sexta-feira, 31 de julho de 2026

O Vinheta 2020 vai de férias!


Durante os próximos dias, o Vinheta 2020 estará de férias, em boa companhia, e a ler tanta BD quanto possível.

Não quer dizer que não faça um ou outro post, mas não estranhem se a atividade aqui e nas redes sociais reduzir muito.

Boas férias a todos e às vossas famílias!

Até já,

Vinheta 2020

Liliana Maia autoedita a sua nova obra BD!



A autora portuguesa Liliana Maia, já com alguma experiência no lançamento de BD de foro mais independente, acaba de lançar o seu novo livro, intitulado BD Compilações I, em regime de autoedição.

Esta obra reúne quatro histórias e, a julgar pelo seu nome, pode ser o primeiro de outro(s) volume(s) vindouros. A autora faz saber que é ela que assume todo o processo de criação, não só da obra, em termos artísticos, como também da própria produção gráfica do livro enquanto objeto físico.

Destina-se a um público mais juvenil, mas leitores adultos também são bem-vindos.

Faço ainda uma nota, de louvor, para o facto de a autora oferecer 10% do valor de cada livro vendido para a causa da ACNUR organização da ONU para os Refugiados.
Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


BD Compilações I, de Liliana Maia

A primeira história chama-se Vilca, dois personagens Paulo e Raquel lutam pela libertação de Vilca a sua terra contra a raça malévola os Folda em que era suposto consolidarem a sua relação um com o outro mas acabam por se separar depois de Paulo renunciar ao cargo de governador da cidade.
41 páginas

A segunda história chama-se Maria, quase uma caso de bulling, em que uma fada ajuda Maria a voltar para o grupo onde Paula sente ciúmes dela. 
10 páginas

A terceira história chama-se Rangale, a história de um grupo de veados que avista um bébé abandonado na estrada e é a razão de dois caçadores não os abaterem e resolverem colocá-los numa reserva natural, o Parque Natural de Bongotá. 
19 páginas

A quarta e última história é Felo um curandeiro que tira uma curso de medicina em Sebol a cidade e decide percorrer os arredores de Sebol para curar quem precise da sua ajuda em cima do seu camelo fornecido por Ledas. 
20 páginas.


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Ficha técnica
BD Compilações I
Autora: Liliana Maia
Auto-Edição
Páginas: 96, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 16,5 x 24 cm
PVP: 32,00€ (portes de envio incluídos) -  10% das vendas vão para a causa da ACNUR organização da ONU para os Refugiados
Encomendas através do seguinte contacto: lilianamaia346@gmail.com



Chega hoje às bancas a nova Novela Gráfica da Levoir e do Público!



Já está disponível nas bancas portuguesas o novo livro da Coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do jornal Público!

Esta nova obra intitula-se Albert Londres tem de Desaparecer e é da autoria de Frédéric Kinder e Borris, contando-nos a história de um dos jornalistas mais interessantes e influentes de sempre: Albert Londres.

Já tive oportunidade de ler o livro e posso dizer-vos que é uma boa adição a esta coleção. Brevemente falarei sobre o mesmo, num texto de análise, aqui no Vinheta 2020.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora e com algumas imagens promocionais.

Albert Londres tem de Desaparecer, de Frédéric Kinder e Borris

A Levoir e o jornal Público editam a 31 de Julho, Albert Londres tem de desaparecer, uma novela gráfica entre a biografia e a ficção, uma proposta de Frédéric Kinder e Borris sobre o fim trágico daquele que, ainda hoje, é considerado um dos pioneiros do jornalismo de investigação. 

Londres não se limitava a relatar as notícias, mas criava-as e abordava-as de uma perspetiva pessoal. Criticava os abusos do colonialismo, como o trabalho forçado.

Quando, em dezembro de 1931, Albert Londres embarcou para a China, ninguém sabia ao certo o que ele ia lá fazer. 

Nenhum jornal o tinha enviado e os seus concorrentes questionavam-se sobre que tipo de furo jornalístico ele iria conseguir trazer, numa altura em que Xangai se encontrava no centro do conflito sino-japonês. Depois das suas reportagens que causaram grande alvoroço sobre a prisão de Cayenne, sobre o tráfico de mulheres na Argentina ou sobre o tratamento indigno dos internados em hospitais psiquiátricos, é um tráfico de armas e ópio que Albert Londres vai revelar na Ásia. Mas as revelações que o jornalista se prepara para fazer, são «dinamite», segundo as suas próprias palavras, incomodam as altas esferas, a começar pela Marinha francesa, que está envolvida nesse tráfico (que mais tarde ficaria conhecido como French Connection!). Além disso, o seu desaparecimento no naufrágio do Georges Philippar, no regresso da China em maio de 1932, deixa pairar a dúvida sobre o carácter acidental da sua morte.

