sexta-feira, 26 de junho de 2026

Análise: Dez Mil Elefantes

Dez Mil Elefantes, de Pere Ortín e Nzé Esono Ebalé - Levoir - Público

Dez Mil Elefantes, de Pere Ortín e Nzé Esono Ebalé - Levoir - Público
Dez Mil Elefantes, de Pere Ortín e Nzé Esono Ebalé

Dez Mil Elefantes é a terceira obra da mais recente Coleção de Novelas Gráficas publicada pela Levoir e pelo jornal Público.

Da autoria do espanhol Pere Ortín e do guineense Nzé Esono Ebalé, a obra parte de um episódio histórico concreto para construir uma narrativa que oscila entre o estilo documental e o estilo poético. 

A narrativa acompanha a expedição liderada pelo cineasta espanhol Manuel Hernández‑Sanjuán à então Guiné Espanhola, entre 1944 e 1946, em pleno regime franquista. A missão era, aparentemente, registar a vida colonial, mas rapidamente se percebe que esse olhar estava condicionado por interesses propagandísticos, procurando mostrar uma realidade filtrada e ideologicamente moldada. Coisas típicas dos estados colonialistas, como sabemos.

Dez Mil Elefantes, de Pere Ortín e Nzé Esono Ebalé - Levoir - Público
E é através da voz de Ngono Mbá, um dos carregadores guineenses que integrou esta expedição, que a história nos é contada na primeira pessoa. Esta escolha narrativa é logo interessante à partida, pois desloca o ponto de vista habitual - que, normalmente, é centrado no colonizador - para quem viveu a experiência do outro lado da lente. Ngono observa, comenta e interpreta aquilo que vê, oferecendo-nos um testemunho simultaneamente curioso, ingénuo e profundamente revelador.

A narrativa documenta, pois, essa viagem insólita, cruzando o olhar europeu, carregado de paixão pelo exotismo e de uma sempre crescente ambição, com a realidade concreta, mais simples, do território africano e das suas populações. O próprio sonho de Hernández‑Sanjuán - o de ver dez mil elefantes juntos - surge como uma metáfora dessa busca romantizada e, ao mesmo tempo, irrealista, espelhando o desencontro entre o imaginário colonial e o mundo real que o colonizador tentava captar.

Dez Mil Elefantes é uma proposta diferenciada e audaz por parte da Levoir que, com esta obra, nos oferece algo diferente daquilo a que estamos habituados a encontrar por cá, em termos de banda desenhada. Como tal, é possível que muita gente não goste, mas também é possível que muitos adorem este livro. Haverá quem não se identifique com a sua abordagem experimental, mas também quem a considere absolutamente fascinante. E isso é, em suma, a grande valência desta Coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do jornal Público: a de nos fazer conhecer novas obras e estilos, levando-nos para lá da nossa zona de conforto e convidando-nos a explorar linguagens, temas e sensibilidades diferentes, contribuindo, deste modo, para um panorama editorial mais diverso e enriquecedor. Goste-se mais ou menos.

Dez Mil Elefantes, de Pere Ortín e Nzé Esono Ebalé - Levoir - Público
Um dos aspetos mais interessantes da obra reside na forma como nos mostra, ainda que muitas vezes nas entrelinhas, que o colonialismo é, por natureza, uma construção artificial. Um sistema imposto, que ignora deliberadamente as culturas locais e que procura reescrever a realidade em função dos interesses de quem domina. Essa dimensão está sempre presente na obra, mesmo sendo verdade que nunca é explicitamente verbalizada pelo narrador.

O olhar de Ngono é simultaneamente curioso e crítico, revelando tanto o fascínio pelo desconhecido como a estranheza perante os comportamentos dos colonizadores. A sua vontade de aprender a ler e a escrever funciona, aliás, como símbolo de uma tentativa de apropriação e compreensão de um mundo que lhe é imposto.

Como ponto menos positivo, há vários momentos em que a história parece fragmentar-se em pequenos episódios algo soltos, criando uma certa desconexão entre os mesmos. A opção por uma narração contínua em monólogo, sem recurso a diálogos convencionais, reforça a ideia de testemunho, mas também torna a leitura mais monocórdica e, por vezes, ligeiramente cansativa. Acredito que a experiência poderia ter sido melhorada, se existissem momentos de diálogo entre as personagens.

Dez Mil Elefantes, de Pere Ortín e Nzé Esono Ebalé - Levoir - Público
Mesmo assim, a inclusão de cartas e outros elementos gráficos ao longo da narrativa contribui para quebrar esta linearidade e introduzir variações no ritmo da leitura, reconheço. 

Em termos visuais, Dez Mil Elefantes é uma obra extremamente rica e surpreendente. Nzé Esono Ebalé apresenta um trabalho profundamente autoral, combinando diferentes técnicas, que vão desde o desenho com esferográfica até colagens e inserções fotográficas. Tudo isto confere ao livro uma identidade estética muito própria, com cada página a parecer oferecer-nos algo novo, desafiando constantemente o nosso olhar.

A escolha da caneta esferográfica, associada à infância e à escassez de recursos do autor, não é apenas um gesto técnico, mas também simbólico. O resultado são imagens carregadas de textura e expressividade, com uma sensibilidade africana evidente. Este livro não precisava de ser sobre África para que sentíssemos, de algum modo, esse espírito africano só por olharmos para as ilustrações. 

A forma como as cores são utilizadas também se revela particularmente original e a planificação é muitas vezes ousada, com soluções visuais que enriquecem a experiência e sublinham o tom híbrido entre documento e interpretação artística.

