sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Análise: O Nome da Rosa - Volume 2

O Nome da Rosa - Volume 2, de Milo Manara - Gradiva

O Nome da Rosa - Volume 2, de Milo Manara - Gradiva
O Nome da Rosa - Volume 2, de Milo Manara

Foi neste mês de fevereiro que a Gradiva publicou o segundo e último tomo da adaptação para banda desenhada, por parte de Milo Manara, de O Nome da Rosa, célebre obra da autoria de Umbero Eco. Em França, este livro saiu no final de janeiro, pelo que a editora portuguesa esteve bem ao não perder muito tempo até nos fazer chegar o final desta muito aguardada obra.

E apesar da espera de quase três anos entre o primeiro e segundo tomo, posso dizer-vos que a espera valeu a pena. De facto, estamos perante um dos maiores mestres da banda desenhada europeia que, mesmo na casa dos oitenta anos, continua a ter uma abordagem artística sublime e inteiramente diferenciada. Falo de Manara, claro.

Neste segundo tomo, continuamos a acompanhar a história que nos é narrada por Adso de Melk, já idoso, e que vai relembrando os acontecimentos vividos quando jovem noviço ao lado do frade franciscano Guilherme de Baskerville. À medida que vários monges vão aparecendo assassinados no mosteiro, em circunstâncias cada vez mais estranhas, cresce o clima de medo e superstição, e Guilherme assume o papel de detetive, utilizando a razão e a observação para tentar descobrir quem é o responsável por tão nefastos crimes.

O Nome da Rosa - Volume 2, de Milo Manara - Gradiva
Este segundo tomo dá, pois, continuidade direta aos acontecimentos do primeiro volume, aprofundando o clima de suspeita, clausura e tensão que envolve o mosteiro beneditino. Ao mesmo tempo, confirma a ambição de Milo Manara em ser fiel ao espírito e à estrutura do texto original de Umberto Eco. Com efeito, Manara respeita, tanto quanto possível, os diálogos, os episódios centrais e a complexa teia de referências históricas e teológicas presentes em O Nome da Rosa. Essa fidelidade procura preservar a densidade intelectual e o ambiente erudito que tornaram o romance tão popular, fazendo-nos sentir perante uma transposição cuidadosa e respeitosa, que evita simplificações excessivas.

Contudo, lá está, essa mesma fidelidade levanta alguns problemas à obra, pois acredito que certos elementos da obra original talvez pudessem ter sido retirados ou, pelo menos, condensados nesta adaptação, pois não acrescentam assim tanto ao mistério que envolve o mosteiro. Em banda desenhada, onde o ritmo e a economia narrativa são fundamentais, algumas passagens e diálogos acabam por pesar no desenrolar da ação, diluindo momentaneamente a tensão policial que sustenta a intriga. Já no primeiro volume isso tinha-se sentido - se calhar até mesmo com mais força - e volta a sentir-se neste segundo tomo.

Mesmo assim, e isto é uma boa notícia, este segundo volume revela-se, porventura, mais focado do que o anterior, notando-se uma maior concentração do enredo nos acontecimentos decisivos e na progressiva revelação dos segredos que conduzem à identificação do culpado pelos assassinatos que assolam o mosteiro. A narrativa ganha, portanto, alguma fluidez e intensidade face ao primeiro volume. 

Não obstante, e reflexão teológica presente no romance original recebe aqui demasiada atenção por parte de Manara. E, bem vistas as coisas, essa componente teológica até não é tão importante assim para a história, mas mais para lhe dar alguma camada intelectual. Por esse motivo, acredito que essa parte poderia ocupar menos páginas, o que também teria permitido  que houvesse menos balões sobrecarregados de texto. Que os há.

E não esqueçamos que embora esta seja uma obra que decorre no seio do clero e mergulhe profundamente em debates religiosos e filosóficos, o seu apelo principal é o mistério e a investigação. Estamos, no fundo, perante um policial histórico e o prazer do leitor advém sobretudo da tentativa de acompanhar as deduções, os indícios e as revelações que conduzem à descoberta final.

É claro que, mesmo assim, a adaptação cumpre bem o seu propósito. O encadeamento dos acontecimentos, a escalada de mortes e a revelação final são apresentados com clareza e impacto. O ritmo narrativo, sobretudo neste segundo volume, reforça a vertente de thriller intelectual que caracteriza a obra de base.

O Nome da Rosa - Volume 2, de Milo Manara - Gradiva
Já o desenho continua exímio e mostra bem porque é que Milo Manara é considerado um dos grandes mestres da banda desenhada europeia. A sua linha elegante, o cuidado no detalhe arquitetónico e a expressividade das personagens conferem uma dimensão visual rica e imersiva à história. O próprio mosteiro surge quase como uma personagem autónoma, labiríntica e opressiva, refletindo o enigma que o habita.

E se, no tomo anterior, a presença feminina quase não tinha acontecido - embora tenha surgido no final do livro para nos deixar em suspenso - este segundo volume abre logo com a famosa cena em que Adso é seduzido pela bela mulher. É mais uma cena fantástica, carregada de erotismo, onde Manara revela que não perdeu o jeito para o desenho do corpo feminino. E mesmo que todas as mulheres desenhadas por Manara possam parecer demasiadamente semelhantes entre si - e isso é um facto, admitamo-lo - parece que sempre queremos voltar a dar de caras com estas belíssimas mulheres. O pobre Adso que o diga.

Mas também a representação de todas as outras personagens masculinas está muito bem executada, com destaque para Guilherme de Baskerville, inspirado - talvez um pouco em demasia? - em Marlon Brando. Além disso, também os espaços interiores, as bibliotecas, os corredores e as celas são representados com uma atmosfera densa, quase sufocante, que reforça o tom sombrio da narrativa. 

Nota ainda, muito positiva, para a presença de um outro estilo de desenho em que, para certas partes mais histórias, o autor recorre a uma técnica que lembra a gravura. Isso deixa-me até com a ideia de que Milo Manara se divertiu bastante a fazer este livro devido a nele haver espaço para pôr em prática todas estas nuances artísticas.

Como ponto menos positivo, tenho que referir, novamente, que as passagens em latim, sem qualquer legenda, são em maior número do que o aceitável. Embora isso não seja culpa da edição portuguesa - uma vez que as outras edições se apresentam de igual forma -, a ausência de tradução acaba por criar algum distanciamento para o leitor que não domina a língua. Se no início ainda dei comigo a tentar perceber o que quereria dizer cada expressão, mais para a frente já quase desprezava os balões em latim. É uma opção que privilegia a autenticidade histórica, bem sei, mas que poderia ter sido acompanhada por notas ou discretas traduções de apoio.Mas, de resto, essa questão já se colocava no primeiro volume, pelo que não constitui surpresa neste segundo tomo. 

