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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Análise: O Fantasma da Ópera

O Fantasma da Ópera, de Gaëtan e Paul Brizzi - A Seita e Arte de Autor

O Fantasma da Ópera, de Gaëtan e Paul Brizzi - A Seita e Arte de Autor
O Fantasma da Ópera, de Gaëtan e Paul Brizzi

Começo com uma afirmação muito clara e simples: cada vez, estou mais maravilhado com o trabalho dos irmãos Brizzi nas suas adaptações para banda desenhada de clássicos da literatura mundial. O Inferno de Dante tinha sido impressionante; Dom Quixote de La Mancha encheu-me as medidas; mas este O Fantasma da Ópera, recentemente publicado pelo esforço conjunto das editoras A Seita e Arte de Autor, é o melhor dos três! E sabendo que mais livros desta dupla virão no futuro - sendo que o próximo, a ser editado unicamente pela Arte de Autor, será Macbeth - não posso deixar de ficar feliz e com altas expectativas.

A história de O Fantasma da Ópera, originalmente escrita por Gaston Leroux e já amplamente adaptada a vários meios, é bastante conhecida: estamos no final do séc. XIX e a ação decorre na grandiosa Ópera de Paris, onde começam a suceder-se alguns acontecimentos inexplicáveis que despertam o medo e a curiosidade das pessoas afetas à opera, alimentando a crença generalizada na existência de um fantasma que habita os bastidores do teatro. A partir daqui, a história arranca para uma narrativa carregada de dramatismo e suspense.

O Fantasma da Ópera, de Gaëtan e Paul Brizzi - A Seita e Arte de Autor
No centro do enredo, encontra-se Christine Daaé, uma jovem cantora que ascende inesperadamente no mundo da ópera, quando tem que substituir Carlotta, a atriz/cantora estrela da peça em cena. As coisas correm tão bem na atuação de Christine, que esta passa a ser adorada pela audiência e começa a acreditar que um misterioso “anjo da música” a está, de algum modo, a guiar até ao sucesso. No meio disto tudo, reenconta-se com Raoul, um velho amigo de infância, que está apaixonado por si.

Com o tempo, descobre-se que o Fantasma é, na verdade, um génio musical com aparência deformada que vive isolado da sociedade. Ele apaixona-se obsessivamente por Christine e decide ajudá-la a tornar-se uma grande estrela. No entanto, quando Christine se apaixona por Raoul, o "fantasma" sente-se traído e passa a agir de uma forma cada vez mais possessiva e ameaçadora. Este conflito causado por este triângulo amoroso, que orbita entre o amor, a rejeição e o desejo de aceitação, acaba por conduzir a um clímax intenso e emotivo que define o carácter trágico da obra. Penso que a maioria dos que me leem saberá qual o clímax em questão, mas sob pena de haver alguém que não conheça a história original, não revelo mais nada sobre a mesma, para não criar qualquer tipo de spoiler.

Em termos de história, a adaptação de Paul e Gaëtan Brizzi mantém-se bastante fiel ao espírito e à narrativa original. Os irmãos Brizzi conseguem preservar a essência do conto de Leroux, respeitando tanto o seu tom sombrio como os elementos românticos que tornam a história intemporal. A narrativa, muito clássica na sua génese, está verdadeiramente espetacular nesta versão e nota-se o cuidado dos autores em transpor para o formato da banda desenhada toda a profundidade do texto original.

O Fantasma da Ópera, de Gaëtan e Paul Brizzi - A Seita e Arte de Autor
Confesso que fiquei verdadeiramente maravilhado com mais esta adaptação de um clássico da literatura para banda desenhada por parte dos irmãos Brizzi. Há uma sensibilidade muito própria na forma como os autores tratam o material original, equilibrando respeito e criatividade de forma exemplar.

E, claro, os desenhos são, sem dúvida, um dos pontos mais fortes desta obra. As ilustrações, a duas mãos, voltam a ser majestosas, num traço a lápis que, mesmo sendo bastante despido de truques, apresenta um aprimoramento tal, que nos deixa embasbacados perante tão belos desenhos. As personagens, num estilo realista, apresentam uma expressividade incrível, também. Os seus olhares, os seus gestos e as suas posturas transmitem emoções profundas, permitindo ao leitor conectar-se de forma imediata com as várias personagens desta história. Há uma humanidade muito bem captada em cada figura. 

Além de tudo isso, e ainda em matéria de desenho, também fiquei muito bem impressionado com o charme irresistível que os autores colocam nas roupas das personagens e nos próprios cenários. Os figurinos evocam a elegância da época e contribuem para a imersão na história, reforçando o carácter sumptuoso da obra. Um verdadeiro prato cheio que me encheu as medidas.

O Fantasma da Ópera, de Gaëtan e Paul Brizzi - A Seita e Arte de Autor
Permitam-me apenas uma pequena crítica, com base no meu gosto: apenas a ilustração da capa me deixou de pé atrás. Não é que o desenho não seja bom...claro que é. Mas não acho que a ilustração da capa faça justiça aos desenhos constantes no interior do livro: Christine é bem mais bonita do que a rapariga deslavada da capa, deixem que vos diga. E a presença da máscara do fantasma na capa, também poderia ter sido mais bem introduzida. Ao contrário de outros livros, cujas capas vendem vem o livro, não me parece que isso aconteça desta vez. Mas, admito, é uma questão de gosto pessoal. E o que importa é que o resto da obra é absolutamente fabuloso.

