sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Análise: O Indispensável de Snoopy

O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House

O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House
O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz

Falar de Peanuts é falar de um dos pilares fundamentais da história da banda desenhada em tiras e, por arrasto, da própria cultura popular do século XX. Criadas por Charles M. Schulz em 1950, estas histórias aparentemente simples, publicadas diariamente em jornais, tornaram-se rapidamente um espaço de reflexão sobre a condição humana, embalado por um humor seco, uma melancolia especial e uma lucidez rara. 

Parece-me até que foi Schulz o primeiro autor a perceber que algo simples como uma tira podia ser espaço para uma profundidade emocional e filosófica, mesmo quando protagonizada por crianças e um cão. Depois apareceram muitas outras tiras humorísticas ao longo dos anos - das quais destaco, pela sua qualidade, Mafalda, de Quino, ou Calvin and Hobbes, de Bill Watterson - que até podem ter ido mais longe em termos de profundidade nos temas, mas não há como negar a relevância cultural de Snoopy, Charlie Brown e companhia. 

Sim, de todas as personagens marcantes da série, o cão de Charlie Brown, Snoopy, sempre foi a mais popular. Talvez seja por isso que este livro não se chama "O Indispensável de Peanuts", mas "O Indispensável de Snoopy". E mesmo admitindo que talvez o nome mais ajustado fosse o primeiro, compreendo que, do ponto de vista comercial, "Snoopy" seja uma marca ainda mais forte e sonante do que "Peanuts".

O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House
Ao longo de décadas, Peanuts foi muito mais do que entretenimento ligeiro. Schulz construiu um universo coerente, recorrente e reconhecível, onde a repetição era uma ferramenta narrativa e não um defeito. Através de pequenas variações sobre os mesmos temas, o autor soube criar uma obra que cresceu com os seus leitores, acompanhando transformações sociais, culturais e até políticas, sem nunca perder a sua identidade.

Isto não esquecendo que, além do meio específico, Peanuts infiltrou-se profundamente na cultura pop. Snoopy, Charlie Brown e companhia tornaram-se ícones transversais, reconhecidos muito para lá das páginas dos jornais: animação, cinema, merchandising, música, moda, entre outros.

A juntar a isso, a série tem sabido manter-se atual mesmo depois do falecimento do seu criador, Charles M. Schulz, há mais de 25 anos. Talvez seja essa relação íntima entre simplicidade gráfica e complexidade emocional aquilo que melhor explica a longevidade e a atualidade de Peanuts. Schulz falava de crianças, mas escrevia claramente para adultos; fazia rir, mas quase sempre com um travo amargo. A sua obra é um espelho desconfortável, onde nos revemos sem a beleza que, por ventura, gostaríamos de encontrar, mas com uma honestidade desconcertante.

O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House
É neste contexto que surge O Indispensável do Snoopy, a edição portuguesa comemorativa dos 75 anos de Peanuts, lançada no passado mês de outubro pela editora Iguana (chancela do grupo Penguin).

Esta bela edição assume desde logo uma ambição clara: não apenas reunir tiras icónicas, mas celebrar uma obra maior. Trata-se de uma edição de luxo, com capa dura, bom papel e um cuidado gráfico que faz justiça à importância histórica e afetiva do material reunido.

Esta não é apenas uma antologia “best of”. É um objeto pensado, organizado e contextualizado, que procura dar ao leitor uma visão abrangente da evolução de Peanuts ao longo das décadas. As tiras estão organizadas cronologicamente, permitindo perceber como Schulz foi afinando o seu traço, o seu humor e a sua visão do mundo, sem nunca trair os fundamentos da série.

A personagem de Snoopy, naturalmente, ocupa aqui um lugar central. As suas múltiplas personas, como o ás da aviação da Primeira Guerra Mundial, o escritor fracassado de máquina de escrever ou o filósofo solitário no topo da casota, são apresentadas não apenas como gags recorrentes, mas como construções narrativas com peso simbólico. Esta contextualização transforma o livro num verdadeiro objeto de estudo, revelando camadas que muitas leituras rápidas tendem a ignorar.

O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House
O volume inclui ainda uma introdução geral à série e textos dedicados a cada uma das personagens principais: Charlie Brown, Linus, Lucy, Woodstock, Schroeder, Peppermint Patty, Sally, Marcie, entre outras.

Outro dos méritos desta edição é a inclusão de textos introdutórios para cada década, que enquadram histórica e artisticamente as tiras selecionadas. Estes textos ajudam o leitor a perceber como Peanuts dialoga com o seu tempo, refletindo mudanças sociais subtis, sem nunca se tornar panfletário ou datado. Há ainda algumas citações de Charles M. Schulz, que ajudam a compreender melhor as intenções do autor e a forma como via as suas próprias criações.

É certo que, ao contrário da edição de integral de Mafalda, de Quino, lançada em 2024 também pela Iguana, este livro não traz a obra completa de Peanuts. Mas isso, digo eu, talvez não fosse o mais adequado a fazer, dado que a série é muito grande e seriam necessários 26(!) livros com 300(!) páginas para que tivéssemos a coleção completa. Não me parece minimamente viável para o mercado português. Um best of bem feito, como é o caso, parece-me a melhor opção, tendo esta edição a capacidade de funcionar bem a vários níveis: como porta de entrada para novos leitores, como objeto nostálgico para quem cresceu com estas personagens e como um documento histórico, cultural e artístico. 

