segunda-feira, 11 de maio de 2026

Análise: O Jardim, Paris

O Jardim, Paris, de Gaëlle Geniller - Arte de Autor

O Jardim, Paris, de Gaëlle Geniller - Arte de Autor
O Jardim, Paris, de Gaëlle Geniller

Foi há poucas semanas que a editora Arte de Autor nos fez chegar uma das suas mais recentes apostas, que dá pelo nome de O Jardim, Paris e que marca a estreia da autora francesa Gaëlle Geniller em Portugal.

Esta é uma obra sensível, soberbamente bem ilustrada e com bom potencial para agradar a um público que não tem por hábito ler banda desenhada. E isso, quanto a mim, é sempre uma mais-valia que uma banda desenhada pode trazer consigo. Queremos - ou eu, pelo menos, quero - que a banda desenhada floresça em número de leitores.

Mas voltando a O Jardim, Paris, esta é uma obra que se passa na Paris dos anos 20 e que tem maioritariamente lugar no cabaret Jardim. É neste local que acompanhamos Rose, um jovem rapaz que é filho da proprietária do estabelecimento onde cada uma das dançarinas tem o nome de um flor. Crescendo naquele meio desde tenra idade, onde é o único homem, Rose começa a apaixonar-se pelo mundo feminino. Pelas roupas, pelas danças, pela sedução, pelo espetáculo. 

O Jardim, Paris, de Gaëlle Geniller - Arte de Autor
E contrariamente àquilo que poderíamos esperar, Rose não encontra resistências por parte da sua mãe ou das suas colegas em se afirmar enquanto dançarino ou em vestir-se com roupas femininas. Pelo contrário, as suas colegas e mãe apoiam-no, ajudando-o a afirmar-se e a ter a sua quota parte nos espetáculos do Jardim. O que, naturalmente, tirando alguns receios de timidez de palco, fazem com que este passo importante na afirmação artística e pessoal de Rose chegue sem grandes tumultos. E a própria aceitação dos homens que frequentam o cabaret também chega sem grandes problemas. Mesmo que fossem homens que queriam ir a um cabaret ver mulheres a dançarem... estes encaixam com facilidade a nova presença do rapaz Rose. Tudo parece fácil para Rose, acontecendo com naturalidade e abertura por parte daqueles que o rodeiam..

E talvez seja mesmo essa facilidade, essa leveza, que tira algum do fôlego que a obra poderia almejar em temos de argumento, parece-me.

Devo dizer que apreciei bastante a poesia e a suavidade que emanam da história. E as personagens principais - que me remeteram várias vezes para Heartstopper - também me pareceram cativantes e empáticas. Ainda assim, sinto que este é um daqueles livros em que a história sabe a pouco, por lhe faltar alguma ousadia. Pois, chegados ao final das cerca de 200 páginas que compõem a obra, fica a sensação de que houve pouca ou nenhuma evolução narrativa significativa. Não há bem vilões, não há bem barreiras que o protagonista tente ultrapassar, o que torna o relato algo plano. Por vezes, ficamos com a ideia que algo vai abalar o enredo, como uma entrevista feita a Rose por um importante jornalista ou a paixão latente entre um cliente habitual do cabaret e Rose... mas estes elementos acabam sempre a pairar no ar, não sendo tão bem aproveitados como poderiam.

O Jardim, Paris, de Gaëlle Geniller - Arte de Autor
Poder-se-á dizer que isto é coisa típica de obras slice of life, que apenas nos procuram dar o vislumbre de algo - e isso é defensável - mas, a meu ver, e sendo uma obra de cariz claramente pró‑LGBTQ+, confesso que esperava uma abordagem mais profunda aos preconceitos e dificuldades inerentes a um cabaret onde - convém não esquecer - há mais de cem anos, um homem se vestia de mulher para dançar. Em vez disso, o mundo que nos é apresentado é extraordinariamente leve, quase idealizado, onde todos convivem de forma pacífica e compreensiva. Isso torna o relato menos verosímil e um pouco “ursinhos carinhosos” em demasia, se é que me entendem.

