza estética e a honestidade emocional que a obra enverga, permite-lhe conquistar um certo encanto especial que transforma a leitura numa experiência profundamente perturbadora e empática, convidando-nos a refletir sobre o que significa, afinal de contas, ser humano.


NOTA FINAL (1/10):
8.9

Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Um Homem em Declínio, de Usamaru Furuya - Distrito Manga - Penguin Random House

Ficha técnica
Um Homem em Declínio - Edição Completa
Autor: Usamaru Furuya
Adaptado a partir da obra original de: Osamu Dazai
Editora: Distrito Manga
Páginas: 608, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 126 x 188 mm
Lançamento: Outubro de 2025

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

As novidades da Bertrand para 2026!



Hoje trago-vos algumas das novidades de banda desenhada que a editora Bertrand tem reservadas para este novo ano de 2026!

Sendo uma das principais editoras de livros em Portugal, a verdade é que a Bertrand não tem estado muito focada no lançamento de banda desenhada.

É verdade que, de vez em quando, a editora lá vai apostando em algumas bandas desenhadas como, por exemplo, a série de enorme sucesso A Incrível Adele, ou outras obras mais avulsas, como O Infinito Num Junco, O Alquimista, O Fruto Proibido ou, até mesmo, a obra nacional Utopia, mas a verdade é que a aposta editorial da Bertand em banda desenhada, especialmente tendo em conta a sua dimensão, tem-se revelado bastante tímida e parca.

Porém, é com satisfação e alguma esperança que vos digo que, embora ainda só estejamos no dia 6 deste novo ano, já vos possa apresentar algumas das obras de banda desenhada que a editora nos fará chegar nas próximas semanas. E é também a primeira vez, desde que criei o blog, que faço uma antevisão de várias novidades da editora, o que é sintomático de algo positivo, diria.

Não esperem um conjunto enorme de obras, mas são cinco os novos livros que vos apresento abaixo. Para já. Duas séries para um público mais adolescente - sendo que uma dessas séries é um dos maiores sucessos dos últimos anos no mercado franco-belga, ocupando tudo o que são os escaparates das livrarias -; a adaptação de uma obra clássica da literatura para banda desenhada; e, ainda, a reedição de uma obra marcante da banda desenhada nacional numa aposta dupla: na língua portuguesa e na língua inglesa - coisa que aplaudo.

Ora, sem mais demoras, aqui estão novidades de BD da Bertrand para 2026:

Vinheta 2020 arranca 2026 com nova imagem feita por autor nacional!



Como já vem sendo hábito, o Vinheta 2020 volta a ter nova imagem no início do ano!

Desta feita, conto com a arte de João Mascarenhas, um autor incontornável da banda desenhada portuguesa, que tem na sua criação obras como O Menino Triste, A Norte de Sul Nenhum, O Perigoso Pacifista ou o mais recentemente editado Butterfly Chronicles.

Para a imagem do blog, o autor desenhou a incontornável personagem de Tintin, criada por Hergé.

João Mascarenhas passa assim a fazer parte do belo conjunto de autores que já ilustraram a imagem do Vinheta 2020: Xico Santos, Diogo Carvalho, Paulo J. Mendes, Jorge Coelho, Henrique Gandum, Daniel Maia, Joana Afonso, Ricardo Santo, Luís Louro, Osvaldo Medina e Telmo Estrelado.

Obrigado, João!

Portugal vai passar a ter Museu da Banda Desenhada!





Mas que bela maneira de começar o ano 2026 bedéfilo em Portugal!

Depois de muita luta, de muita tentativa, de muita perseverança, podemos dizer que vai mesmo acontecer: Portugal, mais concretamente a cidade de Beja, vai passar a ter um Museu da Banda Desenhada!!!

Será o primeiro e único Museu da Banda Desenhada do país!

Este é um projeto já com bastantes anos, apresentado variadíssimas vezes por Paulo Monteiro, Diretor do Festival de Beja, e que, agora, e finalmente, acaba de ver o seu financiamento a receber luz verde!