À boa maneira daquilo que podemos esperar dos livros desta Coleção de Novelas Gráficas, o livro apresenta capa dura baça, com bom papel baço no miolo. A impressão e encadernação também são boas. No final, encontramos um epílogo escrito por Pere Ortín, que nos dá mais informações acerca do seu processo de trabalho nesta obra. 

Em suma, Dez Mil Elefantes é uma obra exigente, mas recompensadora. Não é uma leitura imediata nem confortável, mas precisamente por isso se torna relevante e marcante. Ao mesmo tempo que revisita um passado colonial pouco explorado, fá-lo com uma linguagem inovadora e uma perspectiva crítica subtil. Uma boa e original proposta da Levoir.


NOTA FINAL (1/10):
8.3



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



-/-

Dez Mil Elefantes, de Pere Ortín e Nzé Esono Ebalé - Levoir - Público

Ficha técnica
Dez Mil Elefantes
Autores: Pere Ortín e Nzé Esono Embalé
Editora: Levoir
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240 mm
Lançamento: Junho de 2026

Vinheta 2020 cancela grupo de facebook...


... mas cria um novo grupo!

Bem, aqueles que me seguem, e principalmente os que me conhecem bem, sabem que tenho um certo sentido prático de olhar para as coisas.

Se algo é relevante, muito bem, continuemos a trabalhar nesse algo. Mas se determinada coisa não tem verdadeira razão de ser, ou foi mal concebida desde o início, então talvez não valha a pena a sua existência.

É o caso do grupo de facebook BDinder. Quando, em 2021 o grupo foi lançado, a ideia era apenas uma: a de unir um argumentista sem desenhador para a sua história a um desenhador sem argumento para desenhar. Talvez tenha sido uma ideia um pouco ingénua da minha parte, pois agora, passados 5 anos, sei que dificilmente um projeto assim poderia ganhar verdadeira tração. Não é que fosse impossível - já vi bons projetos de banda desenhada começarem por menos - mas seria algo difícil. E a prova disso é que, apesar das 373 pessoas que se juntaram ao grupo, nada de verdadeiramente relevante surgiu desta iniciativa. Portanto, sim, mais vale que não exista.

Como tal, hoje é o dia em que este grupo deixa de existir.

Mas algo novo surge!

Hoje é lançado o BD Quotes - Frases da 9ª Arte que Ecoam. Será um novo grupo de facebook diferente de todos aqueles que existem em Portugal. Um grupo para partilha de citações de banda desenhada. Só assim, sem explicação nenhuma. Já vos aconteceu estarem a ler um livro de BD e determinada frase ou imagem vos fazer refletir, sorrir, pensar, chorar? A mim, certamente que sim.

Este novo grupo será para partilhar essas frases que ficam a ecoar dentro de nós.

O modo de funcionamento deste novo grupo não poderia ser mais simples: se estão a ler um livro de BD e tais sentimentos vos surgirem, só têm que tirar uma fotografia a essa vinheta e colocá-la no grupo. Podem fazer uma legenda... ou não fazer legenda nenhuma. Quem quiser pode depois comentar.

Será este o BD Quotes. Passem por lá e façam o vosso primeiro post.

A Seita edita nova BD de autor polaco!



A somar ao conjunto já relevante de obras de autores polacos publicados no âmbito da coleção Bursztyn/Âmbar, a editora A Seita acaba de editar o livro Lunáticos, dos autores Adam Fyda e Marek Ospalski.

Esta é uma obra que adapta para banda desenhada a obra Na Orbe de Prata, um clássico da literatura de ficção científica polaca.

A coleção Bursztyn/Âmbar já detém, relembro, as obras Três Irmãs, de Anna Poszepczyńska; Heksa: A Bruxa, de Kasia Witterscheim e Xulm e, agora, este Lunáticos.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.
Lunáticos, de Adam Fyda e Marek Ospalski

Em 1913, a primeira expedição lunar parte da terra. Cinco aventureiros seguem para o lado oculto do globo prateado, onde acreditam existir uma atmosfera. Pouco depois, o contacto com eles é perdido. Ninguém sabe o que descobriram ou se ainda estão vivos. Esta é uma história de morte, amor, saudade e esperança. Lunáticos é a adaptação à banda desenhada da obra No Orbe de Prata, de Jerzy Zulawski, um pioneiro da ficção-científica, frequentemente considerado como o Júlio Verne polaco.

Adam Fyda formou-se na Academia de Belas Artes de Wrocław, na Polónia, na Faculdade de Pintura. Durante muitos anos, trabalhou como designer gráfico, ilustrador, director de arte e designer de capas de livros.

Em 2020, publicou a sua primeira banda desenhada, inspirada no conto de Lovecraft “Nas Montanhas da Loucura”. Seguiram-se “Perseguindo o Fantasma” (2021) e uma adaptação do clássico romance de terror de Arthur Machen, “O Grande Deus Pã” (2022). As suas obras já foram publicadas na Polónia, Itália, Reino Unido, e agora Portugal. A sua obra mais recente, “Lunáticos”, escrita em parceria com Marek Ospalski, baseia-se em “No Globo de Prata”, do escritor polaco Jerzy Żuławski – um dos primeiros romances de ficção científica já escritos. Publicada originalmente na Polónia pela Timof Comics, e já editada em França, é agora lançada em Portugal no âmbito da colecção Bursztyn/Âmbar.

Marek Ospalski é bibliotecário, e sempre gostou de palavras e textos. É o co-argumentista de Lunáticos.