Em termos de edição, o livro é editado em grande formato, em capa dura baça. No interior, o papel é brilhante e de ótima qualidade. O trabalho a nível de impressão, encadernação e acabamentos é de bela qualidade, também. No final, há um belo caderno de extras, com 16 páginas, com esboços e ilustrações. Desta vez, as editoras Arte de Autor e A Seita optaram por não editar a obra com uma capa exclusiva para a loja online Wook. Houve uma coisa, não muito relevante, mas que me fez um pouco de "comichão": a existência de, por vezes, algumas margens de vinhetas que pareciam mal delimitadas. Na verdade, essa sensação resulta da utilização de legendas, sem linhas, que são colocadas muito perto da margem das vinhetas. É um micro-detalhe que não põe em causa a experiência de leitura, mas que, infelizmente, notei em bastantes momentos da leitura. Além disso, esta opção é dos autores e da edição original, e não da edição portuguesa.

Em suma, esta adaptação de O Fantasma da Ópera confirma de forma inequívoca o talento extraordinário de Paul e Gaëtan Brizzi na transposição de grandes clássicos para banda desenhada. Entre a fidelidade ao espírito original da obra, a força intemporal da história e a excelência de um desenho verdadeiramente majestoso, que nos deixa de queixo caído por inúmeras vezes, estamos perante uma edição que não só honra o legado literário como eleva a fasquia deste tipo de adaptações. Aliás, se todas as adaptações de clássicos da literatura para banda desenhada fossem deste gabarito, eu estaria sempre na fila da frente para as ler de enfiada!


NOTA FINAL (1/10):
9.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Fantasma da Ópera, de Gaëtan e Paul Brizzi - A Seita e Arte de Autor

Ficha técnica
O Fantasma da Ópera
Autores: Gaëtan e Paul Brizzi
Adaptado a partir da obra original de: Gaston Leroux
Editoras: A Seita e Arte de Autor
Páginas: 168, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 340 mm
Lançamento: Março de 2026

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Análise: O Deserto dos Tártaros

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura
O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda

Contido no mais recente rol de lançamentos de banda desenhada da editora A Seita, está este O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda, que adapta para banda desenhada o clássico homónimo da literatura da autoria de Dino Buzzati.

Conhecia a obra de reputação, mas nunca a tinha lido, portanto parti para esta leitura sem grandes referências. A história de O Deserto dos Tártaros acompanha a trajetória de Giovanni Drogo, um jovem oficial que é designado para servir na Fortaleza Bastiani, uma fortaleza isolada, situada na fronteira de um vasto deserto. No início, Drogo começa por encarar esta missão como algo temporário e pouco relevante, que servirá especialmente para fazer carreira e ser destacado, passado pouco tempo, para uma carreira militar mais promissora. Assim espera Drogo.

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura
Mas à medida que o jovem soldado se instala na fortaleza, vai sendo envolvido pelo ambiente peculiar daquele lugar, marcado por longos períodos de espera e por uma tensão difusa. Isto porque os oficiais daquele lugar vivem na constante expectativa de um possível ataque vindo do deserto. É um misto de medo pelo ataque em si, mas também de um sentido de ansiedade positiva por esse ataque. Já vos aconteceu estarem tão entediados que nem se importariam que algo de mau vos acontecesse para que o vosso tédio acabasse? Assim parece ser o sentimento que se vive na Fortaleza Bastiani: a rotina dos soldados é tão entediante, que até um ataque das linhas inimigas é visto como algo que, ao menos, poderia finalmente dar sentido à rotina monótona e justificar a presença militar naquele posto.

Naturalmente, com o passar do tempo, Drogo começa a partilhar essa mentalidade dos seus companheiros, alimentando a esperança de que esse momento decisivo chegue. Assim, a vida na fortaleza passa a ser regida por pequenos sinais, rumores e expectativas, que mantêm todos presos a uma promessa incerta de glória e propósito.

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura
É sensaborona e entediante a vida naquela Fortaleza e, infelizmente, também o é a experiência de leitura deste O Deserto dos Tártaros. Acredito que isso também aconteça no romance original de Dino Buzzati. Com efeito, ao longo da obra, parece que pouco ou nada acontece de concreto, e a rotina repetitiva da fortaleza contribui para uma sensação de estagnação que pode testar a paciência do leitor. Essa ausência de eventos externos significativos pode facilmente ser interpretada como falta de dinamismo narrativo.

Contudo, essa aparente monotonia é, em grande parte, intencional, pois pretende-se dar enfoque ao vazio, à espera e à repetição, fazendo destes elementos centrais algo que é sufocante e que reflete a própria condição do protagonista. A lentidão da narrativa não é, pois, um "defeito" acidental, mas sim um recurso que reforça a experiência psicológica da personagem, colocando o leitor dentro desse mesmo tempo suspenso.

Mais do que narrar ações, o romance centra-se, portanto, no conflito interior de Giovanni Drogo, que se agarra à ideia de uma missão grandiosa e de uma carreira militar promissora como forma de dar sentido à sua vida, evitando confrontar outras possibilidades mais comuns e socialmente esperadas, como, por exemplo, a sua (potencial) vida amorosa com Maria. Essa escolha de Drogo revela uma espécie de fuga, um modo de adiar o confronto com o presente e com as decisões que poderiam aproximá-lo de uma vida mais concreta e partilhada.