Estamos, pois, perante uma bela e equilibrada edição, daquelas que justificam plenamente a sua existência física num tempo de consumo rápido e descartável. Um livro que toda a gente devia comprar ou oferecer, não apenas pelo carinho que Snoopy e os seus amigos continuam a merecer, mas porque Peanuts permanece, 75 anos depois, tão indispensável quanto sempre foi.


NOTA FINAL (1/10):
9.0


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O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House

Ficha técnica
O Indispensável do Snoopy
Charles M. Schulz
Editora: Iguana
Páginas: 384, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 280 mm
Lançamento: Outubro de 2025

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Análise: Atrahasis

Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books

Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books
Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira

Atrahasis é o livro de banda desenhada mais recente de David Soares e Sónia Oliveira, e foi o único lançamento de BD que a editora Kingpin Books, de Mário Freitas, nos fez chegar durante o ano 2025.

Depois de Sepulturas dos Pais, com desenhos de André Coelho, O Pequeno Deus Cego e Palmas para o Esquilo, ambos com ilustrações de Pedro Serpa, e do mais recente - embora não tão recente assim - O Poema Morre, este último, também com os desenhos de Sónia Oliveira, David Soares está de regresso à feitura de banda desenhada o que, tendo em conta a singularidade da sua abordagem ao género, é boa notícia para a banda desenhada nacional.

De facto, o autor é sempre único na forma como escreve as suas densas e (talvez não tanto assim) complexas histórias. Utilizando uma linguagem erudita, que o afasta de um público mais generalista, David Soares tem, no entanto, uma franja de leitores ávidos das suas obras.

Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books
Neste Atrahasis, volta a dar-nos uma história que, mais do que tudo, assenta numa alegoria e que vai beber ao poema Epopeia de Atrahasis, um dos textos mais antigos da humanidade, datado de 1700 a.C. Com efeito, ainda antes de termos a Bíblia Sagrada cujo último livro, Apocalipse, nos adverte para um conjunto de calamidades que fazem a humanidade caminhar para o seu fim, já este Epopeia de Atrahasis nos dava a provar esse sabor da destruição da humanidade, neste caso, causada por um dilúvio abismal.

Nesta releitura desse poema, David Soares conduz-nos por essa visão da relação tensa entre deuses e humanos, estes marcados pelo sofrimento enquanto parte inaliável da sua condição e, aparentemente, seres contemporâneos da nossa existência.

É uma abordagem abstrata e de leitura não tão fácil assim.

Sendo sincero - como, aliás, sou sempre, não procurando parecer mais ou menos erudito do que aquilo que realmente sou - não tenho problemas em dizer-vos que considero não "ter estudos" para o abstracionismo da maioria das obras de David Soares. Mas como em tudo na vida, e após uma segunda leitura do livro, senti o fulgor de querer ir saber mais sobre Atrahasis, sobre o seu mito, a origem do seu poema e da sua história. E se um objetivo de uma obra pode ser o de criar ensinamentos e reflexão, já posso dizer que esta obra funciona de sobremaneira.

Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books
De facto, a sua leitura é complexa e requere que nós, leitores, sejamos detentores de uma forte cultura, em termos histórico-literários, não tão frequente assim. É por isso que - e muitas vezes injustamente - os argumentos de David Soares possam parecer divagar em demasia. Mas se estivermos preparados ou, lá está, se fizermos o "trabalho de casa", certamente conseguiremos apreciar melhor estas obras.

Além dos temas alegóricos e abstratos, a própria linguagem do autor é de uma riqueza tal que é bem possível que demos por nós mesmos a ter que pesquisar alguma palavra no google. Eu, certamente, o fiz. Não julgo haver nada de mal nisso, aliás, pois se as palavras existem, é mesmo para serem utilizadas. Acho apenas que a opção por se utilizar determinado discurso ou linguagem em detrimento de outro, leva a que possamos estar, desse modo, a balizar o nosso público, seja pela utilização de uma linguagem erudita, seja pela utilização de uma linguagem mais banal ou mesmo corriqueira. Mas dizer isto é apenas um comentário "La Paliciano", pois, naturalmente, tudo o que somos ou fazemos delimita a aproximação dos outros face a nós.

Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books
Mas, voltando a Atrahasis, e não obstante a beleza e coragem do autor para um texto propositadamente polido com palavras rebuscadas e sofisticadas, o próprio discurso deliberadamente erudito também pode esconder algumas debilidades narrativas, levando a que a obra se perca mais na forma do que no conteúdo. De certo modo, senti um pouco isso neste livro, pois já depois de mais bem preparado para melhor sorver os acontecimentos descritos e narrados, dei comigo a achar, em vários casos, o texto demasiado divagante. Como se, a partir de um tema, se limitasse a divagar de forma abstrata sobre o mesmo. É legítimo, como o é qualquer tipo de criação, mas igualmente passível de ser apenas um mero recurso de estilo e de reflexão. 

Todavia, devo dizer que, por outro lado, também aprecio a abordagem singular de David Soares, pois é algo que nos tira das azáfama do dia a dia, servindo como simples (e bem-vindo) escape. Como um livro de poesia. São divagações, sem dúvida, de cariz poético e filosófico mas, quanto a mim, têm - e devem ter - o seu lugar na produção nacional de banda desenhada. É a chamada BD de culto. Boa, mas não para toda a gente.

Daí que, mais uma vez, uma obra de David Soares me faça ficar com sentimentos mistos.

Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books
Já quanto ao trabalho de Sónia Oliveira neste livro, devo dizer que as suas ilustrações a preto e branco impressionam pelo seu estilo a carvão, onde a negritude da obra salta à vista. Há algo de imediatamente evocativo nestes desenhos, como se os mesmos pudessem ter sido extraídos do booklet de um álbum - ou, pelo menos, da imagética - de uma banda de metal mais pesado. É uma presença sombria e intensa que caminha de mãos dadas com o texto de David Soares e que nos oferece uma força visual que capta a atenção do leitor, reforçando o clima da história.

Também aqui há um grande abstracionismo que resulta, nuns casos, muito bem, com imagens de grande fulgor poético e estético. Noutras situações, porém, o abstracionismo é de tal ordem que a perceção de alguns elementos e personagens se torna mais difícil, criando um (maior) desafio interpretativo ao leitor.  

Ora, tendo em conta que o texto já não é muito leve ou linear, o casamento é perfeito. Os desenhos de Sónia Oliveira não parecem procurar tornar mais perceptível o texto de David Soares e vice-versa. Texto e imagens caminham, pois, de mãos dadas, havendo coerência. Quer seja para o bem, quer seja para o mal. No meu caso, mantenho-me um pouco neutro, pois considero uma obra interessante a vários níveis, que me faz querer salvaguardá-la, mas que poderia almejar maiores voos se fizesse algum tipo de cedências. Logicamente, não estou a dizer - ou, sequer, a sugerir - que um autor deva equacionar cedências para a sua própria criação só para fazer a mesma chegar a um público maior. Também eu sou músico independente e é isso - música independente - que me dá gozo fazer. Agora, quando nos perguntarmos o porquê de determinada obra não chegar a um público maior, também temos que ter a honestidade intelectual de perceber os motivos para que essa situação aconteça.

A edição do livro é em capa mole, baça, com detalhes a verniz e badanas. No interior, o papel utilizado é baço e de boa qualidade, tal como o é a impressão, a encadernação e o aprumo gráfico da edição - o que é frequente nas obras editadas pelo selo de Mário Freitas.

No final, posso dizer que gostei de Atrahasis. A obra apresenta boas ideias e um universo visual e literário rico e denso, onde se sente a força da alegoria e a complementaridade entre o texto de David Soares e as ilustrações de Sónia Oliveira. Apesar disso, há momentos em que a narrativa e a própria relação entre imagens e palavras se tornam algo divagantes, tornando a leitura mais caótica e o enredo mais aleatório do que o desejável.


NOTA FINAL (1/10):
8.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books

Ficha técnica
Atrahasis
Autores: David Soares e Sónia Oliveira
Editora: Kingpin Books
Legendagem e design de Mário Freitas
Páginas: 72, a preto e branco
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 18 x 27 cms
Lançamento: Novembro de 2025



Vem aí a segunda e última parte da adaptação de Manara para BD de "O Nome da Rosa"!



A Gradiva prepara-se para editar a segunda e última parte da adaptação para banda desenhada, levada a cabo por Milo Manara, da célebre obra da literatura, O Nome da Rosa, de Umberto Eco!

Depois de um primeiro volume da obra bem sucedido e de um ano bastante discreto no que ao lançamento de banda desenhada diz respeito, a Gradiva informa que o novo livro deve estar disponível a partir do próximo dia 24 de Fevereiro. 

Por agora, o livro já se encontra em pré-venda no site da editora.

Este lançamento assinala também o regresso da Gradiva à edição de banda desenhada que espero que se mantenha - e que incremente, se possível - durante o ano de 2026.

Mais abaixo, deixo-vos algumas imagens promocionais da obra.

O Nome da Rosa - Volume 2, de Milo Manara

O talento de Milo Manara transforma o famoso romance de Umberto Eco em imagens, dando vida a uma adaptação que restaura a riqueza e complexidade da obra original.

Uma edição preciosa que narra, através de diferentes estilos gráficos, o nosso tempo, o passado e as suas maravilhas de pedra e de tinta.

Finalmente acessível o último volume da obra que consagrou Umberto Eco como romancista pelo traço de um dos mais célebres autores de banda desenhada da atualidade.

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Ficha técnica
O Nome da Rosa - Volume 2
Autor: Milo Manara
A partir da obra original de: Umberto Eco
Editora: Gradiva
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 21,50 x 30,00 cm
PVP: 24,50€

Distrito Manga prepara-se para finalizar The Ghost in The Shell!



É já a partir do próximo dia 2 de fevereiro que chega as livrarias o terceiro e último volume da série The Ghost in The Shell, de Shirow Masamune, editado pela Distrito Manga.

Embora seja o terceiro volume, em termos de história este livro insere-se entre o primeiro e o segundo livro da série, razão pela qual se intitula 1.5.

Uma nota relevante é que na compra deste último volume a editora portuguesa oferece uma caixa arquivadora para toda a série. Limitada, obviamente, ao stock existente. O livro já se encontra em pré-venda no site da editora.

Ora, isto é algo que me parecem bem-vindo e que sempre tenho vindo a defender - embora seja prática pouco comum em Portugal. É que, tenho em conta que o público de banda desenhada é, também, colecionador, este tipo de items é apetecível para os compradores e, por outro lado, ajuda a que as séries se vendam na íntegra. Faço, portanto, a minha vénia à Distrito Manga.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


The Ghost In The Shell – Livro 1.5, de Shirow Masamune

The Ghost in the Shell 1.5: Human-Error Processor apresenta pela primeira vez as histórias «perdidas» de The Ghost in the Shell!
Oferta de caixa-arquivadora para a coleção! Oferta limitada ao stock existente.

