segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Análise: Macho-Alfa #4

Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart

Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina

O quarto e último volume da série portuguesa Macho-Alfa chegou-nos no final do ano passado como um murro final, a vários níveis, que se revelou como um derradeiro golpe, seco e sem aviso prévio, para todos os que acompanhávamos esta série desde o seu começo, da autoria de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina.

E foi um duro golpe a dois níveis. Em primeiro lugar, por este livro ter o significado simbólico de ser o último trabalho de Filipe Duarte Pina que, lamentavelmente, faleceu a meio de 2025. Além disso, por marcar o fecho de uma saga de banda desenhada nacional que sempre jogou no limite entre a desconstrução do mito do super-herói e a sua celebração mais crua, mais física, mais humana. 

Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
Este quarto volume não procura teorizar muito as ideias que foram levantadas nesta série - e foram muitas -, mas sim encarar de frente o abismo que sempre esteve à espera de David, o protagonista, um super-humano num mundo que nunca soube o que fazer com ele. Se em muitas das histórias de super-heróis nos é dada a ideia que ser-se super-herói deve ser espetacular... em Macho-Alfa fica bem presente que talvez ter super-poderes seja mais uma cruz do que uma benção.

Ao longo da série, Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina construíram uma narrativa que piscava o olho à cultura dos comics americanos, mas sem nunca abdicar de uma identidade muito própria, profundamente portuguesa no seu desencanto, na sua ironia e no seu pessimismo social. 

David já não é, neste quarto volume, o anti-herói em crise existencial nem o peão de um sistema que o usa e descarta. É, acima de tudo, um sobrevivente. Confrontado com a verdade sobre o seu passado e com a revelação da sua némesis, tudo o resto se torna irrelevante: não há terapia, não há reforma, não há apaziguamento possível. Há apenas a luta. E essa escolha narrativa confere ao álbum uma urgência brutal, quase sufocante, com cada uma das páginas a ganhar peso acrescido, levando a que cada decisão narrativa pareça carregar uma vontade clara de ir até às últimas consequências. 

Narrativamente, este último volume centra-se quase exclusivamente no combate entre David e o seu rival. Cerca de metade do álbum - aproximadamente 30(!) páginas - se destina ao combate entre ambos, o que é uma opção ousada e pouco comum, sobretudo no contexto da banda desenhada portuguesa, e remete-nos imediatamente, lá está, para as grandes batalhas épicas dos comics de super-heróis. Uma escolha que, pessoalmente, apreciei muito pela sua audácia e confiança, pois se há série nacional que termina em apoteose, esta é uma delas.

Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
Este combate não é apenas longo... é denso, agressivo, físico e emocionalmente carregado. A violência atinge aqui um patamar que, sinceramente, não me recordo de encontrar noutras obras nacionais. Esta violência - que alguns até poderão achar exagerada, mas não eu - é consequência lógica de tudo o que foi sendo construído ao longo da série e, claro, por serem personagens - quer o herói, quer o vilão - de um poder indescritível. Não poderia ser de outra forma, acredito. 

Este conforto está particularmente bem conseguido, por parte do ilustrador Osvaldo Medina. A coreografia do combate é clara, o ritmo é eficaz e as decisões visuais demonstram um controlo narrativo impressionante. Há uma sensação constante de perigo real, de que tudo pode acabar a qualquer momento, e isso mantém o leitor preso até à última página.

Nem tudo, contudo, é isento de críticas. Olhando para a série como um todo, é impossível não notar que, a determinada altura - especialmente no segundo volume - a história pareceu afastar-se um pouco do seu potencial inicial mais relevante. Algumas ideias surgiram de forma algo aleatória, deixando pontas soltas em termos de enredo que nunca chegam a ser totalmente resolvidas. Entretanto, o terceiro volume melhorou a narrativa, já depois de um primeiro álbum que prometia muito.

Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
E não é que este Macho-Alfa #4 resolva todas as pontas soltas que a série trouxe. Sinceramente, até parece não haver esse objetivo por parte dos autores. Ainda assim, este livro consegue, de forma notável, recentrar o foco e fechar a saga com uma clareza e uma força que compensam essas fragilidades anteriores. O final é brutal, violento, imprevisível e chocante, e não tenta agradar a todos. É um final coerente com o universo que foi criado desde o início.

Em termos de edição, o trabalho d' A Seita e da Comic Heart, mantém-se em consonância com os volumes anteriores, apresentando capa dura baça, bom papel brilhante no miolo, boa impressão e boa encadernação. Além disso, foi feita uma homenagem, mais do que merecida, a Filipe Duarte Pina, que inclui a fotografia do autor, um nota introdutória dos editores e homenagens sentidas e emotivas de Filipe Andrade, Filipe Homem Fonseca, Nuno Lourenço Rodrigues, Osvaldo Medina, André Oliveira, Joana Afonso, Jorge Coelho, Luís Simões. Nélson Dona, Nuno Saraiva, Paulo Monteiro, Pedro Ribeiro Ferreira, Ricardo Cabral e Pedro Moura. Há ainda um esboço da personagem de David que, a julgar pelo traço, acredito ser da autoria de Filipe Duarte Pina. Acabou por ficar uma edição bonita e especial por todos estes motivos.

Em suma, Macho-Alfa termina como começou: incómodo, provocador e profundamente humano. Um adeus em alta e que deixa marcas. Este livro é também especial por razões que extravasam a própria ficção. Marca o fim da carreira em banda desenhada de Filipe Duarte Pina, falecido no ano passado, e saber que o autor concluiu este álbum enquanto lidava com uma doença terminal acrescenta uma camada emocional difícil de ignorar. Há aqui uma perseverança e uma coragem que arrepiam, que comovem e que impõem respeito. Ler Macho-Alfa #4 é, também por isso, e de forma dupla, um ato inevitável de despedida.


NOTA FINAL (1/10):
8.3



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart

Ficha técnica
Macho-Alfa #4
Autores: Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina
Editoras: A Seita e Comic Heart
Páginas: 80, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 200 x 280 mm
Lançamento: Outubro de 2025

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