quinta-feira, 30 de abril de 2026

Bomba! Devir lança coleção "DC Pocket"!



A Devir acaba de anunciar que já no próximo mês de Maio nos vai trazer a sua nova coleçºao de banda desenhada que se intitula DC Pocket e traz-nos alguns clássicos da DC em formato reduzido! E também, já agora, em preço reduzido, visto que cada um destes livros custará apenas 10,00€. 

A abrir esta coleção estão os títulos Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo, e Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy, ambos já por cá publicados pela Levoir.

Acredito que esta coleção faz sentido, pois tem um caráter quase pedagógico de apresentar aos novos leitores alguns clássicos da DC e em preço reduzido. É claro que já estou a imaginar algum "choro" por serem obras já anteriormente publicadas em Portugal. No entanto, há que ter visão periférica e perceber a quem se destina a esta série, diria.

E, claro, se for possível a publicação futura de algum livro ainda não editado cá, melhor.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora.


DC POCKET

A Devir lança em Portugal, em maio de 2026, os primeiros títulos da coleção de enorme sucesso internacional DC Pocket, uma linha editorial que reúne algumas das histórias mais emblemáticas da DC Comics num formato compacto, integralmente a cores, portátil e acessível, pensada para responder a novos hábitos de leitura.

JOKER de Brian Azzarello e Lee Bermejo, é um romance gráfico intenso e sombrio que apresenta o Joker numa abordagem crua e realista. Com uma narrativa direta e uma arte marcante, é um clássico contemporâneo da DC, pensado para leitores que procuram histórias mais adultas e psicológicas.
132 páginas • 10,00€


BATMAN: CAVALEIRO BRANCO de Sean Murphy é uma reinterpretação moderna e aclamada do universo Batman. Numa história completa e independente, os papéis invertem-se quando o Joker recupera a sanidade e questiona publicamente os métodos do herói, levantando um debate atual sobre justiça, responsabilidade e poder em Gotham.
232 páginas • 10,00€

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Ala dos Livros publica novo volume de Wild West!



Já se encontra nas livrarias o novo volume da série Wild West, dos autores Thierry Gloris e Jacques Lamontagne, intitulado A Lama e o Sangue.

Continuamos a acompanhar as personagens de Wild Bill, Calamity Jane e Charlie Utter, enquanto Bass Reeves recebe destaque neste quarto volume de Wild West.

Esta é uma série que, na sua edição original, já conta com cinco volumes, estando previsto que a mesma seja concluída com a publicação futura do sexto volume.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse desta obra publicada pela Ala dos Livros, e com algumas imagens promocionais da mesma.

Wild West #4 - A Lama e o Sangue, de Thierry Gloris e Jacques Lamontagne

Ainda na pista do assassino, Wild Bill, Calamity Jane e Charlie Utter descobrem que o misterioso assassino, quando criança, foi provavelmente escalpelado por nativos americanos que também assassinaram os seus pais. 

Enquanto isso, Graham, o empregador do trio e chefe da Union Pacific, acolhe os Soldados Búfalo, soldados negros que contratou para proteger a ferrovia dos ataques indígenas. Uma minoria oprimida para subjugar nativos americanos?

A América, a terra da liberdade, não trata todos os seus filhos de forma igual... Mas a situação irá tornar-se ainda mais complexa quando os trabalhadores da via férrea dinamitarem um cemitério sagrado indígena...

Entre ficção, história e uma exploração intransigente do mito americano, a conclusão do incrível segundo díptico do Velho Oeste, carregado por um conjunto de personagens lendários.

Bass Reeves é a quarta lenda do Oeste na série Wild West, editada em Portugal pela Ala dos Livros.


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Ficha técnica
Wild West #4 - A Lama e o Sangue
Autores: Thierry Gloris e Jacques Lamontagne
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
PVP: 17,50€

Análise: Um Feiticeiro de Terramar

Um Feiticeiro de Terramar, de Fred Fordham - Relógio D' Água

Um Feiticeiro de Terramar, de Fred Fordham - Relógio D' Água
Um Feiticeiro de Terramar, de Fred Fordham

Foi durante este mês de Abril que a editora Relógio D'Água editou a adaptação para banda desenhada de Um Feiticeiro de Terramar. A obra original é da autoria de Ursula K. Le Guin e o autor responsável por esta adaptação para a 9ª arte é Fred Fordham, que já nos havia dado as obras Mataram a Cotovia e Admirável Mundo Novo. Ambas adaptações para BD de obras de literatura e ambas editas por cá pela Relógio D' Água.

Embora conhecesse a obra Um Feiticeiro de Terramar e a autora Ursula K. Le Guin de nome, nunca tinha lido esta obra, nem nada da autora, pese embora o seu nome e o seu reconhecimento dentro da literatura de fantasia seja muito grande.