-/-

Ficha técnica
Lunáticos
Autores: Adam Fyda e Marek Ospalski
Adaptado a partir da obra original de: Jerzy Zulawski
Editora: A Seita
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 260 mm
PVP: 20,00€

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Análise: Slava #2 - Os Novos Russos

Slava #2 - Os Novos Russos, de Pierre-Henry Gomont - ASA - LeYa

Slava #2 - Os Novos Russos, de Pierre-Henry Gomont - ASA - LeYa
Slava #2 - Os Novos Russos, de Pierre-Henry Gomont

A editora ASA lançou há poucas semanas o segundo volume do tríptico Slava, do autor Pierre-Henry Gomont. Intitulado Os Novos Russos, este novo álbum aumentou ainda mais o meu interesse nesta história, confirmando a sua qualidade e unindo algumas pontas soltas que tinha encontrado no primeiro volume, Depois da Queda. Na verdade, se o primeiro volume já deixava antever uma obra com ambição e identidade, este segundo tomo não só cumpre essas promessas como, em muitos aspectos, as ultrapassa com notável convicção.

Retomando a narrativa na Rússia dos anos 90, Pierre-Henry Gomont volta a mergulhar-nos nesse período caótico, onde o colapso da União Soviética abriu espaço a uma nova ordem marcada pela ausência de regras e por uma voracidade económica quase predatória, que havia de dar origem à famosa "ordem" dos oligarcas. O conceito de “novos russos”, isto é, aqueles que enriqueceram rapidamente à custa de expedientes duvidosos, torna-se aqui o eixo temático central, abordado com um tom que, apesar da dureza do contexto, conserva uma leveza surpreendente, e por vezes até bem‑humorada.

A história divide-se de forma mais clara do que no primeiro volume, entre os percursos de Slava e Lavrine, agora separados por circunstâncias particularmente duras. Lavrine surge numa situação de absoluta decadência: abandonado, mutilado e reduzido a uma existência quase espectral numa aldeia remota. A sua transformação é um dos pontos mais interessantes deste volume, não tanto pela redenção, mas pela forma como Gomont nos oferece uma personagem tão carismática e que acaba, quase sempre, por se mover apenas com base nos seus impulsos egoístas. Ou de sobrevivência. 

Slava #2 - Os Novos Russos, de Pierre-Henry Gomont - ASA - LeYa
Já Slava permanece ligado à mina - e à bela Nina - tentando negociar com os grandes poderosos algumas das máquinas mais valiosas presentes nessa mina. O seu relacionamento clandestino com Nina ganha protagonismo neste volume, criando uma tensão constante com Arkady, o noivo desta. Há aqui um jogo emocional e moral mais aprofundado, onde Slava oscila entre a paixão, a responsabilidade e a sua própria crise identitária, acentuada pela vontade de regressar à pintura como forma de encontrar equilíbrio.

Se no primeiro volume, a narrativa me pareceu por vezes indecisa, com momentos dispersos e alguma dificuldade em encontrar um rumo coeso, neste segundo tomo Gomont demonstra um controlo muito mais premente do enredo. As pontas soltas são aqui trabalhadas com maior cuidado, e aquilo que antes parecia quase aleatório ganha agora função e peso dentro da estrutura narrativa.

Para isso, também conta que a obra nos ofereça belas personagens: Slava continua a ser um protagonista sólido, com traços de idealismo que contrastam com o mundo que o rodeia, enquanto Nina mantém o seu carisma e complexidade, funcionando não apenas como interesse amoroso, mas também como catalisadora de decisões e conflitos. Ainda assim, é impossível não destacar Lavrine como a verdadeira estrela deste volume. Politicamente incorreto, manipulador, sem escrúpulos e totalmente focado no enriquecimento pessoal, é uma daquelas personagens que fascinam precisamente pelas suas falhas. Mesmo em ruína, Lavrine mantém um magnetismo difícil de ignorar, e o seu percurso neste volume dá-lhe uma profundidade inesperada. A obra chama-se "Slava" mas, quanto a mim, bem que podia chamar-se "Lavrine".

Outro aspecto que merece destaque é a forma como Gomont torna a leitura mais fluida neste volume. O ritmo está melhor calibrado e a articulação entre cenas é mais natural, contribuindo para uma experiência mais coesa e envolvente. Mesmo quando a história abranda, fá-lo com intenção, aprofundando personagens em vez de dispersar a atenção.

E o equilíbrio entre o humor e a crítica social é outro dos grandes méritos da obra. Gomont consegue abordar temas pesados, como a corrupção, o oportunismo e a desagregação social, com um tom que nunca resvala para o moralismo, optando antes por uma ironia subtil que torna tudo mais acessível e, paradoxalmente, mais incisivo. Não é bem daqueles livros que nos faz rir à gargalhada, mas certamente coloca um sorriso mordaz nas nossas faces.

Slava #2 - Os Novos Russos, de Pierre-Henry Gomont - ASA - LeYa
Em termos visuais, as ilustrações presentes neste segundo volume vão ao encontro do bom trabalho que o autor já nos havia dado no primeiro tomo da série. O traço continua dinâmico, expressivo e cheio de movimento, lembrando, com as devidas distâncias, o estilo de Christophe Blain. As figuras parecem constantemente em fluxo, deformando-se ligeiramente para acentuar emoções e criar uma sensação de urgência que casa perfeitamente com o cenário retratado. E as próprias máquinas e ambiente fabril da mina dos trabalhadores, bem como os cenários gélidos russos, são especialmente bem reproduzidos. Gosto muito do desenho do autor e, já agora, acho a ilustração da capa profundamente linda.

