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terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Análise: A Adopção

A Adopção - Edição Integral, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros

A Adopção - Edição Integral, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros
A Adopção - Edição Integral, de Zidrou e Monin

Foi já no final do ano passado, já depois do término do Amadora BD - que, historicamente, costuma apresentar as últimas grandes apostas editoriais de banda desenhada -, que a Ala dos Livros editou de surpresa este A Adopção, dos autores Zidrou e Monin.

Saber disto, foi uma ótima surpresa para mim. Zidrou é um autor cheio de contemporaneidade nos temas que aborda nos seus livros. Mas falar de temas atuais não quer dizer - ou não deveria - escrever apenas algo que seja "mais do mesmo". Que apenas apele à tendência comercial. Não, no caso de Zidrou nada disso acontece. Zidrou tem um cunho muito pessoal na forma como escreve, nas personagens que cria e nos enredos que desenvolve. Consegue ir às profundezas dos temas e trazer consigo uma consciencialização e reflexão que ficam impregnadas nas mentes dos leitores.

Talvez por isso, sou um grande fã do autor e considero que o mesmo já atingiu um lugar especial no pedestal dos grandes argumentistas da banda desenhada europeia.

Aparentemente, as editoras e público portugueses concordam comigo pois trata-se de um autor que já parece ter um público relevante em Portugal. A Arte de Autor publicou a série completa de Verões Felizes, a editora A Seita publicou A Fera. Sabe-se que ambas as editoras irão co-editar mais três obras do autor, nomeadamente, Naturezas Mortas, de Zidrou e Oriol; Emma G. Wildford, de Zidrou e Edith; e Lydie, de Zidrou e Jordi Lafebre. Talvez por isso, foi com surpresa – mas enorme satisfação – que me chegou a notícia de que a Ala dos Livros também iria publicar Zidrou.

E que bom isso é. Acho, aliás, que do ponto de vista do leitor português, interessa é que as (boas) obras sejam publicadas por cá. Não interessa tanto quais são as editoras que o fazem.

E ter este A Adopção publicado, com qualidade, em português é algo com que devemos ficar contentes.

A Adopção - Edição Integral, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros
O tema é simples: uma família francesa decide adotar uma órfã peruana de 4 anos. E, naturalmente, essa iniciativa causa um turbilhão de mudanças nessa mesma família. E, em particular, na vida de Gabriel. Este, é já idoso, e a verdade é que nunca teve tempo para ser pai. Havia demasiado trabalho para fazer e contas para pagar, e teve que ser a sua mulher a fazer as vezes de mãe e pai para com os filhos de ambos. Agora que o seu filho decide adotar Qinaya, não será Gabriel, portanto, a pessoa mais apta para esta nova função de avô. Ainda para mais, de uma criança que já traz um background social pesado e uma cultura diferente da sua.

Mas, surpresas das surpresas, passado algum tempo de rejeição inicial, Gabriel e a pequena Qinaya, começam, gradualmente, a criar laços entre si. A vida é mesmo assim. Nem tudo é linear e, por vezes, todos nós somos surpreendidos por aquilo que nos acontece e pela forma como reagimos a esses mesmos acontecimentos.

Se esta história poderá parecer algo clichet para os leitores que me lêem, desenganem-se. A meio do livro, há um acontecimento abrupto que muda a história do avesso. Portanto, se a história parecia incidir apenas sobre a possibilidade que a vida nos dá para criar laços inesperados com pessoas que, à partida, são muito diferentes, é muito mais do que isso. 

A Adopção - Edição Integral, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros
Vou ter cuidado com as palavras, a partir de agora, para não estragar a o prazer da leitura do livro àqueles que estiverem a ler este meu texto. Como dizia, acontece algo que afasta Qinaya do seu (novo) avô Gabriel e que fará com que a história abandone, sem olhar para trás, a sua premissa inicial de relacionamento avô-neta, e se foque apenas na personagem de Gabriel e na sua demanda pessoal.

Já falei com várias pessoas sobre este livro e tenho escutado posições muito díspares sobre esta mudança abrupta a meio da história: há quem adore e há quem deteste.

No meu caso, gosto de ser surpreendido e gosto de autores audazes. E Zidrou mostrou ser isso tudo neste livro. É preciso coragem para avançar para uma história que muda tanto e, com isso, corre o risco de deixar algumas expetativas defraudadas. 

Na minha opinião, esta mudança traz dinamismo e surpresa à história. E isso agrada-me. Não obstante, pareceu-me que, talvez pela brusquidão da mudança no enredo, também houve algumas pontas soltas e questões que ficaram por dar, que o autor poderia ter fechado melhor. Ou seja, por outras palavras, apreciei a mudança radical, mas também é verdade que essa mudança abrupta, levantou outras questões que se afastaram do tema original, sem que isso tenha sido necessariamente bom ou que tivessem ultrapassado em termos de envolvência a ideia inicial da história.

A Adopção - Edição Integral, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros
Mas bem, A Adopção não é sobre um avô e a sua neta. Se acharem isso, talvez se desiludam com o livro pois, na verdade, A Adopção é sobre um homem de idade já avançada e de como este dá por si a descobrir que a vida não é estática nem fechada em si mesma. De vez em quando, e sem que o esperemos, há certas faíscas na nossa vida que servem como a ignição para a mudança em nós. Por vezes, são coisas tão fora do nosso controlo que mal nos dão tempo para nos habituarmos às mesmas. Quando damos por isso já somos pessoas diferentes. Mas a vida é assim. Não pede licença a ninguém para acontecer. Simplesmente acontece. Quem acha que tem controlo absoluto sobre a sua vida está mais enganado do que julga. E este livro prova-o de forma sublime.

