sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Análise: Faithless #3

Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet - G. Floy Studio

Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet - G. Floy Studio
Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet

Sabem aquela sensação de querer estar enganado? Aquela esperança teimosa de que um autor ainda consiga recuperar uma história que parece ter perdido o rumo? Foi exatamente esse sentimento que me acompanhou durante a leitura deste Faithless #3, editado por cá em Outubro de 2022 pela editora G. Floy Studio.

Este é o terceiro e último volume desta série criada por Brian Azzarello e Maria Llovet. Depois de um primeiro volume estimulante e imprevisível e de um segundo volume que me pareceu uma enorme desilusão, a questão impunha-se: conseguiria Azzarello salvar Faithless na reta final?

A resposta curta é: parcialmente. Mas a resposta longa é um pouco mais complicada.

Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet - G. Floy Studio
Na análise ao primeiro volume escrevi que não fazia a menor ideia de para onde a história se dirigia, mas que isso não me incomodava. Pelo contrário. Havia algo de fascinante naquela mistura de erotismo, fantasia, terror psicológico e psicadelismo que envolvia Faith, Poppy e Louis. Tudo parecia possível a esta história. 

Mas foi com o segundo volume da série que me consegui aperceber do "problema" da obra, quando comecei a suspeitar de que o próprio autor não sabia bem para onde a história caminhava. E é uma coisa que, enquanto leitor com alguma experiência, costumo "farejar" ao longe. Quando um argumentista começa a chutar ideias para o ar... é mau sinal. E isso aconteceu no segundo volume da série: as ideias multiplicavam-se, mas raramente encontravam um propósito. A provocação, especialmente devido ao erotismo desregrado - que acaba até por ser a minha parte preferida de toda a série -, parecia ter tomado conta da narrativa.

Não diria que Brian Azzarello salve a honra da obra com este Volume Três, mas reconheço-lhe, pelo menos, o mérito de finalmente tentar construir uma conclusão. Pode não ser uma conclusão totalmente satisfatória, pode até deixar algumas questões em aberto, mas existe aqui pelo menos uma tentativa de dar sentido a vários elementos que vinham sendo introduzidos desde o primeiro livro.

Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet - G. Floy Studio
A história deste último volume encontra a personagem de Faith numa fase de queda livre. Depois da ascensão meteórica ao estatuto de artista provocadora e celebridade do mundo da arte, a protagonista desapareceu durante meses e regressa profundamente transformada. A fama que parecia alimentá-la converteu-se numa prisão. As dúvidas acumulam-se. Os acontecimentos sobrenaturais tornam-se mais intensos. E a relação com Louis aproxima-se cada vez mais de um confronto inevitável.

O elemento mais interessante deste volume é precisamente a forma como Azzarello procura transformar os excessos dos livros anteriores em algo que se aproxima de um tema. Pela primeira vez, Faithless parece querer falar seriamente sobre criação artística. Sobre o que significa criar. Sobre a exploração da imagem do artista. Sobre a forma como o mercado consome, recicla e destrói personalidades criativas. 

Infelizmente, continuam presentes muitos dos problemas que prejudicaram o segundo tomo. Há momentos em que o argumento parece avançar aos saltos, como se páginas inteiras de desenvolvimento tivessem desaparecido. Algumas revelações surgem de forma abrupta e continuam a existir passagens em que os autores parecem mais interessados em criar imagens potencialmente chocantes do que em contar uma história coerente.

Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet - G. Floy Studio
Quanto aos desenhos, o trabalho da espanhola Maria Llovet é muito interessante e original. A autora continua a oferecer-nos páginas belas, perturbadoras, sensuais e hipnóticas. A utilização das cores mantém-se extraordinária, alternando vermelhos agressivos, rosas vibrantes e tonalidades sombrias. Existem sequências inteiras que poderiam perder os diálogos e continuariam a funcionar apenas pela força da componente visual.

Considero que o traço de Maria Llovet continua a encaixar perfeitamente nesta história, portanto. Há personalidade, ousadia e identidade visual em praticamente todas as páginas. Dito por outras palavras, mesmo quando não acreditamos totalmente naquilo que Azzarello nos está a contar, acreditamos sempre nas imagens de Llovet.

Quanto à edição da G. Floy Studio, esta mantém a boa qualidade dos volumes anteriores. A capa é dura, a impressão e a encadernação são boas, também. No miolo, o papel é brilhante e de boa qualidade.  No final do livro, há um belo conjunto de ilustrações que engrandecem a edição.

No final da leitura desta série, fiquei com uma sensação curiosa. Faithless não se revelou a obra marcante que imaginei depois de terminar o primeiro volume. Também não acabou por ser o desastre absoluto que temi após o segundo. Ficou algures no meio. Como uma experiência ambiciosa, irregular e frequentemente contraditória. No fim, Faithless assume-se como uma viagem estranha, excessiva, provocadora e visualmente impactante. 


NOTA FINAL (/10):
6.4



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Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet - G. Floy Studio

Ficha técnica
Faithless #3
Autores: Brian Azzarello e Maria Llovet
Editora: G. Floy Studio
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Outubro de 2022

Análise: Peregrinação (Volumes 1 e 2)

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP
Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge

Uma das poucas obras da coleção Clássicos da Literatura Portuguesa em BD que teve direito a ser um álbum duplo, foi este Peregrinação que adapta para banda desenhada a célebre obra de Fernão Mendes Pinto. Tendo em conta que a obra original tem mais de 600 páginas, compostas por descrições detalhadas sobre as extraordinárias viagens, naufrágios, cativeiros, combates e encontros de Fernão Mendes Pinto pelo Oriente no século XVI, parece-me que a opção por dois volumes, foi mais que acertada.