E também a cor continua a desempenhar um papel fundamental. As paletas carregadas e algo sujas reforçam a atmosfera de decadência, ao mesmo tempo que sublinham os contrastes emocionais e narrativos. São cores que, mais do que serem meramente ilustrativas, conseguem ser parte integrante da narrativa visual, ajudando a construir o ambiente e a psicologia das personagens. tudo muito bem feito.

Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, bom papel baço no miolo, e um bom trabalho ao nível da encadernação, impressão e acabamentos.

Em conclusão, Slava #2 – Os Novos Russos revela-se não apenas uma continuação competente, mas um claro passo em frente relativamente ao primeiro volume. Mais focado, mais maduro e com personagens ainda mais bem trabalhadas, este segundo tomo consolida a série como uma fantástica e inspirada abordagem à Rússia pós-soviética, com todos os seus podres. Fica, assim, a expectativa bem elevada para o desfecho desta singular trilogia! Bela aposta da ASA!


NOTA FINAL (1/10):
9.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020

-/-

Slava #2 - Os Novos Russos, de Pierre-Henry Gomont - ASA - LeYa

Ficha técnica
Slava #2 - Os Novos Russos
Autor: Pierre-Henry Gomont
Editora: ASA
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Maio de 2026

Análise: A Sombra das Luzes - Tomo 2 – Rendas e Colares de Conchas

A Sombra das Luzes - Tomo 2 – Rendas e Colares de Conchas, de Alain Ayroles e Richard Guérineau - Ala dos Livros

A Sombra das Luzes - Tomo 2 – Rendas e Colares de Conchas, de Alain Ayroles e Richard Guérineau - Ala dos Livros
A Sombra das Luzes - Tomo 2 – Rendas e Colares de Conchas, de Alain Ayroles e Richard Guérineau

A editora Ala dos Livros publicou recentemente o segundo tomo da minisérie A Sombra das Luzes, de Alain Ayroles e Richard Guérineau, pensada para três volumes. E se no primeiro volume, O Inimigo do Género Humano, houve algumas questões que me deixaram com reservas com esta obra, reconheço que neste segundo volume as coisas funcionam - todas - muito melhor.

Intitulado Rendas e Colares de Conchas, este segundo tomo conduz-nos para um cenário inesperado e refrescante face àquilo que tínhamos tido no primeiro volume. Agora estamos longe dos salões aristocráticos da corte francesa e acompanhamos a viagem do infame Cavaleiro de Saint-Sauveur, que parte rumo à Nova França (Canadá), acompanhado pelo iroquês Adario e pelo seu criado filósofo, Gonzague. É uma viagem que rapidamente se transforma numa nova oportunidade para exibir o talento manipulador do protagonista e mergulhar-nos numa nova intriga em que Saint-Sauveur procura casar a Menina de Archambaud, de uma família da nobreza parisiense, com Adario, um homem selvagem. Um ameríndio. É óbvio que as motivações de Saint-Sauveur não são as de um cupido casamenteiro, mas sim a de conquista de poder para si mesmo.

Contudo, as suas maquinações começam a revelar consequências imprevisíveis, com o protagonista a ver que vários acontecimentos escapam ao seu controlo. 

A Sombra das Luzes - Tomo 2 – Rendas e Colares de Conchas, de Alain Ayroles e Richard Guérineau - Ala dos Livros
É precisamente este maior enfoque narrativo numa demanda mais concreta, bem como a própria deslocação geográfica - que permite a exploração de um enredo mais aventureiro - que marca uma evolução mais positiva neste segundo tomo. Dito por outras palavras, se o primeiro volume parecia demasiado preso a uma função introdutória, aqui a narrativa ganha corpo, ritmo e consequências. A mudança de cenário permite, pois, que a história respire e avance.

Ainda assim, e com alguma pena minha, visto que não me parece que este estilo funcione particularmente bem em banda desenha - pelo menos da forma em que nos é dado -, Ayroles mantém a estrutura epistolar que caracteriza a obra, continuando a construir a narrativa através de cartas trocadas entre diversas personagens. Esta opção, embora coerente com o tom e as referências literárias da série - das quais tenho que referir Ligações Perigosas, de Pierre Choderlos de Laclos - continua a revelar-se ambígua na sua eficácia. Isto porque a coexistência entre o conteúdo das cartas e os balões de fala cria, em vários momentos, uma sensação de desencontro que pode desorientar o leitor.

E essa dificuldade até é acentuada pela multiplicidade de vozes e pelas constantes idas e vindas de correspondência. Se fossem apenas duas personagens a trocar cartas entre si, a coisa até ficaria menos confusa. Mas com tantas personagens a corresponderem-se, o enredo torna-se artificialmente cheio e carregado de informação desnecessária. A experiência torna-se algo difusa. A leitura exige, portanto, concentração e uma atenção redobrada para acompanhar quem escreve, para quem escreve e com que intenção. 

A Sombra das Luzes - Tomo 2 – Rendas e Colares de Conchas, de Alain Ayroles e Richard Guérineau - Ala dos Livros
Embora reconheça que, neste segundo tomo, a experiência funciona bastante melhor. O enredo está mais consistente, mais orientado e, acima de tudo, mais interessante. As intrigas ganham peso e as ações das personagens começam a produzir efeitos concretos, o que contribui para um maior envolvimento emocional entre obra e leitor.