Frédéric Kinder é diretor artístico e ilustrador nas áreas da edição e da publicidade. Com esta obra recebeu o Prémio de Banda Desenhada da RTL 2022. Assina o seu segundo álbum de banda desenhada sobre o destino do maior dos repórteres franceses.

Borris é um autor e ilustrador francês de BD. Depois de obter um mestrado em artes plásticas, iniciou a sua carreira em 1999, publicando histórias curtas de banda desenhada na fanzine PLG. A par do seu trabalho na área da banda desenhada, Borris realiza ilustrações para o mundo editorial e para a imprensa.

Novelas já editadas: A Aranha de Mashaad; Dostoiévski: O sol negro, Dez Mil Elefantes, Partir, ficando, e Formosa.

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Ficha técnica
Albert Londres tem de Desaparecer
Autores: Frédéric Kinder e Borris
Editora: Levoir
Páginas: 104, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 X 270 mm
PVP: 16,90€

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Análise: Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas)

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa
Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil)

Recentemente aproveitei a oportunidade para mergulhar no universo de Michel Vaillant, lendo alguns dos livros que mais recentemente foram por cá editados pela editora ASA. É por isso que hoje vos trago um artigo sobre seis(!) dos últimos livros de Michel Vaillant. E a minha conclusão perante estas obras não é propriamente animadora, tenho que confessar. Mas já la irei.

Hoje falo-vos um pouco de Redenção e Remparts (Lapière, Bourgne e Eillam); de No Inferno de Indianápolis e Alma dos Pilotos (Lapière e Dutreuil); e de Origens e Seventies (Jean Graton).

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa
Há que admitir que todos estes livros demonstram bem que a marca Michel Vaillant, originalmente criada por Jean Graton, continua viva e editorialmente ativa. Contudo, essa vitalidade quantitativa está longe de se refletir numa verdadeira relevância criativa. Entre os álbuns da série Nova Temporada, os títulos da nova coleção Corridas Lendárias e os volumes de Histórias Curtas, recuperadas do passado, fica a sensação de que a franquia atravessa uma crise de identidade profunda, dividida entre a tentativa de modernização, por um lado, e a incapacidade de encontrar uma voz verdadeiramente contemporânea, por outro. Se quiserem ler um bom livro deste universo, leiam Henri Vaillant. Esse, sim, não sendo perfeito, foi dos melhores livros deste universo que li em anos. O único que, sinceramente, vale mesmo a pena. A não ser que sejam fãs incondicionais da série, está claro.

Começando pelos dois volumes mais recentes da série moderna, posso dizer-vos que Redenção e Remparts, assinados por Philippe Lapière, Marc Bourgne e Eillam, ilustram bem essa dificuldade criativa que se regista nesta série. Isto porque apesar destes dois livros - e dos seus antecessores - procurarem inserir Michel Vaillant no contexto atual do desporto automóvel, com temas contemporâneos e uma maior preocupação com o realismo das competições, os resultados dificilmente ultrapassam a mediania.

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa
Não são trabalhos intragáveis, mas são "fraquinhos", com as histórias a carecerem de impacto, audácia e, ironicamente, contemporaneidade. Os enredos desenvolvem-se de forma funcional, previsível e pouco memorável ou inspirada. Existe ainda uma certa dificuldade em criar personagens verdadeiramente cativantes. Michel Vaillant continua a ocupar o centro da narrativa, claro, mas é uma personagem bastante unidimensional, que raramente demonstra a profundidade ou complexidade necessárias para sustentar sozinho o (pouco) peso dramático das histórias. E muitas das figuras secundárias surgem como instrumentos narrativos, sem espaço para evoluírem ou se tornarem realmente interessantes.

Os desenhos são competentes e reconhecíveis, mas raramente impressionam - muito embora, considere as capas desta Nova Temporada muito bonitas. Há dinamismo suficiente para ilustrar as corridas, mas falta alguma personalidade artística. Tudo parece funcional, mas pouco inspirado, mostrando que, mais do que tudo, estes álbuns estão a ser produzidos para cumprir uma determinada fórmula editorial previamente estabelecida. E o resultado é uma série que, de tempos a tempos, ainda consegue apresentar um volume relativamente interessante, mas que raramente deixa qualquer marca duradoura no leitor. 