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura
Tenho que vos ser sincero: este O Deserto dos Tártaros é um pouco entediante, sim, e talvez, neste caso concreto, não fossem precisas tantas páginas para nos servir a história original de modo inequívoco. Todavia, também não me parece justo que se apelide este livro apenas de "aborrecido", pois o mesmo até ganha alguma profundidade na exploração que faz de temas existenciais como o medo de viver plenamente, a ilusão de um propósito maior e a tendência humana para adiar a vida à espera de um momento decisivo, conforme já sublinhei. 

Em termos de desenho, Pasquale Frisenda, autor de obras de referência como Tex - Patagónia ou Le Storie - Sangue e Gelo, ambos editados em Portugal, oferece-nos um trabalho muito belo.

O ilustrador italiano oferece-nos o seu traço elegante a preto e branco, explorando com mestria a escala de cinzentos para construir imagens de grande expressividade. E isso confere coerência ao tom melancólico da obra, como também acrescenta profundidade e subtileza às ilustrações, permitindo que cada imagem respire e se imponha com uma atmosfera muito própria. É um bom livro para observamos atentamente cada uma das ilustrações.

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura
Embora as personagens sejam bem executadas e transmitam com eficácia os estados de espírito da narrativa, é sobretudo no desenho das paisagens que, quanto a mim, Frisenda mais brilha. As vastas extensões do deserto, que parecem prolongar-se até ao infinito, a fortaleza isolada e inóspita, ou ainda os jogos de luz e sombra que evocam a névoa, as tardes solarengas e as noites frias passadas naquele local, são particularmente memoráveis. É um livro belo do ponto de vista gráfico, sem dúvida.

Nota ainda, muito positiva, para a grande quantidade de referências a outras obras e a outras individualidades, que estão escondidas ao longo do livro, aumentando o valor das ilustrações e convidando o leitor a uma segunda leitura mais atenta.

Considero apenas que a capa poderia ser mais apelativa. A ilustração de Frisenda para a mesma parece-me inacabada, como um esboço que merecia mais algum aprumo visual. Não está feio, mas acho que o autor conseguia fazer melhor.

Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, com detalhes a verniz, e bom papel baço no interior do livro. No final, é incluído um generoso dossier de extras, com 17 páginas, que contém um texto de Gianmaria Contro sobre a obra e várias ilustrações, estudos de personagem e de capa, de Pasquale Frisenda. Esta é mais um dos livros que entram para a chancela Nona Literatura d' A Seita, dedicada às adaptações para banda desenhada de grandes obras da literatura.

Em suma, pode dizer-se que, no conjunto, esta adaptação para BD de O Deserto dos Tártaros revela-se bastante bem conseguida e fiel ao original. Não é um livro em que aconteçam muitas coisas e isso pode dar-nos a sensação de algum marasmo narrativo, mas é uma obra que procura mais fazer-nos viajar e refletir sobre questões existenciais. Ao mesmo tempo que é ilustrada de forma memorável por Frisenda, trazendo esse lado mais contemplativo da obra para o leitor.


NOTA FINAL (1/10):
8.4



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O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura

Ficha técnica
O Deserto dos Tártaros
Autores: Michele Medda e Pasquale Frisenda
Adaptado a partir da obra original de: Dino Buzzati
Editora: A Seita
Páginas: 184, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 215 x 285 mm
Lançamento: Março de 2026

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Análise: Os Trabalhadores do Mar

Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand - A Seita

Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand - A Seita
Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand

Uma das mais recentes apostas da editora A Seita é este Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand, que adapta para banda desenhada o clássico da literatura da autoria de Victor Hugo. Esta obra insere-se na coleção Nona Literatura que a editora portuguesa tem vindo a fortalecer aos poucos, sempre com livros de bela qualidade. 

É o caso desta obra que vos trago hoje, que me deixou extremamente bem impressionado!

Adaptado pelo francês Michel Durand, de quem, confesso, ainda não tinha lido nada, este Os Trabalhadores do Mar é uma obra que impressiona desde as primeiras páginas, não apenas pela sua ambição, mas pela intensidade com que se entrega ao espírito do romance original de Victor Hugo. Sente-se em cada uma das 168 páginas que compõem esta obra, um respeito profundo pelo texto original, mas também uma vontade clara de o reinventar - ou de lhe dar uma nova vida eloquente, se preferirem - através da linguagem própria da banda desenhada. É uma belíssima adaptação!

Antes de mais, importa sublinhar que a força da narrativa pertence, indiscutivelmente, a Victor Hugo. Não conhecia a obra original, mas rapidamente pude constatar que a história, de tom clássico e trágico, bem ao jeito de alguma da melhor literatura da época, é verdadeiramente impressionante. Que bela história, que belo enredo e que bela narrativa. Trata-se de um universo literário denso e apaixonado, uma história de grande fôlego em que a condição humana é testada até aos seus limites. É essa dimensão clássica, quase monumental, que esta adaptação de Michel Durand preserva com notável fidelidade.

Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand - A Seita
Falando-vos um pouco do enredo, sem querer revelar em demasia, a história decorre na ilha de Guernsey e centra‑se na personagem de Gilliatt, um homem solitário, afastado da comunidade local e envolto numa aura de mistério face aos habitantes daquela pequena localidade. Apaixonado por uma jovem da ilha e levado a acreditar na reciprocidade dos sentimentos desta perante si, acaba por aceitar o desafio - aparentemente impossível - de recuperar a máquina de um navio a vapor naufragado e preso de forma cirúrgica entre dois rochedos traiçoeiros, num ambiente completamente inóspito que é dominado pela violência do mar. Convém explicar que para os habitantes de Guernsey, este navio é verdadeiramente importante, pois é a única embarcação a motor  vapor que ali existe, o que permite ao seu dono, Mess Lethierry, prosperar. É por essa importância tão grande da embarcação que o velho Lethierry não se impede de prometer a mão da sua bela filha, Déruchette, ao homem que salvar o motor da embarcação que, aparentemente, se mantém intacto. É por isso que Gilliatt, um homem com pouco a perder e muito a ganhar, se põe a caminho destes rochedos com o objetivo de recuperar a famigerada máquina a vapor. Mais não conto sobre a história em si, já que esta tem alguns plot twists e um belíssimo texto que nos deixam bem agarrados a ela.