Um Feiticeiro de Terramar acompanha a infância e formação de Ged, um rapaz nascido na ilha de Gont que descobre possuir um grande talento natural para a magia. Inicialmente orgulhoso e impulsivo, Ged aprende feitiçaria com um mago local. Devido ao seu enorme potencial para as feitiçarias, Ged acaba por trocar os ensinamentos desse mago local por aqueles lecionados na Escola de Magos da ilha de Roke. Aí, estuda as leis profundas da magia, sobretudo a importância do verdadeiro nome das coisas. O que achei curioso é que a magia e controlo dos elementos da natureza, como o estado do tempo ou os comportamentos dos animais, por exemplo, advenha desse conhecimento da linguagem mágica, ou seja, da palavra que controla cada coisa que o mágico pretende controlar. Se um mágico procura controlar, por exemplo, um corvo, tem que saber a palavra mágica própria para que consiga controlar esse animal. É por isso que há muito que estudar e aprender naquela escola que, com as devidas distâncias, até nos pode remeter para a Hogwarts, de Harry Potter.

Um Feiticeiro de Terramar, de Fred Fordham - Relógio D' Água
Apesar do ensino rigoroso que é dado nesta Escola de Magos, o orgulho de Ged leva-o a cometer um ato proibido, pois ao tentar mostrar a sua superioridade sobre outro estudante, Ged liberta uma sombra maligna no mundo. E é a partir desse exato momento que a história se transforma numa jornada pessoal. Essa sombra passa a persegui‑lo, representando tanto um perigo real quanto o reflexo dos seus próprios medos e falhas. Ged vagueia pelo reino de Terramar, um local repleto de numerosas ilhas e muita água, tentando de alguma forma combater esta sombra das trevas que, sem querer, acabou por libertar. Mas qual será então o verdadeiro poder de um feiticeiro? O de fazer feitiços ou o do auto-conhecimento? Terão que ler a obra para responder a esta questão.

A adaptação de Fred Fordham traz consigo um tom meditativo, simbólico e íntimo bem explanado pela linguagem visual contida e poética das ilustrações. O traço de Fordham é deliberadamente simples e suave, evitando o excesso de detalhe. Esta escolha estética está intimamente ligada à filosofia da própria história, que valoriza o equilíbrio, a humildade e a moderação. De facto, os desenhos limpos e suaves de Fordham, bem como vários enquadramentos amplos, contribuem para uma leitura contemplativa, em perfeita sintonia com o carácter introspectivo da viagem de Ged.

Um Feiticeiro de Terramar, de Fred Fordham - Relógio D' Água
O uso da cor é outro elemento que merece menção. Predominam tons terrosos, azuis suaves e uma paleta contida, que evoca simultaneamente a naturalidade do arquipélago de Terramar e a sobriedade do universo mágico. Não tenho dúvidas de que é neste Um Feiticeiro de Terramar que Fordham se revela inspirado como nunca. Do ponto de vista visual, e tendo em conta os livros Mataram a Cotovia e Admirável Mundo Novo, é este o seu melhor trabalho. Ainda que, como um todo, eu tenha preferido o belíssimo Mataram a Cotovia.

Sendo Um Feiticeiro de Terramar uma obra com vários momentos de ilustração que achei arrebatadores, nem tudo é perfeito. É verdade que, por vezes, as personagens são pouco expressivas. Noutros casos, podem ser dificilmente reconhecíveis, o que fragiliza o fio condutor da narrativa. Também há alguns problemas com as cores das ilustrações quando os ambientes ilustrados são mais escuros, como no caso em que a ação decorre no interior de casas ou nas alturas em que o relato acontece de noite. Isto torna certas ilustrações algo ilegíveis, de tão escuras que ficam. Primeiro, ainda achei que a "culpa" de isto acontecer era da edição da Relógio D'Água, que tinha deixado as páginas muito escuras. No entanto, fui procurar páginas de edições estrangeiras e cheguei à conclusão de que acontecia o mesmo fenómeno. Ou seja, as imagens acabam por ser bastante escuras em vários momentos, o que é uma pena.

Um Feiticeiro de Terramar, de Fred Fordham - Relógio D' Água
Mesmo assim, nas vezes em que a ação decorre ao ar livre - e felizmente isso acontece na maioria das páginas da obra - Fred Fordham oferece-nos magníficas vistas, com vários momentos e imagens que ficam na nossa mente muito depois de fecharmos o livro. Imagino que, se daqui a alguns anos, alguém me falar deste livro, prontamente se formará na minha mente uma imagem do nosso Ged envolvo por verdejantes montes e/ou azuladas ondas marinhas. É um daqueles livros em que, em termos visuais, quando funciona, funciona muitíssimo bem... mas quando não funciona, também o faz de forma inglória.

De resto, a edição da Relógio D'Água apresenta-se sólida. A capa é mole, baça e com badanas. No interior, o papel utilizado é brilhante e de boa qualidade. A encadernação também está bem feita. Quanto à impressão - e tal como referi no parágrafo anterior - a mesma me parece boa, pois o facto de haver páginas demasiado escuras está mais relacionado com a obra original do que com a impressão portuguesa da obra.