Saint-Sauveur, em particular, surge aqui como uma figura ainda mais fascinante. Fora do ambiente controlado da corte, o seu talento para a manipulação é posto à prova em circunstâncias mais adversas. A oposição entre civilização e selvajaria é abordada de forma inteligente por Alain Ayroles, questionando preconceitos e sugerindo que a verdadeira barbárie não reside necessariamente onde se supõe. Há aqui uma reflexão interessante sobre o olhar europeu e as suas limitações, diria.

Do ponto de vista do ritmo, este segundo volume apresenta uma progressão mais equilibrada, também, com a ação a fluir com maior naturalidade e as reviravoltas a surgirem de forma mais orgânica, evitando a sensação de estagnação que marcava o primeiro tomo. 

Outro aspeto que merece destaque é a forma como este volume consegue reconsiderar retroativamente o primeiro. Elementos que antes pareciam dispersos começam aqui a ganhar significado, sugerindo que Ayroles aparenta ter, efetivamente, um plano mais amplo para esta trilogia. O leitor passa a perceber melhor a construção gradual do enredo. Portanto, quando concluí a minha análise ao primeiro volume com esta frase: "A esperança, no entanto, reside na promessa de que os volumes seguintes consigam atar as pontas deixadas soltas e revelar, enfim, o grande jogo que Ayroles parece estar a construir.", talvez eu tivesse razões para estar esperançoso com esta obra.

A Sombra das Luzes - Tomo 2 – Rendas e Colares de Conchas, de Alain Ayroles e Richard Guérineau - Ala dos Livros
E, já agora, também o trabalho de Richard Guérineau parece beneficiar da mudança de cenário. O autor demonstra uma maior à-vontade na representação de ambientes naturais, paisagens vastas e cenas de ação. As florestas do Canadá, com a sua densidade e mistério, são retratadas com grande beleza e as páginas ganham movimento, energia e uma certa liberdade visual que se adequa muito bem ao espírito aventureiro desta segunda parte.

Além disso, a elegância do traço e o cuidado com o detalhe, que já eram evidentes no primeiro volume, continuam presentes. Guérineau mantém o rigor histórico nas indumentárias e nos ambientes, mas agora alia essa precisão a uma maior expressividade narrativa. E o trabalho de cores também é especialmente bem conseguido.

Em termos de edição, temos a continuação do belo trabalho já encetado no volume anterior. Portanto, recupero o que já havia escrito sobre o trabalho editorial do primeiro tomo: "Para além de editado em grande formato, a capa dura do livro apresenta uma textura que faz lembrar tecido e que é muito agradável ao toque. Tem ainda um brilho localizado que torna o objeto mais requintado. As próprias guardas do livro, fazendo lembrar papel de parede, são belíssimas. No interior, o papel é brilhante e de boa qualidade, tal como também assim o é a impressão e a encadernação."

Em suma, este segundo tomo de A Sombra das Luzes representa uma evolução clara face ao volume anterior. Apesar de ainda manter algumas fragilidades, sobretudo ao nível da clareza narrativa, oferece uma história mais rica, dinâmica e envolvente. É, acima de tudo, um sinal encorajador de que esta série poderá afirmar-se como uma obra de grande fôlego, capaz de conjugar ambição literária com um verdadeiro prazer de leitura e belos desenhos. Nota mais positiva e otimista, desta vez!


NOTA FINAL (1/10):
8.3


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


-/-

A Sombra das Luzes - Tomo 2 – Rendas e Colares de Conchas, de Alain Ayroles e Richard Guérineau - Ala dos Livros

Ficha técnica
A Sombra das Luzes - Tomo 2 – Rendas e Colares de Conchas
Autores: Alain Ayroles e Richard Guérineau
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 255 x 340 mm
Lançamento: Abril de 2026

Vem aí adaptação para BD do thriller de R. J. Ellory!



A Arte de Autor, cujo 2026 está a ser um ano marcado por boas escolhas editoriais, volta a surpreender ao editar a adaptação para banda desenhada de Apenas o Silêncio, o romance de R. J. Ellory.

Os responsáveis pela adaptação são Fabrice Colin e Richard Guérineau (este último, de quem a editora Ala dos Livros tem publicado a série A Sombra das Luzes).

Trata-se da história de um homem marcado por uma série de assassinatos na sua infância que tenta, ao longo da vida, encontrar a verdade e lidar com a culpa e as consequências desse passado traumático.

O livro já se encontra  à venda em livrarias.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra.

Apenas o Silêncio, de Fabrice Colin e Richard Guérineau

A partir do romance de R.J. Ellory

Joseph Vaughan, que se tornou um escritor de sucesso, recorda acontecimentos que abalaram a sua infância e que o vão perseguir, perseguindo-o durante toda a sua vida adulta: os assassinatos de jovens raparigas perpetrados ao longo de várias décadas, de que foi testemunha involuntária.

Joseph tem doze anos quando descobre o corpo de uma menina assassinada na sua aldeia, na Geórgia. Uma das primeiras vítimas de uma longa série de crimes. Anos mais tarde, quando o caso parece finalmente resolvido, Joseph muda-se para Nova Iorque.

Mas, mais uma vez, os assassinatos de crianças multiplicam-se… Para exorcizar os seus demónios, Joseph parte em busca do assassino que o assombra. Com este conto sombrio de escuridão absoluta, R. J. Ellory evoca tanto William Styron como Truman Capote, através do poder da sua escrita e da complexidade das emoções que explora.