Se Zidrou é um belo argumentista, também há algo que é ponto assente: sabe sempre rodear-se de bons ilustradores para as suas histórias. E Arno Monin não é exceção. Os desenhos que habitam este livro são verdadeiramente belos, empáticos e ternurentos nas expressões. De um estilo a que chamo o “novo franco-belga” que se foca muito nas expressões faciais e num estilo de cores suaves, que bem acentuam o cariz humanístico da história. Como exemplos de estilos de ilustração, por cá lançados recentemente, e para os quais fui remetido, poderia dizer que o estilo de ilustração de Monin sendo, naturalmente, original e com personalidade própria, anda de mãos dadas com o estilo de Jordi Lafebre em Verões Felizes, com o estilo de Victor Pinel, em O Mergulho, Julen Ribas em Santa Família ou até mesmo de Rodolfo Oliveira em O Infeliz Pacto de George Walden. É um estilo que muito me agrada, reconheço.

A Adopção - Edição Integral, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros
E focando-me mais uma vez naquilo que Monin nos dá neste A Adopção, devo dizer que saltam à vista as maravilhosas expressões faciais das personagens – com destaque para a doce Qinaya -, a bonita caracterização dos cenários, os belos planos de detalhe cénico e as irresistíveis cores que dão vida aos belos desenhos, de traço descontraído, de Monin. Não há aqui nada que falhe. Este é um livro lindíssimo da primeira à última página.

Quanto à edição, também não há nada que se possa apontar ao belo trabalho da Ala dos Livros. Capa dura e baça, papel brilhante de excelente qualidade, e ótima impressão e encadernação. Destaque para o facto de, no final do livro, haver um caderno de extras com 10 páginas, onde nos podemos maravilhar com mais algumas belas ilustrações de Monin. Nota ainda para o facto de a editora portuguesa ter optado (e bem) por publicar uma edição integral da história em vez de a lançar em dois tomos, tal como foi feito originalmente.

Uma nota mais pessoal sobre a escolha da ilustração para a capa. É uma bela capa, mas admito que prefiro as outras versões de capa que já vi. E não o digo apenas baseado numa questão de estética. Digo-o porque considero que passam mais coisas e, por esse motivo, me parecem mais emotivas. Não obstante, e isso também é relevante, talvez(?) a escolha desta ilustração seja mais fiel à história que nos espera do que as demais capas. Se isto foi pensado pelos editores (acredito que sim) até merece as minhas vénias com o cuidado editorial.

Concluindo este texto que já vai longo, A Adopção é mais um dos grandes livros dos últimos meses. Com uma história que nos faz sorrir e chorar, Zidrou volta a pegar no nosso coração, a agitá-lo como se fosse um shaker de cocktail, e a deixar-nos com um gosto agridoce na boca. É óbvio que é obrigatório.


NOTA FINAL (1/10):
9.3



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020




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A Adopção - Edição Integral, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros

Ficha técnica
A Adopção - Edição Integral
Autores: Zidrou e Monin
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
Lançamento: Outubro de 2022

sexta-feira, 17 de maio de 2024

Análise: A Adopção – Ciclo II

A Adopção – Ciclo II, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros

A Adopção – Ciclo II, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros
A Adopção – Ciclo II, de Zidrou e Monin

A Ala dos Livros lançou recentemente o segundo volume de A Adopção que, na prática, como é um álbum duplo, reúne o terceiro e quarto volume da série, respetivamente os tomos Wajdi e Arrependimentos. Embora o tema da adopção de crianças se mantenha como o ponto primordial da série, em cada história acompanhamos um processo de adopção diferente: se nos primeiros dois tomos acompanhámos a história de Qinaya, neste livro seguimos a caminhada de Wajdi.

Wajdi é uma criança refugiada da guerra do Iémen. Tem 10 anos e já tem uma história de vida carregada de traumas: perdeu os pais e a irmã, e conseguiu, sabe-se lá como, sobreviver. Até que o destino coloca Gaelle e Romain na sua vida. Estes são um casal de franceses de meia idade, já com dois filhos mais crescidos, e que pertencem à classe média alta francesa. Não poderiam, portanto, ser mais diferentes do que Wajdi. E se poderia parecer que tinha saído a sorte grande a esta criança iemenita, talvez as coisas não sejam tão lineares assim.

A Adopção – Ciclo II, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros
Na verdade, a adaptação desta criança a esta nova realidade é tudo menos pacífica. Wajdi está desconfiado com tudo e todos, não percebe a língua francesa e não suporta qualquer que seja o contacto físico. Mesmo que seja um pequeno gesto como uma festa na cara. Gaelle e Romain estavam muito felizes ao início, mas a sua felicidade vai-se esvaindo à medida em que são confrontados pelas reações desajustadas de Wajdi. Até que, quando as coisas assumem uma escala maior, ponderam não avançar com o pedido de adopção, voltando atrás com aquela que era a sua intenção inicial.

Zidrou, o argumentista, como não podia deixar de ser, dá-nos aqui (mais) uma bela história que impacta o leitor, que o abana, que o faz pensar. Se este não é o melhor dos argumentistas para este tipo de histórias, não sei quem o será. Rapidamente nos habituamos às personagens, criamos empatia com elas e ficamos duplamente tristes pela aparente incompatibilidade entre Wajdi e a sua nova família.

