Já são conhecidos os vencedores da primeira edição do Prémio Nacional de Banda Desenhada! Como não podia deixar de ser... há polémica!
Os felizes contemplados deste prémio, que se espraia por três categorias, vão receber um simpático prémio no valor de 10.000€.
1) Na categoria Prémio Carreira, o vencedor foi António Jorge Gonçalves, pela súmula da sua obra.
2) Na categoria Obra do Ano; os vencedores foram o português Luís Moreira Gonçalves e o brasileiro Felipe Parucci, pela sua obra Dormindo Entre Cadáveres (Zigurate).
3) Na categoria Inovação em Banda Desenhada, os vencedores foram Ana Matilde Sousa, Ana Simões, André Nóvoa e Hugo Soares, pela sua obra Rumo ao Eclipse (Chili Com Carne).
E onde está a polémica, perguntam vós?
Bem, não me parece que esteja nas categorias Prémio Carreira e Prémio Inovação. Atribuir o Prémio Carreira a António Jorge Gonçalves, pelo conjunto da sua carreira, parece-me completamente aceitável. Tal como me parece aceitável o Prémio Inovação para Rumo ao Eclipse - embora admita não conhecer bem a obra, o conceito e premissa da mesma parecem-me bons e inovadores.
Agora, já quanto à atribuição do Prémio Obra do Ano, penso que é legítimo que levantemos já as nossas sobrancelhas. Deixem-me dizer-vos que gostei bastante da obra e, aliás, escrevi bastante positivamente sobre a mesma. Não coloco em causa a qualidade do livro, portanto.
No entanto, a obra não foi produzida para o mercado nacional. Foi produzida para o mercado brasileiro. E, embora o argumentista seja português, o ilustrador é brasileiro. Por uma questão de coerência e justiça, permitam-me desde já ilibar completamente os jurados que atribuíram este prémio. Diz o Artigo 4º do Regulamento do Prémio Nacional de Banda Desenhada que, e passo a citar, o Prémio Obra do Ano "distingue uma obra de banda desenhada original publicada em Portugal no ano anterior ao concurso, da autoria de criadores portugueses ou residentes em Portugal". Ora, um dos autores é português. E a obra foi efetivamente publicada em Portugal. Posto isto, o júri procedeu em conformidade com o regulamento. Aceita-se.
O que não se aceita tão bem é que o Regulamento, uma vez mais, seja tão mal parido. E é aí que reside o ponto polémico, quanto a mim. É que, deste modo, este Regulamento, sendo tão lato e tão pouco específico, permite que um autor nacional possa concorrer com uma obra concebida pelo e para um mercado estrangeiro, que tem outras exigências e outros níveis de produção.
Da mesma forma que critiquei publicamente - e critico - o Regulamento dos Prémios de Banda Desenhada da Amadora por darem azo a que se atribuam prémios a obras nas mesmas condições, também tenho que criticar este Regulamento. E mesmo quando fui um dos jurados dos Prémios e vi Jorge Coelho a vencer o Prémio pela sua (fantástica) obra O Grande Gatsby, que havia sido feita para o mercado estrangeiro e com co-autoria estrangeira, também me senti desconfortável, embora, repito, também aí o Regulamento tenha sido cumprido. Não acho que seja quem faz cumprir as regras "o culpado" desta situação desconfortável para o meio, pois é essa a sua função. É quem efetivamente faz as regras que deve ser chamado à razão. Por exemplo, se uma regra no futebol é parva, não devemos apontar armas ao árbitro por fazer cumprir essa regra parva. Devemos, isso sim, criticar a própria regra e quem a fez. A iniciativa é muito bem-vinda e importante, mas o regulamento está mal concebido. E há que o dizer.
Bem, fica feita a nota, sempre transparente e sem receios.
De resto, parabéns a todos os vencedores.
Mais abaixo, deixo-vos a nota oficial partilhada pela agência Lusa:
Porto, 28 jun 2026 (Lusa) - A primeira edição do Prémio Nacional de Banda Desenhada, uma iniciativa de promoção da criação artística e literária de criadores nacionais, atribuiu o Prémio Carreira a António Jorge Gonçalves e distinguiu mais cinco autores, foi hoje anunciado.
Em comunicado, o Ministério da Cultura, Juventude e Desporto (MCJD) explica que foram avaliadas 45 candidaturas às três categorias a concurso: 11 candidaturas ao Prémio Carreira, 15 ao Prémio Obra do Ano e 19 ao Prémio Inovação em Banda Desenhada.
António Jorge Gonçalves foi distinguido pela trajetória “permanentemente inovativa e eclética, que nunca estagnou ou se acomodou a um tipo de traço”.