Em suma, a adaptação de Um Feiticeiro de Terramar para banda desenhada é um exemplo notável de como um clássico literário pode ser transposto para outro meio sem perder identidade nem profundidade. O resultado é um livro belo, equilibrado e profundamente humano, que confirma Terramar como um espaço de reflexão sobre identidade, responsabilidade e maturidade. É uma obra que confirma que a fantasia pode ser silenciosa, séria e profundamente humana.


NOTA FINAL (1/10):
8.3


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Um Feiticeiro de Terramar, de Fred Fordham - Relógio D' Água

Ficha técnica
Um Feiticeiro de Terramar
Autor: Fred Fordham
Adaptação a partir da obra original de Ursula K. Le Guin
Editora: Relógio D'Água
Páginas: 288, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Lançamento: Abril de 2026

Blacksad está de volta!




A pouco e pouco, a Ala dos Livros vai-se aproximando da conclusão da sua edição de luxo da série Blacksad!

A editora acaba de lançar o quarto volume da série, intitulado O Inferno, O Silêncio, que é um dos meus preferidos! Se bem que, tenho que reconhecer, eu gosto muito de todos os álbuns e sou um grande fã desta série criada por Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido.

Com a publicação deste quarto volume, fica apenas a faltar a publicação do quinto, Amarillo. Recordo que a série ainda conta com o díptico Então, tudo cai (6+7) que embora a editora já tenha publicado em formato normal, talvez venha a ser inserido nesta edição de luxo, reunindo os volumes 6 e 7 num só volume e apresentando as características físicas dos restantes livros. Mas cada coisa a seu tempo.

Digo-vos ainda que esta edição de luxo, para além de ter lombada em tecido (com cada um dos volumes a contribuir para uma ilustração conjunta na lombada), ainda inclui a História das Aguarelas, onde Junanjo Guarnido nos leva numa viagem explicada, em género de making of, a todo o processo de criação da obra. É uma edição verdadeiramente espetacular, garanto-vos. 

Daqueles livros que uma boa estante de banda desenhada deve possuir.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido

Nova Orleães, década de 1950, onde as celebrações do Carnaval estão ao rubro. 

Graças a Weekly, um produtor de jazz chamado Faust conhece Blacksad. Faust pede a este último que assuma um caso: um dos seus músicos, o pianista Sebastian, desapareceu. Não há notícias dele há meses, pondo em risco a editora particular que só tem aquela estrela. Faust teme que Sebastian tenha, com demasiada frequência, caído no vício da droga. O seu pedido é ainda mais urgente, pois Faust sabe que tem cancro.

Blacksad aceita a missão e, aos poucos, descobre que Faust não lhe contou tudo. Percebe que está a ser manipulado, mas decide, mesmo assim, encontrar Sebastian para perceber os motivos do seu desaparecimento. Mas o que ainda não sabe é que está prestes a viver a sua investigação mais angustiante, em mais do que um sentido.

Blacksad é uma série de culto, cujo protagonista principal é um gato que se movimenta num universo antropomórfico e cuja acção decorre nos Estados Unidos, nos anos de 1950, num ambiente que evoca o romance negro e a literatura americana. Com os desenhos fulgurantes - e cores sublimes - assinados por Juanjo Guarnido, a força de Blacksad reside também na qualidade das suas histórias, que contam com o argumento de Juan Diaz Canales. Inicialmente publicado em 2005, este é o quarto volume desta série de culto, publicada em Portugal pela Ala dos Livros.

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Ficha técnica
Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio
Autores: Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 104, a cores
Encadernação: Capa dura com lombada em tecido
Formato: 235 x 310 mm
PVP: 29,90€

terça-feira, 28 de abril de 2026

Análise: Nautilus 2 e 3 - A Herança do Capitão Nemo

Nautilus 2 e 3 - A Herança do Capitão Nemo, de Mathieu Mariolle e Guénaël Grabowski - Arte de Autor e A Seita

Nautilus 2 e 3 - A Herança do Capitão Nemo, de Mathieu Mariolle e Guénaël Grabowski - Arte de Autor e A Seita
Nautilus 2 e 3 - A Herança do Capitão Nemo, de Mathieu Mariolle e Guénaël Grabowski

Foi ainda no final de 2025 que as editoras A Seita e Arte de Autor publicaram, conjuntamente, o segundo e último volume da série Nautilus, dos autores Mathieu Mariolle e Guénaël Grabowski. Relembro que, no mercado original francês, a série havia sido publicada em três tomos, de forma separada. Por cá, as editoras portuguesas optaram por editar - e mal, parece-me, mas já lá irei - num só volume os tomos 2 e 3 da série, denominados, respetivamente, Mobilis in Mobile e A Herança do Capitão Nemo.

O primeiro tomo, intitulado O Teatro das Sombras, até me tinha deixado boas impressões conforme podem (re)ler na análise que fiz a esse volume.