No Séc. XXI, a linha entre o homem e a máquina tem sido inexoravelmente turva, à medida que os humanos dependem do aprimoramento de implantes mecânicos e os robôs são atualizados com tecido humano. Neste cenário tecnológico de rápida convergência, os agentes da Secção 9 são encarregados de rastrear e decifrar os mais perigosos terroristas, cibercriminosos e hackers fantasmas que o futuro digital tem a oferecer.

Seja lidando com cadáveres controlados remotamente, micromáquinas com mau funcionamento letal ou ciborgues assassinos, a Secção 9 está determinada em servir e proteger… e reiniciar alguns cibercriminosos!

The Ghost in the Shell 1.5: Human-Error Processor apresenta pela primeira vez as histórias «perdidas» de The Ghost in the Shell, criadas por Shirow Masamune após completar o trabalho na manga The Ghost in the Shell original e antes do seu The Ghost in the Shell 2: Man-Machine Interface, mas nunca publicado até agora. Concentrando-se nos agentes da Secção 9 na sua batalha diária contra o crime tecnológico, Human-Error Processor tem toda a loucura cibernética que se espera de The Ghost in the Shell, mas ambientado num contexto mais policial, com ação e suspense em abundância.

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Ficha técnica
The Ghost In The Shell – Livro 1.5
Autor: Shirow Masamune
Editora: Distrito Manga
Páginas: 192, a cores e a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 175 x 250 mm
Oferta: Caixa arquivadora
PVP: 30,45€


quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Análise: Lucky Luke - Dakota 1880

Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno - A Seita

Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno - A Seita
Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno

Com já sete volumes editados até à data - e estando nós perto de vermos chegar um novo Lucky Luke por Matthieu Bonhomme - a verdade é que esta série Lucky Luke Visto Por... , que A Seita nos tem feito chegar, já apresenta um conjunto bastante interessante e alargado de obras e autores. Este Dakota 1880, com argumento de Appollo e ilustração de Brüno, é a mais recente entrada na coleção.

Eis-nos perante uma banda desenhada que revisita o imaginário do faroeste, e de Lucky Luke em particular, para nos contar uma história maior dividida em várias histórias mais curtas. E fá-lo abordando este ícone da banda desenhada mundial com respeito, inteligência e uma clara vontade de o compreender para lá da caricatura. 

Talvez por isso, este álbum não parece focado em tentar competir diretamente com a série canónica criada por Morris; antes, propõe-se a dialogar com ela, preenchendo lacunas, explorando silêncios e oferecendo uma leitura mais séria e madura de um herói que todos julgamos conhecer de cor e salteado.

Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno - A Seita
Acontecendo, como o próprio título da obra indica, no ano de 1880 e nas terras áridas do Dakota, a narrativa acompanha Lucky Luke numa fase anterior àquela que o consagrou enquanto figura lendária do Oeste. Aqui, Lucky Luke ainda é um jovem que trabalha enquanto guarda de uma diligência que viaja até à Califórnia. Esqueçam os irmãos Dalton, o Rantanplan e até mesmo Jolly Jumper. Aqui, temos apenas Lucky Luke. Mas o cowboy não está só. São várias as personagens históricas que desfilam diante de si nesta viagem atribulada. Louis Riel, Annie Oakley, Paul V. Sullivan, John Arthur Cullingam, Curly Wilcox ou Baldwin Chenier são apenas algumas dessas personagens. É uma travessia física, mas também simbólica, em que o mito começa lentamente a ganhar forma.

A estrutura do álbum assenta em sete histórias curtas, inspiradas por relatos e personagens históricas reais. À primeira vista, esta opção episódica poderia sugerir uma leitura fragmentada, mas rapidamente se percebe que Appollo constrói algo mais ambicioso. Cada episódio acrescenta uma camada à personagem e ao contexto, funcionando como peças de um mesmo percurso narrativo, que ganha coerência e fôlego à medida que avançamos. E como são histórias que acontecem durante a viagem de diligência - ou, pelo menos, nos são contadas durante essa travessia -, há todo um fio condutor que granjeia dinâmica e unidade à soma do todo. Não estamos, portanto, perante uma antologia de histórias curtas sobre Lucky Luke. Não. Estamos perante uma história que se espraia por sete capítulos que, mesmo podendo parecer distantes entre si, contribuem para um todo. E esta opção narrativa é muito bem conseguida.

Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno - A Seita
Há uma continuidade temática e emocional que liga todos estes diferentes encontros e situações, criando a sensação de estarmos perante uma única grande viagem, marcada por perigos, descobertas e pequenas epifanias. É nesse percurso que Lucky Luke começa verdadeiramente a tornar-se Lucky Luke.

Um dos aspetos mais interessantes do álbum é precisamente a forma como nos é revelada a origem da alcunha “Lucky”. Sem recorrer a grandes dramatismos ou explicações forçadas, Appollo integra esse momento na narrativa de forma orgânica, quase casual, mas suficientemente marcante para ganhar peso simbólico. Passando-se a ação no ano de 1880, fica claro que estas são as primeiras aventuras da personagem, ainda antes de Morris, o seu criador, nos ter dado a sua primeira aventura com Arizona.