Mais do que uma história de assassino em série perfeitamente construída e repleta de suspense constante, “Only Silence” tornou-se um marco na história do thriller. Com este romance implacavelmente sombrio e impiedoso, R. J. Ellory revela o poder da sua escrita e a complexidade das emoções que explora.

Adaptado por Richard Guérineau (Prix Critiques Libres 2016, etc.) e Fabrice Colin (Grand Prix de l’Imaginaire 2004 e 2010, etc.)

-/-

Ficha técnica
Apenas o Silêncio
Autores: Fabrice Colin e Richard Guérineau
Editora: Arte de Autor
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 17 x 24 cm
PVP: 27,50€

Arte de Autor e A Seita editam nova BD de Zidrou e Jordi Lafebre!



Já aqui tinha sido anunciado, mas agora é facto consumado! As editoras Arte de Autor e A Seita preparam-se para editar a obra Brigada de Costumes, que conta com argumento de Zidrou e ilustrações de Jordi Lafebre.

O livro já se encontra em pré-venda no site da editora Arte de Autor e deverá chegar às livrarias a partir do próximo dia 30 de junho.

Eu, enquanto confesso fã dos dois autores, estou com enorme vontade de mergulhar nesta leitura! Esta obra foi originalmente editada em dois volumes, mas a edição portuguesa será de um só volume integral.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre

A dupla Zidrou e Jordi Lafebre (Lydie, Verões Felizes) reencontra-se na esquadra de Paris na década de 1930!

Esta história em duas partes retrata o quotidiano da esquadra: o jovem inspetor Aimé Louzeau inicia-se na infiltração e vigilância para desvendar segredos cruciais para os mais altos escalões governamentais. 

Mas a polícia também tem os seus segredos, e Aimé, filho de um padre excomungado, não é excepção…

-/-

Ficha técnica
Brigada de Costumes
Autores: Zidrou e Jordi Lafebre
Editoras: A Seita e Arte de Autor
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 cm
PVP: 27,00€



quarta-feira, 24 de junho de 2026

A Seita edita novo "Lucky Luke" de Matthieu Bonhomme!



Já está disponível o mais recente livro de Lucky Luke, da coleção Lucky Luke Visto Por..., que a editora A Seita tem vindo a publicar em Portugal!

O novo título chama-se A Longa Marcha de Lucky Luke e volta a trazer-nos a interpretação do "cowboy que dispara mais rápido que a própria sombra" de Matthieu Bonhomme, autor que já nos deu os belíssimos Procura-se Lucky Luke e O Homem Que Matou Lucky Luke. Que são, aliás, os melhores álbuns da série, quanto a mim. Pelo que, não fosso negar, estou muito curioso para mergulhar nesta terceira aventura da personagem que Bonhomme arquiteta.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.
A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme

“Talvez ainda estejamos a tempo de salvar o nosso mundo!”

Uma aventura de Lucky Luke nas florestas geladas e percorridas por lobos do território Lakota, no norte da América, na companhia de um jovem rapaz, Nuvem-Vermelha… um western simultaneamente clássico e actual, que demonstra mais uma vez o virtuosismo gráfico de Matthieu Bonhomme! A edição portuguesa d’A Seita inclui um caderno de extras adicional.

Nascido em Paris, em 1973, Matthieu Bonhomme iniciou-se na BD como assistente de Christian Rossi, o extraordinário desenhador que substituiu Jean ‘Moebius’ Giraud como desenhador da série Jim Cutlass – o “outro” western a que o desenhador do Tenente Blueberry esteve ligado.

Grande fã do western, Bonhomme confessa que “aprendi a desenhar com Lucky Luke, série que foi um dos pilares da minha formação como leitor” e agarrou a possibilidade de escrever e desenhar uma aventura da sua personagem preferida sem hesitação, e produziu um dos mais aclamados álbuns do cowboy de Morris, “O Homem que Matou Lucky Luke”. Vencedor de vários prémios em Angoulême ao longo da sua carreira, Bonhomme voltou ao período do western com a sua série ‘Charlotte Imperatriz’, sobre a princesa belga que se tornou imperatriz do México em 1864, antes de assinar “Procura-se Lucky Luke”. 

Neste momento é de longe o mais popular e aclamado autor de homenagens a Lucky Luke, pelo que não se estranha que neste ano em que se festejam os 80 anos do cowboy que dispara mais rápido que a sombra, tenha regressado ao seu universo com eles “A Longa Marcha de Lucky Luke”.

-/-

Ficha técnica
A Longa Marcha de Lucky Luke
Autor: Matthieu Bonhomme
Editora: A Seita
Páginas: 88, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 320 mm
PVP: 18,99€

Análise: Strong - Arquivos da Kachisou

Strong - Arquivos da Kachisou, de Kachisou - A Seita - Comic Heart

Strong - Arquivos da Kachisou, de Kachisou - A Seita - Comic Heart
Strong - Arquivos da Kachisou, de Kachisou

Um dos lançamentos mais recentes das editoras A Seita e Comic Heart - e que, infelizmente, tem passado um pouco despercebido - dá pelo nome Strong - Arquivos da Kachisou. Esta é uma antologia de histórias em banda desenhada, com forte influência da imagética mais associada ao mangá, da autora portuguesa Kachisou. Acaba por ser uma reedição, uma vez que boa parte desta obra, cerca de metade, já havia sido editada com o título Weak. Editado pela editor Bubok, Weak marcou a estreia da autora portuguesa na edição de banda desenhada em formato físico. Essa edição continha quatro histórias curtas. Desta feita, o título Weak foi substituído pelo antónimo Strong e estamos perante uma edição muito melhor, que tem o dobro das histórias, uma revisão dos conteúdos, e ainda um belo conjunto de material extra.