A Adopção – Ciclo II, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros
Adicionalmente, Zidrou tem o mérito de arrancar o leitor ocidental da sua realidade que, não sendo perfeita, é incomensuravelmente mais fácil e mais próxima de um conto de fadas do que a de uma criança refugiada. Porque, se é verdade que alicerçamos as nossas relações familiares e pessoais com base nos valores ocidentais, também é verdade que não temos, depois, o poder de encaixe para aceitar, compreender e criar empatia com os “outros”, aqueles que tiveram uma experiência de vida amplamente diferente da nossa. Se alguém não se encaixa na nossa vida perfeita, o erro é sempre desse alguém e não da nossa sociedade, que talvez não seja tão perfeita como gostamos de assumir. A mensagem deste A Adopção, sendo subtil, é, pois, certeira superando até os primeiros dois tomos da série onde o argumento me pareceu mais aleatório. É verdade que talvez a resolução desta história seja algo expectável, mas, ainda assim, parece-me que este é um daqueles casos em que o mais relevante é a viagem e não o destino.

A Adopção – Ciclo II, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros
Falando das ilustrações de Monin, devo dizer que, mais uma vez, o seu traço me convenceu da primeira à última vinheta do livro. Os seus desenhos irradiam expressividade das faces das personagens e, claro, as belíssimas e suaves cores, são a tónica perfeita para que a experiência de leitura seja muitíssimo agradável. Dito por outras palavras, considero ser justo dizer que os desenhos de Monin são o “match” perfeito para o argumento arquitetado por Zidrou. Repescando as palavras que escrevi no livro anterior, posso reiterar que também neste segundo livro “saltam à vista as maravilhosas expressões faciais das personagens, a bonita caracterização dos cenários, os belos planos de detalhe cénico e as irresistíveis cores que dão vida aos belos desenhos, de traço descontraído, de Monin. Não há aqui nada que falhe. Este é um livro lindíssimo da primeira à última página.

Quanto à edição, acho louvável que a Ala dos Livros tenha decidido lançar esta série em volumes duplos, já que, conforme já referido, cada dois álbuns correspondem a uma história fechada em si mesma. A capa é dura e baça e o papel é brilhante e de boa qualidade. Também a impressão e a encadernação apresentam um bom trabalho. Apenas é de lamentar que, na capa, tenha havido uma gralha com o nome da personagem Wajdi. Tendo em conta que se trata de um nome exótico, pelo menos para a realidade portuguesa, é um erro que passa mais despercebido. Mas é um erro, claro.

Em suma, Zidrou volta a esculpir, com mestria, uma história atual, carregada de humanidade e momentos que tão depressa nos deixam com um sorriso na cara, como nos deixam de coração apertado perante uma sociedade que, tantas vezes, esquece o seu maior e mais promissor bem: as suas crianças. Eis mais um livro indispensável que a Ala dos Livros, naquele que é capaz de ser o seu ano mais forte de sempre (e ainda só vamos em Maio), acaba de publicar.


NOTA FINAL (1/10):
9.4



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A Adopção – Ciclo II, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros

Ficha técnica
A Adopção - Ciclo 2 - Edição Integral
Autores: Zidrou e Monin
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
Lançamento: Abril de 2024

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Análise: A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares

A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros

A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros
A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Moni

Foi há poucos dias que a Ala dos Livros nos trouxe mais um livro da série A Adopção, que tem Zidrou como argumentista e Monin como ilustrador.

Este trata-se do quinto tomo da série, embora seja apenas a terceira história da mesma. Isto porque, ao contrário das histórias anteriores, que foram divididas em dois tomos (se bem que, convém não esquecer, a Ala dos Livros, editou - e bem - cada um dos livros anteriores em volumes dípticos), esta terceira história, autoconclusiva, é-nos dada num menor número de páginas, encerrando em si mesma o terceiro ciclo da série. Que, entretanto, acaba de lançar, em França o sexto álbum.

Já me começo a repetir, bem sei, mas ainda está para vir o primeiro livro de Zidrou que não me agrada. As suas histórias, as suas personagens e a humanidade que emana das mesmas, não tem par. E se eu tenho gostado muito desta série até agora, é bem provável que este O Rei dos Mares até seja o meu preferido até agora. O que não é dizer pouco.

Voltamos a ter o tema da adopção, claro, mas desta feita é-nos dado de uma forma algo diferente face às duas histórias anteriores, em que o enfoque era mais colocado nas dificuldades inerentes ao processo de adopção. Desta feita, continuamos a ter a mesma temática, mas este é um livro que vai além disso, conseguindo ser uma história mais universal.

A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros
Um casal é formado por um espanhol, Eduardo, e uma francesa, Nathalie. Depois de várias tentativas sem conseguirem engravidar, ambos solicitam a adopção de uma criança, nos respetivos países a que pertencem. Depois de muito tempo à espera, quer o destino que os pedidos de adopção sejam aceites praticamente na mesma altura, o francês e o espanhol, com duas meninas a chegarem com o espaçamento de três dias para que possam ser adoptadas pelo casal. Mas como, dizem, não há uma sem duas, nem duas sem três, Nathalie engravida contra tudo o que se poderia esperar. Passam então a ser três meninas. Esta família pode ser improvável, mas é profundamente unida. 

Porém, a mãe falece e o pai vê-se forçado a educar as suas três filhas sozinho (não vos estou a dar nenhum spoiler, pois esta informação até nos é dada logo na sinopse contida na contracapa do livro). E é a partir daí que as três irmãs, já mulheres, e depois de mais uma notícia trágica, voltam atrás no tempo, através de boas memórias que o pai e a mãe lhes ofereceram.

A premissa, embora oferecida num argumento dinâmico que nos leva um sem número de vezes ao passado e ao presente, é bastante simples. Mas funciona perfeitamente bem.

Com efeito, este novo livro é, antes de mais, uma obra verdadeiramente emocionante. Há nela uma delicadeza quase invisível que se infiltra devagar, mas que permanece, mesmo depois da última página, como um eco suave de algo profundamente humano. Embora não tenha chorado, senti-me profundamente emocionado por esta obra, com o seu embalo agridoce que, ora nos arranca uma gargalhada, ora nos deixa com um nó na garganta.