A edição da Gradiva é em capa dura brilhante, com bom papel brilhante no miolo. O trabalho de encadernação e impressão também é bom e há ainda, no final, espaço para um breve caderno de esboços, com três páginas, que é muito bem-vindo. A edição da Gradiva assume-se, deste modo, como bastante digna para uma obra que também o merecia, diga-se.

Em suma, O Nome da Rosa - Volume 2 é uma adaptação muito convincente, que respeita o romance de Umberto Eco, valoriza-o visualmente e confirma o talento extraordinário de Manara enquanto narrador gráfico. Com pequenos excessos herdados da matriz literária da obra original, mas amplamente compensados pela qualidade artística e pela força do mistério, este segundo tomo encerra a história de forma sólida e memorável. É um belo livro que não deve faltar na coleção de um apreciador da obra de Milo Manara!


NOTA FINAL (1/10):
9.3


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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O Nome da Rosa - Volume 2, de Milo Manara - Gradiva

Ficha técnica

O Nome da Rosa - Volume 2
Autor: Milo Manara
A partir da obra original de: Umberto Eco
Editora: Gradiva
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Fevereiro de 2026



Devir lança nova BD de Guy Delisle!




É o presente perfeito para o Dia do Pai que se aproxima e, naturalmente, a editora Devir - e bem! - não se deixou dormir, jogando com o seu próprio calendário editorial.

A obra em questão chama-se O Guia do Mau Pai e reúne um conjunto de pranchas humorísticas, sobre ser-se pai, do célebre autor de obras como Crónicas de JerusalémShenzhen, Crónicas da Birmânia ou Pyongyang.

Já se encontra disponível em livraria desde o passado dia 24 de Fevereiro.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle


Inicialmente editadas no blog do autor, as pranchas agora reunidas nesta versão integral ilustram, de forma irónica, com o humor característico de Guy Delisle, situações do seu quotidiano enquanto pai de duas crianças pequenas.


Um relato terno satirizando os mal-entendidos, as incertezas e as aprendizagens próprias de todas as decisões dos pais.


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Ficha técnica
O Guia do Mau Pai
Autor: Guy Delisle
Editora: Devir
Páginas: 204, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
PVP: 25,00€

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Análise: O Deus Selvagem

O Deus Selvagem, de Fabien Vehlmann e Roger Ibanez - Ala dos Livros

O Deus Selvagem, de Fabien Vehlmann e Roger Ibanez - Ala dos Livros
O Deus Selvagem, de Fabien Vehlmann e Roger Ibáñez

Antes de mergulhar na análise deste O Deus Selvagem, de Vehlmann e Roger, editado por estes dias pela Ala dos Livros, permitam-me um breve desabafo: mas que começo de ano espetacular em termos de edição de banda desenhada de qualidade superior que estamos a ter! Ainda nem terminámos o segundo mês do ano 2026 e já são tantas as obras de referência, de enorme qualidade, editadas por cá: Shi, Rever Comanche, Blast, Duas Raparigas Nuas, Ulysse e Cyrano... Às quais se junta agora este magnífico O Deus Selvagem. Se em vez de estarmos no final de fevereiro estivéssemos no final de dezembro de 2026, não poderíamos dizer que tivesse sido um mau ano, nem nada que se pareça, olhando para estas obras.

Se é verdade que todas as obras mencionadas são editadas por apenas duas editoras - a Ala dos Livros e a ASA - que estão a ter um arranque de ano editorial espetacular, também não é menos verdade que são esperadas ainda outras belíssimas obras durante este ano por parte de outras editoras portuguesas. 

Bem, feito o desabafo - mais do que positivo - permitam-me, então, falar-vos deste O Deus Selvagem que é uma daquelas obras que nos arranca do sofá - ou do sítio onde a estivermos a ler - e nos atira para longe do ruído do quotidiano. Esta é uma dessas raras obras que nos desloca no tempo e no espaço para, paradoxalmente, nos aproximar daquilo que somos. É uma BD profundamente poética que nos obriga a abrandar o passo e a olhar para a condição humana - e animal - com um desconforto quase primitivo.

Em termos de história, começamos por acompanhar um jovem macaco órfão que tenta encontrar o seu lugar num mundo brutal e implacável: o mundo selvagem. Em busca de provar o seu valor junto dos outros macacos, o jovem símio é primordial na morte de um grande e poderoso crocodilo, que ameaçava a sua espécie.

O Deus Selvagem, de Fabien Vehlmann e Roger Ibanez - Ala dos Livros
Mas depressa este episódio de glória dá lugar a um massacre do seu grupo de macacos e ele acaba capturado pelos humanos que passam a treiná-lo com o intuito de torná-lo um “Deus-Selvagem”, isto é, uma espécie de guerreiro sagrado, totalmente moldado para o combate e para a violência. É claro que toda essa vida em cativeiro, enquanto escravo de guerra, transforma o macaco, não só física, como emocionalmente. E daí resulta uma dor que se converte numa obsessão por vingança contra todos aqueles que atentarem contra a sua vida e liberdade: os humanos.

Mas esta não é uma história focada no macaco. Também o é, mas não só. Na verdade, até são consignadas mais páginas aos humanos do que aos animais ditos "selvagens".

A violência - seja entre animais, entre homens, entre o Homem e o animal ou da própria natureza contra todos - é o elemento central da história. Não surge como ornamento dramático, mas como força estruturante da obra. Cada gesto e cada decisão parecem carregados dessa tensão permanente que lembra que a vida é frágil e que o poder é sempre transitório. A história combina, pois, cenas de violência com uma poesia intensa e detalhada, explorando o elo entre o reino animal e a humanidade e questionando quem é, afinal, o verdadeiro protagonista: o homem ou o animal selvagem. 

Estamos num tempo desconhecido, num lugar quase mítico, onde os homens se dividem em clãs e disputam território, domínio e sobrevivência - não o fizeram sempre, desde o início dos tempos, pergunto eu? A história sugere que pouco mudou desde então. Mas há também cataclismos naturais que desafiam a própria existência humana, forças maiores que tornam ridículas as pequenas guerras tribais dos homens. Ainda assim, mesmo perante o abismo, o homem insiste na violência, sobretudo na forma da vingança. E, como diz o ditado, "a vingança é um prato que se serve frio".