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa
E quando terminamos a leitura, a sensação predominante não é a de termos acompanhado uma história marcante, mas apenas mais um episódio de uma série que continua a avançar por capricho editorial ou para continuar a alimentar um público envelhecido e nostálgico que talvez esteja mais preocupado em continuar a comprar a série, por colecionismo, do que por qualidade.

Essa sensação torna-se ainda mais evidente quando chegamos à coleção Michel Vaillant - Corridas Lendárias. Em teoria, a iniciativa tinha potencial: recuperar o espírito clássico da obra de Jean Graton, apostar em histórias mais autocontidas e celebrar momentos históricos do automobilismo. Na prática, porém, o resultado revela-se profundamente decepcionante.

Tanto No Inferno de Indianápolis como A Alma dos Pilotos parecem existir num território desconfortável entre a homenagem e, com todo o respeito, a imitação barata. As histórias tentam recriar o ambiente dos álbuns clássicos sem, contudo, compreender aquilo que os tornava especiais. O resultado são narrativas pouco inspiradas, previsíveis e incapazes de gerar verdadeiro entusiasmo.

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa
E o problema agrava-se ao nível gráfico. Se a série moderna é competente sem maravilhar, esta coleção dá frequentemente a sensação de regressão. As personagens apresentam expressões faciais rígidas e pouco naturais e muitas sequências transmitem uma estranha falta de energia. Em vez de homenagear Graton, acabam por destacar a distância - abismo! - que separa estes novos autores da qualidade do criador original.

O mais frustrante, pois por isso, é que Corridas Lendárias falha em ambas as direções possíveis. Não consegue ser uma continuação digna do legado clássico e também não tem a coragem de propor algo verdadeiramente novo. É uma série que parece ficar presa numa espécie de nostalgia sem ambição, limitando-se a reproduzir - de forma superficial - alguns elementos familiares, mas sem encontrar uma razão convincente para existir.

Curiosamente, - ou deverei dizer, expectavelmente? - a iniciativa mais interessante entre estes seis livros acaba por ser a mais simples: a publicação dos volumes Michel Vaillant - Histórias Curtas 1: Origens e Michel Vaillant - Histórias Curtas 2: Seventies. Não porque estas histórias sejam irrepreensíveis, mas porque oferecem algo que as restantes obras dificilmente conseguem reproduzir: autenticidade.

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa
Ao ler estas narrativas assinadas por Jean Graton, o criador original da série, percebemos imediatamente que estamos perante um autor que possuía uma visão clara da sua criação. Existem limitações evidentes, naturalmente associadas à época em que muitas destas histórias foram produzidas, mas também existe uma energia criativa e uma personalidade que se tornaram raras nas produções mais recentes.

É verdade que várias destas histórias não envelheceram particularmente bem. A narrativa sobrecarregada de texto pode parecer ingénua, bem como algumas soluções dramáticas são datadas, pertencendo claramente a outro tempo. No entanto, existe nestes livros uma honestidade criativa que acaba por compensar muitas dessas fragilidades.

Além disso, estes dois volumes funcionam como uma espécie de "auto-homenagem" ao percurso de Jean Graton, pois permitem ao leitor acompanhar a evolução do autor, revisitar momentos importantes da personagem e compreender melhor as raízes de uma série mítica como esta. 

Em termos de edição, todos os livros apresentam um aspeto agradável. No miolo, os seis livros têm bom papel brilhante, com a encadernação e impressão a estarem igualmente bem executadas. Todas as capas são duras, embora as dos livros da Nova Temporada apresentem acabamento brilhante, enquanto as outras são baças. O formato dos livros de Corridas Lendárias e de Histórias Curtas é ligeiramente superior aos de Nova Temporada. Finalmente, os dois livros de Histórias Curtas incluem textos de apoio. E o primeiro dos dois, Michel Vaillant - Histórias Curtas 1: Origens tem ainda, no final, um texto particularmente interessante, o que beneficia em muito a edição.

No final, a conclusão não é particularmente animadora. Michel Vaillant continua a ser uma marca ativa, mas dificilmente se pode dizer que esteja a atravessar um período criativamente relevante. Talvez ainda exista um público fiel e envelhecido que continue a acompanhar estas publicações por afeto e nostalgia. É perfeitamente legítimo. O problema é que, olhando apenas para a qualidade das obras, é difícil evitar a sensação de que Michel Vaillant vive cada vez mais da memória do que da capacidade de continuar a produzir banda desenhada verdadeiramente memorável.