O leque de personagens secundárias é outro dos pontos fortes da obra. Escravos libertos, mulheres determinadas, fotógrafos visionários, poetas e pistoleiros cruzam-se com Lucky Luke de forma episódica, mas nunca gratuita. Cada encontro serve para refletir uma faceta do Oeste americano e, ao mesmo tempo, para revelar algo do próprio protagonista, mesmo quando este permanece, como sempre, lacónico e reservado.

Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno - A Seita
No campo gráfico, o trabalho de Brüno destaca-se pela sua aparente simplicidade. O seu traço linear, direto e em linha clara pode, à primeira vista, parecer minimalista, mas revela-se profundamente eficaz. Há uma elegância discreta no desenho, uma clareza narrativa que nunca distrai da história, antes a serve com rigor e contenção.

Não me é, pois, difícil imaginar este traço a ilustrar outras grandes séries clássicas da BD franco-belga. Imagino, por exemplo, Brüno a ilustrar com sucesso séries como Blake e Mortimer ou mesmo Tintin - caso fosse possível que outros autores ilustrassem histórias do famoso repórter, claro está.

E embora a abordagem estética contribua para uma (bem-vinda) atmosfera séria e quase melancólica do livro, também reconheço que pode parecer algo fria para alguns leitores. Especialmente para os fãs mais acérrimos da série canónica. As personagens surgem por vezes algo rígidas, com expressões contidas e gestos pouco expansivos. Ainda assim, tendo em conta o tom da narrativa, não considero que isso funcione necessariamente mal. Pelo contrário, essa contenção reforça a ideia de um Oeste duro, pouco dado a sentimentalismos, mas que, ao mesmo tempo, abre espaço para algumas paisagens idílicas.

Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno - A Seita
E já que falo na componente séria deste Dakota 1880, permitam-me afirmar que é precisamente nesta abordagem mais séria e realista que, quanto a mim, este tipo de adaptações de Lucky Luke Visto Por... melhor funciona. Sempre que os álbuns da coleção tentam recuperar o humor da série canónica - e mesmo quando o conseguem pontualmente - acabam inevitavelmente por ser comparados com algo que dificilmente superam. O humor visual dos desenhos de Morris, bem como os argumentos divertidos de Goscinny - depois reproduzidos com maior ou menor sucesso por outros autores que se lhes seguiram, como Achdé nas ilustrações, e um conjunto alargado de argumentistas - raramente conseguem ser superados nos Lucky Luke Visto Por... que procuram ser humorísticos. Por outro lado, as abordagens mais sérias das duas adaptações assinadas por Matthieu Bonhomme e, agora, este Dakota 1880, permitem que esta iniciativa faça aquilo que deve fazer: humanizar a personagem e o seu universo, libertando-os para algo diferente. Dito por outras palavras, uma coisa é um músico tocar uma canção feita por outro músico, fazendo-o da forma mais parecida possível com o original. Outra coisa, mais interessante a meu ver, é um músico pegar na mesma canção e mudá-la completamente. É assim que nascem as verdadeiras homenagens. 

Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno - A Seita
É que, ao optar por uma leitura mais madura, Dakota 1880 oferece-nos um Lucky Luke mais humano, mais vulnerável e, paradoxalmente, mais próximo do leitor. Não perde o estatuto de herói, mas ganha profundidade. Passa a ser alguém moldado pelas circunstâncias, pelos encontros e pela dureza do caminho, e não apenas um símbolo imutável.

Em termos de edição, voltamos a ter um bom trabalho d' A Seita. O livro apresenta capa dura brilhante, com bom papel baço no interior. A encadernação e a impressão são boas. No final, há ainda uma curiosa entrevista de duas páginas com Gustav Frankenbaum. Nota para a opção da editora em lançar a obra com uma capa alternativa - exclusiva da loja online Wook - e dois ex-libris: um para os 100 primeiros leitores que compraram o livro no site da editora, e outro para os primeiros 100 compradores da versão da Wook.

No balanço geral, Lucky Luke - Dakota 1880 é um belo livro e uma homenagem muito bem conseguida ao "cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra". Se excluirmos os álbuns de Matthieu Bonhomme - que considero os melhores desta coleção - Dakota 1880 é, muito provavelmente, o ponto mais alto de Lucky Luke Visto Por…. Não é um livro que seja uma obra prima, mas é uma obra bastante sóbria, bem pensada e carregada de bom gosto autoral. 


NOTA FINAL (1/10):
8.7



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Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno - A Seita

Ficha técnica
Lucky Luke - Dakota 1880
Autores: Appollo e Brüno
Editora: A Seita
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 24,5 x 33 cms
Lançamento: Novembro de 2025

Análise: Duas Raparigas Nuas

Duas Raparigas Nuas, de Luz - ASA - LeYa

Duas Raparigas Nuas, de Luz - ASA - LeYa
Duas Raparigas Nuas, de Luz

Foi ainda em Setembro do ano passado que a ASA aguçou o nosso apetite quando anunciou a edição deste Duas Raparigas Nuas, de Luz, para o início de 2026. Esta foi, convém não esquecer, a obra vencedora do prémio Fauve D' Or do Festival de Angoulême, na sua edição de 2025. Sabemos que um prémio não dita a qualidade de uma obra, mas lá que chama a atenção para a mesma, lá isso chama. E, descansem, no caso concreto, este não é uma obra que vive do hype, mas sim um livro original e relevante que merece ser lido por todos os amantes de banda desenhada.