O júri, composto por Sara Figueiredo Costa, Pedro Cleto e Sara Ludovico, destacou o “trabalho experimental do autor com cores, materiais e linguagens narrativas, assim como a forma consistente com que tem refletido sobre os limites e possibilidades da BD”.
O Prémio Obra do Ano foi atribuído a “Dormindo entre Cadáveres”, de Luís Moreira Gonçalves e Felipe Parucci, uma edição da Zigurate descrita pelo júri como “um testemunho muito relevante sobre a pandemia da Covid-19 no Brasil, particularmente no espaço amazónico”, construído a partir de um registo pessoal e crítico que não reduz personagens a meros veículos de informação.
Já o Prémio Inovação em Banda Desenhada foi atribuído a “Rumo ao Eclipse”, de Ana Matilde Sousa, Ana Simões, André Nôvoa e Hugo Soares, uma obra editada pela Chili Com Carne e descrita pelo júri como “um jogo de role ‘play’ a partir de um livro de banda desenhada preexistente”, que expande as possibilidades do meio sem o simplificar, antes tirando partido das suas lógicas narrativas.
Luís Moreira Gonçalves e Felipe Parucci, assim como a equipa formada por Ana Matilde Sousa, Ana Simões, André Nôvoa e Hugo Soares, são os vencedores da primeira edição do Prémio Nacional de Banda Desenhada (PNBD).
“Os autores distinguidos demonstram a diversidade, a qualidade e a capacidade de inovação da banda desenhada portuguesa. O Prémio Nacional de Banda Desenha reconhece esse talento e contribui para uma maior visibilidade da criação artística nacional, dentro e fora de Portugal”, afirma, no texto, a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes.
A cada uma das categorias foi atribuído um valor pecuniário de 10 mil euros, sendo que o Prémio Obra do Ano inclui um apoio adicional de 1.500 euros para a deslocação dos vencedores ao Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême, em França.
A entrega dos prémios está marcada para o dia 18 de outubro, Dia Nacional da Banda Desenhada Portuguesa, no âmbito do Festival Amadora BD.
O Prémio Nacional de Banda Desenhada, anunciado em outubro de 2025, é uma iniciativa do Ministério da Cultura, Juventude e Desporto, gerida pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), que tem como “objetivo valorizar e promover a criação artística e literária no domínio da banda desenhada portuguesa”.
JCR // EA
Lusa/Fim



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Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarHugo, és um pouco incoerente, deixa que te diga.
ResponderEliminarDisse-te várias vezes, que não fazia sentido um livro ser nomeado (sequer) para prémios não sendo produzido inicialmente em Portugal, disse "ah, mas o regulamento e tal".
Ao ponto de me dizeres que não vias mal, num livro do Batman poder receber um prémio de fosse de um autor português...
Depois, podias como jurado, ter feito o que pensavas ser correcto e ter evitado esse tipo de nomeações e resultantes prémios. O que foi correcto para ti, foi seguir as regras do Amadora BD exactamente como estavam escritas. E agora, existe um problema?
A questão que me fica é, existe um problema, ou não ganhou o livro que gostavas mais? Não faço ideia dos livros que estavam a concurso e o que ganhou não me choca e dada a subjectividade de prémios é aceitável.
Honestamente, já vi tanta coisa estranha na BD nacional e confesso que ao ver esta lista me pareceu bem.
Os autores portugueses devem fazer o seu trabalho e não pensarem em prémios. Porque os jurados são como o outro "eu é mais é bolos".
Caro Fernando, se leste bem o que escrevi, viste que o "o problema" é o regulamento estar mal feito. Continuo a defender - e escrevo isso neste mesmo texto - que aos jurados cabe respeitar as regras dos regulamentos.
EliminarMediante o que dizes devias retirar o teu comentário porque não existe nada de polémica. Se polémica é seguir o regulamento não faz sentido.
EliminarAí discordo. Quanto a mim, o regulamento é polémico pois gera discordância ou debate, porque nem todos concordam com ele. Já o era antes de se conhecerem os vencedores. Lá porque pouca gente o diz publicamente, como é o meu caso, não quer dizer que, silenciosa e cobardemente, não esteja muita gente em desacordo com este regulamento. Basta falar com algumas pessoas do meio.
EliminarPara o ano tem de ganhar o Rare Flavours então
ResponderEliminarPois... lá está. A não ser que se redija um melhor regulamento.
EliminarCumprindo-se a ideia de "rigor" defendida neste texto, um livro como, por exemplo, o Mangusto, da Joana Mosi, não devia ser elegível para o prémio: foi publicado originalmente no Canadá e só depois em Portugal.
ResponderEliminarOs sucessivos anúncios de polémica vindos destes lados já cansam, e revelam mais sobre os preconceitos e mesquinhices do escritor do que refletem sobre a justiça de um prémio ou do regulamento que o atribui. Não contribui para discussões sérias.