NOTAS FINAIS (1/10):
Redenção: 7.0
Remparts: 6.8
No Inferno de Indianápolis: 6.0
Alma dos Pilotos: 5.5
Histórias Curtas 1: Origens: 8.0
Histórias Curtas 2: Seventies: 7.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa

Fichas técnicas
Michel Vaillant - Redenção
Autores: Lapière, Bourgne e Eillam
Editora: ASA
Páginas: 56, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 294 x 221 mm
Lançamento: Novembro de 2024

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa

Michel Vaillant - Remparts
Autores: Lapière, Bourgne e Eillam
Editora: ASA
Páginas: 56, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 294 x 221 mm
Lançamento: Março de 2026

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa

Michel Vaillant - Corridas Lendárias 1 - No Inferno de Indianápolis
Autores: Lapière e Dutreuil
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 320 x 240 mm
Lançamento: Março de 2025

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa

Michel Vaillant - Corridas Lendárias 2 - A Alma dos Pilotos
Autores: Lapière e Dutreuil
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 320 x 240 mm
Lançamento: Maio de 2026

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa

Michel Vaillant - Histórias Curtas 1 - Origens
Autor: Jean Graton
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 320 x 240 mm
Lançamento: Junho de 2023

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa

Michel Vaillant - Histórias Curtas 2 - Seventies
Autor: Jean Graton
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 320 x 240 mm
Lançamento: Março de 2024

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Análise: Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia

Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia, de Frédéric Brrémaud e Alberto Zanon - Arte de Autor

Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia, de Frédéric Brrémaud e Alberto Zanon - Arte de Autor
Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia, de Frédéric Brrémaud e Alberto Zanon

Foi já durante o presente ano que a editora Arte de Autor publicou mais um volume da sua coleção dedicada à adaptação para banda desenhada dos clássicos de Agatha Christie. Esta é, relembro, a maior coleção - em número de volumes - da editora.

Desta vez, estamos perante a obra Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia, do argumentista Frédéric Brrémaud (que desta feita assina o seu apelido com dois R's - não é erro da editora, descansem, é mesmo assim que o autor assinou este livro na sua edição original) e do ilustrador Alberto Zanon. Esta dupla tem-nos oferecido aquelas que considero as melhores obras desta coleção. E, mais uma vez, o trabalho de ambos é bastante meritório.

Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia, de Frédéric Brrémaud e Alberto Zanon - Arte de Autor
No caso em apreço, Hercule Poirot e o capitão Hastings estão de férias na Cornualha, onde conhecem a jovem Nick Buckley, uma proprietária de uma casa situada no topo de uma falésia. Nick afirma ter sobrevivido a uma série de estranhos "acidentes" que, segundo Poirot, são na realidade tentativas de homicídio. Poirot fica, então, convencido de que alguém pretende assassinar esta jovem mulher e decide protegê-la, investigando quem, entre os amigos e conhecidos que frequentam a casa, poderá ter um motivo para a eliminar. 

Como seria de esperar, tendo em conta que estamos perante uma obra extraída da mente intricada de Agatha Christie, à medida que a investigação avança Hercule Poirot depara-se com uma teia de mentiras, identidades ambíguas e interesses ocultos. E o caso torna-se ainda mais complexo quando ocorre uma morte que parece confirmar os piores receios do detective. Obviamente, Poirot consegue reunir pistas aparentemente insignificantes - daquelas que passam pelos nossos olhos sem que delas demos conta, mesmo sabendo de que se trata de uma obra de Agatha Christie - e consegue desmontar as falsas aparências que rodeiam os habitantes e hóspedes da Casa da Falésia. 

Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia, de Frédéric Brrémaud e Alberto Zanon - Arte de Autor

Brrémaud volta a conseguir adaptar bem o romance original para banda desenhada, mantendo a estrutura fundamental da obra original e preservando os seus elementos cruciais: os falsos indícios, que fintam os leitores; as suspeitas constantes, que vamos construindo enquanto lemos a obra; e a cuidadosa construção do suspense

Apesar da condensação narrativa, o leitor continua a ser convidado a observar pistas, formular hipóteses e tentar antecipar a solução antes da revelação final. E é precisamente essa participação ativa que torna a leitura particularmente satisfatória. É quase como se fosse um jogo, estilo escape room, que já sabemos que teremos que fazer, ainda antes de mergulharmos na leitura.

Não apreciei tanto o excesso da reprodução integral de correspondência entre personagens, mas também aceito que seria difícil abordar o assunto dessas cartas de outra forma num livro que apenas tem 64 páginas.

Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia, de Frédéric Brrémaud e Alberto Zanon - Arte de Autor
No plano gráfico, também Alberto Zanon volta a realizar um trabalho muito competente. O seu traço é claro, limpo, expressivo e acessível, favorecendo a legibilidade da narrativa. As personagens, mesmo sendo várias, distinguem-se facilmente entre si e as suas expressões faciais ajudam a transmitir emoções, aspeto particularmente relevante numa história assente em mentiras, disfarces e segundas intenções. Os cenários também constituem outro dos pontos fortes da obra. A recriação da Cornualha, da casa - quer vista de fora, quer vista de dentro, através dos seus elegantes interiores - bem como os jardins, contribui para uma forte sensação de época. 

Confesso que dei conta de, em algumas vinhetas, o desenho do autor parecer um pouco mais rápido e menos aprumado quando comparado com outros álbuns do autor. Não é nada que comprometa negativamente a nossa experiência de leitura, simplesmente faz com que este não seja o álbum com os melhores desenhos que o autor já fez para esta coleção.

A edição da Arte de Autor é em capa dura brilhante, com bom papel baço no interior. De resto, o trabalho de encadernação e impressão também está bem feito.

Em suma, Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia é mais uma adaptação sólida, elegante e respeitadora da obra de Agatha Christie. Frédéric Brrémaud e Alberto Zanon voltam a conseguir equilibrar fidelidade e acessibilidade neste trabalho, como já o haviam feito noutras adaptações com que contribuíram para esta coleção.


NOTA FINAL (1/10):
8.4



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia, de Frédéric Brrémaud e Alberto Zanon - Arte de Autor

Ficha técnica
Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia
Autores: Frédéric Brémaud e Alberto Zanon 
Adaptado a partir da obra original de: Agatha Christie
Editora: Arte de Autor
Páginas: 56, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Fevereiro de 2026

O Amadora BD mais que duplica o valor do seu prémio!


São boas notícias para a banda desenhada em Portugal!

A organização do Amadora BD acaba de anunciar que o valor pecuniário do Prémio atribuído à categoria Melhor Obra de Banda Desenhada de Autor Português passa de 5.000 para 10.000€! E isto é fantástico e aumenta, naturalmente, o impacto deste prémio!

E as boas notícias não ficam por aqui: a obra vencedora da categoria Prémio Revelação passa a receber o valor pecuniário de 3.000€, quando até aqui não recebia qualquer valor em dinheiro.

Também na categoria de Melhor Edição Portuguesa de Banda Desenhada, o Município da Amadora procederá à aquisição de 100 exemplares desse livro vencedor, o que também acaba por ser um prémio para a editora que, desta forma, assegura a venda de 100 livros.

Em termos de jurados, também há alterações. Para além de um elemento proposto pelo Município e por um especialista em BD, que linha com o passado, passa agora a integrar no conjunto dos três jurados, o vencedor do prémio Melhor Obra de Banda Desenhada de Autor Português do ano passado. No caso em apreço, será Luís Louro a desempenhar essa função este ano.

Tenho que dar os parabéns à Organização do Amadora BD. Confesso que ainda acho que o júri deveria ser alargado, pelo menos, a 5 elementos, mas também tenho que ser justo e assinalar a importância de todas as coisas que já assinalei e que vão melhorar, certamente, estes prémios.

Bom trabalho!

Deixo-vos, aqui, com o novo regulamento completo.

terça-feira, 28 de julho de 2026

Análise: Wild West - Volumes 4 e 5


Wild West - Volumes 4 e 5 - A Lama e o Sangue | Redenção, de Thierry Gloris e Jacques Lamontagne

Com o volume 4, intitulado A Lama e o Sangue, da série Wild West publicado no mês passado de abril, a editora Ala dos Livros não esperou muito tempo até lançar o álbum mais recente desta série da autoria de Thierry Gloris e Jacques Lamontagne  que, deste modo, fica a par com a edição original da obra em termos de lançamentos. Este quinto e novo volume chama-se Redenção e acaba de chegar às livrarias.

Como tal, foi razão para que eu pudesse ler estes dois volumes de forma seguida. E, mais uma vez, posso dizer-vos que esta é uma série do estilo western que me deixa especialmente agradado, mesmo admitindo que os últimos volumes, em especial o volume 4, caíram ligeiramente em qualidade.

Depois do excelente Escalpes em Série, aquele que considerei o melhor da série até agora, as minhas expectativas eram naturalmente elevadas, até porque esta coleção se tem afirmado como uma das mais consistentes abordagens ao western na banda desenhada franco-belga contemporânea. Se o quarto volume encerra o segundo ciclo narrativo da série, o quinto tomo inaugura uma nova etapa para estas personagens, com resultados distintos, mas igualmente interessantes.