Este parecer positivo ao financiamento do projeto surge após a candidatura da Câmara Municipal de Beja ao Alentejo 2030, num projeto cujo montante de investimento é de 1.274.027,69 € (financiado a 85%) e que assenta na reabilitação de um edifício degradado no centro histórico da cidade.

O Museu contará com 3 salas dedicadas à leitura (nas quais será instalada a Bedeteca, que se encontra atualmente na Casa da Cultura), 7 salas para a exposição permanente, 2 salas para exposições temporárias, 1 sala para oficinas, 1 sala ampla que funcionará como loja (onde se venderão livros de autores portugueses, originais e serigrafias), gabinetes, arquivo e terraço e com esplanada.

Terá um acervo que atualmente já comporta muitas centenas de pranchas oferecidas à Câmara Municipal pelos autores ou pelas suas famílias e que constituirá uma verdadeira viagem pela história da banda desenhada portuguesa. 

Será, no fundo, o museu que a banda desenhada portuguesa merece, incluindo os seus autores, editores e leitores! Ainda não é conhecida a data para o arranque de obras no museu, mas, para já, uma coisa podemos dizer: o financiamento - que é, muitas vezes, a coisa mais difícil a conseguir - já está assegurado!

Parabéns, portanto, a todos os envolvidos neste enorme feito!!!



segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Eis os vencedores do Passatempo Luís Louro!



Já são conhecidos os vencedores do Passatempo Luís Louro, que receberão, como prémio, os dois livros Jim Del Monaco - O Cemitério dos Elefantes e Jim Del Monaco - Ladrões do Tempo assinados pelo autor!

Passo a enumerar os vencedores e respetivas frases, escolhidas pelo próprio autor, com que ganharam o prémio:



FRASES VENCEDORAS

Segundo o Vinheta 2020, o Luís Louro jura que o Jim Del Monaco não é autobiográfico — embora ambos tenham sobrevivido a tiros, deadlines e crises existenciais com o mesmo ar blasé...
Autoria: A.R


O primo JIM estava a “xeretar” no computador do LUIS LOURO, azelha como é, carregou na tecla DEL e apagou todo o trabalho do LUIS, cerca de 2020 VINHETAs foram à vida e o JIM assustadíssimo fugiu para o MÓNACO.
Autoria: Isabel Magalhães


Diz a lenda que até o Jim Del Monaco preferia enfrentar uma manada de elefantes a ter de acordar deste mundo dos sonhos, onde o mestre Luís Louro celebra 40 anos de arte e o Vinheta 2020 me serve tesouros autografados em bandeja de prata.
Autoria: Manuela Figueiredo


Luís Louro e Jim Del Mónaco entram num bar.
Pedem uma cerveja e começam a recordar:
Os velhos tempos de África,
As indígenas com as mamas a abanar.
Nisto entra um jovem com ar de pedinte.
Olham os dois com estranheza: é O vinheta 2020!
Junta-se aos dois e começam a ler
As frases do passatempo que está a decorrer.
Param numa frase em particular
É a da mariaéle que vai ganhar!
Autoria: Mariaéle


O vinheta 2020, os 40 anos de carreira de Luis Louro quis celebrar, os covidiotas até podem contrapor mas Jim del Monaco, o Corvo, Cogito Ego Sum e Alice são ex-líbris de arte e prazer só superados pelos filhos de Baba Yaga que nos levam numa aventura surreal e visceral, ainda não conheço o Jim mas adorava convidá-lo para minha casa este Natal.
Autoria: Angela Costa



NOTA IMPORTANTE:
Cada um dos vencedores deverá enviar para vinheta2020@gmail.com os seus dados de envio, para que lhe possa ser enviado o prémio.


Parabéns a todos os vencedores e obrigado a todos os que concorreram.

Bom ano 2026 e boas leituras de BD para todos!