Compreendo, naturalmente, que possa ter sido intenção da autora imaginar um espaço seguro, um mundo alternativo mais justo e acolhedor para quem lida com questões de género e identidade - mesmo que esse mundo tenha como janela temporal o primeiro quarto do século XX. E também compreendo que nem todas as histórias precisam de assentar no sofrimento e na injustiça. Ainda assim, parece-me que esta opção torna o livro algo imberbe, quase infantil no seu conflito. Acredito sinceramente que O Jardim, Paris teria alcançado muito com uma abordagem mais ousada e madura ao nível narrativo, à altura da extraordinária qualidade do seu desenho.

O Jardim, Paris, de Gaëlle Geniller - Arte de Autor
E já que, finalmente, menciono o desenho desta obra, permitam-me dizer-vos que é nele que o trabalho de Gaëlle Geniller brilha verdadeiramente, com a ilustração a ser absolutamente fantástica! O traço da autora francesa é fino, elegante e profundamente expressivo, conseguindo transmitir emoções subtis com enorme eficácia. As personagens apresentam uma estética apaixonante e extremamente cuidada, que capta de imediato a atenção do leitor e o convida a permanecer neste universo boémio parisiense.

Além disso, este traço casa de forma exemplar com a recriação dos anos 20. Há uma clara fusão de referências entre o estilo Art Nouveau e Art Déco, visível tanto na arquitetura interior do Jardim, como nos padrões decorativos, nos cenários e nos objetos. As roupas e os penteados das personagens merecem também destaque especial. Há nelas uma classe, um requinte e uma elegância notáveis, que contribuem fortemente para a imersão na época. É impossível não admirar o cuidado estético colocado em cada página, com tudo a parecer pensado ao pormenor, criando uma identidade visual coerente e sedutora. 

O Jardim, Paris, de Gaëlle Geniller - Arte de Autor
Não admira, por isso, que tenha sido precisamente nesta componente visual que o livro se tenha destacado ao ponto de conquistar um prémio no Festival Lucca Comics & Games de 2022. Trata-se de um trabalho verdadeiramente lindo, detalhado e delicado, que demonstra uma maturidade artística impressionante. O desenho não é apenas bonito; é narrativo, expressivo e cheio de intenção. Fiquei fã da autora, confesso. Só no desenho dos automóveis, o trabalho de Gaëlle Geniller me desiludiu um pouco. Mas são poucos os automóveis que aparecem no livro e tudo o resto é extremamente bem executado.

E permitam-me ainda afirmar que até as cores acompanham este virtuosismo gráfico de forma exemplar. A paleta escolhida é harmoniosa e subtil, enriquecendo o ambiente e reforçando o tom melancólico e acolhedor do Jardim. 

A edição da Arte de Autor também é belíssima. A capa é verdadeiramente cativante, sendo em capa dura, com textura aveludada e belos detalhes a verniz, colocado em pontos estratégicos da luz presente na ilustração, o que eleva a beleza da capa. No miolo, o papel é brilhante e de boa qualidade. Tal como a impressão e a encadernação também o são. No final, há ainda um caderno de extras, com 10 páginas, onde podemos encontrar estudos de personagens, esboços, estudos de storyboards e outras ilustrações, o que torna a edição ainda melhor.

Em suma, O Jardim, Paris é um livro que emana beleza da primeira à última página. Visualmente, é uma obra arrebatadora, com uma beleza ímpar nas suas ilustrações, que a torna única e inesquecível. Quanto à história, com um tema atual e sempre bem-vindo, poderia, quanto a mim, ter sido mais audaz e mais marcante, abdicando de uma talvez excessiva leveza. Mesmo assim, é um belo livro que, não tenho dúvidas, encontrará facilmente a sua franja de mercado. Boa escolha da Arte de Autor!


NOTA FINAL (1/10):
8.5



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



-/-

O Jardim, Paris, de Gaëlle Geniller - Arte de Autor

Ficha técnica
O Jardim, Paris
Autora: Gaëlle Geniller
Editora: Arte de Autor
Páginas: 224, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 17 x 24 cm
Lançamento: Março de 2026


Vem aí uma BD sobre a relação entre um homem e o seu cão!




Eis uma obra que, por motivos muito pessoais, poderá ser uma leitura emocional para mim. Ou não falasse ela da relação intensa entre um homem e o seu cão.