A estrutura da obra, dividida em quatro capítulos, cada um narrado sob o ponto de vista de uma personagem diferente, reforça essa sensação de mundo fragmentado. Ao início, a mudança de voz pode parecer abrupta e até desconcertante, mas, pouco a pouco, essa estranheza transforma-se numa ferramenta narrativa eficaz. E o que também é interessante é que ao acompanharmos o discurso na primeira pessoa de cada interveniente, somos convidados a mergulhar na sua própria visão do mundo.


O Deus Selvagem, de Fabien Vehlmann e Roger Ibanez - Ala dos Livros
O estilo de escrita de Vehlmann é declaradamente poético, por vezes até excessivamente lato, diria. Não há concessões à facilidade. O leitor anda perdido nas primeiras páginas, meio aos trambolhões. Mas, como tantas vezes acontece, "primeiro estranha-se, depois entranha-se". A obra exige entrega, exige paciência e posso dizer-vos que recompensa quem aceita esse pacto.

Ainda assim, e quanto a mim, nem tudo funciona na perfeição. A ideia da narração a quatro vozes é bem-vinda e original, mas a execução levantou-me algumas reservas. É que o tom melancólico e poético é tão semelhante entre as diferentes personagens que, por momentos, as "vozes" se confundem entre elas. E talvez(?) não fosse esse o objetivo do argumentista. Faltam nuances mais vincadas, ritmos próprios e pequenas características singulares que poderiam tornar cada narrador verdadeiramente distinto e, consequentemente, mais verossímil. Dessa forma, talvez a história pudesse ganhar em fluidez.

Mas se o argumento é denso e exigente, o desenho de Roger Ibáñez é um espetáculo por si só. A sua abordagem é moderna, arrojada, e revela uma personalidade artística esmagadora. Há aqui qualquer coisa de definidor e de (potencialmente) influente para uma nova geração de autores que procurem romper com o convencional. É um traço que não pede licença: afirma-se de uma só vez. Posso dizer-vos que saber que a Ala dos Livros iria editar esta obra - e ainda por cima a preto e branco (já lá irei) - deixou-me muito feliz. E faço até votos para que a editora portuguesa, agora que detém Roger Ibáñez no seu catálogo, venha a apostar na série Jazz Maynard, a obra mais emblemática do autor espanhol. Sonhar não custa.

É impressionante a aparente facilidade com que Roger transforma uma mancha de cor preta - uma sombra, portanto - em movimento. Um simples traço do autor parecer mudar tudo numa ilustração, sugerindo o que não está explicitamente desenhado, e criando uma tensão e dinâmica constantes junto do leitor. O uso do espaço negativo é magistral. Roger compreende que, muitas vezes, é o vazio que fala mais alto. As manchas negras e os brancos intensos dialogam numa dança constante entre luz e treva, vida e morte. O leitor é chamado a completar o que é apenas insinuado, a participar ativamente na construção da imagem. A imersão é total - mas exige disponibilidade da nossa parte.

Observar as ilustrações a preto e branco deste O Deus Selvagem é, pois, semelhante a estarmos perante uma autêntica masterclass de desenho sequencial, onde cada vinheta respira intenção e controlo.

O Deus Selvagem, de Fabien Vehlmann e Roger Ibanez - Ala dos Livros
Talvez por isso, a opção da edição portuguesa em preto e branco se revele tão acertada, pois os desenhos do autor não precisam do enfeite das cores para se tornarem grandiosos. Pelo contrário, a ausência cromática potencia a crueza e a elegância do traço, sublinhando a brutalidade do mundo retratado. Diria até que, quando editada a cores, a arte de Roger perde parte da sua força primordial. Vi por essa internet fora algumas críticas à opção da editora portuguesa de editar esta obra na sua versão a preto e branco quando, supostamente, "a edição a cores seria a edição normal da obra". Ora, tratando-se de uma opção que eleva a obra, que traz o que de melhor a mesma tem, terá sempre a minha compreensão, respeito e consentimento. E só espero que aqueles que criticam agora a editora portuguesa, não sejam os mesmos que a criticaram quando esta editou A Morte Viva na sua versão a cores quando, supostamente, "a versão a preto e branco era a melhor". Tenhamos opiniões diferentes à vontade, mas sejamos, pelo menos, coerentes. 

Para além disso, deixem-me ainda dizer-vos que a edição do livro é em grande formato, com capa dura baça, detalhes a verniz e uma bela lombada em tecido. No miolo, o papel brilhante é excelente e a encadernação e impressão também o são. No final, há um dossier de extras a cores, com 16 páginas, que inclui esboços de personagens, pranchas a lápis-finais, storyboards e estudos de capa. É verdadeiramente impressionante olhar para as pranchas apenas a lápis. 

No fim de contas, O Deus Selvagem é mais uma excelente banda desenhada que, felizmente, contribui para a qualidade absurdamente boa das obras que nos têm chegado, até agora, em 2026, deixando-nos com uma pergunta incómoda, mas certeira: quem é o verdadeiro herói desta história? O homem ou o animal? Talvez nenhum. Talvez ambos. Talvez a própria natureza, indiferente e soberana. Esta é uma obra que nos arranca do conforto habitual e nos obriga a refletir, lá bem longe, acerca daquilo que nos define. E só por isso - e, claro, pelo deslumbramento visual que oferece - já merece ser lida, relida e (demoradamente) contemplada.


NOTA FINAL (1/10):
9.4



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Deus Selvagem, de Fabien Vehlmann e Roger Ibanez - Ala dos Livros

Ficha técnica
O Deus Selvagem (Edição Especial)
Autores: Fabien Vehlmann e Roger Ibanez
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 128, a preto e branco (incluindo dossier de extras a cores)
Encadernação: Capa dura, com lombada em tecido
Formato: 245 x 330 mm
Lançamento: Fevereiro de 2026

ASA vai lançar BD ambientada na Segunda Guerra Mundial




A editora ASA prepara-se para editar, a partir do próximo dia 10 de Março, a banda desenhada Os Cabelos de Edith, uma história que nos transporta até aos tempos da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto.

Este é um livro com argumento de Fabienne Blanchut e Catherine Locandro e com ilustrações de Dawid, de quem, recordo, a editora lançou no ano passado a obra Senhor Apothéoz.

Por agora, o livro já se encontra em pré-venda no site da editora.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais da edição francesa.
Os Cabelos de Edith, de Fabienne Blanchut, Catherine Locandro e Dawid

Paris, maio de 1945: o Hotel Lutetia foi transformado em centro de repatriamento para sobreviventes do holocausto nazi.

Louis, um estudante do ensino médio de 17 anos, está entre os voluntários encarregues de acolher os homens e mulheres que passaram pelo inferno na terra, e durante esse período conhece Edith.