Nautilus 2 e 3 - A Herança do Capitão Nemo, de Mathieu Mariolle e Guénaël Grabowski - Arte de Autor e A Seita
Este segundo livro traz consigo a continuação da história iniciada no primeiro volume, em que o argumentista, Mathieu Mariolle, procura dar continuidade ao percurso de Nemo e da sua mítica máquina submarina. Como tal, e ao contrário do que tinha acontecido no primeiro volume em que a ação tomou lugar em variadíssimos locais e paisagens, aqui a narrativa centra‑se essencialmente na viagem do submarino Nautilus rumo ao seu objetivo final, aprofundando o isolamento do capitão, bem como os seus fantasmas interiores. 

Continuamos a acompanhar a historia de Kimball, um agente da coroa britânica que depois de resgatar o envelhecido Capitão Nemo, se une ao mesmo para tentar cumprir a sua missão de provar a sua inocência, por um lado, e impedir uma guerra entre a Inglaterra e Rússia, por outro. Mas as coisas começam a correr mal entre Kimball e Nemo, ficando as duas personagens de costas voltadas.

A ação decorre, portanto, quase inteiramente dentro do Nautilus, nas suas entranhas tecnológicas e claustrofóbicas, enquanto Kimball, Nemo e a tripulação avançam para um destino inevitável que incluirá um forte confronto de dimensão bélica. A vários níveis. O tom torna‑se mais sombrio e introspectivo, havendo menos movimento exterior e mais tensão psicológica, o que marca uma ruptura evidente com o espírito do primeiro volume.

Nautilus 2 e 3 - A Herança do Capitão Nemo, de Mathieu Mariolle e Guénaël Grabowski - Arte de Autor e A Seita
E, quanto a mim, isso acaba por não ser tão bom. Isto porque o primeiro volume me tinha deixado muito empolgado com esta série. Certas coisas no argumento até poderiam ser algo forçadas, como referi na altura, mas havia ali um espírito de aventura desmedida, cruzando as criações de Júlio Verne e Rudyard Kipling, que muito me agradou. Sentia‑se uma energia quase juvenil, uma vontade de contar uma grande história de aventura sem pudor ou contenção. Gostei disso.

Tal como gostei que houvesse uma grande variedade de cenários, de atmosferas, de momentos diferentes, que nos ofereciam um verdadeiro desfile non stop de situações marcantes e dinâmicas, à boa maneira do cinema de aventuras, sendo até fácil traçar um paralelo com um cruzamento improvável entre Indiana Jones (pela aventura e ação) e 007 (pela espionagem e pelo mistério), onde o exotismo, o ritmo e o espetáculo estavam sempre presentes.

Infelizmente, estes dois volumes revelaram‑se bastante diferentes do primeiro. A mudança de tom é evidente e, no meu caso, resultou numa certa desilusão. A série prometia uma evolução crescente da aventura e da tensão, mas acabou por oferecer algo mais contido e menos ousado do que o início fazia antever. E quando digo mais contido ou menos ousado, não é que a ação não seja grande e por vezes de proporções até exageradas... refiro-me mais, por um lado, à cadência lenta com que o tempo narrativo decorre, que por vezes até se arrasta; e, por outro, aos já mencionados cenários que aqui são muito menos dinâmicos e diversificados. É certo que o interior do Nautilus pode ser muito interessante, mas o facto de a ação apenas acontecer a bordo do submarino, torna tudo mais sensaborão e repetitivo. As próprias batalhas aquáticas travadas entre submarinos, não conseguem ter o apelo da ação que vimos no primeiro volume.

Nautilus 2 e 3 - A Herança do Capitão Nemo, de Mathieu Mariolle e Guénaël Grabowski - Arte de Autor e A Seita
Além disso, a própria narrativa também parece andar em círculos, demorando‑se excessivamente em situações que não fazem realmente avançar a história. De facto, praticamente todo o segundo volume decorre dentro do submarino, a caminho do destino final, sem que aconteça muito além da preparação e da expectativa. Essa opção narrativa contribui para um ritmo lento e pouco estimulante, fazendo com que o leitor sinta que a história tarda em arrancar novamente.

Ou seja, onde o primeiro volume é bom, estes dois não conseguem estar ao mesmo nível; e onde o primeiro apresentava fragilidades, estes também não as corrigem. Uma das mais evidentes continua a ser a falta de maior verosimilhança em determinados momentos. É certo que estamos perante uma série de ação e aventura, mas isso não invalida a necessidade de uma trama minimamente convincente e bem estruturada, especialmente ao nível das motivações das personagens.

O terceiro tomo - ou a segunda parte deste volume duplo -  esforça‑se claramente por terminar a saga de forma mais memorável, reconheço, e, em alguns momentos, consegue recuperar alguma da intensidade perdida. Há sequências mais emotivas e decisões definitivas que dão um final interessante às personagens. Acabei por gostar.