Esta obra de José Luis Munuera, do qual a Arte de Autor até já editou um bom número de livros (Um Conto de Natal, Bartleby, o Escriturário, A Corrida do Século e Peter Pan de Kensington) adapta para banda desenhada o famoso romance de Cédric Sapin-Defour, que foi um grande sucesso em França, tendo já ultrapassado a barreira do milhão de exemplares vendidos.

Estou muito curioso com este livro e com aquilo que o mesmo me pode dar.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

O Cheiro Dele Depois da Chuva, de José Luis Munuera

Adaptado do romance de Cédric Sapin-Defour, esta é uma história de amor, vida e morte entre um homem, Cédric, e o seu cão, Ubac, um Cão de Montanha de Berna cuja presença rapidamente se torna essencial. Mas o verdadeiro herói é o laço entre eles: único, universal, que transcende muitas relações humanas.

Durante treze anos, partilham risos, preocupações e momentos fugazes de intensidade, até que a morte impõe a sua ausência. Uma verdadeira ode à vida, esta história explora o amor incondicional, a vida que passa demasiado depressa e aquelas memórias duradouras, como um aroma querido que permanece gravado na memória, mesmo depois da chuva.

-/-

Ficha técnica
O Cheiro Dele Depois da Chuva
Autor: José Luis Munuera
Adaptado a partir da obra original de: Cédric Sapin-Defour
Editora: Arte de Autor
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 cms
PVP: 27,00€


Ala dos Livros edita BD Arsène Lupin contra Sherlock Holmes!





A Ala dos Livros acaba de anunciar a sua nova aposta editorial, uma obra que adapta para banda desenhada a emblemática obra de Maurice Leblanc, Arsène Lupin contra Sherlock Holmes!

O argumento pertence a Jérôme Félix, autor de um dos meus álbuns favoritos do catálogo da Gradiva, que dá pelo nome de O Último Homem... 

Quanto ao desenho, devo dizer que não conheço bem a obra de Alain Janolle. Contudo, por aquilo que já pude ver através destas imagens promocionais que partilho mais abaixo, juntamente com a sinopse da obra, fiquei bastante agradado.

Nota para o facto de, originalmente, esta obra ter saído em 3 tomos em separado, que agora são reunidos pela Ala dos Livros num só volume integral.

Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, de Jérôme Félix e Alain Janolle

Disfarçado de criptologista, Arsène recebe a visita de um indivíduo que se apresenta como… Arsène Lupin. Este homem pede-lhe que decifre uma misteriosa sequência de códigos. 

Graças ao seu fiel companheiro, Grognard, Lupin descobre que o homem que se faz passar por ele chama-se Maurice Guercin e é casado com a rica Garance Montessieux, cujo avô, recentemente falecido, era conhecido por ser um apaixonado pela alquimia, tendo descoberto o segredo para transformar chumbo em ouro.

Isso é o suficiente para atrair a atenção de Arsène Lupin.
Mas o que o nosso ladrão-cavalheiro não sabe é que Sherlock Holmes, que não desistiu de perseguir o seu arqui-inimigo, está no seu encalço.

Nas margens do Sena, aproxima-se o confronto final entre duas lendas. E, desta vez, será uma luta até a morte.

-/-

Ficha técnica
Arsène Lupin contra Sherlock Holmes
Autores: Jérôme Félix e Alain Janolle
Adaptado a partir da obra original de: Maurice Leblanc
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
PVP: 27,50€




Aí está a nova coleção de Novelas Gráficas para 2026!




Foi neste sábado que saiu com o jornal Público a confirmação de que a Coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do jornal Público, está a chegar! Já antes disso vos tinha aqui dado a confirmação de tal boa nova.

Depois de um ano de interregno, em que não houve coleção de novelas gráficas, a mesma regressa com um conjunto de 12 novos livros que serão lançados de quinze em quinze dias com o jornal Público, a partir do próximo dia 22 de Maio. E que terão o preço unitário de 16,90€.

