Foi há poucas semanas que a editora Arte de Autor nos fez chegar uma das suas mais recentes apostas, que dá pelo nome de O Jardim, Paris e que marca a estreia da autora francesa Gaëlle Geniller em Portugal.
Esta é uma obra sensível, soberbamente bem ilustrada e com bom potencial para agradar a um público que não tem por hábito ler banda desenhada. E isso, quanto a mim, é sempre uma mais-valia que uma banda desenhada pode trazer consigo. Queremos - ou eu, pelo menos, quero - que a banda desenhada floresça em número de leitores.
Mas voltando a O Jardim, Paris, esta é uma obra que se passa na Paris dos anos 20 e que tem maioritariamente lugar no cabaret Jardim. É neste local que acompanhamos Rose, um jovem rapaz que é filho da proprietária do estabelecimento onde cada uma das dançarinas tem o nome de um flor. Crescendo naquele meio desde tenra idade, onde é o único homem, Rose começa a apaixonar-se pelo mundo feminino. Pelas roupas, pelas danças, pela sedução, pelo espetáculo.
E contrariamente àquilo que poderíamos esperar, Rose não encontra resistências por parte da sua mãe ou das suas colegas em se afirmar enquanto dançarino ou em vestir-se com roupas femininas. Pelo contrário, as suas colegas e mãe apoiam-no, ajudando-o a afirmar-se e a ter a sua quota parte nos espetáculos do Jardim. O que, naturalmente, tirando alguns receios de timidez de palco, fazem com que este passo importante na afirmação artística e pessoal de Rose chegue sem grandes tumultos. E a própria aceitação dos homens que frequentam o cabaret também chega sem grandes problemas. Mesmo que fossem homens que queriam ir a um cabaret ver mulheres a dançarem... estes encaixam com facilidade a nova presença do rapaz Rose. Tudo parece fácil para Rose, acontecendo com naturalidade e abertura por parte daqueles que o rodeiam..
E talvez seja mesmo essa facilidade, essa leveza, que tira algum do fôlego que a obra poderia almejar em temos de argumento, parece-me.
Devo dizer que apreciei bastante a poesia e a suavidade que emanam da história. E as personagens principais - que me remeteram várias vezes para Heartstopper - também me pareceram cativantes e empáticas. Ainda assim, sinto que este é um daqueles livros em que a história sabe a pouco, por lhe faltar alguma ousadia. Pois, chegados ao final das cerca de 200 páginas que compõem a obra, fica a sensação de que houve pouca ou nenhuma evolução narrativa significativa. Não há bem vilões, não há bem barreiras que o protagonista tente ultrapassar, o que torna o relato algo plano. Por vezes, ficamos com a ideia que algo vai abalar o enredo, como uma entrevista feita a Rose por um importante jornalista ou a paixão latente entre um cliente habitual do cabaret e Rose... mas estes elementos acabam sempre a pairar no ar, não sendo tão bem aproveitados como poderiam.
Poder-se-á dizer que isto é coisa típica de obras slice of life, que apenas nos procuram dar o vislumbre de algo - e isso é defensável - mas, a meu ver, e sendo uma obra de cariz claramente pró‑LGBTQ+, confesso que esperava uma abordagem mais profunda aos preconceitos e dificuldades inerentes a um cabaret onde - convém não esquecer - há mais de cem anos, um homem se vestia de mulher para dançar. Em vez disso, o mundo que nos é apresentado é extraordinariamente leve, quase idealizado, onde todos convivem de forma pacífica e compreensiva. Isso torna o relato menos verosímil e um pouco “ursinhos carinhosos” em demasia, se é que me entendem.
Compreendo, naturalmente, que possa ter sido intenção da autora imaginar um espaço seguro, um mundo alternativo mais justo e acolhedor para quem lida com questões de género e identidade - mesmo que esse mundo tenha como janela temporal o primeiro quarto do século XX. E também compreendo que nem todas as histórias precisam de assentar no sofrimento e na injustiça. Ainda assim, parece-me que esta opção torna o livro algo imberbe, quase infantil no seu conflito. Acredito sinceramente que O Jardim, Paris teria alcançado muito com uma abordagem mais ousada e madura ao nível narrativo, à altura da extraordinária qualidade do seu desenho.
E já que, finalmente, menciono o desenho desta obra, permitam-me dizer-vos que é nele que o trabalho de Gaëlle Geniller brilha verdadeiramente, com a ilustração a ser absolutamente fantástica! O traço da autora francesa é fino, elegante e profundamente expressivo, conseguindo transmitir emoções subtis com enorme eficácia. As personagens apresentam uma estética apaixonante e extremamente cuidada, que capta de imediato a atenção do leitor e o convida a permanecer neste universo boémio parisiense.
Além disso, este traço casa de forma exemplar com a recriação dos anos 20. Há uma clara fusão de referências entre o estilo Art Nouveau e Art Déco, visível tanto na arquitetura interior do Jardim, como nos padrões decorativos, nos cenários e nos objetos. As roupas e os penteados das personagens merecem também destaque especial. Há nelas uma classe, um requinte e uma elegância notáveis, que contribuem fortemente para a imersão na época. É impossível não admirar o cuidado estético colocado em cada página, com tudo a parecer pensado ao pormenor, criando uma identidade visual coerente e sedutora.
Não admira, por isso, que tenha sido precisamente nesta componente visual que o livro se tenha destacado ao ponto de conquistar um prémio no Festival Lucca Comics & Games de 2022. Trata-se de um trabalho verdadeiramente lindo, detalhado e delicado, que demonstra uma maturidade artística impressionante. O desenho não é apenas bonito; é narrativo, expressivo e cheio de intenção. Fiquei fã da autora, confesso. Só no desenho dos automóveis, o trabalho de Gaëlle Geniller me desiludiu um pouco. Mas são poucos os automóveis que aparecem no livro e tudo o resto é extremamente bem executado.
E permitam-me ainda afirmar que até as cores acompanham este virtuosismo gráfico de forma exemplar. A paleta escolhida é harmoniosa e subtil, enriquecendo o ambiente e reforçando o tom melancólico e acolhedor do Jardim.
A edição da Arte de Autor também é belíssima. A capa é verdadeiramente cativante, sendo em capa dura, com textura aveludada e belos detalhes a verniz, colocado em pontos estratégicos da luz presente na ilustração, o que eleva a beleza da capa. No miolo, o papel é brilhante e de boa qualidade. Tal como a impressão e a encadernação também o são. No final, há ainda um caderno de extras, com 10 páginas, onde podemos encontrar estudos de personagens, esboços, estudos de storyboards e outras ilustrações, o que torna a edição ainda melhor.
Em suma, O Jardim, Paris é um livro que emana beleza da primeira à última página. Visualmente, é uma obra arrebatadora, com uma beleza ímpar nas suas ilustrações, que a torna única e inesquecível. Quanto à história, com um tema atual e sempre bem-vindo, poderia, quanto a mim, ter sido mais audaz e mais marcante, abdicando de uma talvez excessiva leveza. Mesmo assim, é um belo livro que, não tenho dúvidas, encontrará facilmente a sua franja de mercado. Boa escolha da Arte de Autor!
NOTA FINAL (1/10):
8.5
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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O Jardim, Paris
Autora: Gaëlle Geniller
Editora: Arte de Autor
Páginas: 224, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 17 x 24 cm
Lançamento: Março de 2026
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