Mas falemos de cada volume em particular.

Em A Lama e o Sangue, continuamos a acompanhar Wild Bill Hickok, Calamity Jane e Charlie Utter na perseguição ao assassino que marcou os acontecimentos de Escalpes em Série. Desta feita, e relembrando que em cada um dos tomos há sempre uma nova personagem que é inspirada em figuras históricas reais, a nova personagem é Bass Reeves, uma personagem absolutamente fascinante da história americana, por ser um dos primeiros U.S. Marshals negros. 

Paralelamente, a narrativa alarga o seu foco para os conflitos em torno da expansão ferroviária, do tratamento reservado aos povos indígenas e da utilização dos Soldados Búfalo (soldados afro-americanos), acrescentando uma importante dimensão histórica e social ao enredo.

O álbum começa de forma particularmente promissora. As primeiras páginas conseguem articular muito bem o mistério em torno dos assassinatos com questões históricas reais, explorando as tensões raciais e culturais da América do século XIX. A inclusão dos Soldados Búfalo revela-se especialmente interessante, não só pelo valor histórico da sua presença, mas também pelas ambiguidades morais que a sua utilização levanta dentro da narrativa, claro está.

Contudo, à medida que a história progride, fica a sensação de que parte desse potencial inicial não é totalmente aproveitado. O enredo encaminha-se para soluções mais convencionais e para uma sucessão de confrontos que, embora visualmente impressionantes, nem sempre parecem surgir de forma totalmente orgânica. Existe ação em abundância, sim, mas por vezes ela surge quase como um fim em si mesma, ocupando espaço que poderia ter sido dedicado a aprofundar algumas personagens ou conflitos.

Isto não significa que o álbum seja fraco. Longe disso. Simplesmente, depois da densidade dramática e da excelente gestão de ritmo que encontrámos em Escalpes em Série, este quarto volume parece um pouco mais apressado e menos refinado no desenvolvimento de algumas das suas ideias mais interessantes. É o tomo mais fraco - ou menos forte, como preferirem - da série, quanto a mim.

Redenção, segue uma abordagem bastante diferente. Após os acontecimentos traumáticos do ciclo anterior, encontramos agora Wild Bill, Calamity Jane e Charlie Utter estabelecidos em Dolores City. Bill desempenha funções de xerife, Charlie tornou-se carteiro e Jane continua a travar uma batalha contra os seus próprios vícios, cedendo ao alcoolismo. Parece que, exceptuando Calamity Jane, Wild Bill e Charlie Utter alcançaram uma vida de amena normalidade. Isto até à chegada da família Ballou, que promete pôr a tranquilidade da pequena cidade em causa.

Desde cedo se percebe que este quinto volume tem objetivos bastante diferentes, pois, ao contrário do tomo antecessor, não procura impressionar-nos através de uma sucessão constante de confrontos ou revelações. Como tal, o ritmo é mais pausado, mais contemplativo e claramente orientado para a construção das personagens e das relações entre elas. É uma opção que poderá surpreender alguns leitores - especialmente tendo em conta o tomo anterior -, mas que, na minha opinião, beneficia bastante a narrativa.

A presença dos Ballou e da lendária Belle Starr funciona sobretudo como catalisador para explorar as fragilidades e os conflitos das personagens principais, com a história a "respirar" de forma mais natural. Existe uma clara sensação de construção, como se este álbum estivesse deliberadamente a posicionar as peças para acontecimentos mais relevantes futuros. O resultado é um álbum que talvez tenha menos momentos de ação memoráveis, mas que oferece maior consistência dramática. Como se fosse a preparação de algo maior que há de chegar no tomo seguinte, Dolores City.

De uma forma geral, continuo a apreciar muito esta série. Wild West consegue encontrar um equilíbrio raro entre rigor histórico e liberdade ficcional. Embora as aventuras sejam obviamente romanceadas, existe sempre um pé bem assente em factos, personagens e contextos reais, o que contribui para uma maior credibilidade e riqueza da narrativa. Como se, à boa maneira de Lucky Luke, que procurou sempre falar-nos de uma figura ou de um tema real do faroeste, a história se tornasse mais verossímil. E, claro, quando comparada com a série do "cowboy que dispara mais depressa do que a própria sombra", Wild West consegue ser mais madura e realista no conteúdo e forma.

