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terça-feira, 25 de agosto de 2026

Análise: Trilogia Shakespeariana

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita
Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca

Foi no passado mês de Março que as editoras Levoir e A Seita se juntaram para o lançamento de uma obra clássica da banda desenhada italiana, originalmente editada a partir de 1975, que, inexplicavelmente, ainda não se encontrava publicada em Portugal: falo de Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca, que adapta para banda desenhada três das mais celebradas peças de William Shakespeare: Romeu e Julieta, Hamlet e A Tempestade.

E uma das coisas que tenho que começar por referir é que adaptar para banda desenhada as peças de Shakespeare, que foram originalmente escritas para o teatro e que, portanto, são mais assentes em diálogos/monólogos do que em narrações de eventos, não me parece uma tarefa nada fácil. Mas Gianni De Luca, que conta com a colaboração de Sigma, pseudónimo de Raoul Traverso na adaptação do argumento, é bem sucedido a dar a volta à questão com um estilo muito próprio que consegue, de forma incrível e inovadora, dar ação visual a cenas em que, supostamente, teríamos uma personagem estática a conversar. Mas já lá irei.

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita

Dando uma tão breve quanto possível nota sobre cada uma das histórias aqui presentes, posso dizer-vos que Hamlet me parece a história mais sombria e introspectiva do volume. Aqui a tragédia do príncipe da Dinamarca mantém intactos os seus grandes temas: a dúvida, a culpa, a corrupção do poder e o desejo de vingança. E o famoso dilema existencial de Hamlet - "ser ou não ser, eis a questão" - encontra em De Luca um intérprete visual particularmente inspirado, pois em vez de depender apenas do texto, o autor utiliza a movimentação das figuras, a composição dos espaços e a encenação das cenas para expressar os estados de espírito da personagem. 

Em Romeu e Julieta, embora essa utilização da movimentação das personagens se mantenha -e atinja até mesmo um cume, face às restantes histórias -, o tom muda radicalmente. Aqui, a narrativa privilegia o romance, a paixão e a tragédia inevitável dos jovens amantes de Verona. Gianni De Luca representa com grande elegância tanto os momentos de intimidade como as cenas de conflito entre as famílias rivais, criando um equilíbrio eficaz entre lirismo e dramatismo.

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita
A Tempestade
, por sua vez, introduz uma atmosfera mais fantástica e alegórica. A peça acompanha Próspero, legítimo duque de Milão, exilado numa ilha em que há forças mágicas, espíritos, ilusões e naufrágios. É aqui que encontramos a história mais clássica de banda desenhada, em termos de planificação, embora, não obstante, já se sinta um domínio da ação e da planificação da história.

Assim sendo, a verdadeira grandeza deste Trilogia Shakespeariana não reside apenas nas adaptações literárias em si. O elemento mais revolucionário do livro é mesmo o seu aspecto visual. Gianni De Luca rompe deliberadamente com a estrutura tradicional da banda desenhada baseada em vinhetas sucessivas. Em vez disso, desenvolve páginas organizadas como grandes espaços cénicos contínuos, onde as personagens aparecem várias vezes ao longo do mesmo cenário. 

Esta solução gráfica transforma a página num palco teatral. E acaba por tornar as peças de teatro originais menos aborrecidas - ou mais facilmente apreendidas - pois permite à narrativa ter uma fluidez e uma dinâmica que mantém os leitores atentos ao desenrolar da história. A passagem do tempo deixa de ser representada pela fragmentação da ação em vinhetas separadas e passa a ser sugerida pelo deslocamento das figuras no espaço. Assim, o leitor observa simultaneamente diferentes momentos da narrativa, acompanhando os trajetos das personagens quase como se estivesse perante uma representação ao vivo.

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita
Esta inovação foi tão marcante que acabou por ficar associada ao chamado "Efeito De Luca", uma abordagem que influenciou numerosos autores posteriores. É algo que, de vez em quando, ainda conseguimos ver em algumas bandas desenhadas da atualidade, mas em 1975, quando esta obra começou a ser publicada, era algo verdadeiramente inovador.

O domínio do espaço, da composição e do ritmo visual de Gianni de Luca é verdadeiramente incrível. Se querem que vos seja sincero, e olhando para a obra à luz dos dias atuais, talvez o autor abuse um pouco desta forma de contar a história. Admito que consideraria a leitura mais equilibrada se esta técnica não fosse constantemente utilizada, prancha após prancha. Pois ao querer tornar-se a história menos aborrecida com uma planificação mais dinâmica, acaba por, ironicamente, se tornar também a história aborrecida pela presença sempre constante dessa planificação mais dinâmica. Parece-me que se esta técnica fosse utilizada com maior gestão, toda a história ganharia. Mas imagino que assim que o autor chegou a este nível, não mais quis parar. E reitero, claro, que é impossível não ficar abismado com a forma incrível, detalhada e original como Gianni de Luca nos mergulha nas suas histórias. E só por isso, considero este como um dos grandes lançamentos de banda desenhada clássica do ano em Portugal. Ler esta obra acaba por ser semelhante a ter-se uma masterclass sobre banda desenhada e sobre sequencialidade.