De forma mais global, uma coisa é certa: estamos perante uma história arquitetada como uma verdadeira epopeia individual, onde o confronto entre o ser humano e a natureza assume uma dimensão quase mítica. O isolamento, o esforço físico extremo e os constantes obstáculos transformam a jornada de Gilliatt numa prova de resistência, mas também numa viagem interior. Mais do que ser uma simples aventura marítima, esta história tem o condão de nos revelar a grandeza silenciosa de um indivíduo perante um mundo vasto, indiferente e muitas vezes cruel.

Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand - A Seita
É uma bela história, sem dúvida, mas também há que dar mérito à excelente adaptação de Michel Durand que nos dá uma história bem montada, e bem narrada, captando o inteligente e inspirado texto de Victor Hugo e sendo, para além de tudo isto, visualmente impressionante. O autor oferece-nos um elegante traço a preto e branco, que evoca a tradição da gravura, com um uso expressivo de tramas, sob a forma de hachuras, que conferem densidade, textura e profundidade às imagens. É um trabalho meticuloso verdadeiramente impressionante. A história flui depois com naturalidade, tornando-se acessível mesmo para quem não conhece o romance original, como era o meu caso, sem nunca abdicar da sua complexidade emocional.

Cada cena, cada personagem e cada ambiente são ilustrados com uma devoção e detalhe arrebatadores, mas é o mar - elemento central da narrativa, diga-se - aquilo que ganha uma presença quase física nas maravilhosas pranchas que nos são dadas por Durand. As ondas parecem mover-se, os rochedos impõem-se com peso e aspereza, e o ambiente transmite constantemente uma forte tensão entre beleza e perigo. É impossível não sentir o impacto dessa natureza em fúria. As cenas do mar são belas, por um lado, e ameaçadoras, por outro. 

Sem descurar minimamente a beleza poética de cada página deste livro, que é indiscutível, devo admitir, no entanto, que houve certas cenas no mar, na parte em que Gilliatt tenta resgatar a máquina de vapor da embarcação encalhada, em que tive alguma dificuldade em perceber o que estava ali a acontecer. Talvez nessas partes em que o fulgor do mar era demasiadamente grande, o detalhe na ilustração devesse ter sido simplificado de alguma forma, diria.

Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand - A Seita
Mas isto é um detalhe pequeno, ainda assim, pois cada ilustração, seja grande ou pequena, é trabalhada com um cuidado incrível, havendo uma atenção ao detalhe que não se limita ao virtuosismo técnico, mas que revela uma sensibilidade artística profundamente envolvente. Diria mesmo que em vez de ter ficado preso a uma função meramente ilustrativa, Michel Durand foi além disso e estabeleceu aquilo a que podemos considerar como uma boa simbiose com o universo criado por Victor Hugo, conseguindo o feito de deixar a história fluir com naturalidade, tornando-a acessível mesmo para quem não conhece o romance original - como era o meu caso -, mas sem que isso leve a narrativa a abdicar da sua complexidade emocional.

Em termos de edição, estamos perante um trabalho superlativo d' A Seita. O livro é editado em grande formato - o mesmo grande formato dos livros da mesma coleção dos irmãos Brizzi - e a capa dura é baça, com detalhes a verniz. No interior, o papel é brilhante e a encadernação, impressão e acabamentos são bastante bons. No final, há ainda um extenso caderno com 16 páginas de extras, em que podemos encontrar vários esboços de Durand e uma longa e peculiar entrevista com este que é conduzida por Christelle Pissavy-Yvernault.

Sobre a coleção Nona Literatura, tenho que fazer um louvor ao trabalho da editora. Depois dos belos livros de Georges Bess (Drácula, Frankenstein e O Corcunda de Notre Dame) e dos irmãos Brizzi (Dom Quixote de la Mancha e O Inferno de Dante), este Os Trabalhadores do Mar não lhes fica nada atrás e ajuda a sedimentar a relevância e bela curadoria desta coleção d' A Seita.

Em suma, a adaptação de Michel Durand de Os Trabalhadores do Mar impõe‑se como uma obra de rara intensidade e beleza, onde a fidelidade ao espírito de Victor Hugo se alia a uma expressão gráfica profundamente pessoal e arrebatadora. Mais do que uma simples transposição, trata‑se de uma recriação viva e pulsante, em que cada página respira poesia, esforço e grandiosidade. Eis um dos livros mais bonitos do ano e com uma história bem poderosa que se afirma como altamente recomendável!


NOTA FINAL (1/10):
9.7


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Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand - A Seita

Ficha técnica
Os Trabalhadores do Mar
Autor: Michel Durand
Adaptado a partir da obra original de: Victor Hugo
Editora: A Seita
Páginas: 168, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 340mm
Lançamento: Março de 2026

terça-feira, 29 de julho de 2025

Análise: O Corcunda de Notre Dame

O Corcunda de Notre Dame, de Georges Bess - A Seita

O Corcunda de Notre Dame, de Georges Bess - A Seita
O Corcunda de Notre Dame, de Georges Bess

Depois das fantásticas adaptações para banda desenhada de Drácula e Frankenstein, do autor francês Georges Bess, chegou-nos recentemente a sua terceira adaptação de clássicos da literatura mundial. Desta vez, a obra em questão é O Corcunda de Notre Dame (no original Notre Dame de Paris), de Victor Hugo, que, à semelhança das obras acima referidas, é publicada por cá pela editora A Seita, na sua coleção Nona Literatura.