Edith é uma sobrevivente de Birkenau.

Os dois formam um vínculo estreito que transcende os silêncios da jovem, aprisionada como está nas suas memórias terríveis, e a história da própria família de Louis.
Os pais de Louis não sabem que ele vai diariamente ao hotel para cuidar dos deportados. E no decurso da história, Louis descobre que o seu pai foi motorista durante a guerra e transportou muitos judeus para os campos de detenção em Drancy, e por isso ele não o pode perdoar.

Quebra-se assim e de forma irreparável o elo entre pai e filho.

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Ficha técnica
Os Cabelos de Edith
Autores: Fabienne Blanchut, Catherine Locandro e Dawid
Editora: ASA
Páginas: 168, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 275 x 206 mm
PVP: 24,90€

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Análise: Ulysse e Cyrano

Ulysse e Cyrano, de Xavier Dorison, Antoine Cristau e Stéphane Servain - ASA

Ulysse e Cyrano, de Xavier Dorison, Antoine Cristau e Stéphane Servain - ASA
Ulysse e Cyrano, de Xavier Dorison, Antoine Cristau e Stéphane Servain

Há livros que se saboreiam devagar, como um prato que exige tempo, lume brando e entrega. Ulysse e Cyrano, com argumento de Xavier Dorison e Antoine Cristau, e ilustrações de Stéphane Servain, é precisamente isso: uma obra que se degusta. Não se lê apenas, saboreia-se, mastiga-se, inspira-se, sente-se. É daquelas histórias que nos aquecem o peito e nos deixam, no final, com a estranha sensação de termos vivido algo maior do que as suas páginas.

Eis (mais) uma bela obra publicada pela editora ASA, outra das obras vencedoras dos Prémios de Angoulême do ano passado, que todos merecem conhecer.

A história decorre na Borgonha dos anos 1950. Bem, na verdade, a história até começa em Paris, mas após enfrentar algumas acusações de parceria comercial com o regime nazi durante a Segunda Guerra Mundial, um rico industrial decide enviar a sua mulher e filho, Ulysse, para a Borgonha, uma região mais recôndita e rural, longe dos holofotes de Paris. E tudo aquilo que este pai austero deseja e ambiciona para Ulysse, é que este possa seguir os mesmos passos que, por sua vez, já foram os passos do seu avô. Para tal, Ulysse precisa ser um aplicado e bem sucedido estudante, com o intuito maior de assumir as responsabilidades à altura da posição social da sua família. No entanto, o rapaz sente-se deslocado nesse destino já traçado e pouco entusiasmado com o futuro que o pai lhe impõe, com as suas notas escolares a ficarem muito aquém daquilo que lhe é exigido. A vida, bem sabemos, muitas vezes parece ter outros planos do que aqueles que achávamos inabaláveis...

Ulysse e Cyrano, de Xavier Dorison, Antoine Cristau e Stéphane Servain - ASA
Como se estes dilemas pessoais já não fossem grandes na vida de Ulysse, a sua vida muda ainda mais quando conhece Cyrano, um antigo e renomado cozinheiro, agora afastado das cozinhas dos restaurantes, um homem livre, mas amargurado por um passado que teima em não largar. 

Ainda assim, mantém-se um apaixonado pela gastronomia e pela arte de bem viver. Carismático, irreverente e profundamente humano, Cyrano abre a Ulysse as portas de um mundo feito de sabores, técnica, disciplina e criatividade. Na cozinha, o jovem descobre uma vocação e uma forma de expressão que nunca encontrara nos seus estudos tradicionais.

A obra é, assim, uma história de iniciação e transmissão: fala do confronto entre dever e desejo, entre estatuto social e realização pessoal. Através da relação entre mestre e aprendiz, mostra como a paixão pode redefinir um destino... e como escolher o próprio caminho pode ser o verdadeiro ato de coragem.

Mas, aparte isso, é na relação entre estes dois mundos improváveis que a narrativa se constrói. Ulysse, jovem moldado pelo conforto e pela expectativa; Cyrano, figura áspera, quase bruta à primeira vista, mas com um coração imenso escondido por detrás da sua suposta rudeza. A química entre ambos é imediata, ainda que feita de atritos. 

Confesso que, ao longo da leitura, não consegui evitar que a memória me levasse a um dos filmes da minha vida: Cinema Paradiso. Tal como na obra-prima de Giuseppe Tornatore, encontramos aqui uma relação que transcende gerações e diferenças. E da mesma forma que, em Cinema Paradiso, o pequeno Toto encontra em Alfredo uma figura tutelar que lhe molda o olhar sobre o mundo e sobre o cinema, também Ulysse descobre em Cyrano um mestre improvável, não apenas na arte da cozinha, mas na arte de viver. Talvez por isso, é já que falo neste portento do cinema, diria que uma boa companhia sonora para ler este Ulysse e Cyrano, até poderá ser a música do maior de sempre dos compositores de cinema (peço desculpa, Mestre John Williams, que também és fantástico): Ennio Morricone. Seja a música de Cinema Paradiso, seja a música de A Lenda de 1900 ou a de Era Uma Vez Na América, diria que têm aqui boas opções para acompanhar a leitura desta banda desenhada.

Mas, não perdendo o foco e voltando a Ulysse e Cyrano, a verdade é que a sua história até é bastante simples. Uma espécie de conto clássico moderno que carrega dentro de si uma abundância de temas: o significado que cada um atribui à existência, o peso da família, a fidelidade aos nossos sonhos, as modas que passam e o passado que insiste em não desaparecer. Fala-se de prazer, de amizade, de honra, de herança material e emocional. E tudo isto é feito com leveza, ternura e até um subtil humor que tempera a narrativa na medida certa.

Há algo de profundamente iniciático no percurso de Ulysse. O jovem que aprende a questionar o caminho que lhe foi imposto, que ousa escutar o que o coração lhe sussurra.  E, já agora, que bela imersão gourmet esta obra nos oferece. A Borgonha dos anos 50 surge quase como uma personagem adicional. Sentimos os aromas da manteiga a derreter, o estalar da carne na frigideira, o perfume do vinho a libertar-se no ar e o cheiro da terra molhada a envolver o cenário bucólico. A cozinha torna-se uma personagem por si só, sendo ponte de reconciliação e redenção, pois é através dos pratos que Cyrano comunica, ensina, partilha e revela a sua humanidade.