No plano gráfico, o trabalho de Jacques Lamontagne continua a ser verdadeiramente espetacular. O seu traço permanece impressionante, quer na representação das personagens históricas, quer na recriação dos ambientes do Oeste americano. Existe um cuidado constante com os enquadramentos, as expressões faciais e os cenários, fazendo com que cada página seja visualmente apelativa. Por vezes, pode aparecer uma ou outra expressão mais "cartoonizada" do que aquilo que seria expectável, mas de um modo geral, tudo funciona muito bem no plano visual da obra.

E são especialmente memoráveis algumas das ilustrações de página dupla que surgem ao longo destes dois volumes, e que acabam por constituir verdadeiros momentos de espetáculo visual que demonstram todo o talento de Lamontagne. Também em termos de cores, o trabalho do autor é impressionante, especialmente em termos de luz, em cenas com iluminação interior.

Quanto à edição destes livros, a mesma está em linha com os restantes volumes da série, como seria expectável. Os livros têm capa dura baça, com detalhes a verniz, e o papel no interior é brilhante e de boa qualidade. A impressão e a encadernação também são boas.

Em suma, Wild West continua a ser uma série obrigatória para todos os fãs do western em BD e um persuasivo convite aos leitores menos experientes em obras do género, mesmo ficando no ar a sensação de que o quarto volume ficou uns furos abaixo dos restantes. A boa notícia é que Redenção recupera uma abordagem mais ponderada e centrada nas personagens, inaugurando de forma bastante promissora um novo ciclo da série. Que venha o próximo volume!


NOTA FINAL (1/10):
Wild West #4 - A Lama e o Sangue: 8.4
Wild West #5 - Redenção: 9.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Fichas técnicas
Wild West #4 - A Lama e o Sangue
Autores: Thierry Gloris e Jacques Lamontagne
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Abril de 2026


Wild West #5 - Redenção
Autores: Thierry Gloris e Jacques Lamontagne
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Julho de 2026


Análise: Formosa

Formosa, de Li-Chin Lin - Levoir - Jornal Público

Formosa, de Li-Chin Lin - Levoir - Jornal Público
Formosa, de Li-Chin Lin

A quarta obra editada na mais recente Coleção de Novelas Gráficas da editora Levoir e do jornal Público correspondeu ao livro Formosa, de Li-Chin Lin, que marca a estreia da autora taiwanesa em Portugal. 

Esta é uma obra autobiográfica em que Li-Chin Lin revisita a sua infância e juventude em Taiwan para refletir - e nos fazer refletir - sobre como se constrói a identidade de um indivíduo num contexto marcado pela propaganda política e pelo autoritarismo. 

A obra acompanha, pois, o percurso da autora desde a infância até ao despertar da sua consciência crítica, apresentando simultaneamente um retrato pessoal e uma reflexão sobre a história recente de Taiwan. 

Nascida em Taiwan nos anos 1970, Li-Chin Lin pertence a uma geração educada sob a influência do regime do partido Kuomintang, que promoveu uma forte doutrinação ideológica nas escolas e na sociedade em geral, através do culto da personalidade de Chiang Kai-shek e da transmissão de uma "versão oficial" da história.

Formosa, de Li-Chin Lin - Levoir - Jornal Público
E o que mais me impressionou neste relato foi a dicotomia, o conflito de opiniões e formas de estar, que afetou a Li-Chin Lin nos seus tempos de criança. É que enquanto a escola transmitia uma determinada visão da nação e da história, sempre enaltecendo os enormes feitos da China, a autora crescia num ambiente familiar onde sobreviviam outras memórias e referências culturais japonesas. Os avós falavam japonês, herança do período colonial japonês, o que revelava a coexistência de identidades distintas e frequentemente silenciadas pelo discurso oficial. Segundo o regime, todas as referências e cultura vindas do Japão, antigo colonizador de Taiwan, deveriam ser renegadas pelos taiwaneses, em detrimento do culto de toda a cultura chinesa. Por um lado, Li-Chin Lin ganhava concursos escolares de ilustração com desenhos pró-regime chinês; por outro lado, cedo começou a ter um enorme fascínio pela cultura japonesa, em especial o mangá e o anime. 

A questão da identidade cultural assume, pois, um papel fundamental ao longo da obra, com a autora a demonstrar que a identidade taiwanesa não pode ser reduzida a uma única narrativa. E é algo que ainda importa relembrar a tantas pessoas por esse mundo fora. A convivência entre diferentes línguas, culturas e memórias históricas evidencia a complexidade, em particular, da sociedade taiwanesa. Aliás, se pensarmos bem, o próprio título da obra apresenta um forte significado simbólico, pois "Formosa" foi o nome atribuído pelos navegadores portugueses à ilha de Taiwan no século XVI e, ao recuperar esta designação histórica, Li-Chin Lin sublinha a multiplicidade de influências culturais que moldaram a identidade da ilha.