Nautilus 2 e 3 - A Herança do Capitão Nemo, de Mathieu Mariolle e Guénaël Grabowski - Arte de Autor e A Seita
Quanto às ilustrações, o trabalho de Guénaël Grabowski é bastante eficaz, pois o seu trabalho, e conforme já o havia dito em análise ao primeiro volume da série, "passa com distinção. Quem aprecia o estilo mais clássico da bd franco-belga de aventura, vai certamente apreciar a componente estética desta série, pois consegue homenagear o clássico e, mesmo assim, ter algum modernismo."

Mas, lá está, por uma questão de coerência com o que já referi anteriormente, o facto destes dois volumes se passarem mais a bordo do Nautilus, também faz com que o desenho de Grabowski não se destaque tanto, tornando-se mais repetitivo. A certa altura, até parece feito com menos inspiração, com a expressão e pose de algumas personagens a carecer de algum aprimoramento. Continua eficiente, reitero, mas perde algum do seu génio criativo.

Mesmo assim, tenho que fazer uma nota positiva em relação à forma como o autor concebe o submarino e os seus interiores, que é bastante bela e em linha com o imaginário que nos deram as histórias arquitetadas por Júlio Verne.

Nautilus 2 e 3 - A Herança do Capitão Nemo, de Mathieu Mariolle e Guénaël Grabowski - Arte de Autor e A Seita
Relativamente à edição, o livro apresenta capa dura baça, bom papel brilhante e um bom trabalho ao nível da impressão e encadernação. Há ainda espaço para um dossier de sete páginas de extras, em que somos presenteados com desenhos a preto e branco do interior do submarino e com alguns esboços.

A opção por editar os dois livros num só volume não me parece a mais indicada desta vez. Nada tenho contra volumes que tenham mais tomos (até as prefiro), mas neste caso em concreto, parece uma opção algo atabalhoada, pois estamos perante uma série com três volumes apenas. Diria que ou se lançava toda a obra num só volume triplo, ou era mais sensato lançar a obra em três volumes. Não é nada chocante, é apenas um reparo.

Em suma, com este último volume de Nautilus não estamos perante uma má aventura... longe disso. Nautilus continua a ser uma leitura agradável e competente, mas fica bastante aquém do que prometia após um primeiro volume com tanto potencial. Lê‑se bem, entretém, mas falha em ser verdadeiramente memorável, deixando a sensação agridoce de uma grande ideia que nunca atingiu plenamente todo o seu potencial.


NOTA FINAL (1/10):
7.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Nautilus 2 e 3 - A Herança do Capitão Nemo, de Mathieu Mariolle e Guénaël Grabowski - Arte de Autor e A Seita

Ficha técnica
Nautilus 2 e 3 - A Herança do Capitão Nemo
Autores: Mathieu Mariolle e Guénaël Grabowski
Editoras: A Seita e Arte de Autor
Páginas: 120, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 330 mm
Lançamento: Novembro de 2026

Vai sair BD sobre Steven Spielberg!



A ASA prepara-se para publicar uma banda desenhada sobre a vida do cineasta Steven Spielberg, da autoria de Amazing Améziane!

Depois de, em 2024, a editora portuguesa nos ter trazido o muito bem conseguido Quentin por Tarantino, do mesmo autor, chega a vez da história da vida de um dos realizadores com mais sucesso comercial na história do cinema: Steven Spielberg, cuja obra nos ofereceu clássicos como Indiana Jones, Tubarão, E.T. - O Extraterreste, Jurassik Park, A Lista de Schindler ou As Aventuras de Tintin, entre muitos, muitos outros.

Relembro que, desta mesma coleção, e do mesmo autor, já foram editados em França os livros dedicados aos realizadores Francis Ford Copolla (Don Copolla, 2023), Martin Scorsese (2021) e Sergio Leone (2024). Livros que, naturalmente, espero que também venham a ser editados por cá.

O livro já se encontra em pré-venda no site da editora e deverá chegar às livrarias a partir do próximo dia 26 de Maio.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais de edições estrangeiras.


Steven Spielberg, de Amazing Améziane

192 páginas de banda desenhada que o levarão a descobrir como um jovem ambicioso e apaixonado pelo cinema se tornou um dos maiores realizadores da nossa época. 

Steven Spielberg fascina, diverte e emociona o mundo inteiro.

Com Tubarão, E.T. ou Indiana Jones, ele, sozinho, mudou a face do cinema moderno. Sem nunca se esquecer de nos fazer refletir com filmes sérios e profundos, como A Lista de Schindler ou O Resgate do Soldado Ryan. 

Deixe-o contar-lhe a sua vida.

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Ficha técnica
Steven Spielberg
Autor: Amazing Améziane
Editora: ASA
Páginas: 200, a cores
Encadernação: Capa mole (flexicover)
Formato: 29,3 x 22 cm
PVP: 29,90€

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Vem aí o segundo volume de Akira!



A Distrito Manga prepara-se para editar o segundo volume da série Akira, de Katsuhiro Otomo!