Esta banda desenhada mergulha-nos na atmosfera sombria e intensa da Paris medieval, onde a catedral de Notre Dame se impõe como uma personagem quase viva, testemunha silenciosa das tragédias humanas que ali se sucedem em catadupa. Georges Bess opta por uma abordagem profundamente fiel ao original, distanciando-se das versões mais ligeiras e populares, como a dos estúdios Disney, o que confere à narrativa um peso e uma densidade que a tornam uma experiência mais exigente, mas também, diria, mais recompensadora.

O Corcunda de Notre Dame, de Georges Bess - A Seita
E ao contrário da célebre adaptação da Disney que se centra quase exclusivamente na personagem do corcunda Quasimodo, esta adaptação, à semelhança do texto original, divide-se mais irmãmente  entre as personagens de Quasimodo, o corcunda que vive enclausurado na catedral, Esmeralda, a jovem cigana de beleza hipnótica, e Dom Frollo, o arquidiácono atormentado por desejos reprimidos e consequentes culpas. Aparecem ainda várias outras personagens que acabam por reclamar para si mesmas mais peso e relevância para o desenlace da história. A teia de sentimentos contraditórios, paixões proibidas e impossíveis, bem como os variados conflitos morais, habilmente arquitetada por Victor Hugo, é trazida à 9ª arte por Georges Bess, que consegue reproduzir todo esse peso narrativo, revelando-se, novamente, um mestre na forma como conduz a narrativa visual, equilibrando a grandiosidade do texto com uma componente visual notável.

Não posso negar que sou um verdadeiro fã destas adaptações de Georges Bess. Gostava do trabalho do autor em O Lama Branco ou Juan Solo, mas é nestas grandiosas adaptações a preto e branco que o virtuosismo do autor mais sobressai. Autor que, já agora, divide os créditos da criação da obra com a sua esposa, Pia Bess - embora essa informação não conste na capa da obra.

O Corcunda de Notre Dame, de Georges Bess - A Seita
Do ponto de vista gráfico, este álbum é verdadeiramente uma obra de arte! O domínio do preto e branco por parte de Bess mantém-se fulgurante. As sombras profundas, os contrastes intensos e a expressividade das personagens conferem à obra um caráter dramático, ao mesmo tempo belo e perturbador. Os detalhes da arquitetura gótica de Notre Dame, os rostos marcados pelo sofrimento ou pela obsessão, tudo está meticulosamente desenhado, revelando um cuidado quase obsessivo com a fidelidade estética e emocional, por parte do autor.

Os desenhos do autor já me tinham arrebatado em Drácula e Frankenstein e voltam a fazê-lo neste O Corcunda de Notre Dame, embora reconheça que, em certos momentos deste livro - não tantos assim - se sinta uma ligeira oscilação no aprumo visual. Nada de muito gritante, mas um olho atento encontrará algumas vinhetas que aparentam ter recebido menos tempo ou atenção, com fundos mais vazios e traços menos elaborados e mais rabiscados. Reitero que são ligeiras oscilações e que, olhando para o todo, não comprometem a obra, mas fazem-se notar, sobretudo porque o padrão geral é tão elevado. 

Há momentos particularmente memoráveis nesta adaptação como certas cenas de grande tensão dramática ou passagens visuais que nos tiram o fôlego pelo seu impacto artístico. A cena da execução iminente de Esmeralda, por exemplo, é retratada com uma intensidade visual que encapsula perfeitamente o desespero e a injustiça da situação. Da mesma forma, a solidão de Quasimodo ganha vida nas sombras do campanário, numa representação comovente e profundamente humana.

Em termos de adaptação narrativa, a densidade da história original de Hugo impõe-se de forma clara. A complexidade dos enredos secundários, os múltiplos pontos de vista e as reviravoltas constantes podem tornar a leitura algo desafiante, reconheço. Mas se isso puder ser considerado como menos positivo, não será por culpa de Georges Bess, que opta deliberadamente por manter a estrutura e a profundidade da obra original, mas da própria história de Victor Hugo que, quanto a mim, tem alguns volte faces algo rebuscados. Enfim, convém não esquecer que a obra foi originalmente escrita em 1831, há quase 200 anos.

O Corcunda de Notre Dame, de Georges Bess - A Seita

Portanto, será nesse sentido, na tal componente narrativa e não tanto na visual, que na comparação com as anteriores adaptações de Georges Bess, este O Corcunda de Notre Dame fica uns ligeiros furos abaixo. Quer Drácula, quer Frankenstein, apesar da sua densidade temática, apresentavam uma fluidez narrativa ligeiramente superior. Talvez isso suceda pelo facto de O Corcunda de Notre Dame ser mais enraizado em conflitos humanos e menos centrado em elementos fantásticos.

Seja como for, estamos aqui a falar de detalhes, importando destacar também o respeito quase reverencial com que Georges Bess trata a obra de Victor Hugo. Sente-se que o autor tem um gosto especial por esta história, o que se reflete na forma cuidadosa como a representa. E ao contrário de adaptações mais livres, esta é um tributo fiel, onde as palavras e os silêncios são igualmente poderosos. A escolha de manter o tom trágico, sem aligeirar a narrativa, é uma decisão corajosa e honesta, que dá credibilidade à obra.

Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, com detalhes a verniz, bom papel baço no miolo e um bom trabalho em termos de encadernação e impressão. Há ainda um caderno extra de 10 páginas que nos oferece um magnífico conjunto de ilustrações de Georges Bess.

Em suma, neste O Corcunda de Notre Dame, Bess entrega-nos mais uma vez uma obra de primeira linha, marcada por uma estética requintada e uma fidelidade intransigente ao texto de origem. Pode não ser a sua adaptação mais acessível ou imediata, e ficar uns pontos abaixo de Frankenstein ou Drácula, mas é um trabalho de elevado mérito artístico, que alia a qualidade gráfica à densidade literária, e que, por isso, é fortemente recomendado. 


NOTA FINAL (1/10):
9.2



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O Corcunda de Notre Dame, de Georges Bess - A Seita

Ficha técnica
O Corcunda de Notre Dame
Autor: Georges Bess
Editora: A Seita
Páginas: 216, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 225 x 290 mm
Lançamento: Maio de 2025

terça-feira, 22 de agosto de 2023

Análise: Frankenstein

Frankenstein, de Georges Bess - A Seita - Nona Literatura

Frankenstein, de Georges Bess - A Seita - Nona Literatura
Frankenstein, de Georges Bess

Depois de ter lido a adaptação de outro clássico da literatura, Drácula, por parte de Georges Bess, devo dizer que estava “em pulgas” para ler este Frankenstein. E afirmo isto porque Drácula é um livro verdadeiramente espantoso. Um dos melhores livros de todo o catálogo da editora A Seita. O desenho de Bess é sublime, a adaptação é fiel e a edição é em grande estilo.

Agora, depois de ter mergulhado nesta adaptação para banda desenhada da igualmente famosa obra Frankenstein, devo dizer que Georges Bess volta a trazer-nos um trabalho de primeira qualidade. Se é verdade que admiro aquilo que o autor fez em O Lama Branca ou em Juan Solo, há que dizer que este registo a preto e branco, que Georges Bess nos oferece em Drácula e em Frankenstein, traz-nos um autor nas suas capacidades plenas!

Portanto, sem surpresas, Frankenstein não desilude e assume-se com um dos livros do ano. É recomendado aos fãs da obra original de Frankenstein, àqueles que nunca a leram e a todos os que gostam simplesmente de uma boa banda desenhada!

Frankenstein, de Georges Bess - A Seita - Nona Literatura
A história desta obra que é tida como a primeira obra de ficção científica de sempre, foi concebida por Mary Shelley e segue a jornada do cientista Victor Frankenstein que, apaixonado pela ciência e pelo poder da criação, consegue criar uma criatura através de partes de cadáveres. As coisas não correm bem, pelo menos no plano estético, e a criatura é abandonada pelo seu próprio criador. A partir daí, a vida do Monstro Frankenstein é feita de rejeição por parte de todos aqueles que o rodeiam, levando-o a um enorme sofrimento e a uma gritante sensação de injustiça. Procurando tirar satisfações perante Victor, o Monstro irá persegui-lo e fazer um acordo com ele. Eventualmente, criador e criatura acabam por se destruir mutuamente, ficando sós no mundo.

A narrativa de Shelley, originalmente publicada em 1818, explora temas como a busca do conhecimento sem limites, as consequências éticas da ciência e da criação, além de questões sobre a natureza da humanidade, empatia e isolamento. Tornou-se um marco na literatura gótica e de ficção científica, não só por ter cativado os leitores pelo seu argumento intrigante e inteligente, como por ter explorado também várias questões filosóficas e éticas, que continuam relevantes nos dias de hoje. O próprio monstro criado por Frankenstein, sendo monstruoso, revela uma grande dose de humanismo e será essa outra das reflexões a retirar desta brilhante história. Porque, mesmo podendo ser um clichet, a verdade é que aquilo que distingue os humanos entre si e entre os demais animais, não é a aparência física mas o conjunto das suas ações. Por algum motivo, se chama humanismo.

Frankenstein, de Georges Bess - A Seita - Nona Literatura
E a relevância da obra parece não se esgotar com a passagem dos anos. Aliás, diria até que nunca Frankenstein esteve tão atual como nos dias atuais, em que a tecnologia está cada vez mais presente nas nossas vidas. Que papel e que responsabilidade têm os criadores de tecnologia na forma como alteram a vida dos humanos e, consequentemente, de tudo aquilo que nos rodeia?

Quanto às ilustrações, o trabalho de Bess é verdadeiramente magnífico. Com uma técnica carregada de detalhes, e com um traço a preto e branco realista, o autor parece ter encontrado a sua melhor forma de desenho, explorando todas as valências que o estilo a preto e branco permite. A caracterização do próprio monstro Frankenstein é verdadeiramente impactante, fazendo até com que nos esqueçamos daquela representação mais clássica da personagem, que habitua o nosso imaginário. A própria história também possibilita que sejam em grande número os desenhos de paisagens onde, mais uma vez, Georges Bess brilha.