Duas Raparigas Nuas acompanha a trajetória do quadro homónimo de Otto Mueller, pintado em 1919, e transforma esta obra de arte enquanto verdadeira protagonista da narrativa. 

A história começa na Alemanha do pós-Primeira Guerra Mundial, num ambiente de efervescência artística e cultural, quando o expressionismo floresce e a pintura nasce como símbolo de liberdade, intimidade e modernidade. Acompanhamos a feitura do próprio quadro, com Otto a ilustrar a sua esposa (e musa) Maschka, por quem nutre um profundo mas inconstante amor. O casal acaba por se separar. Passados uns anos, o quadro é comprado por Ismar Littmann, um ilustre colecionador de arte moderna que professa o judaísmo. E, entretanto, o tal período de experimentação e júbilo do pós-Primeira Guerra dá lugar a um outro, mais deprimente, com a ascensão do nazismo. A partir desse ponto, o quadro pintado por Otto passa a ser perseguido por representar aquilo que o regime condenava: a nudez, a sensibilidade, a arte moderna e, acima de tudo, a livre criação. Classificada como “arte degenerada”, a pintura é retirada das mãos de Littmann e acaba escondida, vendida e traficada. Ao longo de todo este percurso, acompanhamos não só o destino da obra, mas também o impacto da violência ideológica sobre artistas, colecionadores e amantes da arte. A bem ou a mal, exposto ou escondido numa cave escura, o quadro acaba por sobreviver, atravessando um século da história da humanidade e superando algumas das horas mais negras da nossa existência.

Duas Raparigas Nuas é uma obra profundamente madura, tanto naquilo que escolhe contar como na forma - pouco usual e arriscada, diria - como decide fazê-lo. Ao tomar uma pintura de Otto Mueller como eixo narrativo e ponto de vista privilegiado, o autor constrói uma obra que não procura apenas revisitar um século de História, mas antes refletir sobre a fragilidade da criação artística perante os poderes políticos e ideológicos que tentam controlá-la. O resultado é um livro denso, exigente e, acima de tudo, necessário.

Duas Raparigas Nuas, de Luz - ASA - LeYa
Desde logo, a ideia de transformar um objeto inanimado, um quadro, nos “olhos” através dos quais observamos o mundo, através dum ponto de vista subjetivo, revela-se uma escolha narrativa tão simples quanto brilhante. Planos subjetivos são por vezes utilizados em banda desenhada, colocando o leitor a ver o que determinada personagem vê - lembro-me, por exemplo, do exercício feliz que Diogo Carvalho faz no seu livro Sol - no entanto, esta opção estilística não é tantas vezes utilizada quando se trata de um objeto inanimado, como é o caso de um quadro. Em banda desenhada, não me lembro de já o ter visto, sequer. Neste caso, e contrariamente a um plano subjetivo da vista de outra personagem, a pintura não age, não reage, não interfere: apenas observa. E é precisamente nessa passividade que reside a força simbólica da obra. O quadro torna-se, assim, um sobrevivente silencioso, atravessando décadas de violência, censura e apagamento cultural sem nunca perder a sua identidade.

A narrativa não se apresenta de forma linear ou clássica. Luz prefere fragmentar o tempo, oferecendo-nos episódios soltos, momentos-chave da História alemã (e europeia), que se vão acumulando na nossa memória enquanto leitores. Ainda assim, nunca nos sentimos perdidos. Cada curto episódio cumpre uma função clara, ajudando-nos a compreender o percurso errante da obra e o contexto político e social que a rodeia. Existe, portanto, um olhar fixo e imóvel, que nos coloca numa posição quase desconfortável de voyeurismo histórico.

Este voyeurismo é um dos aspetos mais interessantes do livro. O quadro é a nossa porta de entrada para os horrores do século XX, mas também o nosso limite. Só vemos o que está à sua frente. Só sabemos o que acontece no seu campo de visão. Esta limitação narrativa reforça a ideia de impotência face à barbárie: a arte vê, regista, sobrevive, mas não a pode impedir. E esse feito deste livro é verdadeiramente brilhante.

Entretanto, com a ascensão do nazismo, o quadro "Duas Raparigas Nuas" ganha um peso político evidente. A classificação da arte moderna como “degenerada”, a desapropriação de bens a famílias judias, as exposições humilhantes e a destruição cultural surgem não como um tratado histórico, mas como um conjunto de acontecimentos observados de forma quase clínica. Não é uma opinião, é a constatação de um facto. Que convém que nunca seja esquecido. E é essa frieza que torna tudo ainda mais perturbador neste Duas Raparigas Nuas.

Se há algo a apontar como menos conseguido na obra, será talvez a forma como, a meio/final do livro, alguns episódios surgem de forma demasiado rápida, por um lado, e, por outro, que os mesmos nos sejam dados mais por uma necessidade documental do que por verdadeira relevância narrativa. Não chegam a comprometer o todo, mas dão a sensação de “cumprir calendário”, reforçando até uma ligeira repetição estrutural e visual. Por exemplo, não me parece necessária que aquando da tour da exposição "Arte Degenerada" tenhamos que acompanhar a obra em Berlim, Munique, Leipzig, Dusseldorf ou Salzburgo, com planos e pranchas quase iguais, sem que aconteça algo verdadeiramente relevante. Mas será uma nota negativa menor, claro.