A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros
O texto de Zidrou é tocante, sem ser lamechas, sabendo fazer o leitor viajar às suas próprias memórias. E essa é talvez a sua maior virtude: a capacidade de provocar reconhecimento. Podemos não ter vivido uma história minimamente próxima daquela que nos é dada, mas, ainda assim, sentimos que já estivemos ali, que as vozes e sentimentos destas personagens nos pertencem de alguma forma, como se cada frase abrisse uma porta para o nosso próprio passado emocional.

Como já referi, e ao contrário dos volumes anteriores, mais do que ser um livro que se foca nas dificuldades da adoção, este volume prefere iluminar aquilo que tantas vezes fica na sombra: a beleza do vínculo, a construção do afeto, a força tranquila do amor escolhido. Não ignora as dores da vida, o luto e a ausência, mas não se deixa definir por elas. Ao invés, insiste no que floresce apesar de tudo, nas memórias que ficam, nos laços que não findam.

Estamos perante uma história de boas memórias, numa clara homenagem a um pai. E que pai! Edu é uma personagem que não se constrói por grandes gestos heroicos, mas pela constância, pela presença e pelo cuidado quotidiano que tem com as suas filhas. As pequenas coisas ganham aqui um peso imenso, porque são elas que, no fundo, edificam uma vida partilhada. Especialmente quando temos, enquanto pais, crianças a absorverem tudo o que fazemos, diria.

Além disso, há algo mais onde me parece que Zidrou volta a ser muito bem sucedido: a verosimilhança da história. Os momentos descritos são tão intensos que parecem ser retirados da vida real, como se o autor tivesse mesmo vivido estes eventos ou como se alguém lhos tivesse contado. Consequentemente, nós, os leitores, parecemos estar a observar fragmentos de uma existência autêntica, com todas as suas imperfeições e maravilhas, sem que nada soe forçado, quando lemos este O Rei dos Mares

Há, por isso, uma melancolia doce que percorre toda a obra. Não uma tristeza pesada, mas antes uma saudade luminosa, daquelas que aquecem mesmo quando doem. O passado não é um peso, mas antes um abrigo, ou um lugar aonde regressar para reencontrar o que/quem nos fez ser quem somos. Já vos aconteceu? A mim, certamente que sim.

A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros
É, pois, uma história sobre o luto, mas também sobre a vida após a morte. Não uma vida literal, nem metafísica, mas aquela que persiste nas recordações. Quando alguém parte, fica presente nos seus gestos que repetimos, nas suas palavras e expressões que herdamos, e nas suas histórias que recontamos. Gosto de pensar que é aí que este pai - e tantos outros pais, incluindo o meu - continua a existir.

O desenho de Monin acompanha toda esta sensibilidade da história com uma harmonia notável, que se coaduna muito bem com o relato. Mantém o mesmo estilo demonstrado nos álbuns anteriores, com ilustrações suaves e bonitas cores que acentuam essa suavidade e leveza. As personagens, de traço semicaricatural, são muito expressivas, criando facilmente empatia com o leitor, o que reforça o impacto emocional da narrativa.

É verdade que, de quando a quando, e especialmente comparando com os álbuns anteriores, surgem pequenos momentos em que os desenhos parecem feitos com mais pressa do que o habitual, carecendo de algum detalhe que o autor, noutros momentos, demonstrou dominar plenamente. Ainda assim, esses apontamentos não diminuem o conjunto. A obra permanece muito boa mesmo do ponto de vista da ilustração.

A edição da Ala dos Livros é em capa dura baça, com bom papel baço no interior e boa impressão e encadernação. Nada a objetar.

Em suma, este O Rei dos Mares até é capaz de superar os dois ciclos anteriores que já tanto me tinham agradado. Sei que muita gente até pode considerá-lo como um livro "apenas" bom, com uma história leve e bonita e bem servida por belos desenhos... mas se é verdade que devemos avaliar um livro por aquilo que ele nos fez sentir e como nos marcou, então tenho que admitir este é um dos livros que mais me tocou no presente ano.  Esta é uma obra que não procura impressionar-nos, mas antes tocar-nos. E fá-lo como poucas!


NOTA FINAL (1/10):
9.7



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros

Ficha técnica
A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares
Autores: Zidrou e Monin
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
Lançamento: Maio de 2026

quinta-feira, 18 de abril de 2024

Ala dos Livros lança nova BD sobre a adopção de crianças!



Já está a chegar às livrarias o segundo ciclo de A Adopção, de Zidrou e Monin!

Este é um álbum duplo que reúne os tomos 3 e 4 desta série, respetivamente Wajdi e Arrependimentos. Algo à semelhança do que a editora Ala dos Livros já tivera feito com a reunião dos primeiros dois tomos da série num só livro.

Embora se trate de uma série que aborda a questão da adopção de crianças, as histórias são independentes entre si. Dito por outras palavras, cada ciclo/história é composto por dois volumes.

Este é um lançamento que me está a deixar muito emplogado porque, no primeiro volume, adorei a arte de Monin. Quanto a Zidrou, já não são precisas muitas palavras de valroziação da minha parte, já que o autor é um dos meus argumentistas preferidos de banda desenhada. Como costumo dizer: "ainda está para vir o primeiro livro de Zidrou de que eu não gosto".

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


A Adopção - Ciclo 2 - Edição Integral, de Zidrou e Monin

Após longos meses de espera, Gaëlle e Romain adoptaram Wajdi, de 10 anos. 

Originário do Iémen, Wajdi cresceu no horror da guerra. Uma infância abalada por lutas, privações, sofrimentos. Desconfiada, endurecida pela força das circunstâncias e sem falar uma palavra em francês, a criança de 10 anos assusta-se com os mais pequenos ruídos do quotidiano e interpreta mal os gestos mais simples.