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita
Além da inovação narrativa, devo ainda mencionar a bela qualidade do desenho. A linha de De Luca é elegante, precisa, limpa e expressiva. Os cenários são detalhados sem se tornarem excessivamente pesados, enquanto as figuras humanas comunicam emoções com grande naturalidade. 

A edição da obra é em tudo semelhante aos livros presentes na Coleção de Novelas Gráficas da Levoir. O livro tem capa dura baça, bom papel baço no interior, boa encadernação e boa impressão. Até tem, junto à lombada, a referência a "Novela Gráfica", numa tira de cor preta, o que é a imagem de marca da emblemática coleção da Levoir. De resto, há ainda um interessante texto introdutório de Pedro Moura e, no final, encontramos estudos e versões finais das capas originais dos álbuns e uma ilustração dedicada a Dante Alighieri.

Em conclusão, Trilogia Shakespeariana é uma obra fundamental para compreender a evolução da banda desenhada europeia. As adaptações de Hamlet, Romeu e Julieta e A Tempestade demonstram um profundo respeito pelo legado de Shakespeare, enquanto a extraordinária experimentação gráfica de Gianni De Luca é verdadeiramente impressionante, tendo redefinido os limites da narrativa visual. O resultado é um clássico intemporal que continua a impressionar leitores, estudiosos e autores, afirmando-se como uma obra que cada amante de banda desenhada deve conhecer.


NOTA FINAL (1/10):
8.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita

Ficha técnica
Trilogia Shakespeariana
Autor: Gianni De Luca
Adaptado a partir da obra original de: William Shakespeare
Editoras: Levoir e A Seita
Páginas: 144, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 270 mm
Lançamento: Março de 2026

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Levoir regressa ao lançamento de BD!



Sai hoje, Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor, com o jornal Público, o primeiro livro de banda desenhada que a Levoir lança em 2026! 

Com edição conjunta com a editora A Seita, trata-se da obra Trilogia Shakespeariana, de Raoul Traverso e Gianni De Luca, um clássico da banda desenhada italiana que adapta para banda desenhada três das mais célebres obras de William Shakespeare: Romeu e Julieta, Hamlet e A Tempestade.

O livro tem o preço de 16,90€ e pode ser comprado nas bancas, juntamente com o jornal Público.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa e algumas imagens promocionais do livro.
Trilogia Shakespeariana, de Raoul Traverso e Gianni De Luca

Shakespeare um Homem do seu tempo para todos os tempos. Passados 50 anos da sua publicação original, a Levoir, A Seita e o jornal Público uniram-se para apresentar aos leitores portugueses a obra de Gianni De Luca, Trilogia Shakespeariana, que será publicada a 23 de Abril, Dia do Livro e em que se assinalam os 410 anos da morte do célebre autor de língua inglesa William Shakespeare.

Gianni de Luca nasceu em Gagliato, na Calábria, foi desenhador, ilustrador, pintor e gravador, considerado um dos maiores mestres italianos da banda desenhada, dotado de uma elegância gráfica que caracterizou toda a sua obra e capaz de uma pesquisa estilística contínua que, ao experimentar novas soluções gráficas, o tornou um dos artistas italianos mais inovadores de sempre no cenário internacional.

De Setembro de 1975 a Dezembro de 1976, o semanário Il Giornalino publicou A Tempestade, Hamlet e Romeu e Julieta, em BD. De Luca não esteve sozinho, as adaptações são assinadas por Sigma, pseudónimo de Raoul Traverso. Por serem histórias mundialmente conhecidas, não há surpresas… a não ser quando se trata da forma.

Shakespeare é extremamente difícil de transpor para a BD, uma vez que as suas obras decorrem todas nos mesmos cenários e foram concebidas para cenários minimalistas, sem cenários de fundo. Tudo assenta no poder da palavra e do gesto. Basta pensar no famoso solilóquio de Hamlet no início do terceiro ato, mas De Luca encontrou uma solução gráfica, simples e revolucionária, para representar o passar do tempo, na sua banda desenhada o tempo não é representado através de uma divisão em vinhetas, mas sim pelo reaparecimento das personagens em posições diferentes.

No livro, De Luca e Sigma transpõem três das mais populares obras do génio inglês: A tempestade, Hamlet e Romeu e Julieta. Em cada uma delas, a força inovadora da arte de Gianni De Luca salta aos olhos e mostra com clareza porque o autor se tornou um dos mestres da potente escola italiana de fumetti, sendo citado por grandes nomes como Frank Miller, Bill Sienckewicz e Dave McKean como fonte de inspiração.

A Levoir em conjunto com a Academia Público apresenta um curso sobre a Trilogia Shakesperiana ministrado pelo Professor Mário Avelar.


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Ficha técnica
Trilogia Shakespeariana
Autores: Raoul Traverso e Gianni De Luca
Editoras: Levoir e A Seita
Páginas: 144, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 270 mm
PVP: 16,90€