Ulysse e Cyrano, de Xavier Dorison, Antoine Cristau e Stéphane Servain - ASA
Pode argumentar-se que já vimos histórias semelhantes: o jovem herdeiro de uma família abastada que decide contrariar o destino traçado, rompendo com o peso das expectativas paternas. Sim, há algo de clássico, e até de previsível, neste ponto de partida. Mas quando a execução é tão cuidada, quando o enredo é tão bem arquitetado e ainda nos brinda com alguns momentos inesperados que impedem a narrativa de cair na monotonia, só nos resta render-nos. Deixarmo-nos levar.

Porque o que realmente distingue Ulysse e Cyrano é a forma como nos envolve. As personagens são memoráveis, densas, humanas. Não são meros arquétipos; são pessoas com falhas, com medos, com desejos contraditórios. Até mesmo as personagens mais secundárias. 

Diria que talvez o final da história, não sendo mau, de todo, pudesse, ainda assim, ter arriscado mais ou ser um pouco menos óbvio. Mas é apenas uma coisa pequena numa obra tão bem explanada.

Se o trabalho conjunto de Xavier Dorison e Antoine Cristau no argumento é muito bom e bem doseado, há que dar uma palavra muito especial ao trabalho gráfico de Stéphane Servain. A sua linha é magnífica, com um lado quase lírico que confere às imagens uma delicadeza rara. Há uma poesia visual em cada vinheta, uma atenção ao detalhe que nos convida a demorar o olhar. As expressões, os gestos, os cenários, as comidas... tudo respira autenticidade e traz consigo um convite de proximidade a que é difícil de resistir. O traço rápido e enérgico de Servain alterna entre uma certa aspereza em alguns momentos e uma expressividade das personagens que as torna empáticas para o leitor.

A cor, então, é fundamental! Os tons quentes da cozinha, os verdes e dourados da paisagem borgonhesa, as sombras que envolvem os momentos mais introspectivos... tudo contribui para criar uma atmosfera envolvente. Acaba por ser uma experiência sensorial completa. 

Nota ainda, positiva, para a planificação que é muito dinâmica, com vinhetas de todos os tamanhos possíveis, o que contribui para um ritmo que sabe acelerar e ou abrandar a velocidade de leitura a preceito.

E que dizer da própria capa? Lindíssima! Tantas vezes já escrevi que, no caso dos livros - e especialmente daqueles que são de banda desenhada - a capa é a embalagem do produto-livro. Se a capa é má, esse "produto", por melhor que seja, tem uma embalagem má que atrai menos. E o mesmo pode ser dito ao contrário: se uma capa é boa, gera-se automaticamente um gatilho de interesse perante o livro. A capa deste Ulysse e Cyrano, com os seus tons amarelados e poesia que emana da pose confortável das personagens, funciona como uma porta de entrada. Quase como uma promessa de que a história nos vai tocar, que nos vai alimentar - literal e metaforicamente.

A edição da ASA é em capa baça, com excelente papel baço no miolo e um bom trabalho ao nível da impressão e encadernação. No final da história, há ainda um conjunto de receitas culinárias que são bem-vindas, tendo em conta a importância que o ato de cozinhar tem para a história. Antes de ler esta edição portuguesa da obra estive  com a edição francesa nas mãos várias vezes e posso dizer-vos que sendo verdade que aquele tratamento texturizado na capa da edição original não esteja presente na edição da ASA, esta é uma edição que, ainda assim, se apresenta como bela e competente. Daquelas edições bonitas só de olharmos para ela. 

No final, eis-nos perante mais um livro belíssimo que recomendo sem reservas. Ulysse e Cyrano é uma ode à partilha, aos bons momentos, à boa comida, à alegria. É, acima de tudo, uma história de amizade e transmissão - de saberes, de valores, de afetos. Um livro que nos lembra que a verdadeira realização pode não estar no caminho que nos traçaram, mas naquele que escolhemos trilhar por nós mesmos. E quando fechamos a última página, ficamos com o coração cheio… e, curiosamente, com fome de mais momentos inesquecíveis. Aqueles que levamos verdadeiramente desta vida.


NOTA FINAL (1/10):
9.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ulysse e Cyrano, de Xavier Dorison, Antoine Cristau e Stéphane Servain - ASA

Ficha técnica
Ulysse e Cyrano
Autores: Xavier Dorison, Antoine Cristau e Stéphane Servain
Editora: ASA
Páginas: 184, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 317 x 238 mm
Lançamento: Fevereiro de 2026

ASA vai lançar "Final Cut", de Charles Burns!


É no fim do próximo mês, mais concretamente no dia 31 de Março, que deverá chegar às livrarias uma das mais audazes apostas da editora ASA para 2026: Final Cut, de Charles Burns!

Deste célebre autor americano, convém não esquecer, nenhuma obra tinha sido ainda editada em Portugal, o que é especialmente lamentável se tivermos em conta a relevância da obra de Burns, com livros amplamente aclamados como Black Hole ou a trilogia composta por X’ed Out, The Hive e Sugar Skull. Livros que, espero, possam vir agora a ser lançados futuramente pela ASA.

Por agora, o livro já se encontra em pré-venda no site da editora.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais da edição original americana.

Final Cut, de Charles Burns

Quando criança, Brian e seu amigo Jimmy faziam filmes de ficção científica em casa, no jardim, convencendo os amigos para serem atores e vítimas de assassinatos terríveis, usando baton nos “corpos” para simular sangue.

Agora, um talentoso artista e aspirante a cineasta, Brian, junto com Jimmy, a amiga de Jimmy, Tina, e Laurie - sua musa relutante - partem para uma cabana remota na floresta com uma velha camera de 8 milímetros para fazer um verdadeiro filme de terror de ficção científica. Uma homenagem ao filme favorito de Brian: Invasion of the Body Snatchers.

Mas como o afeto de Brian por Laurie parece não ser correspondido, Brian desenvolve uma fantasia onde ela é a mulher dos seus sonhos, sua donzela em perigo e ele o seu salvador.

Repleto de referências a filmes clássicos de ficção científica e terror, repleto de painéis de representações impressionantes da natureza, do cinema e do surreal, Burns confunde a linha entre os sonhos e a realidade, a imaginação e a percepção de Brian.

Um mestre da forma no seu melhor, Final Cut é uma visão surpreendente do que significa expressar-se verdadeiramente através da arte.

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Ficha técnica
Final Cut
Autor: Charles Burns
Editora: ASA
Páginas: 224, a cores
Encadernação: Capa dura
PVP: 29,90€

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Análise: O Natal de Hercule Poirot e A Aventura do Bolo de Natal

O Natal de Hercule Poirot e A Aventura do Bolo de Natal, de Isabelle Bottier, Callixte e Alberto Taracido - Arte de Autor

O Natal de Hercule Poirot e A Aventura do Bolo de Natal, de Isabelle Bottier, Callixte e Alberto Taracido - Arte de Autor
O Natal de Hercule Poirot e A Aventura do Bolo de Natal, de Isabelle Bottier, Callixte e Alberto Taracido

Foi já fora de época que li, em conjunto, dois dos mais recentes livros da coleção que adapta para banda desenhada as obras clássicas de Agatha Christie e que a Arte de Autor tem vindo a editar, naquela que é a maior coleção, em número de volumes, da editora portuguesa.