Os felizes pais adotivos serão rapidamente confrontados com os primeiros “nãos”, os primeiros problemas da adolescância e as primeiras rebeliões. Wajdi passou pelo pior, levará algum tempo para aceitar o melhor. O casal hesita em confirmar o pedido de adopção. A família que tanto queria esse filho ainda o quer? E o que restará então a Wajdi?

Depois de o segundo tomo de “A Adopção” ter obtido, em 2017 e 2018 respectivamente o Prémio Saint-Michel para o Melhor álbum Francófono e o Prémio da BD Fnac da Bélgica, esta série tornou-se uma referência incontornável da BD europeia dos últimos anos.

Depois da edição integral do 1º ciclo (Ala dos Livros, 2022), a edição portuguesa, também pela Ala dos Livros, inclui num único volume os dois tomos do 2º ciclo da edição francesa original dedicados à história de Wajdi.

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Ficha técnica
 A Adopção - Ciclo 2 - Edição Integral
Autores: Zidrou e Monin
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
PVP: 31,90€


quarta-feira, 13 de maio de 2026

Ala dos Livros edita 3º livro da BD "A Adopção"!


Já está disponível o novo volume da série A Adopção, da autoria de Zidrou e Monin.

Ao contrário dos anteriores dois livros, que eram dípticos, incluindo dois tomos cada um, este terceiro livro, intitulado O Rei dos Mares, é um álbum autocontido, um pouco mais pequeno que os anteriores, pois não é duplo.

Esta é uma série que eu adoro e que recomendo vivamente. Mal posso esperar para mergulhar nesta leitura.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin
Um nascimento e pedidos de adopção que se concretizam quando menos se espera. Depois, a dor que vira tudo de cabeça para baixo. 

Uma família onde o pai espanhol entrou com um pedido de adopção em Espanha enquanto a mãe francesa entrou com um pedido de adopção em França. Uma família onde ambos os pedidos se concretizam ao mesmo tempo e, como costuma acontecer nesses casos, uma família onde a natureza assume o controlo e a mãe engravida. 

É uma família onde a terceira menina é repentinamente adoptada. É também uma família onde quem mais sofre é quem sai do ventre da mãe, porque ela não foi adoptada como as suas duas irmãs. E é uma família onde a dor ataca, deixando o pai sozinho com as suas três filhas adoptivas. É uma história de vida, ou melhor, de quatro vidas, e acima de tudo, é uma enorme história de amor.

Depois de o segundo tomo de “A Adopção” ter obtido, em 2017 e 2018 respectivamente os Prémio Saint-Michel para o Melhor álbum Francófono e o Prémio da BD Fnac da Bélgica, esta série tornou-se uma referência incontornável da BD europeia dos últimos anos.

Após a edição dos volumes Integrais 1 e 2 desta série (Ala dos Livros, 2022 e 2024, respectivamente) a Ala dos Livros, publica o 3º volume da série.



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Ficha técnica
A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares
Autores: Zidrou e Monin
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
PVP: 25,90€

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Há mais um livro de Zidrou a caminho das livrarias!!!



Sou um confesso fã de Zidrou pois acho que é dos melhores argumentistas de banda desenhada da atualidade, que sabe tocar assuntos relevantes do nosso dia-a-dia que, lamentavelmente, outros autores parecem esquecer.

E começo por dizer isto para vos confirmar que sim, há mais um livro do autor a caminho das livrarias. Chama-se A Adopção e conta com as ilustrações de Monin!

É um livro muito, muito belo, cuja edição francesa já tive a oportunidade de folhear em loja várias vezes mas que, infelizmente, ainda não consegui ler. Portanto, estou muito empolgado para mergulhar nesta obra.

De assinalar que a obra foi originalmente lançada enquanto díptico (dois álbuns) mas que nos chega, pelas mãos da editora Ala dos Livros, numa edição integral que, ainda por cima, ainda reúne um caderno de extras. Muito melhor assim, diria.

O livro já se encontra em pré-venda no site da editora e deverá chegar às livrarias nos próximos dias. Mais abaixo, deixo-vos a sinopse da obra e algumas imagens promocionais.

A Adopção - Edição Integral, de Zidrou e Monin

Com a adopção de Qinaya, uma órfã peruana de 4 anos, por parte de uma família francesa, a vida de todos os envolvidos sofre uma reviravolta. Mas, para Gabriel, a adopção torna-se ainda mais complicada: ele, que nunca tivera tempo para ser pai, terá de aprender a ser avô.

Dos primeiros contactos frios e distantes aos momentos partilhados, Gabriel e Qinaya irão, pouco a pouco, criar laços que o velho casmurro estava longe de imaginar. Até que…

Depois de o segundo tomo de “A Adopção” ter obtido, em 2017 e 2018, respectivamente, o Prémio Saint-Michel para o Melhor álbum Francófono e o Prémio da BD Fnac da Bélgica, esta obra tornou-se uma referência incontornável da BD europeia dos últimos anos.

A edição portuguesa, com a chancela da Ala dos Livros, integra num único volume os dois tomos da edição francesa dedicados à história de Qinaya e, para além de apresentar uma nova capa, contém ainda um caderno suplementar de pesquisas gráficas das personagens destes álbuns.



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Ficha técnica
A Adopção - Edição Integral
Autores: Zidrou e Monin
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
PVP: 29,90€

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

A análise ao trabalho das editoras portuguesas de BD em 2024

A análise ao trabalho das editoras portuguesas de BD em 2024

2024 foi um ano de muita banda desenhada lançada em Portugal! 