A adaptação para banda desenhada é-nos dada por João Miguel Lameiras, no argumento, e Miguel Jorge, nos desenhos. Ambos os autores já tinham adaptado outro clássico da literatura portuguesa para BD: Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco. A edição da obra volta a surgir através da parceria entre a Levoir e a RTP.

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP
E mesmo sendo esta adaptação em dois volumes, parece-me que João Miguel Lameiras tinha aqui uma hercúlea tarefa de resumir tantas páginas para cerca de 100 páginas de banda desenhada. Tendo em conta a variedade de episódios narrados e a própria natureza híbrida do texto original, esta adaptação era, portanto, um desafio considerável. Mas pode-se dizer que o trabalho de Lameiras se revela bastante sólido e meritório, sendo capaz de preservar a essência da obra sem a reduzir a uma simples sucessão de acontecimentos.

Coisa que, convenhamos, acontece várias vezes em várias adaptações de clássicos para banda desenhada. Muitas vezes, bem o sabemos, este tipo de obras transforma-se numa espécie de resumo ilustrado, útil do ponto de vista pedagógico, mas incapaz de transmitir a complexidade e o espírito do material de origem. Não diria que a complexidade da obra original esteja presente nestes dois livros, mas não deixa de ser verdade que se sente um genuíno esforço para preservar o carácter errante da viagem de Fernão Mendes Pinto e a sucessão de aventuras, perigos, encontros culturais e momentos de descoberta que definem a obra original. É óbvio que é uma obra de maior propensão didática - como também o é a maioria dos álbuns desta coleção, recorde-se - mas, mesmo assim, apreciei este esforço dos autores.

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP
Particularmente interessante é a forma como a narrativa consegue preservar a sensação de maravilhamento que caracterizou o relato de Fernão Mendes Pinto. O contacto com povos, costumes, religiões e paisagens desconhecidas continua a desempenhar um papel central, permitindo-nos acompanhar a viagem não apenas como uma sucessão de deslocações geográficas, mas também como uma permanente descoberta do mundo. 

No plano visual, porém, os resultados revelam-se mais irregulares. Miguel Jorge demonstra, em vários momentos, possuir uma capacidade assinalável para construir vinhetas interessantes e visualmente apelativas. Existem ilustrações cuja composição impressiona pela capacidade de transmitir a escala das viagens e dos ambientes orientais. Nesses momentos, diria que a obra alcança um nível gráfico bastante elevado.

Contudo, essa qualidade não é mantida de forma consistente ao longo dos dois volumes. Existem sequências em que o desenho parece menos cuidado ou menos expressivo, gerando uma sensação de desigualdade que acompanha toda a leitura. Essa irregularidade acaba por impedir que a componente gráfica atinja o nível qualitativo que, estou certo, poderia atingir.

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP
As cenas de ação constituem provavelmente o exemplo mais evidente dessas fragilidades. Apesar da frequência de batalhas e confrontos ao longo da história, nem sempre as personagens transmitem o dinamismo esperado. Em diversas ocasiões, as figuras apresentam poses excessivamente rígidas, fazendo com que as cenas de ação fiquem alto estáticas, o que reduz, obviamente, parte da tensão dramática que esses momentos exigiriam.

Também o trabalho cromático de Inês Lima suscitou-me impressões contraditórias. Há passagens em que a cor contribui de forma muito eficaz para criar atmosferas distintas. Porém, noutras ocasiões, a aplicação da cor parece mais superficial - talvez demasiadamente digital? - sem acrescentar profundidade suficiente às imagens. Tal como acontece com o desenho, a sensação predominante é a de uma qualidade variável, alternando entre momentos bastante conseguidos e outros algo medianos.

Um aspeto particularmente agradável da leitura é a inclusão de diversas referências visuais e pequenos easter eggs dispersos pela narrativa. Só para nomear alguns, posso dizer que apreciei especialmente a referência ao célebre quadro de Théodore Gericault, A Jangada da Medusa, ou o aparecimento de uma personagem com os mesmos traços faciais de um dos mais famosos autores portugueses de banda desenhada. Quem será?

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP
A edição dos livros é, à boa maneira dos restantes livros da mesma coleção, em capa dura baça, com bom papel brilhante no miolo, boa encadernação e boa impressão. Em cada um dos livros encontramos, no final, um dossiê de extras, elaborado por Paulo Silva Pereira, com informações adicionais sobre Fernão Mendes Pinto, a obra Peregrinação e o contexto histórico de ambos. 

Uma nota negativa para uma questão que, não sendo enorme, merece, quanto a mim, referência. Quando colocadas lado a lado, as lombadas dos livros - que têm exatamente o mesmo texto, exceptuando a menção ao facto de serem o "Peregrinação I" ou o "Peregrinação II" - apresentam o texto de forma bastante diferente. É a mesma font, sim, mas o texto aparece com um espaçamento e dimensão demasiadamente diferente. Sei que é uma coisa pequena, que não é isso que tira valor à obra, mas considero que é nestes (não tão) pequenos que está a diferença entre uma edição rigorosa e menos rigorosa.

No balanço final, Peregrinação afirma-se como uma adaptação competente e relevante de um dos maiores clássicos da literatura portuguesa. Não é uma obra isenta de falhas, sobretudo devido à sua natureza graficamente intermitente, mas consegue cumprir aquilo que era a sua missão fundamental: oferecer uma transposição acessível, respeitosa e suficientemente abrangente do texto de Fernão Mendes Pinto. 