Passado um ano desde o lançamento do primeiro de seis volumes, a editora faz agora chegar-nos o segundo volume da muito célebre série de banda desenhada. 

Diria que talvez fosse preferível que a janela de lançamentos dos vários volumes fosse mais célere (dois volumes por ano, pelo menos?), mas também afirmo que fico feliz por este novo lançamento que já se encontra em pré-venda no site da editora e que deverá chegar às livrarias a partir do próximo dia 11 de Maio.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.
Akira - Livro 2, de Katsuhiro Otomo

Uma obra-prima épica de ficção gráfica e a inspiração para a sua deslumbrante adaptação animada, Akira é leitura obrigatória para qualquer entusiasta de ficção científica, manga e novela gráfica.

No século XXI, Neo-Tóquio ergueu-se das cinzas de uma Tóquio obliterada por um poder psíquico monstruoso conhecido apenas como Akira — um ser que ainda vive, secretamente aprisionado em estase gelada. Aqueles que o guardam sabem que o despertar de Akira é uma inevitabilidade aterradora. 

Tetsuo, um jovem revoltado com imensos — e rapidamente crescentes — poderes psíquicos, pode ser a única esperança de controlar Akira quando este acordar.
Mas Tetsuo está a tornar-se cada vez mais instável e alimenta uma obsessão crescente por confrontar Akira cara a cara. 

Um grupo clandestino, que inclui o seu antigo melhor amigo, parte numa missão para destruir Tetsuo antes que este liberte Akira — ou antes que o próprio Tetsuo se torne tão poderoso que nenhuma força na Terra o possa deter.

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Ficha técnica
Akira - Livro 2
Autor: Katsuhiro Otomo
Editora: Distrito Manga
Páginas: 296, a preto e branco (algumas a cores)
Encadernação: Capa mole com sobrecapa
Formato: 178 x 256 mm
PVP: 28,85€

ASA lança BD de Craig Thompson, autor de "Blankets"!



Já havia sido anunciado, mas agora está mesmo confirmado: a partir do próximo dia 12 de Maio, deverá chegar às livrarias, pelas mãos da editora ASA, o livro Ginseng Roots, do autor americano Craig Thompson!

Deste autor, relembro, já por cá foram editados, pela Devir, os fantásticos Blankets e Habibi. Adorei-os aos dois, pelo que estou muito entusiasmado com este lançamento!

É mais uma prova do recente enfoque da editora ASA que tem feito apostas muito bem-vindas e em obras de qualidade.

Que esta nova aposta renda frutos à empresa para que o mercado nacional continue a receber este tipo de obras, é o meu mais sincero desejo.
Por agora, o livro já se encontra em pré-venda no site da editora portuguesa.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas páginas promocionais da edição americana.


Ginseng Roots, de Craig Thompson


Ginseng Roots acompanha Craig e os seus irmãos, que passaram os verões da sua juventude a remover ervas daninhas e a colher fileiras do cobiçado ginseng americano em quintas rurais de Wisconsin por um dólar por hora.

No seu característico trabalho de caneta e tinta de tirar o fôlego, Craig entrelaça essa juventude perdida com a história de 300 anos do comércio global de ginseng e as muitas vidas que ele uniu - desde caçadores de ginseng na China antiga, passando por agricultores industriais e colhedores migrantes no meio-oeste americano, até a sua própria família, que ainda luta com as consequências de um passado amargo. 


Indo de Marathon, Wisconsin, ao nordeste da China, Ginseng Roots traça a ascensão da agricultura industrial, o declínio da mão de obra americana e a busca por um sentimento de lar num mundo em rápida mudança.

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Ficha técnica
Ginseng Roots
Autor: Craig Thompson
Editora: ASA
Páginas: 448, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 24,2 x 18 cm
PVP: 33,90€

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Ala dos Livros lança segundo volume de "A Sombra das Luzes"!



A Ala dos Livros acaba de lançar o segundo volume da série A Sombra das Luzes, da autoria de Alain Ayroles e Richard Guérineau!

Este segundo tomo denomina-se Rendas e Colares de Conchas e esta é uma série cujo primeiro ciclo termina no tomo 3. Do primeiro volume, relembro, já aqui falei.

Estou bastante curioso para ver aonde esta história nos pode levar.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.
A Sombra das Luzes - Tomo 2 – Rendas e Colares de Conchas, de Alain Ayroles e Richard Guérineau

Após “O Burlão nas Índias”, Alain Ayroles volta a repetir a proeza com elegância! Dando continuidade à tradição epistolar de Ligações Perigosas, orquestra um vertiginoso jogo de vigarices, num século XVIII brilhantemente retratado pelo desenhador Guérineau.

Ayroles e Guérineau continuam a pintar com desenvoltura o retrato aterrorizante de um libertino do século XVIII. As reviravoltas prosseguem nas terras exóticas da Nova França, onde o selvagem não é quem pensamos que seja.