O excelente artigo publicado recentemente por Daniel Maia confirma, aliás, aquilo que tenho vindo a dizer há muito tempo: vivemos numa era dourada da banda desenhada em Portugal! Sei que estas coisas são sempre cíclicas, de certa forma, e que também já tivemos, no passado mais e menos recente, boas épocas de edição de BD que, infelizmente, acabaram por dar lugar a um certo marasmo editorial após iniciais tempos promissores. 

Isso é verdade, mas uma coisa que também é inegável, é que este "período dourado" já se arrasta há alguns anos. E as coisas até vão melhorando de ano para ano. São cada vez mais os autores portugueses a publicarem os seus trabalhos em belas edições, são cada vez mais as editoras a lançarem obras estrangeiras de qualidade superior (também em belas edições), são cada vez mais os eventos dedicados à banda desenhada que pululam por esse país fora, são cada vez mais os livros sobre banda desenhada a serem publicados... Não esquecendo que já há em Portugal, segundo a Constituição Portuguesa, um dia dedicado à banda desenhada, enfim... estamos mesmo a viver o melhor momento de sempre!

A análise ao trabalho das editoras portuguesas de BD em 2024

2024 até pode ter sido o ano mais forte de todos, mas apenas por ter tido em si o natural e orgânico desenvolvimento das sementes plantadas nos últimos cinco ou seis anos, parece-me.

Trago-vos, portanto, mais abaixo, uma breve análise ao ano de 2024, centrando-me nas editoras portuguesas e no trabalho que as mesmas nos apresentaram ao longo do último ano.

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

À Conversa Com: Ala dos Livros - Novidades para 2024!


Hoje trago-vos novidades que vos vão deixar com água na boca! Preparem essas carteiras!

Estive à conversa com Ricardo M. Pereira, um dos responsáveis da editora Ala dos Livros, e um bom amigo, que, bem à semelhança daquilo a que nos tem habituado, falou abertamente das novidades da editora para o próximo ano, enquanto também abordou outras questões bastante interessantes sobre as atividades da editora.

Assumindo que o ano de 2023 foi um ano para "arrumar a casa", Ricardo apresentou algumas das novidades para o próximo ano que, meus amigos, são muito empolgantes!

Não há nem uma novidade que eu não considere de boa qualidade, mas não posso deixar de manifestar o meu entusiasmo com a maravilhosa série Shi, de Zidrou e Homs, e com Le Petit Frère, de Jean-Louis Tripp, que é um daqueles livros para a vida. Uma obra verdadeiramente OBRIGATÓRIA!

Mas há mais novidades para além destas, portanto, não deixem de ler a entrevista mais abaixo.


segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Análise: Emma G. Wildford

Emma G. Wildford, de Zidrou e Edith - A Seita e Arte de Autor

Emma G. Wildford, de Zidrou e Edith - A Seita e Arte de Autor
Emma G. Wildford, de Zidrou e Edith

Entre os lançamentos que a parceria formada pelas editoras A Seita e Arte de Autor já nos ofereceram, destaca-se a recente aposta mútua em obras do autor belga Zidrou. Primeiro, ambas as editoras nos trouxeram o fantástico e lindíssimo Lydie, de Zidrou e Jordi Lafebre, e, mais recentemente, foi a vez de Emma G. Wildford chegar até nós. Isto sem esquecer que, quer A Seita, com A Fera, quer a Arte de Autor, com Verões Felizes, já tinham lançado obras do autor. E isto já para não esquecer que também a Ala dos Livros já lançou A Adopção e lançará no próximo ano a série Shi. Zidrou é, portanto, um autor amplamente publicado em Portugal. Pela parte que me toca, fico muito feliz com isso, já que o trabalho do autor tem sido símbolo de qualidade ao nível do argumento, por um lado, e ao nível do desenho, por outro, tendo em conta que Zidrou parece saber rodear-se sempre de impressionantes ilustradores.

A esse propósito, desta vez, para este Emma G. Wildford, Zidrou faz-se acompanhar pela autora Edith, no desenho.

Emma G. Wildford, de Zidrou e Edith - A Seita e Arte de Autor
A história da obra passa-se nos anos 1920 e centra-se, como não podia deixar de ser, na personagem com o mesmo nome, que tem passado os últimos catorze meses à espera do seu noivo, Roald Hodges, membro da National Geographic Society, depois deste ter embarcado numa expedição à Noruega. Mas desde que essa jornada começou, não mais Emma obteve qualquer notícia do paradeiro do seu noivo.

E um detalhe bastante relevante para a história é que, antes de iniciar a sua jornada, Roald oferece uma misteriosa carta a Emma, pedindo-lhe que só a abra caso lhe aconteça alguma coisa de mal durante a viagem que vai empreender. Como tal, e estando sem notícias do seu noivo por tantos meses, Emma nega para si mesma que a causa dessa ausência seja algo de mau, e opta por, em vez de abrir o tal envelope, ir à procura do seu noivo. Deixa, portanto, a sua Inglaterra repleta de luxos e mordomias dignas da classe alta a que pertence, para partir para a Lapónia.

E o que é mais interessante é que, mais do que a busca pelo seu noivo, Emma acaba por empreender uma busca por si própria, fazendo com que a tal viagem mais não seja do que uma viagem ao seu eu-interior. Zidrou dá-nos aqui um belo texto bastante romântico, onde pisca o olho à própria poesia – ou não fosse Emma uma poetisa por direito - que nos vai oferecendo vários versos e quadras soltas ao longo do livro. A criação da uma personagem feminina forte e obstinada, especialmente num tempo mais longínquo ao atual, já que a história se desenrola no início do século XX, onde a sociedade era bem mais machista do que nos tempos em que vivemos agora, é outra das coisas onde Zidrou é bem sucedido.