Posso dizer que há aqui várias obras que me estão a deixar bastante entusiasmado, entre as quais destaco No Sleep Till Shangai, de Zerocalcare, e Partir Ficando, de Chabouté. Bem, sendo-vos sincero, e roubando uma frase mítica a Forrest Gump, eu considero que a Coleção de Novelas Gráficas da Levoir, de há uns anos para cá, "é como uma caixa de chocolates... porque nunca sabemos o que vamos encontrar". Embora haja sempre alguns livros dos quais já conhecemos o autor ou a obra, há sempre outros que não conhecíamos até os vermos publicados nesta coleção. Uns são bons, outros são medianos e outros são espetaculares. Como tal, fico sempre muito entusiasmado com o anúncio destas obras.


Chamo ainda a atenção para o facto desta coleção trazer algumas confirmações que o Vinheta 2020 já vos tinha anunciado há uns meses. De facto, os mais atentos a este espaço, já teriam certamente tomado contacto com algumas destas obras quando, ainda em 2024, e depois em 2025, vos anunciei, em primeira mão, 7 destas 12 obras.

Nota ainda para a agradável surpresa que é a de voltarmos a ter uma obra de origem portuguesa na coleção de Novelas Gráficas. Desta feita, a obra em questão é A Armação, de Daniel Silvestre, que já venceu um prémio no Amadora BD. Esta nova edição terá materiais extra, textos e prefácio do autor provenientes da sua tese. Faz todo o sentido, pois esta era uma publicação com uma distribuição difícil de encontrar.

Mais abaixo, deixo-vos a lista completa de obras.




sexta-feira, 8 de maio de 2026

Vem aí nova coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do Público!


A editora Levoir acaba de avançar ao Vinheta 2020, em primeira mão, que a sua Coleção de Novelas Gráficas, está de volta!

Tal como está de volta a sua parceria com o jornal Público para tal empreitada, que já será a nona. Posso dizer-vos que já conheço a totalidade das obras que irão compor esta coleção, mas, por agora, a editora não avança ainda com uma listagem final das obras, mantendo o suspense, que, naturalmente, eu irei respeitar.

No entanto, para os mais expectantes, o anúncio da listagem de obras há de estar muito (muito) próximo. Até porque esta coleção deverá arrancar ainda neste mês de maio, estando previstos 12 novos livros, entre os quais uma obra de autoria nacional.

Seja como for, é uma excelente notícia para todos os amantes de banda desenhada. Se há coisas boas que podem ser ditas sobre esta coleção - e muitas há, certamente - a melhor de todas é mesmo esta: houve muita gente que passou a ler banda desenhada por causa desta coleção. Conheço várias pessoas que poderia referir enquanto exemplo e certamente quem me está aqui a ler conhecerá também.

Portanto, é com muita alegria que vos dou esta confirmação: sim, este ano haverá nova Coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do jornal Público.

A editora autorizou-me a avançar-vos 3 das obras que farão parte desta coleção:

A Aranha de Mashhad - Viagem a um Irão Desconhecido
Mana Neyestani

---

Dostoievski - O Sol Negro
Henrik Rehr e Chantal Van Den Heuvel

---

O Piano Oriental
Zeina Abirached


Além disto, dou-vos nota de que o primeiro livro da coleção, A Aranha de Mashad, será lançado durante o Maia BD, onde decorrerá a exposição Vozes do Irão: Desenhar a Liberdade, que incluirá originais de Shaghayegh Moazzami, autora de Assombrada, que marcará presença no evento.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Kingpin prepara-se para editar o celebrado "Rare Flavours"!


Depois do fantástico As Muitas Mortes de Laila Starr, a dupla de autores formada pelo autor Ram V e pelo português Filipe Andrade, está de volta com a sua mais recente obra intitulada Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, um trabalho muito celebrado no mercado americano, que recebeu várias nomeações aos Prémios Eisners.

O livro terá lançamento oficial no Maia BD (no Fórum Maia), no próximo dia 23 de Maio, e contará com a presença dos dois autores. Haverá ainda uma exposição de originais do livro no Maia BD, com curadoria de Mário Freitas.

Esta é a primeira edição da Kingpin Books neste ano de 2026, o que é sempre algo de louvar.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.



Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, de Ram V e Filipe Andrade

A história fascinante de Rubin, um rakshasa demoníaco com o desejo terreno de tornar-se o novo Anthony Bourdain. Para alcançar a sua visão, Rubin recruta Mo - um aspirante a cineasta que já viu melhores dias - para documentar a mundialmente famosa cozinha indiana e as gentes por detrás de tal gloriosa comida. 