Em termos gráficos, Luz afasta-se aqui do registo mais associado à caricatura política do Charlie Hebdo (a que pertence), embora esse traço rápido e expressivo continue presente. O desenho é solto, por vezes quase esquemático, mas encontra nas aguarelas um aliado fundamental. A cor, em aguarela, traz textura, emoção e uma beleza inesperada a um traço que, isoladamente, poderia parecer demasiado simples.

Duas Raparigas Nuas, de Luz - ASA - LeYa
O facto de estarmos perante um objeto estático obriga a um jogo constante de enquadramentos. O quadro pode estar torto, parcialmente tapado, encostado a uma parede, transportado de forma descuidada. Tudo isso afeta também a nossa leitura. A vinheta inclina-se, o campo de visão é obstruído, e cabe ao leitor adaptar-se a essa instabilidade visual, o que representa tanto um desafio como uma virtude da obra.

Esta opção chega até mesmo a fazer uma ponte bem sucedida com o significado da obra, pois reforça a ideia de que a arte não controla o seu destino. Ela é movida, escondida, exposta ou censurada conforme a vontade de terceiros. O leitor sente isso fisicamente na leitura, através da forma como a página se organiza (ou desorganiza). Mais uma vez, ideia brilhante por parte de Luz!

E não deixa de ser curioso que embora todo o livro seja sobre um quadro, nunca temos a hipótese de ver esse mesmo quadro até ao final do livro. Pois, apesar de tudo, é como se o quadro fôssemos nós: se se ataca a liberdade criativa, atenta-se contra a liberdade de toda a humanidade.

Por fim, e convém não o esquecer, é impossível não ler Duas Raparigas Nuas à luz do ataque à redação do Charlie Hebdo, experiência que marcou indelevelmente o percurso de Luz que, nesse dia, teve a sorte de chegar atrasado à redação. Caso contrário, poderia já não estar neste mundo como alguns dos seus colegas da altura. O paralelismo é claro: tal como os jihadistas atacaram os cartunistas por não se reverem na sua criação, também os nazis perseguiram artistas e obras por estas não servirem a sua visão do mundo. Em ambos os casos, temos a instrumentalização da arte como inimiga política.

A edição da ASA é em capa dura baça, com bom papel baço no interior. A impressão e encadernação também são boas. Nota ainda, positiva, para a forte componente documental do livro que inclui um posfácio assinado por Rita Kersting, Diretora-adjunta do museu Ludwig de Colónia, um conjunto de biografias das personagens mais relevantes desta história, uma cronologia detalhada e ainda referência às obras, também chamadas de "degeneradas" pelos nazis, pelas quais o quadro de "Duas Raparigas Nuas" se vai cruzando.

Em jeito de conclusão, Duas Raparigas Nuas é mais do que uma BD histórica. É, antes e mais do que isso, um ensaio visual sobre liberdade de expressão, memória e resistência cultural. Ao dar voz simbólica a um quadro, Luz constrói uma meditação poderosa sobre o papel da arte face à barbárie, mostrando como uma simples pintura pode atravessar regimes, guerras e décadas sem perder o seu significado humano. O livro é simultaneamente uma homenagem à arte perseguida e um alerta contra todas as formas de censura e intolerância. A não perder!


NOTA FINAL (1/10):
9.6



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Duas Raparigas Nuas, de Luz - ASA - LeYa

Ficha técnica
Duas Raparigas Nuas
Autor: Luz
Editora: ASA
Páginas: 200, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 282 x 211 mm
Lançamento: Janeiro de 2026

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Análise: O Gosto do Cloro

O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir

O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir
O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès

A Coleção Angoulême da editora Devir aproxima-se do final, ficando apenas a faltar a publicação do livro Kiki de Montparnasse, de Catel & Bocquet. Antes desse derradeiro lançamento, a editora já nos fez chegar, durante este primeiro mês do ano, o livro O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès, que, assumindo desde já que pode não agradar a todo o tipo de leitores, confesso ter adorado.

Afinal de contas, estamos perante um livro que se lê quase em apneia, de tão intenso e vazio que é ao mesmo tempo. Bastien Vivès, autor de outras obras já por cá publicadas por outras editoras, como Uma Irmã, Polina ou a mais recente e contemporânea abordagem à série clássica de Corto Maltese, constrói neste O Gosto do Cloro, uma narrativa curta e silenciosa, onde o essencial não está tanto no que acontece, mas naquilo que se sente. E nisso, o autor é um verdadeiro mago. A piscina onde decorre a quase totalidade desta história surge-nos, pois, como mais do que um cenário: é um estado de espírito. Um espaço fechado, azul, repetitivo, onde os corpos se movem e os pensamentos se libertam lentamente, como se cada braçada fosse também um ensaio de aproximação emocional.

Mas já me estou a adiantar. Recuemos um pouco.

O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir
A história é bem simples. Acompanhamos o percurso de um rapaz, que pelo bem das suas costas, precisa nadar. Pelo menos, uma vez por semana. É essa a sua prescrição médica. É então que, na piscina onde decide fazer natação, o seu olhar assenta numa bela rapariga, antiga campeã de natação. Não sabemos muito mais sobre cada uma das personagens e é bem possível que não fiquemos a saber muito mais depois de finalizada a leitura. No entanto, várias emoções e um sentimento de reflexão estão à nossa espera enquanto mergulhamos, literalmente, nesta leitura.