Emma G. Wildford, de Zidrou e Edith - A Seita e Arte de Autor
“Nem tudo é como parece” e, lá mais para o final do livro, quer Emma, quer o leitor, acabam por ser surpreendidos por aquilo que realmente aconteceu a Roald. Isto, claro, se os leitores não lerem a carta que o livro traz colada às guardas do livro. Esta carta – que é um pormenor delicioso da edição - só deve ser lida depois de finalizada a leitura, como os editores – e bem – não se esqueceram de avisar os leitores mais incautos. Reitero essa recomendação já que a referida carta, se lida antes de finda a leitura, vai conter imensos spoilers.

De resto, o livro assume depois um certo tom mais simbólico que, felizmente – para os meus gostos, pelo menos – não é demasiadamente vincado, embora nos leve a um final um tanto mais forçado. Todavida, e acima de tudo, acho que é o aspeto mais poético da obra, que mais salta à vista. Pode não ser um daqueles livros que marca uma vida – ou, sequer, o melhor de Zidrou – mas certamente é uma obra bem conseguida, que merece ser lida. Acho até que é uma daquelas bandas desenhadas que, por este tom mais romântico e poético, terá o potencial de trazer pessoas que habitualmente não leem banda desenhada para o género. Se tivesse que oferecer uma BD a alguém que gosta de ler poesia ou romances, mas que não lê BD, este Emma G. Wildford poderia muito bem ser a minha aposta.

Emma G. Wildford, de Zidrou e Edith - A Seita e Arte de Autor
A autora francesa Edith (Gattery, de apelido) dá-nos aqui uma ilustração algo diferente daquilo a que estamos habituados a ver nos ilustradores que, normalmente, acompanham Zidrou. O traço de desenho de Edith é bastante suave e delicado, assumindo um tom romântico clássico que encaixa perfeitamente na história arquitetada por Zidrou. A paleta de cores quentes que habita a história - exceto na parte em que a mesma assume tons mais frios para melhor se adequar ao clima inóspito da Lapónia – também contribui para o tal aspeto romântico e delicado da mesma. No fundo, acho que os desenhos de Edith oferecem à obra aquele cariz de charme meio vintage que a mesma precisava.

Em termos de edição, o trabalho conjunto das editoras A Seita e Arte de Autor deu-nos um excelente exemplar. O livro apresenta capa dura baça, bom papel baço e boa impressão e encadernação. Todo o objeto-livro é muito bonito, com belas guardas a sobressaírem. Nas segundas guardas, já depois de finalizada a leitura do livro, os leitores são brindados, conforme já referi, com um pequeno regalo que é um envelope com a famigerada carta de Roald para Emma. Tudo num papel amarelado para transparecer a passagem do tempo e o cariz de relíquia do envelope e da carta. É um pormenor absolutamente delicioso que assinala a qualidade do trato editorial quer d’ A Seita, quer da Arte de Autor.

Em suma, parece ser claro que Zidrou não sabe fazer maus livros. Ainda que este Emma G. Wildford assuma um registo quiçá menos impactante do que outras obras do mesmo autor lançadas por cá, continua a ser um belo livro, carregado de romantismo, poesia e beleza, que merece ser (re)conhecido por todos!


NOTA FINAL (1/10):
8.5



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Emma G. Wildford, de Zidrou e Edith - A Seita e Arte de Autor

Ficha técnica
Emma G. Wildford
Autores: Zidrou e Édith
Editoras: A Seita e Arte de Autor
Páginas: 104, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 21,5 X 28,5 cm
Lançamento: Outubro de 2023

terça-feira, 14 de julho de 2026

Análise: Brigada de Costumes

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre

As duas editoras A Seita e Arte de Autor voltaram a editar, recentemente, e de forma conjunta uma obra de Zidrou, autor de quem as duas editoras portuguesas já por cá editaram Lydie, Emma G. Wildford, Naturezas Mortas e Amore. Desta feita, foi a vez de Brigada de Costumes chegar até nós. De todos os livros editados em parceria pelas duas editoras eu gostei bastante, mas devo até dizer que este Brigada de Costumes está entre os meus favoritos!

Há muito que considero o nome de Zidrou como sinónimo de qualidade. Sou um grande adepto de todos os seus livros e, felizmente, até já são muitas as suas obras que por cá foram editadas. Além das que referi acima, também os excelentes A Fera (A Seita), Verões Felizes (Arte de Autor), Shi e A Adopção (estes últimos da Ala dos Livros) me conquistaram totalmente.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
E não me fico por aí. É que Jordi Lafebre, ilustrador dos já supramencionados Verões Felizes e Lydie, bem como, enquanto autor completo, de Apesar de Tudo, Sou o Seu Silêncio ou Sou um Anjo Perdido, também é dos meus autores preferidos da atualidade.

Ora, juntar estes dois "pesos pesados" não só já se revelou um autêntico sucesso em Verões Felizes ou Lydie, como me fez ficar bastante empolgado para este Brigada de Costumes, bem antes de o ler.

Editado originalmente em 2014, em dois tomos isolados, a narrativa desta obra é ambientada na Paris dos anos 1930, onde acompanhamos o jovem inspetor Aimé Louzeau na sua integração na chamada "Brigada de Costumes", uma força especial da polícia francesa que procura investigar e anular a libertinagem dos cidadãos. 