Ambos os livros foram lançados por cá, compreensivelmente, perto da quadra natalícia: O Natal de Hercule Poirot teve lançamento em Dezembro de 2024, enquanto A Aventura do Bolo de Natal, o mais recente álbum da coleção, chegou-nos em Novembro de 2025.

O Natal de Hercule Poirot e A Aventura do Bolo de Natal, de Isabelle Bottier, Callixte e Alberto Taracido - Arte de Autor
De um modo genérico, posso dizer-vos que estes dois livros, ambos com argumento de Isabelle Bottier, presença assídua nesta coleção, e com ilustrações de Callixte (O Natal de Hercule Poirot) e Alberto Taracido (A Aventura do Bolo de Natal), mesmo não sendo os melhores da coleção, representam mais dois acréscimos interessantes à mesma, mantendo o charme do detetive belga Hercule Poirot e adaptando os contos originais a um formato quiçá mais acessível. Apesar disso, as duas obras apresentam diferenças notáveis na execução narrativa e estética. Mas, quanto a isso, já lá irei.

Falando um pouco das histórias propriamente ditas, em O Natal de Hercule Poirot, Hercule Poirot é convidado para passar o Natal na casa de Simeon Lee, um velho tirânico e rico. Lee mantém relações tensas com os seus filhos e netos, que parecem mais interessados na sua herança do que na companhia do idoso homem. Na véspera de Natal, o velho é brutalmente assassinado em casa, o que leva Poirot a assumir a investigação, observando minuciosamente as interações da família e examinando os indícios deixados pelo assassino. Como é habito nas histórias de Agatha Christie, todos os presentes tinham motivos para desejar a morte do patriarca, tornando o caso extremamente complexo.

O Natal de Hercule Poirot e A Aventura do Bolo de Natal, de Isabelle Bottier, Callixte e Alberto Taracido - Arte de Autor
Por sua vez, em A Aventura do Bolo de Natal, Hercule Poirot também é convidado a passar o Natal - mas será que este homem era assim tantas vezes convidado sem nunca convidar ninguém? Piadolas à parte, neste caso é a família Endicott que o recebe na sua antiga mansão, onde a atmosfera festiva contrasta com um clima de suspense logo desde o início. Antes mesmo da refeição de Natal começar, Poirot encontra um bilhete anónimo na sua almofada avisando‑o para não comer o tradicional bolo de Natal. Durante o jantar, um pedaço de rubi aparece no bolo servido a um dos convidados, o que desperta suspeitas. A dita pedra desaparece antes da festa e precisa ser recuperada sem envolver a polícia para evitar um escândalo internacional.

Em termos de narrativa, O Natal de Hercule Poirot revela-se mais sólido e coerente. A história mantém um bom ritmo, preservando o mistério e o suspense até ao final. O enredo está bem estruturado, e o desenvolvimento do móbil das personagens é convincente, proporcionando uma leitura envolvente. Este volume consegue prender o leitor do início ao fim, graças à forma como a intriga é construída e aos detalhes cuidadosamente trabalhados na interação entre as personagens. A tensão é gradual, e os momentos de revelação são satisfatórios, respeitando o espírito do original de Agatha Christie.

O Natal de Hercule Poirot e A Aventura do Bolo de Natal, de Isabelle Bottier, Callixte e Alberto Taracido - Arte de Autor
Por outro lado, A Aventura do Bolo de Natal revela-se mais irregular. A história, embora interessante, não consegue gerar o mesmo envolvimento. A construção do enredo é menos consistente, e há momentos em que o mistério perde força, tornando a narrativa mais previsível e menos cativante. A própria estrutura narrativa deste segundo volume parece menos fluida, com alguns dos elementos a surgirem de forma abrupta ou sem o devido desenvolvimento, o que compromete a capacidade do leitor de se imergir totalmente na história.

Em termos de ilustração, os dois livros também apresentam abordagens bastante distintas, mas, neste caso, o vencedor é, quanto a mim, A Aventura do Bolo de Natal. O trabalho de Alberto Taracido salta imediatamente à vista pela sua elegância e originalidade. As personagens têm um traço mais caricatural e expressivo, e as cores suaves conferem um registo autoral e distintivo dentro da coleção. Taracido arrisca mais, oferecendo-nos uma estética diferente da usada tradicionalmente na série, e isso funciona como um refresco visual. 

O Natal de Hercule Poirot e A Aventura do Bolo de Natal, de Isabelle Bottier, Callixte e Alberto Taracido - Arte de Autor
Por contraste, Callixte, em O Natal de Hercule Poirot, mantém um estilo mais clássico e eficiente, alinhado com o que tem sido apresentado na maioria das adaptações da coleção. O traço é limpo, preciso, e as personagens são facilmente reconhecíveis. Embora o trabalho do autor não traga grandes inovações visuais, é funcional e adequado à história, reforçando a narrativa sem a distrair. 

Assim sendo, e comparando os dois volumes, percebe-se uma assimetria clara nas suas valências: o primeiro destaca-se pela força narrativa, enquanto o segundo se sobressai pelo valor estético e originalidade gráfica. 

Olhando para a edição, estes dois livros apresentam o mesmo cuidado a que os restantes livros da coleção nos têm habituado: capa dura brilhante, bom papel baço no interior, boa encadernação e boa impressão.

Em conclusão, O Natal de Hercule Poirot e A Aventura do Bolo de Natal são mais dois bons títulos, bem-vindos para quem acompanha a coleção de adaptações para banda desenhada de Agatha Christie. A sua leitura é especialmente adequada para a época natalícia, junto à lareira e com um chocolate quente na mão, mas também são livros que podem perfeitamente ser lidos fora da época festiva, especialmente por aqueles que procuram histórias bem carregadas de mistério e charme.


NOTA FINAL (1/10):
8.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Natal de Hercule Poirot e A Aventura do Bolo de Natal, de Isabelle Bottier, Callixte e Alberto Taracido - Arte de Autor

Fichas técnicas
Hercule Poitot - O Natal de Poirot
Autores: Isabelle Bottier e Callixte
Editora: Arte de Autor
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Dezembro de 2024

O Natal de Hercule Poirot e A Aventura do Bolo de Natal, de Isabelle Bottier, Callixte e Alberto Taracido - Arte de Autor

Hercule Poirot - A Aventura do Bolo de Natal
Autores: Isabelle Bottier e Alberto Taracido
A partir da obra original de: Agatha Christie
Editora: Arte de Autor
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Novembro de 2025


Casa das Letras vai lançar BD que adapta obra de Haruki Murakami!