NOTA FINAL (1/10):
7.5


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Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP

Fichas técnicas
Peregrinação - Primeira Parte
Autores: João Miguel Lameiras e Miguel Jorge
Adaptação da obra original de: Fernão Mendes Pinto
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Maio de 2024

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP

Peregrinação - Segunda Parte
Autores: João Miguel Lameiras e Miguel Jorge
Adaptação da obra original de: Fernão Mendes Pinto
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Outubro de 2024

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

"A Sombra das Luzes" chega ao fim!



A editora Ala dos Livros acaba de publicar o terceiro e último volume da mini-série A Sombra das Luzes, de Alain Ayroles e Richard Guérineau.

Este último volume da série denomina-se O Demónio dos Grandes Lagos.

Já aqui falei dos primeiro e segundo tomos da série.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


A Sombra das Luzes - Tomo 3 – O Demónio dos Grandes Lagos, de Alain Ayroles e Richard Guérineau

O primeiro ciclo das aventuras epistolares do malvado Chevalier de Saint-Sauveur chega ao fim. 

No coração da América do século XVIII, Ayroles e Guérineau conduzem-nos por uma história de romance, intriga e grandes aventuras. Nas florestas americanas, a guerra aproxima-se. O Chevalier de Saint-Sauveur não se importa. A sua única preocupação é o sucesso da sua aposta: a inocente Aimée d'Archambaud deve casar-se com um iroquęs! 

Para alcançar esse objetivo, o infame libertino está preparado para recorrer aos planos mais ardilosos. Golpes de machado e réplicas mordazes ecoarão no silêncio da floresta! 

A série “A Sombra das Luzes”, está integralmente publicada em 3 volumes pela Ala dos Livros.

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Ficha técnica
A Sombra das Luzes - Tomo 3 – O Demónio dos Grandes Lagos
Autores: Alain Ayroles e Richard Guérineau
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 255 x 340 mm
PVP: 25,00€

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Análise: Os 7 Crimes de Roma

Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet - Gradiva

Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet - Gradiva
Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet

A propósito deste Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet, que hoje vos trago, começo por opinar sobre uma coisa em específico - e é uma opinião muito pessoal como, aliás, são todas as opiniões dadas neste espaço: sou bem mais compreensivo com as editoras e/ou autores nacionais que não conseguem fazer uma obra de qualidade superior do que com as editoras que importam banda desenhada estrangeira de qualidade duvidosa. Se é para dar oportunidade a uma obra, digamos, "fraquinha"... ao menos que apostemos numa "BD fraquinha" de origem portuguesa. Pelo menos, sempre é uma forma de dar a oportunidade a um autor português para que este possa crescer. Já no que diz respeito à importação de banda desenhada... creio que o papel das editoras portuguesas deve ser o de trazer a melhor obra possível. Bem sei que nem todos temos os mesmos gostos, ou que a aposta pode ser de cariz mais comercial do que qualitativo... mas caramba, há tantas bandas desenhadas boas no estrangeiro (tantas, tantas, tantas!), que me faz confusão como se pode apostar numa obra como este Os 7 Crimes de Roma, que parece mais uma masterclass de como não fazer banda desenhada. Da capa aos desenhos, passando pelo desenvolvimento da narrativa, esta é uma obra que não merecia espaço nas livrarias portuguesas. Peço desculpa pela sinceridade, Gradiva.

Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet - Gradiva
E até devo admitir que a premissa da obra, à partida, até tinha tudo para resultar. Colocar Leonardo da Vinci no papel de investigador, envolvido numa série de assassinatos ocorridos na Roma renascentista, parece uma ideia suficientemente apelativa para captar a atenção de qualquer amante de história, mistério ou banda desenhada. Pelo menos, captou a minha atenção. Mas, infelizmente, aquilo que começa por parecer uma proposta promissora rapidamente se transforma numa leitura frustrante.

A narrativa arranca com a descoberta de um cadáver decapitado e com a presença de uma misteriosa inscrição deixada pelo assassino. O contexto histórico é interessante: Roma, em pleno Renascimento, com o Vaticano como pano de fundo e Leonardo da Vinci a circular pelos corredores do poder. São ingredientes que, bem trabalhados, poderiam ter dado origem a um thriller histórico bastante cativante.

No entanto, à medida que a história avança, torna-se cada vez mais evidente que os autores não conseguem explorar convenientemente o potencial da ideia inicial. O mistério perde força rapidamente e a investigação acaba por se tornar pouco envolvente. E em vez de sentirmos curiosidade em descobrir quem está por detrás dos crimes, somos confrontados com uma sucessão de acontecimentos que parecem acontecer porque o argumento assim o exige, e não porque surjam de forma orgânica. Confesso que estive quase a desistir da leitura, mas fiz um esforço e consegui acabãr de ler o livro.

Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet - Gradiva
Um dos vários problemas da obra reside na construção narrativa. Existem demasiadas situações que parecem forçadas, artificiais e pouco naturais. Muitas cenas parecem montadas apenas para fazer avançar a história para a página seguinte, sem grande preocupação com a coerência ou credibilidade dos acontecimentos. Os diálogos também não ajudam. Em diversos momentos soam artificiais, arrastados expositivos e pouco convincentes. Falta naturalidade às conversas e falta subtileza à forma como os autores gerem a comunicação entre as personagens.

O próprio Leonardo da Vinci, que deveria ser uma das grandes forças da obra, acaba por surgir como uma personagem de pálido carisma. Em nenhum momento senti que estivesse perante uma recriação memorável de uma das figuras mais extraordinárias da História. E também Guido, o jovem estudante de medicina que acompanha Leonardo, não me conseguiu conquistar. 