Recém-chegado à polícia parisiense, Aimé aprende os meandros deste tipo de vigilância sobre as vidas privadas dos outros, especialmente das suas práticas sexuais, recolhendo todas as informações que possam depois ser utilizadas contra esses supostos prevaricadores da moral e da decência. A cidade parisiense que Zidrou nos apresenta é uma cidade fascinante, mas profundamente desigual, onde a corrupção e a hipocrisia convivem lado a lado com os discursos de moralidade. O habitual, diria.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
No entanto, o verdadeiro coração da narrativa está em Aimé Louzeau. Ele é filho de um padre excomungado, carregando consigo uma herança pesada que influencia a sua visão da autoridade, da religião e da justiça. Enquanto investiga os segredos dos outros, é obrigado a confrontar-se com os seus próprios fantasmas. Isto não esquecendo que, entretanto, quer o seu pai, quer a sua mãe, parecem sucumbir à saúde mental. Além disso, tudo muda na vida de Aimé quando este dá de caras com Eeva, uma prostituta exótica que o faz experenciar uma paixão nunca antes vivida. E é nessa dimensão íntima e mais pessoal da personagem de Aimé e de todas as outras que a rodeiam, que Brigada de Costumes se revela muito mais do que uma simples história policial.

A primeira coisa que me impressionou nesta obra foi a forma como Zidrou constrói as personagens. Não é que isso me tenha surpreendido, pois já conheço as valências do autor em conseguir despertar sentimentos de empatia perante as suas personagens profundamente humanas... mas diria que o seu trabalho volta a ser impressionante. Não há aqui heróis perfeitos nem vilões de cartilha. Existem pessoas. Homens e mulheres. E, como sabemos, as pessoas são frágeis, são contraditórias. Por vezes perdem-se e por vezes encontram-se. E são tão capazes de gestos de enorme generosidade, como de atitudes profundamente destrutivas. É esse lado humano que torna a leitura tão absorvente e que nos faz permanecer emocionalmente ligados a este livro. Assim que o terminei, voltei a lê-lo de enfiada.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
E diria que estamos perante uma das histórias mais tristes escritas por Zidrou. Ainda assim, o autor mantém aquela característica tão própria de introduzir uma espécie de luz ao fundo do túnel. Não se trata de um final feliz convencional. Ou de uma resolução que põe tudo em pratos limpos. Pelo contrário, existe neste Brigada de Costumes uma postura agridoce perante a vida que acaba por tornar os momentos alegres menos leves e os momentos dolorosos um pouco mais suportáveis. E poucos argumentistas conseguem trabalhar tão bem esta ambiguidade emocional.

Os temas abordados são particularmente densos. Saúde mental, religião, perversões sexuais, obsessão, solidão e hipocrisia institucional cruzam-se constantemente ao longo da narrativa. A própria polícia surge retratada de forma paradoxal, como uma instituição encarregada de combater práticas que, de uma forma ou de outra, também ajuda a perpetuar. 

Aimé Louzeau espelha bem a complexidade da história. Inicialmente surge como uma personagem extremamente cativante, quase ingénua, com quem simpatizamos imediatamente. Contudo, à medida que a narrativa avança, algo começa a mudar e a sua personalidade revela zonas mais sombrias, cada vez mais inquietantes, levando-nos a olhar para ele de forma diferente. É um retrato duro e, ao mesmo tempo, profundamente humano da incapacidade de controlar determinados impulsos.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
Confesso que a única reserva que tenho em relação à obra resulta precisamente da riqueza do material apresentado. Isto porque fiquei diversas vezes com a sensação de que havia aqui matéria suficiente para uma série bastante mais longa. Dira até de uns seis ou sete volumes. Ou mais. É que temos a questão das práticas da polícia e do ambiente boémio da prostituição; a relação amorosa de Aimé; a paixão que este nutre por Eeva; a questão da religião e do convento; a própria relação dos pais de Aimé; e até mesmo o flashforward que nos coloca em 1944 numa Paris bombardeada. É muita coisa para um díptico apenas. E não é que os principais acontecimentos da obra não fiquem devidamente bem encerrados -poruq ficam - mas sinto que havia riqueza para muito mais.

Nesse sentido, tenho a sensação de que Zidrou colocou demasiadas ideias em apenas dois volumes. Não porque a narrativa fique incompreensível ou desequilibrada, repito, mas porque existe tanta substância que acabamos por desejar mais espaço para explorar cada fio desta teia. 

Apesar disso, Brigada de Costumes permanece uma obra notável. Está impregnada de uma melancolia constante que acompanha o leitor do princípio ao fim. Há uma tristeza difusa em muitas das situações e personagens, mas nunca uma tristeza gratuita ou manipuladora. Tudo surge organicamente integrado na história e contribui para a sua autenticidade emocional.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
Relativamente aos desenhos de Jordi Lafebre, é impossível não destacar o extraordinário trabalho do autor. Uma vez mais. À partida, e tendo em conta a história que temos em mãos, até poderia pensar-se que o seu talento para histórias mais luminosas e optimistas entraria em conflito com uma narrativa tão sombria. Mas acontece precisamente o contrário. O desenhador entrega belas páginas, belas opções visuais e velos enquadramentos. As cores nos desenhos, a recriação da Paris dos anos 30, as roupas de época, a elegância dos cenários, os corpos femininos e, acima de tudo, a expressividade das personagens são absolutamente magníficos. 

A edição é em capa dura baça, de textura aveludada e com detalhes a verniz. No miolo, o papel é baço e de boa qualidade. Também de boa qualidade é a encadernação, impressão e acabamentos. A opção das editoras por lançarem a obra num único volume integral também foi a mais ajustada, claro.

Em suma, Brigada de Costumes é uma belíssima obra que em boa hora foi editada em Portugal. No final da leitura, fica uma sensação agridoce: a tristeza de abandonar estas personagens, por um lado, e a gratidão por termos podido acompanhá-las, por outro. E isso, para mim, é sinal de uma grande obra!


NOTA FINAL (1/10):
9.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor

Ficha técnica
Brigada de Costumes
Autores: Zidrou e Jordi Lafebre
Editoras: A Seita e Arte de Autor
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 cm
Lançamento: Junho de 2026