É já no próximo dia 24 de março que deverá chegar às livrarias a aposta em banda desenhada por parte da Casa das Letras - uma chancela do Grupo LeYa - que adapta para a 9ª Arte a obra do célebre autor Haruki Murakami!

A obra intitula-se Sétimo Homem e Outros Contos e reúne, em mais de 400(!) páginas, nove contos do escritor japonês. A adaptação para banda desenhada é da autoria dos franceses Jean-Christophe Deveney e PMGL.

Devo admitir que fiquei bastante curioso com o anúncio deste livro. O traço caricatural de PMGL, autor que eu não conheço, também me deixou bastante bem impressionado. A ver vamos.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais (da versão francesa) da obra.

Sétimo Homem e Outros Contos, de Jean-Christophe Deveney e PMGL

Um homem desaparece entre o 24.º e o 26.º andar de um prédio.
Uma mulher mergulha na leitura e torna-se incapaz de dormir durante dias e noites a fio.
Um sapo gigante celebra um pacto com um modesto funcionário público a fim de salvar Tóquio da destruição total.
No dia do seu vigésimo aniversário, alguém propõe a uma modesta e solitária empregada de restaurante a realização de um único desejo...

As nove narrativas ilustradas que compõem esta recolha de contos foram inicialmente publicadas no Japão, sob o olhar atento e cúmplice de Haruki Murakami.

Ao interpretarem a tragicomédia tão do agrado do grande escritor, Jean-Christophe Deveney e PMGL recriam um cenário poético e barroco, situado precisamente na fronteira, tão cara a Murakami, onde o quotidiano se funde com o fantástico.

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Ficha técnica
Sétimo Homem e Outros Contos
Autores:  Jean-Christophe Deveney e PMGL
Adaptação a partir da obra original de: Haruki Murakami
Editora: Casa das Letras
Páginas: 424, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 235 x 168 mm
PVP: 31,90€


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Análise: The Ghost In The Shell

The Ghost In The Shell, de Shirow Masamune - Distrito Manga - Penguin Random House

The Ghost In The Shell, de Shirow Masamune - Distrito Manga - Penguin Random House
The Ghost In The Shell, de Shirow 
Masamune

Fiquei especialmente satisfeito quando, no ano passado, soube que a Distrito Manga, a chancela pertencente ao grupo editorial Penguin Random House totalmente dedicada à edição de mangás, iria editar a obra The Ghost In The Shell que, quanto a mim, é uma obra emblemática e totalmente recomendada! Para todos! Quer para os amantes do mangá (de forma genérica), quer para os amantes de distopias futuristas, de obras de ficção científica ou do subgénero cyberpunk. E, já agora, quer até para os amantes de uma boa história.

No total, são 3 os volumes desta obra que, com poucos meses de intervalo, foram sendo editados pela Distrito Manga. É verdade que o primeiro volume desta obra já havia sido editado em Portugal pela extinta editora JBC, mas não só o mesmo estava extinto das livrarias portuguesas, como faltava editar os restantes dois volumes.

The Ghost In The Shell, de Shirow Masamune - Distrito Manga - Penguin Random House
Criada por Shirow Masamune, esta é uma das obras mais influentes da ficção científica contemporânea. E quando falo em "obras mais influentes da ficção científica contemporânea" não me refiro a obras de banda desenhada... refiro-me a todo o tipo de obras! Literatura, cinema, séries ou videojogos. Publicada originalmente no final dos anos 80 e início dos anos 90, The Ghost In The Shell apresenta um universo cyberpunk denso, tecnológico e filosoficamente inquietante. A história acompanha a Major Motoko Kusanagi, uma agente cibernética num mundo onde as fronteiras entre humano e máquina se tornaram cada vez mais difusas.

Desde o início, a obra destacou-se pela sua abordagem madura e complexa de temas como identidade, consciência e livre-arbítrio. O conceito de haver um “ghost”, que podemos considerar a essência ou consciência humana, inserido num “shell”, um corpo artificial, é explorado com uma profundidade rara, mesmo quando comparado com outras obras de ficção científica. E o que é mais interessante é que a reflexão proposta por Masamune, passados mais de 30 anos, permaneça atual numa era dominada por inteligência artificial, próteses avançadas e debates sobre a cada vez maior presença de máquinas na vida dos homens. Incluindo nos seus próprios corpos.

The Ghost In The Shell, de Shirow Masamune - Distrito Manga - Penguin Random House
A relevância da obra para o estilo cyberpunk é, também ela, incontornável. Não foi a obra que criou o termo nem o género, mas é inquestionável que ajudou decisivamente a expandi-lo e a redefini-lo visual e filosoficamente. Aliás, a adaptação animada de 1995, realizada por Mamoru Oshii, foi, se bem se lembram, fundamental para internacionalizar a estética cyberpunk japonesa e influenciou fortemente o cinema ocidental posterior. Este é um daqueles casos em que, à semelhança de Akira, também editado pela Distrito Manga, a adaptação do mangá para obra de animação teve um enorme sucesso. Conheço várias pessoas que não leem banda desenhada e que são fãs de cada uma destas obras cinematográficas. Isso deixa-me um bocado triste, porque sou sempre defensor da "obra-mãe", especialmente quando se trata de banda desenhada, mas, ainda assim, prefiro que as pessoas conheçam as obras, mesmo que num outro meio que não o original.

Se o anime é bom, a verdade é que o mangá mantém uma identidade própria, com maior densidade técnica e uma inclinação mais explícita para discussões filosóficas e políticas. A combinação de redes digitais omnipresentes, cidades hiper-tecnológicas e questões existenciais continuar a ecoar no leitor que se depara com esta obra. 

The Ghost In The Shell, de Shirow Masamune - Distrito Manga - Penguin Random House
Outro aspeto relevante é a construção do mundo. A sociedade apresentada não é apenas pano de fundo, mas um organismo vivo, moldado por redes de informação, corrupção política e avanços tecnológicos. Essa densidade estrutural confere credibilidade ao universo narrativo e amplia o alcance temático da obra. Reitero que, nos tempos que correm, The Ghost in the Shell assume uma importância renovada. A crescente presença de inteligência artificial, vigilância digital e manipulação de dados torna as suas questões ainda mais pertinentes. O mangá antecipou dilemas éticos que hoje são discutidos em fóruns académicos e políticos reais.