Por fim, a investigação criminal, que deveria constituir o motor da obra, sofre igualmente de vários problemas. A sensação é a de que os autores querem conduzir rapidamente a narrativa para determinado ponto sem se preocuparem em construir um percurso credível até lá. A leitura torna-se progressivamente mecânica e previsível.

Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet - Gradiva
Infelizmente, a componente gráfica também não consegue "salvar" a obra. Embora exista aqui e ali uma ilustração mais bem conseguida ou um enquadramento mais interessante, o resultado global está muito longe de impressionar. Os desenhos apresentam frequentemente um aspeto algo amador, tanto ao nível das figuras humanas como na representação dos cenários, onde há um excesso de ruído visual. As personagens surgem muitas vezes rígidas, com expressões pouco convincentes e uma linguagem corporal pouco natural. 

A própria capa está bastante mal concebida a vários níveis. Seja no grafismo, em que as letras são colocadas em cima do texto sem qualquer rigor ou preocupação estética - bem-vindos aos livros editados nos anos 70 - seja na ilustração, particularmente no desenho da mão de Leonardo da Vinci com dedos demasiadamente longos, sem que haja uma tentativa de transformar o desenho em algo caricatural. Posso dizer-vos que não tirei o dia para estar a deitar abaixo a obra... simplesmente são coisas difíceis de não referir.

A edição é em capa dura brilhante, com bom papel brilhante, boa encadernação e boa impressão. As margens a branco do livro parecem-me demasiado curtas, mas tendo em conta o amadorismo da obra, já nem sei se a "culpa" disso é da editora portuguesa ou do trabalho original.

No final, Os 7 Crimes de Roma surge como um daqueles livros em que o conceito é muito mais interessante do que a execução. Não é uma obra que faça justiça ao fascínio de Leonardo da Vinci nem ao enorme potencial do thriller histórico que havia aqui. Pelo contrário, é uma leitura esquecível que deixa a sensação de uma oportunidade claramente desperdiçada. Um livro a evitar.


NOTA FINAL (1/10):
2.0


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Ficha técnica
Os 7 Crimes de Roma
Autores: Guillaume Prévost e Robert Paquet
Editora: Gradiva
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 23 x 31 cm
Lançamento: Julho de 2024


Análise: Ed Gein

Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell - Darkside

Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell - Darkside
Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell

Se procuram uma das bandas desenhadas mais chocantes, impressionantes, maquiavélicas e sombrias que podem ler, este Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell, pode bem ser o livro de que precisam!

Para quem não sabe - e acredito que já sejam poucos, depois da recente série da Netflix, Monstros -, Ed Gein foi um dos mais famosos e infames assassinos que habitou o planeta. Nascido em 1906, Ed Gein assassinou, na década de 1950, mulheres e profanou sepulturas, tornando-se uma das figuras mais assustadoras da história criminal. O seu legado retorcido foi tanto que até acabou por inspirar várias histórias e filmes de culto como Psycho, Massacre no Texas ou O Silêncio dos Inocentes. Lembram-se do homem da motosserra que nos perseguia na antiga Passagem do Terror,na extinta Feira Popular de Lisboa? Pois bem, também essa personagem, de Massacre no Texas, era inspirada em Ed Gein.

Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell - Darkside

À primeira vista, Ed Gein era visto pelos seus vizinhos como um homem tímido, solitário e relativamente inofensivo. No entanto, por detrás dessa aparência serena escondia-se uma personalidade profundamente perturbada, marcada por uma infância dominada por uma mãe extremamente autoritária e religiosa, cuja influência, mesmo após a sua morte, continuou a moldar o comportamento do filho. O isolamento social, a obsessão pela figura materna e diversos problemas psicológicos contribuíram para a formação de uma mente doentia que, infelizmente, acabou por se tornar célebre.

E por um motivo em particular. É que, para além de assassinar mulheres, Ed Gein também profanava sepulturas para recolher restos mortais, que depois utilizava de formas macabras dentro da sua casa, construindo peças de decoração com ossos e pele dos cadáveres. E embora tenha sido condenado por apenas dois homicídios, a natureza particularmente grotesca dos seus crimes fez deste homem uma referência incontornável do imaginário do horror moderno. Mesmo hoje em dia, Ed Gein continua a ser estudado como um dos casos mais perturbadores e incompreensíveis de sempre.

Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell - Darkside
Este Ed Gein, da autoria de Harold Schechter e Eric Powell, procura traçar um retrato das origens deste assassino necrófilo e revela-se como uma obra impressionante e perturbadora. É lógico que esta é uma leitura para aqueles de estômago forte, mas, ainda assim, não me parece que este livro procure sensacionalismo gratuito. É chocante, sim, mas como não nos chocarmos quando falamos de Ed Gein e das atrocidades que cometeu? O livro procura apresentar um retrato detalhado de Ed Gein, explorando os acontecimentos que moldaram a sua personalidade e ajudaram a criar uma figura assim. O resultado é uma leitura tão envolvente quanto inquietante.

A narrativa destaca-se pela forma como consegue equilibrar rigor biográfico e ritmo dramático. Harold Schechter constrói um relato sólido e bem documentado, permitindo ao leitor acompanhar a evolução de Gein desde a infância até aos crimes que chocaram a América e o mundo. O livro não procura justificar os seus atos, até porque são injustificáveis, logicamente, mas tenta compreender as circunstâncias que contribuíram para a formação de uma mente profundamente perturbada.

Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell - Darkside
E um dos aspetos que, quanto a mim, é mais interessante nesta obra é a tentativa de olhar para além do monstro. Gein surge-nos como uma figura simultaneamente patética, assustadora e incompreensível. O leitor é constantemente confrontado com a pergunta de como alguém aparentemente banal se transformou num dos maiores monstros e assassinos que alguma vez pisaram o planeta. Essa reflexão acompanha toda a leitura e torna-a particularmente marcante.

O livro não evita os aspetos mais chocantes da história de Ed Gein. Pelo contrário, apresenta-os de forma direta e muitas vezes brutal. Existem momentos verdadeiramente difíceis de ler ou observar, não apenas pela violência descrita, mas sobretudo pelas implicações psicológicas dos atos cometidos. O horror que sentimos resulta da eficácia da narrativa e da honestidade com que os factos são apresentados. O livro consegue transmitir repulsa sem perder a seriedade nem cair na exploração gratuita da violência, portanto.

Também é digno de nota o modo como a obra evidencia a influência da mãe de Ed Gein - tão psicopata como o filho, diga-se - e o ambiente extremamente repressivo em que cresceu. Sem apresentar explicações simplistas, os autores mostram como determinados fatores familiares e psicológicos podem ter contribuído para o desenvolvimento de comportamentos profundamente desviantes de Ed Gein.

Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell - Darkside
O trabalho artístico de Eric Powell - com o qual eu já estava bastante familiarizado devido à sua série Goon - é simplesmente extraordinário. As suas ilustrações, executadas em tons de cinzento, criam uma atmosfera sombria e opressiva que combina na perfeição com o tema abordado. 

Cada página transmite desconforto, tristeza e inquietação, reforçando o impacto emocional da narrativa sem recorrer a excessos visuais. Também os contrastes entre luz e sombra ajudam a criar uma sensação permanente de decadência e isolamento, refletindo tanto o ambiente rural onde os acontecimentos decorrem, como o estado mental do protagonista. 

Além isso, a caracterização das personagens também merece destaque. Mesmo as personagens secundárias possuem profundidade suficiente para parecerem pessoas reais, com medos, limitações e emoções credíveis. Isso torna os acontecimentos ainda mais perturbadores, porque o horror não surge num universo fictício distante, mas num contexto humano reconhecível.

Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell - Darkside
Em termos de edição, este livro da editora brasileira Darkside - que adquiri na loja Casa da BD, em Lisboa - apresenta capa dura baça, com detalhes a verniz, bom papel baço e um bom trabalho ao nível da impressão, encadernação e acabamentos. No final, há ainda um conjunto de apêndices bem-vindos que nos falam sobre os factos concretos relatados e ainda nos oferecem entrevistas a George Arndt e Irene Hill Baileu, que estudaram Ed Gein ao pormenor, bem como algumas fotografias do assassino. Parece-me que as ilustrações de Eric Powell mereciam um formato um pouco maior em dimensão para melhor respirarem, mas, fora isso, estamos perante uma bela edição.

Enquanto banda desenhada, Ed Gein é um exemplo notável do potencial do meio para abordar temas complexos e difíceis. Trata-se de uma obra que demonstra bem como a BD pode ser tão poderosa e impactante quanto qualquer romance ou filme. Na verdade, até considero que esta BD ultrapassa em qualidade a série da Netflix.

Em suma, Ed Gein é uma leitura fantástica e uma das bandas desenhadas mais pesadas que já li. É uma experiência exigente, por vezes quase sufocante, mas que recompensa quem procura uma leitura madura, intensa e intelectualmente estimulante. Poucas obras conseguem provocar simultaneamente fascínio, horror e reflexão de forma tão eficaz. A combinação entre a escrita rigorosa de Harold Schechter e a arte magnífica de Eric Powell resulta numa obra memorável, capaz de nos confrontar com algumas das facetas mais sombrias da condição humana. Não é um livro para todos os leitores, mas para quem tiver estômago para mergulhar numa escuridão tão profunda. Quem é que aceita o desafio?


NOTA FINAL (1/10):
9.8


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Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell - Darkside

Ficha técnica
Ed Gein
Autores: Harold Schechter e Eric Powell
Editora: Darkside
Páginas: 224, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 26 x 17 cm
Lançamento: Maio de 2022

Análise: Mar de Rosas

Mar de Rosas, de Tomás Sousa - Penguin

Mar de Rosas, de Tomás Sousa - Penguin
Mar de Rosas, de Tomás Sousa

Enquanto amante de arte nas suas mais diversas formas, há algo que aprecio especialmente numa criação artística: que se sinta claramente a dedicação e o aprimoramento que determinado autor colocou na sua obra. Podemos falar de música, nos casos em que conseguimos escutar as diferentes camadas que um músico coloca na sua música de estúdio; podemos falar de cinema, nos casos em que percebemos que o cineasta colocou muitos pozinhos além dos estritamente necessários a fazer com que o filme funcionasse. Podemos falar de pintura, podemos falar de escultura, podemos falar de literatura. E também podemos falar de banda desenhada, claro.

Mar de Rosas, de Tomás Sousa, recentemente editado pela editora Penguin, é uma dessas obras em que se sente que o autor deu tudo de sim, construiu camadas, desenvolveu personagens marcantes, pensou na narração, escreveu bem o texto e, no final, ainda fez uns acrescentos e melhoramentos à obra. É, pois por isso, um desses trabalhos de dedicação e de aprimoramento constante até a obra seguir para a gráfica. O ano ainda não acabou, mas é possível que estejamos perante o melhor livro do ano no que à banda desenhada nacional diz respeito.