Formosa, de Li-Chin Lin - Levoir - Jornal Público
Outro tema relevante na obra é a educação como instrumento de controlo ideológico, pois este Formosa evidencia bem a influência que a escola exerce - ou pode exercer - na formação das crianças e na construção da sua visão do mundo. Ao mostrar a repetição constante de símbolos patrióticos e mensagens políticas, a autora revela a forma como o poder utiliza a educação para moldar mentalidades e legitimar a sua autoridade.

Por outro lado, à medida que Li-Chin Lin foi crescendo, e a pensar pela sua própria cabeça - coisa que, vá-se lá saber porquê, os regimes autoritários não costumam apreciar -, começou a detectar várias contradições do regime e as diferenças entre aquilo que lhe era ensinado e a realidade que observava. O próprio e infame episódio na Praça Tiananmen, em 1989, foi um claro exemplo para que Li-Chin Lin começasse a questionar não apenas o regime chinês, mas também os mecanismos de poder e propaganda presentes em Taiwan. Este episódio marca simbolicamente a passagem da inocência para uma consciência política mais madura.

Quanto às ilustrações, devo dizer que foi talvez nesta dimensão da obra que Formosa menos me convenceu. Embora os desenhos, com influência clara no mangá, cumpram eficazmente a sua função narrativa e transmitam com clareza as emoções, ideias e contextos históricos que Li-Chin Lin pretende explorar, o estilo gráfico parece por vezes excessivamente pouco aprimorado e próximo de um esboço. O traço solto e aparentemente inacabado transmite espontaneidade e autenticidade, reconheço, mas nem sempre proporciona uma experiência visual particularmente apelativa. Em vários momentos, a sensação é a de estarmos perante páginas de um caderno de apontamentos transformadas diretamente em banda desenhada.

Formosa, de Li-Chin Lin - Levoir - Jornal Público
Senti também uma certa acumulação de texto, imagens, notas e comentários visuais, o que torna certas sequências densas e algo confusas, fazendo com que a leitura seja menos fluida do que seria desejável. Mesmo assim, também tenho que apontar que há certos bons momentos ao nível da ilustração, especialmente quando a autora interpreta, de forma humorística e hiperbolizada, certas cenas ou reações das personagens.

Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, bom papel baço, boa impressão e boa encadernação. No final da obra, há ainda dois posfácios da autora. O primeiro é da altura em que a obra foi originalmente lançada, em 2011. Já o segundo posfácio é deste ano e foi feito de propósito para a edição portuguesa, o que é algo especial e revela aqui um cuidado da editora Levoir para valorização da própria obra que publica. Por fim, há duas páginas, denominadas "Pontos de Referência", em que nos é dada uma contextualização histórico-política de Taiwan.

Tenho visto algumas críticas por esse internet fora sobre a introdução do subtítulo "Uma Visão Diferente Sobre a Recente História de Taiwan" na capa do livro. Mesmo sendo algo que não consta na edição original, não me parece que seja negativo, pois ajuda especialmente os que não conhecem a obra ou a autora, ou que não fazem tão diretamente a ponte entre "Formosa" e "Taiwan". Podemos discutir se, em termos de grafismo, este subtítulo poderia ter sido introduzido de uma forma mais harmoniosa - possivelmente, sim - mas não me parece que seja algo tão negativo como certas vozes querem dar a entender. Aliás, neste ponto, estou desejoso de saber como é que as mesmas vozes lidarão com a capa do próximo título da coleção Albert Londres Tem de Desaparecer.

Em suma, Formosa é uma obra de grande relevância literária e histórica sobre Taiwan, que nos é oferecida através de uma narrativa autobiográfica sincera e de uma reflexão profunda sobre identidade, liberdade, educação e memória. Mais do que a história de uma infância em Taiwan, a obra constitui um bom testemunho sobre a importância do pensamento crítico perante qualquer forma de poder autoritário propagandístico. É, portanto, um belo ensaio que merece ser lido.


NOTA FINAL (1/10):
8.0



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Formosa, de Li-Chin Lin - Levoir - Jornal Público

Ficha técnica
Formosa
Autora: Li-Chin
Editora: Levoir
Páginas: 256, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240 cm
Lançamento: Julho de 2026