A ideia de "mercado" é tão movediça que só tolos acreditam ser esse o solo adequado para edificar um regulamento "bem redigido", isento de subjetividades e promotor de mérito. É um prémio; a subjetividade é inevitável. E se é óbvio que cada um tem direito à sua opinião, a verdade é que apresentá-la como parte de uma suposta "polémica" é desonesto: fabrica a ideia de que existe um coro alargado de descontentes, ao qual o autor junta a sua voz em solidariedade. Da minha parte, não ouvi nem li tais vozes em mais lado nenhum a não ser este bloque.
A redação atual do regulamento permite premiar artistas com trajetos diversificados, o que me parece uma mais valia. E tem o cuidado de não excluir quem, por iniciativa e garra, tenta trilhar caminhos que fogem às garras da miopia editorial portuguesa.
Em todos os lugares do Mundo, existem este tipo de questões e elas são válidos. No ano passado no Brasil houve uma obra que foi desqualificada do jabuti porque não tinha sido publicada originalmente no Brasil.
EliminarA razão é simples: quando uma obra é publicada originalmente no país que dá o prémio, foi a estrutura de BD desse país que teve o risco de publicar o livro: autores, editores, etc.
Depois existem livros e livros. Se for um livro de uma editora norte-americana que teve um autor português, o autor é profissional e concorre "contra" outros autores que não o são.
E tudo o que diz é bonito, mas em todos os grandes prémios, nos Estados Unidos, França, Espanha existem regras para blindar estas questões. É normal. O que é normal é o que acontece em Portugal.
Todos os autores que ganham prémios merecem-nos independentemente dos regulamentos. Só por criarem uma obra já merecem um prémio. O que estes problemas de regulamentos impedem é a criação de um mercado maduro, exportador, transparente e que faça com que os autores vejam tudo de forma clara.
Ana, há muitos interesses nestes prémios e no dinheiro associado. É só pesquisares e encontras uma editora nacional que não falha um concurso de fundos europeus ou já teria falido! Estas "polémicas" são lançadas nas redes para tentar pressionar os próximos concursos para os amigos do costume. Basta veres que, como o Fernando tão bem diz, este "autor" já escreveu tudo e o seu contrário. Não há qualquer intenção de ter um debate consequente ou sério, só cumprir o serviço pago de clickbait em troca de mais um volume do Lucky Luke.
EliminarFernando, não sei se acompanhei o raciocínio: sim, concordo que o regulamento dos Prémios Nacionais de Banda Desenhada não tem nada de especial, e encaixa-se no que se faz noutros países. É também por esse motivo que considero não existir qualquer polémica, como defende o Vinheta 2020. E também não acho (nem defendi) que os regulamentos devam ser necessariamente latos e permissivos: o que disse foi que a redação deste, dos Prémios Nacionais de BD, contempla a possibilidade de premiar quem foge aos preceitos tidos por convencionais no meio português, o que me parece bem. Há uma fatia considerável de gente que financia a publicação e/ou distribuição do próprio trabalho, cá e "lá fora", e que não depende do "risco" da "estrutura da BD do país". Essas pessoas SÃO a estrutura, e o risco é muitas vezes individual; se determinado autor achar melhor apostar primeiro no estrangeiro, sendo nacional ou residente em Portugal, porque não haveria de ser elegível para este prémio? Claro que tem de haver bom senso, e é precisamente na sua aplicação que um jurado deixa de ser um mero declamador dos regulamentos e passa a imprimir a sua subjetividade. É aqui que o argumento da "polémica" esgrimido pelo autor deste blogue (dada já como inevitável e expectável graças à observação "como não podia deixar de ser...") é pouco séria: porque mascara a subjetividade do escriba com a suposta incompetência dos outros, neste caso dos redatores do regulamento; que, tal como o Fernando disse, e eu concordo, não é nada do outro mundo: o que acontece em Portugal não é diferente do que acontece noutros lados, ainda que à sua escala.
EliminarEnfim, Fernando, creio que concordamos na generalidade, talvez à exceção da ideia de que qualquer autor, só por produzir uma obra, já merece um prémio; ou que a existência destes prémios deve contribuir para criar "mercados", como parece aludir no último parágrafo. Percebo a generosidade da ideia, mas a natureza de um prémio é precisamente segregar por qualidade e valor. E também não acho que haja trabalhos que, só por existirem, mereçam ser celebrados, o que não me impede de, na generalidade, apoiar o esforço de qualquer artista que ponha mãos à obra.