Já aquando do seu lançamento original, em 2020, Weak fez-nos antever que Kachisou tinha um potencial imenso. E, para tal, muito contribuiu a capacidade impressionante da autora para o desenho.

Strong - Arquivos da Kachisou, de Kachisou - A Seita - Comic Heart
E, de facto, o desenho de Kachisou neste Strong é tão bom que não está apenas ao estilo qualitativo dos mangakás do Japão, mas sim ao estilo qualitativo dos melhores mangakás do Japão. O estilo de traço da autora é clássico, extremamente expressivo, e remete-nos para os melhores animes que marcaram a infância de quem, como eu, cresceu nos anos 80 e 90. Sou verdadeiramente fã do desenho da autora. E ainda que a mesma nos tenha dado belos desenhos nos mais recentes livros A Aventura do Sapo: Caos e Coaxos ou Quero Voar, é, quanto a mim, neste livro que o seu trabalho de ilustração mais impressiona. Aqui, a maturidade do seu traço e a consistência do seu estilo atingem um nível superior, consolidando Kachisou como uma das vozes mais relevantes da banda desenhada nacional.

A autora revela uma capacidade de desenho absolutamente notável, que não se limita a imitar o estilo das suas referências, mas antes se aproxima do melhor que esse universo tem para oferecer, conseguindo oferecer-nos uma certa componente nostálgica que nos convida a deter-nos em cada uma das páginas do livro. A fluidez das linhas, a composição dos enquadramentos e a construção das personagens revelam uma artista que domina plenamente a linguagem visual do mangá, por um lado, e a elegância e clareza narrativa de uma história em banda desenhada, por outro. 

Strong - Arquivos da Kachisou, de Kachisou - A Seita - Comic Heart
A expressividade que Kachisou coloca nas suas personagens é impressionante, com cada emoção das mesmas a ter uma intensidade quase cinematográfica.

Falando das histórias, em concreto, temos um conjunto de oito breves contos que varia bastante em termos de dimensão de histórias, com uma delas a passar as duas dezenas, mas outras, mais curtas, com apenas três ou quatro páginas. Há até uma história que só ocupa uma prancha. Em comum, todas elas têm uma abordagem delicada e suave, em estilo slice of life, colocando-nos em momentos concretos da vida das personagens com quem privamos. 

São relatos simples, muitas vezes contemplativos, que são centrados em emoções e pequenos momentos, mas que, precisamente por isso, conseguem ser marcantes. Não escondo que considero que muitas das histórias aqui presentes teriam potencial para serem mais desenvolvidas, tendo mais páginas, mas também acho que há uma leveza assumida que não diminui o impacto das histórias.. e que acaba por ser bem conseguida.

Strong - Arquivos da Kachisou, de Kachisou - A Seita - Comic Heart
Os temas são vários: temos um jovem que procura ser um bom lutador de boxe; temos um robot que encontra numa rapariga uma amizade inesperada; uma idosa que procura, de algum modo, superar a própria morte; um rapaz que procura anular os seus próprios medos de infância, entre outros e variados assuntos. Há uma certa ternura transversal a todas as narrativas, que se articula de forma harmoniosa com o traço elegante da autora. As histórias exploram temas como a superação, a amizade, a perda ou o medo, sempre com bastante sensibilidade.

Quanto à edição, estamos perante um belíssimo trabalho das editoras A Seita e Comic Heart, pois este livro não só recupera material previamente publicado, e que já era difícil de encontrar à venda, como o eleva através de uma edição cuidada e substancialmente ampliada, que permite redescobrir o universo criativo de Kachisou com outro fôlego e ambição. De resto, o livro é melhor a todos os níveis do que a edição original da Bubok, tendo capa dura baça, bom papel baço no miolo e encadernação, impressão e acabamentos de boa qualidade. É, também, ligeiramente maior, em termos de formato, do que a edição de Weak. E, claro, inclui ainda um simpático caderno de material extra, com 12 páginas, onde nos são dadas lindíssimas ilustrações adicionais da autora.

No conjunto, Strong - Arquivos da Kachisou apresenta-se como o mangá português mais japonês de sempre. Esta afirmação não surge como exagero, mas como reconhecimento do grau de autenticidade com que a autora trabalha a linguagem deste subgénero. Por tudo isso, este livro não é apenas uma reedição... é uma consagração. E, acima de tudo, um testemunho claro de que o talento de Kachisou merece todo o reconhecimento que tem vindo a alcançar.


NOTA FINAL (1/10):
8.9



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



-/-

Strong - Arquivos da Kachisou, de Kachisou - A Seita - Comic Heart

Ficha técnica
Strong - Arquivos da Kachisou
Autora: Kachisou
Editoras: A Seita e Comic Heart
Páginas:, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 23 x 16 cms
Lançamento: Abril de 2026

Análise: Entre Elas

Entre Elas, de Pauline Spira - Nuvem de Letras - Penguin Random House

Entre Elas, de Pauline Spira - Nuvem de Letras - Penguin Random House
Entre Elas, de Pauline Spira

Por vezes, há livros de banda desenhada que não precisam de ser espetacularmente bem desenhados para serem muitíssimo bons. Ou que não precisam de ter uma história "maior do que a vida" para merecerem uma leitura atenta. É o caso deste Entre Elas, de Pauline Spira, uma bela aposta que a Nuvem de Letras, uma chancela da Penguin, editou recentemente.