Mar de Rosas, de Tomás Sousa - Penguin
Em boa verdade, Tomás Sousa já tinha "avisado" os mais atentos ao que vinha. Com participações em alguns fanzines lançados recentemente e, especialmente, com a sua história curta A Paragem, que até ficou entre os nomeados para o VINHETA D'OURO 2025 para Melhor Curta de Autor Nacional, a abordagem visual do autor, com um traço muito elegante, embora rápido, por vezes cru, mas sempre confiante, já se revelava diferenciada. Parecia haver ali potencial para algo especial.

E foi então que saiu este Mar de Rosas, a primeira obra de grande fôlego do autor, editada pela Penguin - editora que muito provavelmente faz aqui a sua melhor aposta em termos de edição de BD nacional.

Com uma história que nos remete para o tempo das fotonovelas, em que a trama era dramática e intrincada, com as personagens a deambularem em torno dos seus próprios objetivos, quase sempre em oposição aos das outras personagens, Tomás Sousa constrói uma história a que é difícil ficar indiferente.

Mar de Rosas, de Tomás Sousa - Penguin
A história de Mar de Rosas coloca-nos dentro da casa de uma poderosa família. O filho do patriarca é Sebastião, por quem a empregada da casa, Celeste, nutre uma grande paixão. Se a mesma é correspondida ou não, só saberemos mais à frente. Embora os seus sentimentos sejam intensos, Celeste tem consciência de que há toda uma condição social que separa Sebastião de si. E ainda mais o é pela entrada em cena de Rosalinda, uma mulher impactante, cheia de si mesma, capaz de irritar qualquer leitor, e cuja ambição de se apoderar da fortuna da família é enorme. O seu plano passa por casar-se com Sebastião. 

Entretanto, a morte do patriarca agrava as tensões já existentes e desencadeia uma sucessão de conflitos, revelando interesses ocultos, rivalidades entre irmãos e uma luta feroz pelo controlo da herança. As duas irmãs de Sebastião também entram em cena, para que a trama cresça ainda mais. A intriga é digna de uma autêntica novela mexicana e aprecio especialmente que Tomás Sousa não o esconda, pois o próprio subtítulo do livro é "uma fotonovela de Tomás Sousa".

Mar de Rosas, de Tomás Sousa - Penguin
Mas o que importa aqui referir é que é uma fotonovela no melhor sentido da palavra, com uma trama cativante, por vezes provocadora, com muito drama à mistura e personagens impactantes. Algo que tão depressa bebe das saudosas Tieta do Agreste ou de Pedra Sobre Pedra, como das mais memoráveis obras de Eça de Queirós ou de Guy de Maupassant. É verdade que as personagens são algo unidimensionais, isto é, ou são muito boas ou muito más, e que podem representar clichés já por nós vistos noutras paragens, mas acho que, mais uma vez, isso não é bem uma fraqueza, mas antes uma escolha assumida.

A história é-nos contada por várias vozes: por Celeste, por Rosalinda, por Lúcia e por Victor, o irmão e advogado da infame Rosalinda. E isso dá profundidade à narrativa, pois coloca as personagens em contacto direto com o leitor. É, pois, (mais) uma escolha inteligente de Tomás Sousa. 

O que também é inteligente e rico, é o texto, que se nos revela muito bem escrito, com um certo pendor clássico na forma, mas sem ser pesado, o que dá um certo charme à narrativa. O próprio final da obra está bem concebido e é inteligente o suficiente para resolver bem a história, deixando uma brecha para, quem sabe, o autor poder voltar a este universo numa obra vindoura.

Nota ainda, positiva, para a introdução de anúncios entre capítulos, que são um plus muito bem vindo, pois permitem incutir à obra algum humor, fazerem a história parar para respirar e, em última análise, sedimentar ainda mais a não escondida homenagem às fotonovelas do antigamente. Como comecei por dizer neste texto, é mais um exemplo do aprimoramento e da atenção ao detalhe de Tomás Sousa.

Falta-me ainda mencionar os belos desenhos presentes neste Mar de Rosas. Tomás Sousa dá-nos personagens com uma expressividade impressionante com quem se torna difícil não criarmos uma relação de empatia - ou de repulsa, no caso de Rosalinda. O seu estilo é bastante moderno e o traço até se revela rápido e caricatural. Dá a ideia de que o autor desenha com velocidade. Mas a confiança do desenho é tal que essa alegada velocidade na ilustração nunca nos deixa com a ideia de estarmos perante desenhos apressados. Isto porque há bastante cuidado com os detalhes, com as cores, com a escolha das poses das personagens e dos próprios "planos de câmara". A primeira página de cada capítulo abre também com uma abordagem visual um pouco mais autoral, que nos permite perceber que, em presumíveis futuros trabalhos, o autor até pode, se quiser, enveredar por outras abordagens gráficas. Estamos, pois, perante um novo talento da BD nacional, cheio de potencial.

Em termos de edição, o livro apresenta capa mole e baça, com badanas. No interior, o papel utilizado é em papel baço de boa qualidade. A encadernação e impressão também são boas. No final, há um bem-vindo dossier de extras, convenientemente denominado de "Bastidores", que nos traz estudos de personagens, desenvolvimentos visuais, desenhos livres e estudos de capa. Por falar em capa, não é que eu não goste desta capa, mas creio que a mesma poderia ter sido melhor. E o que me leva a dizer isto é o talento demonstrado pelo autor dentro do próprio livro, bem como os outros estudos de capa ou mesmo a galeria de desenhos livres que nos é apresentada. Não sendo má, parece-me que a capa ainda poderia ser melhor. Mas isso é um detalhe que em nada belisca a qualidade desta primeira obra de grande fôlego de Tomás Sousa.