Também não sabemos os nomes das personagens, e isso não é um acaso, pois tratam-se, claro, de figuras quase universais, arquétipos de um encontro que poderia ser de qualquer um de nós, num tempo indefinido, suspenso.

A relação dos dois começa de forma bastante lenta - e, portanto, credível - à medida em que as duas personagens, principalmente o rapaz, vão vencendo os seus medos e a sua timidez para estabelecer contacto um com o outro.

Vivès aposta numa relação que surge através de pequenos gestos, olhares trocados e correções técnicas de natação, que funcionam como pretextos para o toque e para a proximidade entre as personagens. Há uma intimidade que cresce de forma orgânica, sem grandes declarações ou viragens dramáticas. Tudo acontece num registo silencioso, quase sussurrado, como se o próprio livro tivesse medo de quebrar o silêncio húmido da piscina.

O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir
Este é, claramente, um livro que não agradará a todos. Passa-se pouca coisa, no sentido clássico da narrativa. Isso é verdade. E estamos perante um encontro entre duas personagens Apenas isso. A possibilidade do que pode vir, ou não, a ser. O virar da página de um encontro fortuito. Mas é precisamente aí que reside a maturidade da proposta: Vivès imprime significado nos silêncios, na observação pura, naquilo que fica por dizer. O vazio aparente é, afinal, um espaço cheio de tensão e expectativa.

É verdade que o ritmo da narrativa também acaba por ser lento, mas tudo isso é bastante deliberado. Cada página parece flutuar, como os corpos na água. Essa lentidão, que poderia ser um defeito noutro contexto, funciona aqui como uma virtude, porque nos obriga a desacelerar, a ler com atenção, a habitar o tempo da narrativa em vez de o atravessar apressadamente. Este é mesmo um daqueles livros que serve como escape. Se o lermos à pressa - e essa possibilidade até fará com que o livro seja lido em 15 ou 20 minutos - estaremos a não dar à obra aquilo que ela nos pede: tempo. Os livros discretos, sensíveis e profundamente contemplativos normalmente carecem de tempo para serem bem degustados.

O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir
Há também uma dimensão profundamente nostálgica nesta história que me agradou especialmente. O Gosto do Cloro remeteu-me para os tempos da adolescência, da juventude, em que o primeiro contacto - mesmo que breve - com alguém do sexo oposto parecia a abertura de um livro em branco. Quando em jovens, não sabíamos o que podia sair dali, desse primeiro contacto com alguém que desconhecíamos, e talvez por isso, a carga emocional fosse tão intensa. Vivès capta muito bem esse momento frágil de passagem da infância para o mundo adulto.

O final deixa tudo em aberto, o que acaba por fazer ressoar ainda mais a obra no leitor. Posso dizer-vos que tentar perceber como acaba esta história dá pano para mangas e promete conversas longas entre quem tiver lido a obra. Mas mais não digo. Terão mesmo que ler este belo livro e tirar as vossas conclusões.

Do ponto de vista gráfico, os desenhos são simples, minimalistas e bastante despidos. Há um certo charme nessa economia de meios, um requinte visual que contribui para o erotismo latente do conto. Os corpos, desenhados sem excessos, parecem mais vulneráveis, mais reais, e o grafismo ajuda a construir essa atmosfera de intimidade contida. As próprias posições dos corpos na água são muito bem delineadas por parte do autor. Fica a ideia que ou o autor passou muitos anos da sua vida em piscinas de natação, ou fez um estudo demorado e profundo para este álbum, já que a linguagem corporal das personagens está muito bela e verossímil.

O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir
Há momentos belíssimos, quase hipnóticos, que parecem levar-nos para o ambiente de uma piscina. Diria que, enquanto lemos este livro, quase conseguimos sentir o cheiro do cloro. Aliás, o livro poderia perfeitamente chamar-se "O Cheiro do Cloro" em vez de O Gosto do Cloro. Vivès coloca-nos dentro da piscina com uma eficácia rara: o eco das vozes, o reflexo da luz na água, a repetição dos azulejos... Enfim, tudo contribui para uma experiência sensorial que vai além da leitura convencional.

E mesmo na forma como utiliza as cores, com um sentido de estética gráfica muito própria, o autor nos oferece um belo trabalho. Nota ainda para a utilização de planos de câmara e perspetivas mais arriscadas e audazes, mas que acabam sempre por ser muito bem executados. Apreciei também a forma como as linhas desaparecem, dando lugar a borrões de cor, quando somos presenteados com uma vista a partir do interior da piscina. 

A edição da Devir é em capa dura baça, com bom papel baço no miolo. A encadernação e a impressão também são boas. Ainda que o formato da obra não seja muito grande, diria que isso não belisca em nada a nossa imersão na leitura.

Em suma, O Gosto do Cloro é, acima de tudo, um livro de sensações. Não oferece respostas, não fecha a narrativa de forma confortável e não explica excessivamente as personagens. Prefere deixar-nos em suspenso, a pairar na calma das águas azuis, tal como os próprios protagonistas. Esta é uma obra que mantém uma poesia silenciosa que continua a ecoar, muito depois de sairmos da piscina e de nos secarmos. É um livro denso, delicado e imperfeito. Um livro que se lê rápido, mas que permanece na memória. Como um encontro breve que nunca mais é esquecido. 


NOTA FINAL (1/10):
9.2



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir

Ficha técnica
O Gosto do Cloro 
Autor: Bastien Vivès 
Editora: Devir
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 17 x 24 cm
Lançamento: Janeiro de 2026