Frankenstein, de Georges Bess - A Seita - Nona Literatura
Comparando o trabalho ilustrativo de Bess neste Frankenstein com aquilo que o autor fez em Drácula, talvez haja, neste Frankenstein, menos espaço para nos surpreender a nível de planificação de página. Algo que, em Drácula, o autor soube potenciar muito bem nas situações mais esotéricas e de terror. Claro que há muitos bons exemplos onde, também nesta vertente, Bess se transcende em Frankenstein, mas parece-me ser justo afirmar que Drácula ainda consegue ser melhor nessa vertente. O que também é compreensível visto que a obra criada por Mary Shelley é muito mais uma história de ficção e mais humana, onde as questões metafísicas e de terror não abundam tanto como em Drácula. Seja como for, que não haja qualquer engano: quer Drácula, quer Frankenstein, são sublimemente desenhados por Bess!

Em termos de edição, estamos perante mais um belo trabalho d' A Seita. O livro que é lançado na chancela Nona Literatura da editora, apresenta capa dura - com alguns pormenores da mesma a verniz - bom papel baço e bom trabalho ao nível da encadernação e da impressão. No final, foram incluídas quatro ilustrações do autor. Nota para a existência de uma segunda capa que é exclusiva ao site Wook.

Em suma, depois do magnífico Drácula, Frankenstein é tudo aquilo que poderíamos esperar, não ficando atrás da primeira obra. Tendo em conta o tipo de história mais universal e, apesar de tudo, mais terra-a-terra, até pode agradar a mais gente do que Drácula. Seja como for, Georges Bess revela-se fantástico em ambas as obras. Entretanto, já é conhecida a mais recente adaptação do autor nos mesmos moldes, que é o romance de Victor Hugo Notre-Dame de Paris (ou O Corcunda de Notre Dame). Tendo em conta o nível qualitativo que Bess apresenta nas suas adaptações a preto e branco, resta-nos esperar que A Seita lance a mencionada nova obra tão depressa quanto possível!


NOTA FINAL (1/10):
9.7



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Frankenstein, de Georges Bess - A Seita - Nona Literatura

Ficha técnica
Frankenstein
Autor: Frankenstein
Editora: A Seita
Páginas: 208, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 215 x 285 mm
Lançamento: Maio de 2023

sexta-feira, 7 de julho de 2023

A Seita lança o muito aguardado Frankenstein!


A Seita lança um dos livros de banda desenhada mais aguardados do ano!

Falo de Frankenstein, de Georges Bess, de quem a editora já havia lançado o fantástico Drácula, um dos melhores livros do belo catálogo d' A Seita, quanto a mim.

Relembro que esta edição inclui as pranchas adicionais e as ilustrações de extra da edição de luxo francesa. Além de que a Wook, à semelhança do que tem sido feito com alguns álbuns d' A Seita, recebe uma capa especial para esta obra. 

Este livro, pertencente à coleção Nona Literatura, já tinha sido apresentado, com a presença do autor, no Maia BD, mas agora pode ser encontrado nos principais pontos de venda.
Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

Frankenstein, de Georges Bess

Uma fabulosa e fiel adaptação gráfica do romance de Mary Shelley, obra fundadora da ficção científica, pelo desenhador de “O Lama Branco”, “Juan Solo”, e “Drácula de Bram Stoker”.

Frankenstein vive no imaginário ocidental há mais de 200 anos, e é uma leitura obrigatória, não só para fãs de ficção científica, mas também para cientistas e tecnólogos praticantes ou futuros, que devem considerar o impacto de seu trabalho no mundo à sua volta, uma obra recorda aos cidadãos comuns que a ciência afecta as suas vidas assim que é colocada à sua disposição.

Numa época em que a tecnologia cada vez mais molda o futuro, este é um conto que se vai tornando mais real e menos imaginário, e prova que as atitudes dos criadores podem ajudar a mudar o mundo, e que é da sua responsabilidade a maneira como essa mudança é feita.

A edição d’A Seita inclui as pranchas adicionais e ilustrações da edição de luxo francesa, e também uma tiragem especial com uma capa alternativa prateada, exclusiva da Wook.



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Ficha técnica
Frankenstein
Autor: Frankenstein
Editora: A Seita
Páginas: 208, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 215 x 285 mm
PVP: 26,00€

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Análise: Macbeth - Rei da Escócia


Macbeth - Rei da Escócia, de Thomas Day e Guillaume Sorel

A Seita lançou há alguns meses um novo livro para somar à sua coleção Nona Literatura. Depois do fantástico Drácula, de Georges Bess, ou de Apocalipse: O Livro da Revelação de São João, de Alfredo Castelli, e Corrado Roi, foi a vez de Macbeth - Rei da Escócia, um clássico de William Shakespeare ser editado pela editora portuguesa.

A adaptação da obra ficou a cargo de Thomas Day, no argumento, e Guillaume Sorel, nas ilustrações. Macbeth é uma das tragédias mais conhecidas e influentes escritas por William Shakespeare no início do século XVII. A história deste clássico da literatura retrata a ascensão e a queda de Macbeth, um nobre escocês ambicioso que, instigado pela profecia de três bruxas e fortemente influenciado pela sua esposa, comete uma série de atos trágicos para alcançar e manter o poder.

Convém desde logo fazer notar que a adaptação que Thomas Day faz da obra clássica é bastante livre. Quer dizer, os eventos mais relevantes da trama original arquitetada por Shakespeare estão cá todos, mas, nesta adaptação para banda desenhada, a esposa do protagonista, Lady Macbeth, assume um papel muito mais ativo e influente. Aliás, a personagem acaba por ser, a meu ver, a verdadeira protagonista da história, já que é através das suas ações, diretas ou indiretas, que o enredo vai sendo moldado.