E, em suma, Mar de Rosas é bem capaz de ser o livro do ano, em termos de banda desenhada nacional, tal como Tomás Sousa pode bem ser o novo "menino de ouro" da BD portuguesa. Bela história, belos desenhos, bela escrita e bela execução, numa obra que todos devem conhecer. Fiquei fã!


NOTA FINAL (1/10):
9.2


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Mar de Rosas, de Tomás Sousa - Penguin

Ficha técnica
Mar de Rosas
Autor: Tomás Sousa
Editora: Penguin
Páginas: 192, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 171 x 239 mm
Lançamento: Setembro de 2026

terça-feira, 22 de setembro de 2026

A adaptação em BD de "Sapiens", de Harari, chega ao fim!




A Elsinore, uma chancela do grupo Penguin, edita durante este mês de setembro o quarto e último volume da adaptação para banda desenhada de Sapiens, a famosa obra de Yuval Noah Harari!

Com argumento de David Vandermeulen e desenhos de Daniel Casanave, Yuval Noah Harari também está intimamente ligado ao projeto, pelo que divide a autoria da obra com os outros dois autores.

É um trabalho deveras interessante, uma leitura que nos enche de informações pertinentes, e que aconselho especialmente. Relembro que, por aqui, já analisei os volumes 1 e 2, bem como o terceiro volume da série.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

Sapiens: A Idade das Revoluções (Novela Gráfica, vol. 4), de Yuval Noah Harari, David Vandermeulen e Daniel Casanave

Há quinhentos anos, a humanidade fez uma descoberta surpreendente: descobriu a sua própria ignorância coletiva. Foi um momento histórico decisivo no percurso da espécie Sapiens, em que o domínio do pensamento científico se sobrepôs ao religioso e filosófico. 

Com o surgimento de novas tecnologias, as antigas estruturas sociais e políticas desmoronaram-se, impulsionando a expansão imperialista, o colonialismo e o modelo capitalista com as suas promessas de progresso e crescimento.
Determinados a desvendar finalmente os segredos do Universo, os seres humanos modernos aprenderam a controlar o mundo e a produzir mais de tudo. Mas será que a modernidade nos tornou mais felizes?

Neste quarto e último volume da adaptação de Sapiens: História Breve da Humanidade, Yuval Noah Harari, em colaboração com o escritor David Vandermeulen e o ilustrador Daniel Casanave, leva-nos pela Idade das Revoluções, até ao início da atual Revolução da Inteligência Artificial, respondendo de forma simples a questões complexas do nosso tempo: como é que os bancos criam dinheiro do nada, como é que os relógios passaram a dominar as nossas vidas, o que nos reserva o futuro agora que a humanidade enfrenta o seu desafio mais premente de sempre – descobrir como controlar uma inteligência alienígena. Será que vamos conseguir? Ou ficaremos presos nos sonhos das máquinas inteligentes?

Ilustrado a cores, original e cheio de humor, é o livro perfeito para quem quer continuar o diálogo iniciado em Sapiens: História Breve da Humanidade e para apresentar o universo e as ideias de Noah Harari a novos leitores, curiosos pela história e pela ciência, e pelo que tem sido o longo e agitado percurso do ser humano até aos dias de hoje.

O aguardado quarto e último volume da extraordinária adaptação ilustrada do bestseller internacional de Yuval Noah Harari


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Ficha técnica
Sapiens: A Idade das Revoluções (Novela Gráfica, vol. 4)
Autores: Yuval Noah Harari, David Vandermeulen e Daniel Casanave
Editora: Elsinore
Páginas: 248, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 212 x 283 mm
PVP: 31,45€

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Análise: The Beatles em BD

The Beatles em BD, de Vários Autores - ASA - LeYa

The Beatles em BD, de Vários Autores - ASA - LeYa
The Beatles em BD, de Vários Autores

Foi nesta rentrée literária que a ASA editou o livro The Beatles em BD, que conta com textos de Michel Mabel, argumentos de Gaet's e ilustrações de mais de 20 autores que, para não me tornar exaustivo neste texto, opto por não nomear.

O livro propõe-se condensar a história dos The Beatles, a mais famosa banda da história da música, num volume que mistura texto informativo, fotografia e banda desenhada. Nesse aspeto mais elementar tenho que admitir que o livro cumpre aquilo a que se propõe: oferecer uma visão geral da carreira dos The Beatles, desde os primeiros tempos em Liverpool até ao fim da banda, num formato acessível e de leitura rápida.

E, assim sendo, é uma boa opção de compra para leitores que querem saber um pouco mais sobre a banda, bem como para os fãs acérrimos do quarteto que compram tudo o que é lançado sobre os fab four.

Para todos os outros, contudo, incluindo os leitores habituais de banda desenhada, esta não é uma obra particularmente memorável. Embora se leia com agrado e sem dificuldade, raramente consegue ultrapassar a sensação de estar a percorrer um resumo ilustrado da história da banda, sem oferecer grandes surpresas nem uma abordagem especialmente inovadora ao tema.

A biografia que nos é dada sobre a banda formada por John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, assenta mais em episódios avulsos, trivias e curiosidades da banda do que numa profunda e completa biografia em banda desenhada. Conta-nos coisas engraçadas, sim, algumas já do comum conhecimento popular, mas sem nunca mergulhar de forma muito profunda na banda e nos seus quatro constituintes. O livro avança, pois, através de 25 fragmentos biográficos que privilegiam a anedota e a trivia em detrimento de uma análise mais completa da evolução da banda. Embora seja fã da banda - como não? - não me considero daqueles super mega fãs que sabe tudo sobra a mesma. Ainda assim, foram poucas as coisas que este livro me ensinou, além da suposta morte de Paul McCartney que, confesso, desconhecia totalmente.