Mas Mo não sonha que Rubin é bem mais do que aparenta, e que os mortais desempenham um papel muito mais sombrio do que aquele para o que estão preparados.

Depois de “As muitas mortes de Laila Starr”, Ram V e Filipe Andrade estimulam o palato dos leitores com uma história que mistura o sobrenatural, a cozinha indiana e o mundo impiedoso dos chefes de cozinha que se tornam celebridades. 

Uma jornada épica da vida e dos seus significados mais profundos através da comida, e uma reflexão inteligente sobre a importância de abrandar e saborear essa vida.

Nomeado para as principais categorias dos Prémios Eisner norte-americanos.


-/-

Ficha técnica
Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh
Autores: Ram V e Filipe Andrade
Editora: Kingpin Books
Tradução, legendagem, design e edição: Mário Freitas
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 19,5 x 28 cm
PVP: 29,95€

Um Olhar Sobre a Comic Con 2026



Passada uma semana desde a Comic Con 2026, que este ano aconteceu no Europarque, em Santa Maria da Feira - um espaço que considero bastante adequado às necessidades do evento e que, portanto, merece uma nota positiva - trago-vos hoje a minha análise a este evento sui generis para o universo da banda desenhada.

E por muito que estas palavras possam não agradar a muita gente, tenho que vos ser sincero e dizer que a Comic Con Portugal se apresenta como um grande espelho do nosso tempo: um tempo guiado pela superficialidade, pelo ruído constante e pela ilusão de que quantidade é sinónimo de qualidade. O evento vende‑se como celebração da cultura pop, sim, mas rapidamente se percebe que essa “cultura” é reduzida a um conjunto de estímulos rápidos, fotografáveis e esquecíveis. De facto, tudo é pensado para o impacto imediato, para a partilha nas redes sociais, para a validação instantânea e raramente para a reflexão, para o aprofundamento ou para o respeito pelas raízes do que ali deveria ser celebrado: a banda desenhada.

Nesse sentido, e num evento que ostenta o nome "Comic Con" - que poderia ser traduzida como "Convenção de Banda Desenhada" -  a BD deveria ser o eixo central, o coração pulsante de toda a programação. E isso não acontece. Estive lá no sábado, durante várias horas, e pude constatar que a banda desenhada parece mais um item numa checklist de obrigações na programação do evento. Posso até dizer-vos, sem indicar o nome do autor, pois não me cabe a mim fazê-lo, que um dos autores estrangeiros com quem falei me disse mesmo que estava desiludido, pois não apreciava muito este tipo de eventos e que considerava que não deveria chamar-se "Comic Con", mas sim "Cosplay Con". Não poderia estar mais de acordo.

Por falar em autores, é verdade - e não me canso de reconhecê‑lo - que a Comic Con Portugal tem apresentado, ano após ano, o melhor lineup de autores de banda desenhada em território nacional. E este ano não foi exceção. Nenhum outro evento consegue - pelo menos no tempo atual - ter um cartaz que se aproxime (sequer) deste que, mesmo com a lamentável ausência de Frank Miller, incluiu, relembro, nomes importantes como Jason Aaron, Scott Snyder, John Romita Jr., Miguelanxo Prado, Bastien Vivès, Alicia Jaraba, Victor Pinel ou Jérôme Lereculey. Neste ponto, há que reconhecer que o trabalho da Organização é muito bem conseguido. Todos estes autores fizeram sessões de autógrafos e tiveram apresentações que lhes foram dedicadas. Algumas dessas apresentações, no grande auditório, estiveram bem compostas, mas outras estiveram verdadeiramente vazias. E isso é lamentável quando vemos pessoas a fazer filas para receber um tote bag de uma marca qualquer que nada tem que ver com banda desenhada. 