Este é um daqueles típicos livros que até pode não apelar muito aos leitores mais habituais do Vinheta 2020: a ilustração é de um cariz mais simples, infanto-juvenil, a história é com - e para - teenagers e aparenta ter um significado algo infantil. Pois bem, digo-vos que é uma leitura muito bem conseguida para jovens, claro, mas também para adultos.

Começando pelos desenhos, não são nada de maravilhoso, mas também não se pode dizer que não sejam eficazes nas funções narrativas e ilustrativas que procuram ter. O estilo de desenho de Pauline Spira é simples, por vezes um pouco naïf até, mas com as personagens a terem uma expressividade bem conseguida e muito eficiente. Além disso, existem alguns momentos mais marcantes no modo como a planificação da obra é utilizada e o trabalho de cores é bastante bem-vindo, também, fazendo com que em termos visuais a obra funcione bem. Algumas personagens confundem-se um pouco entre si - e isso deve-se, essencialmente, ao modo simples como as suas expressões e fisionomias são retratadas - embora também mereça ser reconhecido que, através dos penteados e cores dos cabelos, a autora procure diferenciar as suas personagens tanto quanto possível. Acima de tudo, pode dizer-se que as ilustrações se ajustam bem ao tipo de obra que temos em mãos.

Entre Elas, de Pauline Spira - Nuvem de Letras - Penguin Random House
Já quanto à história, acompanhamos a estadia num castelo, para um daqueles cursos linguísticos de verão, de duas amigas adolescentes: Júlia e Mariana. Elas sempre foram as melhores amigas e poderem estar a passar uma temporada de férias juntas, afigura-se-lhes como (mais) uma experiência incrível nas suas vidas. Mas as coisas deixam de correr bem quando Mariana se começa a afastar de Júlia e a procurar novas amigas. Pior ainda, essas novas amigas parecem acolher Júlia com repúdio. E Mariana, em vez de defender a sua amiga, acaba por ficar mais próxima das suas novas amigas. 

Até aqui, a história até parece simplória e que já vimos esta storyline em muitos outros livros. Aparenta ser "mais do mesmo". Mas a trama adensa-se por dois motivos: em primeiro lugar, pelo facto de Júlia ter perdido recentemente a sua avó, o que transporta automaticamente a história para um relato sobre o luto na adolescência, oferecendo uma leitura mais profunda; e, em segundo lugar, pela escalada para o bullying e para as amizades tóxicas entre jovens. 

E assinale-se que nenhuma destas componentes me pareceu demasiado forçada ou que estava ali só para ser tema. Ao invés, a narrativa está bastante bem construída, tornando o relato muito verossímil. Com efeito, se queremos olhar para aquilo que o bullying pode ser, e os traumas que com isso surgem, este livro é uma perfeita porta de entrada. E está pensado para ser um bom caso de estudo, quer para jovens - que podem encontrar aqui algumas referências ou pontes de como devem e de como não devem agir quando confrontados com situações semelhantes -, quer para os próprios adultos. É que nós, adultos, passamos a vida a ouvir falar de bullying, mas se calhar sem a sensibilidade e exemplificação prática de como se manifestam tais atos.

Entre Elas, de Pauline Spira - Nuvem de Letras - Penguin Random House
Gostei bastante, pois, deste livro por estes motivos. Sem "surfar" em demasia o drama das amizades tóxicas e da tristeza da perda de um ente querido e próximo, o livro consegue alcançar um equilíbrio muito bom.

É igualmente relevante a forma subtil como a autora aborda a solidão. Mesmo num ambiente cheio de gente - um curso de verão, rodeado de jovens -, Júlia experiencia um isolamento que é profundamente notório. E outro ponto positivo reside na construção das dinâmicas de grupo. As novas amizades de Mariana não são apresentadas de forma caricatural, mas antes como uma realidade plausível, com comportamentos que facilmente se identificam no dia-a-dia escolar. 

Importa ainda sublinhar a forma como o livro demonstra que o bullying nem sempre se apresenta de forma explícita ou física. Especialmente, no caso das raparigas, normalmente mais vocais e menos físicas. Por isso, muitas das situações descritas assentam em exclusão social, comentários subtis ou atitudes passivo-agressivas, o que contribui para uma representação mais fiel deste fenómeno.

Do ponto de vista pedagógico, o livro revela-se especialmente útil. Pode funcionar como um instrumento de diálogo entre jovens e adultos, permitindo discutir temas difíceis sem cair em moralismos ou soluções simplistas. Essa capacidade de abrir espaço para conversa é uma das suas maiores qualidades. Lá em casa, já coloquei este livro na lista de livros que as minhas filhas podem e devem ler.

Em termos de edição, o livro apresenta capa mole, com badanas, baça e com detalhes a verniz. No miolo, o livro tem bom papel baço. A encadernação, impressão e acabamentos são bons.

Em suma, Entre Elas destaca-se pela sua honestidade emocional e pela forma equilibrada como aborda temas complexos. Sem recorrer a dramatizações exageradas, consegue construir uma narrativa consistente, sensível e relevante, que se afirma como uma leitura valiosa tanto para jovens como para adultos. Um sério candidato a melhor BD infanto-juvenil do ano.


NOTA FINAL (1/10):
8.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


-/-


Entre Elas, de Pauline Spira - Nuvem de Letras - Penguin Random House

Ficha técnica
Entre Elas
Autora: Pauline Spira
Editora: Nuvem de Letras (Grupo Penguin)
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 170 x 233 mm
Lançamento: Junho de 2026