Além disso, a obra desafia noções fixas de identidade. Num mundo em que corpos podem ser substituídos e memórias hackeadas, o que define o “eu”? Esta pergunta, central no mangá, ressoa fortemente numa sociedade cada vez mais mediada por avatares digitais e redes sociais.

Outro ponto a que quero dar ênfase é a originalidade da obra em misturar ação tática e especulação teórica. Shirow Masamune alterna sequências de combate altamente detalhadas com páginas densas em texto explicativo, quase ensaístico. Essa combinação pode exigir mais atenção do leitor, mas recompensa-o com uma experiência intelectualmente estimulante. Devo dizer que neste ponto das notas adicionais do autor, apresentadas em rodapé, numa dimensão pequena do texto de forma a conseguir albergar todos os comentários de Shirow, pode haver um certo exagero que distrai até da trama principal. Mesmo assim, também é algo que merece algum mérito. Mais não seja pela dedicação do autor à sua obra.

The Ghost In The Shell, de Shirow Masamune - Distrito Manga - Penguin Random House
Falando agora dos três volumes que compõem esta trilogia enquanto um todo, devo dizer que há bastantes diferenças - mesmo no foro qualitativo - entre os três livros. O primeiro volume é o claro ponto alto da série. Tanto pela sua importância histórica no género cyberpunk como pelo equilíbrio entre história, personagens e atmosfera futurista. É o volume que introduz a Major Motoko Kusanagi, a Secção 9 e os temas centrais de identidade, consciência e tecnologia, acabando por ser até o mais acessível e marcante para quem entra na saga pela primeira vez, mesmo que a sua narrativa seja episódica e densa em detalhes técnicos.

O Volume 1.5 é intermédio em termos de qualidade. Trata‑se de uma coleção de histórias curtas focadas em investigações da Secção 9 e problemas técnicos. Funciona bem e acaba por ser quase como um volume de material adicional interessante, mas menos marcante do que o Volume 1 clássico.

Já no Volume 2, pareceu-me que Shirow se perdeu na sua própria divagação existencialista, "navegando em demasia na maionese". A história é confusa e desarticulada, sendo menos coerente e até incompreensível nalguns pontos. Confesso-vos: não gostei e tive até dificuldades para conseguir acabar de ler este volume.

The Ghost In The Shell, de Shirow Masamune - Distrito Manga - Penguin Random House
Lá está, se tiverem interesse na obra, mas não a conhecerem, o meu conselho é que experimentem ler o primeiro volume - ou mesmo o volume 1.5, para terem um "cheirinho" deste universo -, mas afastem-se do segundo volume. É claro que a minha veia colecionista me "obriga" a ter a trilogia completa, mas, neste caso em concreto, aqueles que não conhecem a obra ficam bem servidos só com o primeiro volume.

Visualmente, o desenho de Shirow Masamune é extremamente apelativo. O traço é detalhado, preciso e tecnicamente impressionante, sobretudo na representação de maquinaria, armas e interfaces digitais. Ao mesmo tempo, as personagens possuem expressividade e presença marcantes, equilibrando o lado técnico com uma forte componente humana. As personagens femininas apresentam formas descaradamente voluptuosas que, ainda por cima, assumem poses verdadeiramente sexy. São desenhos que me agradam, sem dúvida. Os cenários são "verdadeiramente desenhados", coisa que, como sabemos, nem sempre acontece com mangás, onde os cenários são muitas vezes fotografias retocadas de forma a parecerem desenhos.

O segundo livro da trilogia apresenta um estilo de desenho mais digital que, embora pareça fazer um ligação mais direta ao anime, me agradou menos por ser mais artificial e menos dinâmico. No entanto, apreciei que houvesse um maior número de páginas a cores neste volume, em comparação com os restantes dois livros.

The Ghost In The Shell, de Shirow Masamune - Distrito Manga - Penguin Random House
Por falar nisso, as páginas a cores são especialmente bonitas e demonstram o cuidado estético do autor. A aplicação de cor valoriza o desenho das personagens e a atmosfera futurista, criando composições vibrantes e sofisticadas. Ainda assim, poderia haver um maior número dessas páginas, já que enriquecem significativamente a experiência visual. Mas, lá está, esta minha última frase poderia ser aplicada a (quase) todos os mangás.

A edição dos livros é numa espessa capa dura, com detalhes a verniz. No interior, o papel é baço e de boa qualidade. Diria mesmo que, comparando com outros mangás editados em Portugal, o papel deste livro é francamente melhor. Dois dos livros incluem ainda posfácios do autor. Nota ainda para a oferta de uma caixa arquivadora que a editora providenciou a quem comprasse o livro no site da editora. Limitado ao stock existente, claro. Achei uma boa ideia, pois gosto de caixas arquivadoras e considero-as um "plus" positivo para os colecionadores de plantão.

Em síntese, The Ghost in the Shell permanece uma obra seminal, tanto pela sua originalidade conceptual como pelo impacto estilístico que gerou. O traço apelativo de Shirow Masamune, as belas páginas a cores e a profundidade filosófica fazem deste mangá uma leitura indispensável. Mais do que um clássico do cyberpunk, é uma reflexão visionária sobre o futuro da humanidade que recomendo a toda a gente. Pelo menos, o primeiro volume da obra deve figurar numa boa estante de banda desenhada!


NOTA FINAL (1/10):
The Ghost In The Shell - Livro 1: 9.2
The Ghost In The Shell - Livro 1.5: 8.0
The Ghost In The Shell - Livro 2: 5.5



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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The Ghost In The Shell, de Shirow Masamune - Distrito Manga - Penguin Random House

Fichas técnicas
The Ghost In The Shell - Livro 1
Autor: Shirow Masamune
Editora: Distrito Manga
Páginas: 360, a preto e branco (e algumas páginas a cores)
Encadernação: Capa dura
Formato:175 x 250 mm
Lançamento: Setembro de 2025

The Ghost In The Shell, de Shirow Masamune - Distrito Manga - Penguin Random House

The Ghost In The Shell - Livro 2
Autor: Shirow Masamune
Editora: Distrito Manga
Páginas: 320, a cores 
Encadernação: Capa dura
Formato: 175 x 250 mm
Lançamento: Outubro de 2025

The Ghost In The Shell, de Shirow Masamune - Distrito Manga - Penguin Random House

The Ghost In The Shell - Livro 1.5
Autor: Shirow Masamune
Editora: Distrito Manga
Páginas: 192, a cores e a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 175 x 250 mm
Lançamento: Janeiro de 2026