Ladeado pelo iroquês Adario e o seu criado filósofo, Saint-Sauveur chega à Nova França, onde uma nova aposta lhe permitirá exibir os seus talentos mortais. Mas não se pode brincar com os corações impunemente, e as maquinações do libertino vão transformar-se em catástrofe. Trocando as meias de seda por perneiras de pele de veado, o cavaleiro terá que vagar pelas florestas e afastar os seus preconceitos: os selvagens têm inteligência!

A série “A Sombra das Luzes”, de que a Ala dos Livros apresenta agora aos leitores portugueses o segundo tomo, está prevista para 3 volumes.


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Ficha técnica
A Sombra das Luzes - Tomo 2 – Rendas e Colares de Conchas
Autores: Alain Ayroles e Richard Guérineau
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 255 x 340 mm
PVP: 25,00 €






"O Fantasma da Ópera" recebe adaptação para BD!




A adaptação de O Fantasma da Ópera - um romance original de Gaston Leroux - para banda desenhada é-nos dada pelos irmãos Brizzi, cujas belíssimas adaptações de O Inferno de Dante e Dom Quixote de La Mancha para banda desenhada já por cá foram editadas também. E recomendam-se!

Esta é uma edição d' A Seita e da Arte de Autor e já está disponível desde 16 de Abril. A edição inclui um ex-libris, limitado ao stock existente.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da obra e com algumas imagens promocionais.

O Fantasma da Ópera, de Gaëtan e Paul Brizzi

Baseado no romance de Gaston Leroux

Estão a ocorrer eventos sobrenaturais na Ópera: o grande lustre desaba durante uma representação, matando um espectador; um assistente de palco é encontrado enforcado... A direcção é obrigada a encarar os factos: um fantasma, ou um homem maquiavélico chamado Erik, está a assombrar o teatro. Alguns afirmam ter visto o rosto deformado deste indivíduo, que parece ser desumano. Pouco depois, os directores da Ópera recebem uma exigência de 20.000 francos por mês de um certo "Fantasma da Ópera", que também insiste que o camarote número 5 lhe seja reservado.

Nos bastidores da ópera, o Visconde Raoul de Chagny está apaixonado por Christine, uma jovem cantora de ópera. Mas não suporta ouvi-la a falar com outro pretendente misterioso, com uma voz melancólica e fantasmagórica...

Depois do sucesso das suas adaptações do Inferno de Dante, Dom Quixote de Cervantes, Paul e Gaëtan Brizzi voltam a aventurar-se num clássico da literatura. O Fantasma da Ópera transporta-nos para Paris em 1890. A Paris do século XIX, o cenário da Ópera Garnier e esta história fantástica combinam-se para criar uma encantadora novela gráfica, uma série de imagens deslumbrantes.


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Ficha técnica
O Fantasma da Ópera
Autores: Gaëtan e Paul Brizzi
Editoras: A Seita e Arte de Autor
Páginas: 168, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 340 mm
PVP: 29.00€



Análise: O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo

O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, de Philippe Girard - ASA - LeYa

O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, de Philippe Girard - ASA - LeYa
O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, de Philippe Girard

Editado ainda no presente mês de Abril, chegou-nos pelas mãos da editora ASA este O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, de Philippe Girard. Originalmente, o livro foi lançado em 2024 e chega a Portugal no exato ano em que se assinalamos o 80º aniversário da obra O Principezinho, de Antoine de Saint‑Exupéry, um dos meus livros preferidos (de sempre!).

Este O Príncipe dos Pássaros de Alto não se trata de uma adaptação de O Principezinho para banda desenhada, convém dizer, mas antes de uma obra de cariz biográfico baseada num período concreto da vida de Antoine de Saint‑Exupéry, o autor dessa obra-prima da literatura.

Mais concretamente, este livro acompanha Saint‑Exupéry durante a sua estadia no Quebeque, Canadá, na primavera de 1942, no exato momento em que o escritor e aviador se encontrava exilado na América do Norte. Enquanto a guerra devastava a Europa - e a França especialmente - Saint‑Exupéry percorria o Canadá francófono para dar palestras, reunir‑se com intelectuais e conviver com a elite cultural local, assumindo publicamente o papel de escritor consagrado e figura moral da resistência francesa.

Mas nesta fase da sua vida, já bem longe do combate e dos céus de guerra que marcaram a sua vida, Saint‑Exupéry sente‑se dividido entre o privilégio do exílio e a culpa de não estar a lutar. A narrativa acompanha essa dicotomia que lhe gera mal‑estar interior, mostrando um homem cansado, inquieto e por vezes irascível, que tenta dar sentido à sua presença num território seguro, enquanto milhões vivem sob a violência do conflito. Paralelamente, a relação conturbada com Consuelo, a sua mulher, revela‑se complexa e instável, marcada tanto pelo apoio mútuo como por tensões emocionais profundas.