E talvez a "culpa" disto não seja inteiramente da Organização, reconheço. Talvez seja reflexo de todos nós e da sociedade que criámos. Aliás, isto é transversal a muitas outras coisas: quantas pessoas não vão a festivais de música sem terem real interesse nas bandas que lá tocam? Às vezes nem as conhecem. Estão no seu direito, claro, mas isso, quando amplificado, causa uma sensação de vazio no que está a ser apresentado. E cabe às Organizações dos eventos - diria eu que, tal como John Lennon, sou um sonhador - ser a garantia de um bom e relevante cuidado na qualidade da programação. E está visto que esse eco dos tempos superficiais em que vivemos se alastrou até aos eventos da banda desenhada, em particular este, o que faz com que a presença destes autores de renome mundial, já por mim referidos, pareça quase um paradoxo dentro do próprio evento. Os autores estão lá, sim, mas não no epicentro do evento. São convidados de luxo, mas sem o espaço estrutural que permita verdadeira proximidade entre as suas obras e os leitores.

Para os amantes da banda desenhada, este evento tem apenas isto: um excelente cartaz de autores, apresentações sobre a obra dos mesmos e a possibilidade de um autógrafo. Mas, de resto, o espetáculo é dominado por marcas, franchises e ativações publicitárias. E tudo isto com um preço nada "levezinho".

É particularmente frustrante verificar a ausência de um espaço digno para editoras venderem banda desenhada de forma consistente e valorizada. Num país onde o mercado já é pequeno e frágil, a Comic Con poderia - e deveria - funcionar como uma oportunidade única de contacto direto entre autores, leitores e livros. E bem sei que não são as editoras portuguesas que não querem lá ir. São os preços avultados que a Organização lhes pede para aí venderem os seus livros. Isto leva a quê? Bem, leva a que, compreensivelmente, os editores não tenham presença no evento. Posso dizer-vos que procurei  na área comercial do evento, os livros de alguns dos autores que estavam presentes e não encontrei quase nenhum livro. Havia lá a Wook e a FNAC a venderem alguns livros, sim, mas era uma oferta parca e, por incrível que pareça, com mais livros de literatura fantástica do que de banda desenhada. Em vez de espaços de editoras a vender livros de banda desenhada, o que encontrei foram stands esmagados por merchandising genérico.

Também não há qualquer tipo de exposição de trabalhos o que, volto a dizer, daria mais força ao evento. E para aqueles que consideram que "as exposições não encaixam bem neste tipo de eventos", tenho que discordar. Aliás, lembro-me que numa das edições da Comic Con no Meo Arena, julgo que em 2022, havia uma exposição da Nickelodeon dedicada aos desenhos animados do canal televisivo. Ora, isto só comprova que, havendo interesse, haveria possibilidade de o fazer. Em vez disso, temos coisas efémeras, descartáveis e montadas para ser percorridas em segundos e fotografadas antes de se seguir para a próxima fila ou para o próximo palco ruidoso. 

Os cosplayers, omnipresentes, são o verdadeiro símbolo do evento. Parece ser esse o enfoque da Comic Con. E atenção que nunca me vão ouvir dizer mal do cosplay. Nada tenho contra esta prática e até a acho totalmente legítima e criativa. No entanto, acho que a mesma acaba por ser instrumentalizada pelo próprio evento, enquanto mera decoração ambulante. Mais uma vez, a aparência sobrepõe-se ao conteúdo, com a fantasia/máscara/roupa da personagem a importar mais do que a obra.


Não é minha intenção denegrir minimamente a Comic Con com esta minha análise. Moderei duas conversas com dois autores, que acredito terem sido muito interessantes, e só tenho a agradecer à Organização - e em especial à generosa Maria José Pereira - pelo convite. Se faço estes reparos, é porque me parece que a Comic Con, com a dimensão que tem, poderia ser muito mais e muito melhor para o universo da banda desenhada. Nem digo que deixe de ter aquilo que já tem... mas que dê mais (muita mais) importância à banda desenhada, à criação da mesma, e ao próprio livro de banda desenhada.

Caso contrário, ficará sempre a sensação amarga de uma oportunidade desperdiçada. A Comic Con Portugal podia ser o grande motor da banda desenhada no país, um ponto de encontro real entre autores, editoras e leitores. Em vez disso, prefere cavalgar a onda da superficialidade contemporânea, apostando no espetáculo fácil e no consumo imediato. Pode ser um grande evento, mas continua muito longe de ser um grande evento de banda desenhada e isso, num contexto cultural tão frágil como o nosso, é mais do que uma falha: é uma escolha.