Quanto a mim, esta demonização da personagem de Lady Macbeth, que Thomas Day nos propõe, funciona bem, fazendo com que a personagem se encha de carisma, mesmo que pelas razões negativas, já que é uma figura verdadeiramente maquiavélica e com um apetite maléfico difícil de satisfazer. Mas quem não gosta de personagens más, pergunto eu? São elas, aliás, os barómetros para que possamos avaliar o caminho de retidão dos justos e dos “bonzinhos”.

Quanto ao nobre cavaleiro Macbeth, este até poderia ter tido uma boa vida. Sendo um dos braços direitos do Rei, recebe como prémio, pelas suas ações e serviços, algumas terras, incluindo a viúva e órfão do falecido proprietário das mesmas. Mas a ambição desmedida da viúva, que casa com Macbeth, sempre focada em que este se torne rei e ela, consequentemente, rainha, fará com que ambos façam as mais hediondas ações, incluindo o próprio assassinato do rei. Se é verdade que Macbeth parece discordar das ações da sua esposa, também é verdade que sente pela mesma um amor imprescritível, uma paixão arrebatadora e uma fraqueza insuportável.

A história é violenta e está marcada por uma aura metafísica, onde o fantasma do antigo amigo de Macbeth assume relevância para servir de narrador. Mas não é a única personagem que assume essa tarefa, já que a própria Lady Macbeth também o faz. E isso tudo somado à linguagem complexa, densa, poética e, por vezes, pesada, faz com que este seja um livro difícil de acompanhar. Mesmo para aqueles que já conheçam a peça original de Shakespeare.

Com efeito, dei por mim a voltar mais vezes atrás na leitura, de modo a não perder o fio à meada, do que aquilo que acharia desejável. Bem sei que, tratando-se de uma obra de Shakespeare, um dos nomes maiores da literatura mundial, Thomas Day queira ter mantido a aura poética e dramática do texto original. Mesmo assim, acho que esse é o ponto onde a obra menos brilha. Um texto mais linear, com um só narrador e com a ausência de vários personagens de nome difícil que são referidos, mas que pouca ou nenhuma influência acabam por ter na trama, teriam aproximado este livro da perfeição.

Por falar em perfeição, o trabalho que Guillaume Sorel nos dá neste livro, é verdadeiramente fantástico. Sem desprimor para Thomas Day, que tem bastantes méritos, é Sorel a estrela deste livro. Os seus desenhos apresentam um realismo impressionante, com o estilo do desenho do autor a assentar que nem uma luva no tom trágico da história. A maneira como desenha os cenários, as cenas de batalhas sangrentas, as cenas mais eróticas ou nas cenas mais esotérico-poéticas, chega perto da perfeição.

Nos traços das personagens, pode acontecer que haja uma ou outra expressão que não pareça tão bem executada. Ainda assim, isso não belisca a beleza artística com que o autor representa cada uma das personagens. Especialmente a bela e fatal Lady Macbeth, que é concebida pelo autor com um grande carisma assente nas suas feições aquilinas, seios fartos e um cabelo negro rebelde. Um espetáculo para os olhos. Também as três bruxas são personagens maravilhosamente imaginadas e executadas por Sorel que ficam na nossa memória, já depois de lido o livro.

Mas se o traço é belo, a maneira como as cores são aplicadas em aguarela é outra masterclass de virtuosismo técnico e inspiração no máximo. Há muitas vinhetas que parecem quadros que poderiam figurar num museu. Os efeitos de luz e sombra, que tanto condicionam as demais cores, são absolutamente impressionantes. A própria planificação da obra, que é bastante dinâmica, com vinhetas de todas as formas e tamanhos possíveis, contribui ainda mais para um trabalho de excelência.

A edição do livro, por parte d’A Seita, é verdadeiramente impecável. Afinal de contas, trata-se de uma edição integral que congrega os dois volumes com que a obra foi originalmente lançada. A capa é dura e baça e o papel, também baço, oferece uma ótima experiência de leitura. A encadernação e a impressão também são de boa qualidade. Nota menos positiva para o facto de as margens interiores serem, quiçá, demasiado finas pois, por vezes, há um balão ou uma legenda menos legível. Mas é algo que acontece poucas vezes, convém frisar. Positiva também, é a inclusão de uma nota introdutória feita pela professora Adriana Bebiano e de seis páginas com esboços e estudos de personagem. Há também uma capa alternativa exclusiva da loja Wook. Ainda sobre a questão da capa, saliente-se o facto de, na edição normal, o título estar na cor branca e não na cor vermelha, como acontece na edição original francesa. E assinale-se que a edição portuguesa funciona muito melhor. Não apenas por uma questão estética – que será sempre subjetiva – mas por uma questão de ter melhor leitura. É por estas e por outras que se diz, várias vezes, e com razão, que algumas edições portuguesas conseguem superar as edições originais francesas. É um detalhe, eu sei, mas é um detalhe relevante.

Em suma, Macbeth – Rei da Escócia apresenta ilustrações verdadeiramente espetaculares que vão tirar o fôlego ao leitor. O trabalho de Sorel é majestoso. Thomas Day adapta com bastante liberdade a obra original de Shakespeare, sem que isso diminua o cariz trágico-poético da mesma. Não há dúvidas de que a coleção Nona Literatura d’A Seita continua a dar-nos bandas desenhadas de qualidade superior.


NOTA FINAL (1/10):
9.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Ficha técnica
Macbeth - Rei da Escócia
Autores: Thomas Day e Guillaume Sorel
Adaptado a partir da obra original de: William Shakespeare
Editora: A Seita
Páginas: 214, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Março de 2023