O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, de Philippe Girard - ASA - LeYa
O autor canadiano Philippe Girard opta por uma abordagem que não é puramente biográfica nem estritamente histórica. Mais do que relatar factos que comprovadamente aconteceram na vida de Saint-Exupéry, como palestras, encontros com a elite franco‑canadiana e outros compromissos públicos, o autor procura insinuar o estado interior de um homem suspenso entre a culpa do exílio e a impossibilidade física de intervir na guerra. 

Essa escolha, porém, tem um custo: o livro apresenta‑se como o retrato de uma fase curta e algo circunscrita da vida de Saint‑Exupéry, o que lhe confere um carácter fragmentário. A sensação é a de que Philippe Girard se baseia sobretudo em entrevistas, textos públicos e episódios documentados, e que os articula numa narrativa que, embora coerente, nem sempre parece totalmente orgânica ou profunda.

Essa fragilidade estrutural revela-se também em alguns saltos temporais que se revelam algo abruptos, causando alguns momentos de descontinuidade e uma ligeira perda de intensidade dramática.

E sou-vos sincero: a minha profunda paixão (ou será mesmo amor?) pela obra O Principezinho até pode ter jogado contra mim nesta leitura, reconheço. É que O Principezinho acaba por ter uma presença relativamente reduzida neste O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo. Obviamente, a "culpa" disso não é do autor, nem da obra... é minha, por ter, por ventura, acalentado esse desejo.

É claro que existem referências subtis - embora facilmente detectáveis - e piscadelas de olho e alusões simbólicas a O Principezinho, mas Girard recusa fazer dessa obra o eixo central da sua narrativa. E, atenção, está no seu pleno direito! E essa contenção até tem a sua elegância, mas acabou por gerar em mim alguma frustração, pois ainda que não fosse uma biografia completa de Saint-Exupéry ou uma ode a O Principezinho, considero que esperava um mergulho mais profundo na génese literária dessa obra maior.

O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, de Philippe Girard - ASA - LeYa
Além de que essa ausência se traduz também numa menor carga poética do que seria expectável. A história opta por um tom desencantado, quase árido, centrado numa existência marcada pelo tédio, pela melancolia e pelo sentimento de inutilidade. Mesmo aceitando essa opção estética, fica a sensação de que poderia haver mais espaço para a poesia, para a imaginação e para a leveza que tanto caracterizam Saint‑Exupéry como figura literária.

Há, por vezes, alguns momentos mais poéticos, sim, mas, quanto a mim, insuficientes em número e em carga emotiva. Não obstante o que acabo de referir, reconheço que também é justamente esse afastamento do mito que permite que alguns dos momentos mais fortes do livro emerjam noutro plano: o da intimidade conjugal. A relação entre o protagonista e Consuelo, a sua esposa, é um dos pontos fortes da obra, retratando com intensidade a relação do casal e mostrando como, especialmente no meio artístico, é comum que os relacionamentos amorosos sejam mais na base do contrato social e do apoio mútuo quase profissional entre ambos, do que propriamente no amor propriamente dito. 

Em termos de desenho, Girard adopta uma linha clara eficaz e legível, bastante simples, quase linear, com alguns momentos de beleza evidente. A composição é sóbria - talvez em demasia? -, favorecendo a leitura fluida. No entanto, essa mesma contenção acaba por se tornar, a certa altura, previsível, e a repetição de enquadramentos e soluções visuais começa a fazer‑se sentir.

As cores são garridas e de personalidade vincada, o que contribui de forma positiva para a experiência do leitor e, ao mesmo tempo, ajuda a encobrir a presença de um maior número de cenários vazios do que seria recomendável.

É um daqueles livros um pouco "enganadores" em termos visuais que, à primeira vista, impressionam, mas que, ao longo da leitura integral, perdem algum do seu impacto gráfico pela falta de variação. Reafirmo que há alguns bons momentos na vertente visual, mas isso não foi suficiente para que tenha ficado especialmente apaixonado pelo desenho do autor.

Apesar das várias reservas com que o livro me deixou, reconheço-lhe alguns bons feitos, nomeadamente quanto ao desfecho do mesmo, que se revela surpreendentemente eficaz. O final consegue reunir e amplificar os motivos que vinham sendo discretamente preparados ao longo da narrativa, oferecendo uma espécie de síntese emocional e simbólica que recontextualiza tudo o que foi lido antes. Essa apoteose final não apaga todas as fragilidades do percurso, mas eleva significativamente o conjunto.

Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça e um bom papel baço no interior. A encadernação e a impressão também se apresentam bem feitas.

Em suma, este é um livro que ficou um pouco aquém das minhas expectativas - que eram altas, admito. O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo é uma obra imperfeita, por vezes aquém do seu potencial, mas honesta na sua ambição: pensar Saint‑Exupéry não como lenda, mas como homem. Alguém cansado, contraditório, e ainda assim criador, mesmo quando tudo à sua volta parecia pedir silêncio. 


NOTA FINAL (1/10):
6.9



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, de Philippe Girard - ASA - LeYa

Ficha técnica
O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo
Autor: Philippe Girard
Editora: ASA
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 32 x 23,8 cms