The Beatles em BD, de Vários Autores - ASA - LeYa
Mas este, convém dizer-vos, não é um livro apenas de banda desenhada. Na verdade, é mais um livro informativo que também tem banda desenhada, um pouco à semelhança da coleção dos livros sobre cineastas de Amazing Améziane, da qual a ASA já publicou Quentin por Tarantino e Spielberg, que junta texto em prosa a banda desenhada. A diferença entre este e os livros de Amazing Ameziane que refiro, é que nesses livros sobre os realizadores de cinema há um princípio, meio e fim que procura passar em revista todas as obras dos cineastas, enquanto neste The Beatles em BD, embora a obra se tente sustentar numa espinha dorsal assente em termos cronológicos, são muitos os momentos em que a história anda para a frente e para trás. 

A divisão da carreira dos The Beatles em múltiplos episódios independentes é compreensível, sobretudo porque permitiu reunir um vasto conjunto de ilustradores, cada um responsável por diferentes segmentos da narrativa. Mas considero que essa opção acaba também por transmitir uma sensação de obra remendada, formada pela justaposição de peças separadas em vez de constituir um todo verdadeiramente coeso.

Mas o pior desta escolha é a questão que, quanto a mim, mais fragiliza o livro: a constante redundância. Explico-vos mais concretamente: para cada momento relevante da carreira dos The Beatles há um texto explicativo, acompanhado por algumas fotografias, a que se segue uma breve história em BD, normalmente com 4 páginas, que conta essa exata informação. Meus caros, não é assim que se faz um livro deste género. Deveria ser ou 1) completamente ao contrário, apresentando a história em BD e só depois apresentando o texto informativo - se bem que até neste caso haveria uma sensação de redundância - ou, 2), isso sim, reunindo informação que complementasse aquilo que acontece nas histórias em BD. Assim, como está, é um claro tiro ao lado. É que, ao lermos o texto antes de lermos a BD, e por muitos eventos e factos divertidos que obtenhamos, perdemos a predisposição para ler, logo depois, as histórias em BD que, invariavelmente, nos dão a mesmíssima informação, embora em formato de BD. Se apreciam BD e estão interessados em adquirir este livro e querem um conselho, digo-vos isto: leiam primeiro as pranchas de banda desenhada e só depois leiam as páginas informativas.

Nada disto significa que o livro seja uma leitura desagradável. Pelo contrário, lê-se bem e é fácil imaginar que encontre um público significativo, até porque o fascínio pelos The Beatles continua a atravessar gerações. Ainda assim, fica a sensação de que se perdeu uma oportunidade de criar uma biografia mais ambiciosa, mais aprofundada e narrativamente mais bem concebida. Os Beatles, enquanto fenómeno cultural único, mereciam um tratamento em banda desenhada à altura da sua importância. Mas isso não aconteceu.

The Beatles em BD, de Vários Autores - ASA - LeYa
Pareceu-me também que faltou uma maior pesquisa ou cuidado por parte dos autores. Em vários momentos li coisas que me fizeram franzir a testa, ficando com dúvidas. Lembro-me de um momento em concreto: lá mais para o meio do livro aparece uma referência à música All I'm Losing, dizendo que esta se tornou em disco de prata. Ora, enquanto lia o livro, isto fez-me um pouco de espécie, pois lembro-me de achar que não conhecia uma música dos The Beatles com esse nome. Recordo que, sendo uma banda que conheço relativamente bem, não sou expert. Portanto, fui pesquisar e, de facto, não encontrei nenhuma música dos The Beatles com o nome All I'm Losing. O que encontrei é a música I'm a Loser. Não sei se é um erro de tradução da ASA ou se é um erro da própria obra original. Seja como for, é um erro.

Em termos de desenhos, e sendo esta uma antologia, logicamente há histórias mais interessantes do que as outras em termos visuais. Há estilos bastante diferentes em termos de ilustração, mas até achei que é preservada uma certa linha de continuidade visual entre os diferentes autores. O que é bastante positivo. Não diria que algum dos ilustradores faça um trabalho por demais memorável ou fantástico, mas também não posso dizer que as histórias não estejam todas ilustradas de forma eficiente. 

Não obstante, as ilustrações avulsas dos quatro músicos, espalhadas ao longo do volume, acabam por parecer menos justificadas, funcionando apenas como imagens decorativas sem relevância efetiva para a narrativa ou para a compreensão da história da banda. Parecem mais ilustrações "para encher".

Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, com bom papel baço no interior, boa encadernação e boa impressão. Infelizmente, há um erro na capa que é de lamentar: o logótipo da ASA aparece duas vezes. E numa delas é sem querer. 

Em suma, The Beatles em BD é um livro simpático para quem quer saber mais sobre a banda de música mais famosa de sempre ou para os infindáveis acérrimos fãs da banda. Não diria, porém, que seja um livro de banda desenhada particularmente bem sucedido. Cumpre, mas não impressiona.


NOTA FINAL (1/10):
5.5



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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The Beatles em BD, de Vários Autores - ASA - LeYa

Ficha técnica
The Beatles em BD
Autores: Vários
Editora: ASA
Páginas: 232, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 20,2 x 23,8 cm
Lançamento: Setembro de 2026