Anónimo, não estou a par destas teorias da conspiração, nem estou preocupada em acompanhá-las, até porque desconfio que espelham mais quezílias pessoais do que vontade de discutir, de facto, o meio editorial português. Muito do que vou sabendo sobre BD em Portugal vejo no Público ou no Expresso, onde algumas pessoas vão falando do que por cá vai acontecendo, em peças de algum fôlego que só pecam por serem raras. Só muito pontualmente visito os blogues, mas comecei a seguir este por o autor ser jurado no AmadoraBD, e por ser crítico literário.
EliminarCara Ana Amaral, não concordando com tudo o que defende, aprecio a forma construtiva como apresenta os seus argumentos, contribuindo para uma conversa valiosa. Quanto à questão da polémica, considero, sim, e como já escrevi acima, "que o regulamento é polémico pois gera discordância ou debate, porque nem todos concordam com ele. Já o era antes de se conhecerem os vencedores. Lá porque pouca gente o diz publicamente, como é o meu caso, não quer dizer que, silenciosa e cobardemente, não esteja muita gente em desacordo com este regulamento. Basta falar com algumas pessoas do meio."
EliminarVinheta 2020, o que está a dizer é um disparate! Não há nada neste mundo que não gere discordância ou debate! Achar que um regulamento é válido só quando há concordância total é uma forma de pensar infantil, na melhor das hipóteses, e profundamente autoritária e uniformizante, na pior! Acreditar que se prova uma polémica ao rotular os outros de cobardes porque, ao contrário do Vinheta, não se pronunciaram sobre uma coisa em que o Vinheta acredita (ou diz acreditar) é de uma soberba inacreditável, mas comprova o que por aqui se disse, nos comentários: não há polémica absolutamente nenhuma com estes prémios, e o tema só é levantado para gerar discussão estéril e clicks. Um crítico literário devia ter mais consciência do peso das palavras, e não devia andar a desbaratar acusações de "polémica" com esta leviandade, especialmente quando sugere, sem vergonha, que a polémica é algo que as pessoas carregam em silêncio nos seus corações!
EliminarMantenhamos a cordialidade, por favor. Não há polémica para si... mas há para muita gente. Autores, editores e leitores. E haverá polémica até ao dia em que o regulamento for revisto e melhorado.
EliminarViva! Vejo que a conversa está animada e, embora não tenha vagar de ler a totalidade de comentários, quero expressar que também discordei da atribuição do prémio Obra do Ano. Sem qualquer prejuízo para o álbum em causa (que acho um dos melhores recentemente cá editados e certamente vencedor de mais prémios, em breve) ou para o autor (que espero continue a escrever para BD), a distinção falha em 2 pontos o regulamento: "Prémio Obra de BD distingue uma obra de banda desenhada original publicada em Portugal no ano anterior ao concurso, da autoria de criadores portugueses ou residentes em Portugal"; ora, nem a obra é um edição original portuguesa, como já aqui frisaram, nem o autor é residente no país (pelo que entendi). Logo, não foi uma escolha justa para com os demais candidatos - mesmo que fosse o melhor trabalho nesse lote.
EliminarPerante isto, e dado o valor pecuniário em causa, não estranharia se algum dos candidatos visados impugnasse o prémio.
Infelizmente, é uma tendência que já tem sido observada noutros prémio, gerando o mesmo nível de controvérsia, e só rouba a seriedade a um campo literário que está no seu zénite criativo e a ganhar espaço na esfera mediática. E em resposta ao exemplo que a Ana deu, é óbvio que 'O Mangusto' igualmente não poderia ser considerado, nas mesmas circunstâncias.
Ana Amaral, está tudo dito
ResponderEliminarSubscrevo a parte da polémica.
ResponderEliminarÉ uma polémica salutar perante o respeito pelo dinheiro que é de todos nós.
Como contribuinte que paga (juntamente com todos os outros) para estes prémios monetários existirem acho lamentável que não seja para distinguir obras e artistas que contribuem para o panorama das bandas desenhadas em Portugal, que, aliás, é o que precisa de ajuda financeira e de divulgação, perante a escassez de mercado e de hábitos de leitura.
Essa contribuição é que justifica o gasto do dinheiro dos contribuintes, na esperança de um retorno em manutenção de postos de trabalho (na criação, edição, produção, etc.), na criação e manutenção de uma situação económica positiva em Portugal e no impulso à criatividade que beneficie o país.
Se um artista Português é editado lá fora, fantástico, certamente a sua obra estará a concurso nos prémios desses países, apenas se justificando, quanto muito, neste tipo de prémios monetários estatais de Portugal, um eventual prémio de carreira (que mesmo assim não concordaria caso nunca tivesse tido obras publicadas em Portugal).
Premiar uma obra estrangeira nada tem a ver com os desígnios que devem reger prémios desta natureza.